domingo, 5 de agosto de 2012

Carlos Drummond de Andrade


GOVERNAR

Os garotos da rua resolveram brincar de Governo, escolheram o Presi­dente e pediram-lhe que governasse para o bem de todos.
— Pois não — aceitou Martim. — Daqui por diante vocês farão meus exercícios escolares e eu assino. Clóvis e mais dois de vocês formarão a minha segurança. Januário será meu Ministro da Fazenda e pagará o meu lanche.
— Com que dinheiro? — atalhou Januário.
— Cada um de vocês contribuirá com um cruzeiro por dia para a caixinha do Governo.
— E que é que nós lucramos com isso? — perguntaram em coro.
— Lucram a certeza de que têm um bom Presidente. Eu separo as bri­gas, distribuo tarefas, trato de igual para igual com os professores. Vocês obedecem, democraticamente.
— Assim não vale. O Presidente deve ser nosso servidor, ou pelo me­nos saber que todos somos iguais a ele. Queremos vantagens.
— Eu sou o Presidente e não posso ser igual a vocês, que são presidi­dos. Se exigirem coisas de mim, serão multados e perderão o direito de participar da minha comitiva nas festas. Pensam que ser Presidente é mo­leza? Já estou sentindo como este cargo é cheio de espinhos.
Foi deposto, e dissolvida a República.

HISTÓRIA MALCONTADA

A HISTÓRIA de Chapeuzinho Vermelho sempre me pareceu mal contada, e não há esperança de se conhecer exatamente o que se passou entre ela, a avozinha e o lobo.
Começa que Chapeuzinho jamais chegaria depois do lobo à choupana da  avozinha. Ela vencera na escola o campeonato infantil de corrida a pé, e normalmente não andava a passo, mas com ligeireza de lebre. Por sua vez, o lobo se queixava de dores reumáticas, e foi isto, justamente, que fez Chapeuzinho condoer-se dele.
Estes são pormenores da versão da história, ouvida por Tia Nicota, no começo do século, em Macaé. Segundo ali se dizia, Chapeuzinho e o Lobo fizeram boa liga e resolveram casar-se. Ela estava persuadida de que o lobo era um príncipe encantado, e que o casamento o faria voltar ao estado natural. Seriam felizes, teriam gêmeos. A avozinha opôs-se ao enlace e houve na choupana uma cena desagradável entre os três. O lobo não era absolutamente príncipe, e Chapeuzinho, unindo-se a ele, transformou-se em loba perfeita, que há tempos ainda uivava à noite, nas cercanias de Macaé.

HISTÓRIAS PARA O REI

Nunca podia imaginar que fosse tão agradável a função de contar histórias, para a qual fui nomeado por decreto do Rei. A nomeação colheu-me de surpresa, pois jamais exercitara dotes de imaginação, e até me exprimo com certa dificuldade verbal. Mas bastou que o Rei confiasse em mim para que as histórias me jorrassem da boca à maneira de água corrente.  Nem carecia inventá-las. Inventavam-se a si mesmas.
Este prazer durou seis meses. Um dia, a Rainha foi falar ao Rei que eu estava exagerando. Contava tantas histórias que não havia tempo para apreciá-las, e mesmo para ouvi-las. O Rei, que julgava minha facúndia uma qualidade, passou a considerá-la defeito, e ordenou que eu só contasse meia história por dia, e descansasse aos domingos. Fiquei triste, pois não sabia inventar meia história. Minha insuficiência desagradou, fui substituído por um mudo, que narra por meio de sinais e arranca os maiores aplausos.
(Contos Plausíveis) 

In POESIA E PROSA, Rio de Janeiro: Ed. Nova Aguilar, 1992, 1268-1269


sábado, 4 de agosto de 2012

Murilo Mendes

CANTIGA ESCURA
Falam-me oboés
De vida eterna
—   Esta vida mesma
Com amor intenso.

Ó céu de pedra!
?Quem até hoje foi ouvido
Por ti, céu feroz.

Murmúrios d’água:
Sonhos e queixas
Levareis até o fim
Do mundo.

Buquê da noite,
Ninguém te respira
Com inocência.

Nunca sabemos direito
Em que instante principia
Nossa vida verdadeira.

O pássaro profeta cantou
Dos trabalhos e da morte
Do homem:
Só lhe ouviram a melodia.

Vigilante das esferas,
Não venhas no vento e nuvem.
Surge, hóspede imprevisto,
Nesta alma frondosa.

