domingo, 12 de agosto de 2012

Carlos Drummond de Andrade

OS ÚLTIMOS DIAS
Que a terra há de comer.
Mas não coma já.

Ainda se mova,
para o ofício e a posse.

E veja alguns sítios
antigos, outros inéditos.

Sinta frio, calor, cansaço;
pare um momento; continue.

Descubra em seu movimento
forças não sabidas, contatos.

O prazer de estender-se:
o de enrolar-se, ficar inerte.

Prazer de balanço, prazer de vôo.

Prazer de ouvir música;
sobre papel deixar que a mão deslize.

Irredutível prazer dos olhos;
certas cores: como se desfazem, como aderem;
certos objetos, diferentes a uma luz nova.

Que ainda sinta cheiro de fruta,
de terra na chuva, que pegue,
que imagine e grave, que lembre.

O tempo de conhecer mais algumas pessoas,
de aprender como vivem, de ajudá-las.

De ver passar este conto: o vento
balançando a folha; a sombra
da árvore, parada um instante,
alongando-se com o sol, e desfazendo-se
numa sombra maior, de estrada sem trânsito.

E de olhar esta folha, se cai.
Na queda retê-la. Tão seca, tão morna.

Tem na certa um cheiro, particular entre mil.
Um desenho, que se produzirá ao infinito,
e cada folha é uma diferente.

E cada instante é diferente, e cada
homem é diferente, e somos todos iguais.
No mesmo ventre o escuro inicial, na mesma terra
o silêncio global, mas não seja logo.

Antes dele outros silêncios penetrem,
outras solidões derrubem ou acalentem
meu peito; ficar parado em frente desta estátua: é um torso
de mil anos, recebe minha visita, prolonga
para trás meu sopro, igual a mim
na calma, não importa o mármore, completa-me.

O tempo de saber que alguns erros caíram, e a raiz
da vida ficou mais forte e os naufrágios
não cortaram essa ligação subterrânea entre homens e coisas:
que os objetos continuam, e a trepidação incessante
não desfigurou o rosto dos homens; que somos todos irmãos, insisto.

Em minha falta de recursos para dominar o fim,
entretanto me sinta grande, tamanho de criança, tamanho de torre,
tamanho da hora, que se vai acumulando século após século e causa
                                                                                            [vertigem,
tamanho de qualquer João, pois somos todos irmãos.

E a tristeza de deixar os irmãos me faça desejar
partida menos imediata. Ah, podeis rir também,
não da dissolução, mas do fato de alguém resistir-lhe,
de outros virem depois, de todos sermos irmãos,
no ódio, no amor, na incompreensão e no sublime
cotidiano, tudo, mas tudo é nosso irmão.

O tempo de despedir-me e contar
que não espero outra luz além da que nos envolveu
dia após dia, noite em seguida a noite, fraco pavio,
pequena ampola fulgurante, facho, lanterna, faísca,
estrelas reunidas, fogo na mata, sol no mar,
mas que essa luz basta, a vida é bastante, que o tempo
é boa medida, irmãos, vivamos o tempo.

A doença não me intimide, que ela não possa
chegar até aquele ponto do homem onde tudo se explica.
Uma parte de mim sofre, outra pede amor, outra viaja, outra discute, uma última trabalha, sou todas as comunicações, como posso ser triste?

A tristeza não me liquide, mas venha também
na noite de chuva, na estrada lamacenta, no bar fechando-se,
que lute lealmente com sua presa,
e reconheça o dia entrando em explosões de confiança, esquecimento,
                                                                                                     [amor,
ao fim da batalha perdida.

Este tempo, e não outro, sature a sala, banhe os livros,
nos bolsos, nos pratos se insinue: com sórdido ou potente clarão.
E todo o mel dos domingos se tire;
o diamante dos sábados, a rosa
de terça, a luz de quinta, a mágica
de horas matinais, que nós mesmos elegemos
para nossa pessoal despesa, essa parte secreta
de cada um de nós, no tempo.