DESEJO
Ao sopro da transfiguração noturna
Distingo os fantasmas de homens
Em busca da liberdade perdida:

Quisera possuir cem milhões de bocas,
Quisera possuir cem milhões de braços
Para gritar por todos eles
E de repente deter a roda descomunal
Que tritura corpos e almas
Com direito ao orvalho da manhã,
À presença do amor, à música dos pássaros,
A estas singelas flores, a este pão.

MARAN ATHA!
Foi um adolescente.
Durante anos, à luz da esfera,
O estudo a fome das coisas.
A ciência do bem e do mal
Fora prevista na árvore do sangue
—   Caridade dos sentidos.

Um dia de febre e piano
Depôs o capacete de plumas
Longe dos pássaros e dos frutos.
“E estas luzes que não iluminam
De lado algum!
E este amor que é mesmo pouco
Para a crueldade exigente.

De joelhos não rezo, de pé não matei.
Um único sopro extingue
As construções da espécie.
Por que achar o fio do Labirinto.
O importante é viver dentro dele”.

Terminava a adolescência.

Súbito,
—   Um dia de lucidez essencial e coros —
Ovo da ternura,
Partiu-se, um homem
Sai andando com o livro
Das origens e dos fins últimos
Na testa vidente, marcada
Com o sangue do Cordeiro:
"? Mundo Caim, teu irmão onde está,
Todos os povos, uni-vos num único homem
Para as núpcias do Cordeiro.
Comei o pão, bebei o vinho
Em torno da mesa redonda,
Todos têm direito à árvore da vida".

Vinde presto.

 [In Poesia Completa e Prosa, Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994, p. 416-418]






sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Neide Archanjo


DIVISO AO LONGE
Do mastro diviso ao longe
Proteu e Tristão fantásticos
trabalhando sobre as ondas
em movimentos e ruídos cornucópicos
a colorir o som dos peixes
que resolutos continuam
sua antiquíssima navegação
por mares e cardumes
que tão longe vão
que chegam a alcançar
as costas da minha nostalgia.
Costas fortes e lustrosas
pelas quais deslizam
em meu delírio
cabelos de cobre raios de luar
e incrustados rostos navegantes
painel que o mar pintou em suas falésias.
Outros rostos a esses se juntaram
negros vermelhos amarelos pardos
emigrantes do sal dos mares
coincidência coletiva a nos formar
nós, os brasileiros.

Do alto dos rochedos
esse Brasil me acena gritando
saudades amores
ensolarados orixás
bancarrotas financeiras
convulsões abraçadas
a surtos e moratórias cordiais
e paticumbuns nacionais.
O grande hospício da América Latina me chama.
Será que eu serei o dono desta festa?
Um prazer incomensurável move a nossa loucura
o mesmo prazer testemunhado
em livro do Tombo
esguia torre de pombos
a reservar o segredo
de uma gente recém-criada
ainda fresca de barro
nua e tão contente.
Deslumbrada.

As marinhas (1984)

DO AMOR

Acordo quando falas
e nunca sei o que quero ouvir.
Sei que falas e isso basta
porque esta hora é feliz.
E desejo outras e mais outras
em que dirás tudo o que quero ouvir.

Saudades futuras,

A teu lado caminho quase muda
e estando contente
nunca estou feliz.

*

Não pude ser
o teu amor perfeito
antes esta ferida.

Tudo é sempre agora (1994)

In: Roteiro da Poesia Brasileira - anos 60, seleção e prefácio Pedro Lyra, São Paulo: Global, 2011, pp. 111-113

Paulista, radicada no Rio de Janeiro, Neide Archanjo é formada em Direito e Psicologia. Estreou na poesia em 1964, com o livro Primeiros Ofícios da Memória. Desde então criou e participou de movimentos como "Poesia na Praça", varais de poesia, espetáculos em teatros, cafés, faculdades, bibliotecas, festivais nacionais e internacionais de poesia e arte. Criou e implantou a Oficina Literária da Biblioteca Mário de Andrade, em São Paulo. Foi bolsista da Fundação Calouste Gulbenkian na qualidade de poeta residente, em Portugal. Seus poemas figuram em antologias nacionais e estrangeiras. É considerada pela critica como uma das autoras mais significativas da geração que surgiu na literatura brasileira na década de 60. Em 1980 recebeu o prêmio da Associação Paulista dos Críticos de Arte ( APCA) de Poesia. Em 1995 foi indicada para o Prêmio Jabuti, de poesia com o livro Tudo e Sempre Agora. Atualmente é assessora da Fundação Biblioteca Nacional no Rio de Janeiro.


A obra:
  • Primeiros Ofícios da Memória - ed. Massao Ohno - SP., 1964.
  • O Poeta Itinerante - ed. I.L.A.Palma - SP., 1968.
  • Poesia na Praça - ed. I.L.A.Palma - S.P., 1970.
  • Quixote Tango e Foxtrote - ed. do Escritor - SP., 1975.
  • Escavações - ed. Nova Fronteira - RJ., 1980.
  • As Marinhas - ed. Salamandra - RJ., 1984.
  • Poesia 1964 a 1984 -Antologia - ed. Guanabara, 1987.
  • Tudo é sempre Agora - ed. Maltese - SP., 1995.
  • Pequeno Oratório do Poeta Para o Anjo - Ed. do Autor - SP., 1997





quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Carlos Pintado

D.

O ontem chega a mim desde um futuro
apenas memorável. Por trás
segue o rio da vida: a cinza
de um fogo que persiste na memória
fará também do fogo tua cinza.

Jamais saberei se somos abençoados
pelo tempo que, como um morto,
atravessa tua sombra e a minha. Os misteriosos
dons do ócio fugaz nos consomem.
As estâncias do medo nos consomem.
A nudez de um corpo ou suas palavras
nos consomem. A luz ou seu reverso
nos consomem. Tua voz desce  em mim
como uma pedra no fundo do abismo,
e esse simples ato também pode
salvar-nos ou perder-nos para sempre.

Tradução livre do original espanhol: Antonio Damásio Rego Filho

Campos de Carvalho

Capítulo Negro

Tenho sido injusto para com a Noite. Amo a Noite e vivo a difamá-la, chegando mesmo ao crime de tomar narcótico para combater a insônia — esse meu único bem. A Noite é a túnica que me assenta como uma luva, como sudário a um cadáver, ou — já que estou mesmo no terreno das comparações — como óculos escuros num cego de nascença, em pleno meio-dia.

Só não amo, na Noite, as baratas e os escorpiões, estes felizmente mais raros de encontrar do que os fantasmas ou os assassinos em- buçados nas esquinas sem luz, a desoras. As batatas, temo-as como aos seres fantásticos criados pela imaginação de Jerônimo Bosch, e preferiria ter que entrar na jaula dos leões a ter por um instante na mão um desses habitantes dos esgotos e das sarjetas, de antenas vibráteis e patas de caranguejo. Vou mesmo ao extremo de preferir uma sopa de escorpiões vivos ao simples contato de uma barata morta e já em parte devorada pelas formigas, de patas para o ar como uma prostituta. O meu inferno será por certo todo coalhado de baratas aos milhares e aos milhões, todas vivas e ágeis dentro das trevas eternas e úmidas — a menos que falte ao meu punidor a imaginação necessária para punir-me até a loucura, ou não tenha ele maldade bastante para impor um tal castigo à minha humana inocência.

      Mas a Noite, excluídas as baratas e a ameaça dos escorpiões, é a minha musa e o meu túmulo bem-amado, aquele a que aspiro com todas as forças da minha alma, como deve aspirar ao seu todo ser lúcido e tocado de inviolável pureza. E aqui lhe rendo esta homena­gem tardia mas veemente, no pleno silêncio deste quarto frio e povoado de trevas, tendo por quadro-negro esta parede onde a custo faço deslizar a ponta do meu lápis, já que a lua hoje nao veio da Ásia e não consigo sequer enxergar o meu triste corpo ajoelhado na cama. 
...Non dormit diabolus.
 ( da obra A Lua vem da Ásia) 

In: Obra Reunida, Rio de Janeiro: José Olympio Ed., 2008, 5a. ed., pp. 89-90



Orides Fontela


OPOSIÇÃO
Na oposição se completam
os arcanjos contrários
sendo a mesma existência
em dois sentidos.

(Um, severo e nítido
 na negação pura
de seu ser. O outro
em adoração firmado.)

Não se contemplam e se sabem 
um mesmo enigma cindido
combatem-se, mas abraçando-se
na unidade da essência.

Interfecundam-se no mesmo
bloco de ser e de silêncio
coluna viva em que a memória
cindiu-se em dois horizontes.

(Sim e não no mesmo abismo do espírito.)

ODES
I

O verbo?
Embebê-lo de denso vinho.

A vida?
Dissolvê-la no intenso júbilo.

II
Sonho vivido desde sempre
 — real buscado até o sangue.

III
O Sol cai até o solo
a árvore dói até o cerne
a vida pulsa até o centro

... o arco se verga
até o extremo limite.

Poesia Reunida [1969-1996], São Paulo: Cosac Naify, 2006, pp. 116-117.



quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Manoel de Barros

RETRATO QUASE APAGADO EM QUE SE PODE VER PERFEITAMENTE NADA
I
Não tenho bens de acontecimentos.
O que não sei fazer desconto nas palavras.
Entesouro frases. Por exemplo:
- Imagens são palavras que nos faltaram.
- Poesia é a ocupação da palavra pela Imagem.
-Poesia é a ocupação da Imagem pelo Ser.
Ai frases de pensar!
Pensar é uma pedreira. Estou sendo.
Me acho em petição de lata (frase encontrada no lixo).
Concluindo: há pessoas que se compõem de atos, ruídos, retratos.
Outras de palavras.
Poetas e tontos se compõem com palavras.

II
Todos os caminhos — nenhum caminho
Muitos caminhos — nenhum caminho
Nenhum caminho — a maldição dos poetas.

III
Chove torto no vão das árvores.
Chove nos pássaros e nas pedras.
O rio ficou de pé e me olha pelos vidros.
Alcanço com as mãos o cheiro dos telhados.
Crianças fugindo das águas Se esconderam na casa.
Baratas passeiam nas fôrmas de bolo...
A casa tem um dono em letras.
Agora ele está pensando —
no silêncio líquido
com que as águas escurecem as pedras...
Um tordo avisou que é março.

IV
Alfama é uma palavra escura e de olhos baixos.
Ela pode ser o germe de uma apagada existência.
Só trolhas e andarilhos poderão achá-la.
Palavras têm espessuras várias: vou-lhes ao nu, ao fóssil,
ao ouro que trazem da boca do chão.
Andei nas negras pedras de Alfama.
Errante e preso por uma fonte recôndita.
Sob aqueles sobrados sujos vi os arcanos com flor!

V
Escrever nem uma coisa Nem outra —
A fim de dizer todas —
Ou, pelo menos, nenhumas.
Assim,
Ao poeta faz bem
Desexplicar —
Tanto quanto escurecer acende os vaga-lumes.

VI
No que o homem se torne coisal —
corrompem-se nele os veios comuns do entendimento.
Um subtexto se aloja.
Instala-se uma agramaticalidade quase insana,
que empoema o sentido das palavras.
Aflora uma linguagem de defloramentos, um
inauguramento de falas.
Coisa tão velha como andar a pé
Esses vareios do dizer.

VII
O sentido normal das palavras não faz bem ao poema.
Há que se dar um gosto incasto aos termos.
Haver com eles um relacionamento voluptuoso.
Talvez corrompê-los até a quimera.
Escurecer as relações entre os termos em vez de aclará-los.
Não existir mais rei nem regências.
Uma certa liberdade com a luxúria convém.

VIII
Nas Metamorfoses, em duzentas e quarenta fábulas,
Ovídio mostra seres humanos transformados em pedras, vegetais, bichos, coisas.
Um novo estágio seria que os entes já transformados
falassem um dialeto coisal, larval, pedral etc.
Nasceria uma linguagem madruguenta, adâmica,
edênica, inaugural —
Que os poetas aprenderiam — desde que voltassem
às crianças que foram
As rãs que foram.
As pedras que foram.
Para voltar à infância, os poetas precisariam também
de reaprender a errar a língua.
Mas esse é um convite à ignorância? A enfiar o idioma
nos mosquitos?
Seria uma demência peregrina.

IX
Eu sou o medo da lucidez.
Choveu na palavra onde eu estava.
Eu via a natureza como quem a veste.
Eu me fechava com espumas.
Formigas vesúvias dormiam por baixo de trampas.
Peguei umas ideias com as mãos — como a peixes.
Nem era muito que eu me arrumasse por versos.
Aquele arame do horizonte que separava o morro do céu
estava rubro.
Um rengo estacionou entre duas frases.
Um descor
Quase uma ilação do branco.
Tinha um palor atormentado a hora.
O pato dejetava liquidamente ali.

Manoel de Barros, Poesia Completa, são Paulo: Leya, 2010, pp. 263-266


Biografia: http://www.releituras.com/manoeldebarros_bio.asp

Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...