E que a hora esperada não seja vil, manchada de medo,
submissão ou cálculo. Bem sei, um elemento de dor
rói sua base. Será rígida, sinistra, deserta,
mas não a quero negando as outras horas nem as palavras
ditas antes com voz firme, os pensamentos
maduramente pensados, os atos
que atrás de si deixaram situações.
Que o riso sem boca não a aterrorize,
e a sombra da cama calcária não a encha de súplicas,
dedos torcidos,
lívido suor de remorso.

E a matéria se veja acabar: adeus, composição
que um dia se chamou Carlos Drummond de Andrade.
Adeus, minha presença, meu olhar e minhas veias grossas,
meus sulcos no travesseiro, minha sombra no muro,
sinal meu no rosto, olhos míopes, objetos de uso pessoal, idéia de jus-
                                                                       [tiça, revolta e sono, adeus,
vida aos outros legada.

In POESIA E PROSA, Rio de Janeiro: Ed. Nova Aguilar, 1992, 173-175

sábado, 11 de agosto de 2012

Cassiano Ricardo


METAMORFOSE
Meu avô foi buscar prata
mas a prata virou índio.

Meu avô foi buscar índio
mas o índio virou ouro.

Meu avô foi buscar ouro
mas o ouro virou terra.

Meu avô foi buscar terra
e a terra virou fronteira.

Meu avô, ainda intrigado,
foi modelar a fronteira:

E o Brasil tomou forma de harpa.

In MARTIM CERERÊ, Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1983, 16a. ed., p. 127

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Carlos Pintado

UMA TELA DONDE O BOSQUE SE ILUMINA

                              No bosque de Erec e  Enid
                                              Chrétien de Troyes
  
Amanhecer que sempre chegas
e chegando permaneces impassível,
fixado ao tempo em que,  terrível e murmurando,
esconde tuas bestas.
Saber-te tão distante como o sonho
fere como a flecha que lançada
voa, fugaz, ansiosa no sonhado
tecido da tela do entressono
e contudo, ficamos contemplando
os altos pinheiros cuja penumbra
nega a breve luz, aquela que não ilumina
sequer as coisas já iluminadas.
Tudo está suspenso e muito distante
no tecido, no tempo, no instante.

Tradução livre do original espanhol: Alejandro Carvajal e Antonio Damásio Rêgo Filho

José Régio

EPIGRAMA ELEGÍACO
À pobre mãe que em choros o velava,
  «Mãe, quando é dia?» perguntava
 O filhinho doente.
Engolindo o seu pranto, a mãe sorria:
«Dorme..., não tarda aí o dia!»
Até que o inocente
Adormeceu; mas, ai! tão fundo,
Que nada deste mundo
O acordava.

E em vão a mãe, já louca, o sacudia,
E alagava o gelado rostozinho
De lágrimas que enfim não lhe ocultava...
Mãe, mas porquê tal agonia?
Pois não dizias tu ao teu filhinho
Que o dia não tardava?
Não foi o teu filhinho que morreu:
Foi o dia que enfim lhe amanheceu.

[In A Chaga do Lado Sátiras e Epigramas de José Régio, Lisboa: Portugália Editora, 1954, pp. 71-72].
By Paula Rêgo

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Fernando Pessoa


ESTÉTICA DA ABDICAÇÃO
[dat. 1913?]

CONFORMAR-SE é submeter-se e vencer é conformar-se, ser vencido. Por isso toda a vitória é uma grosseria. Os vencedores perdem sem¬pre todas as qualidades de desalento com o presente que os levaram à luta que lhes deu a vitória. Ficam satisfeitos, e satisfeito só pode estar aquele que se conforma, que não tem a mentalidade do vence¬dor. Vence só quem nunca consegue. Só é forte quem desanima sempre. O melhor e o mais púrpura é abdicar. O império supremo é o do Imperador que abdica de toda a vida normal, dos outros ho-mens, em quem o cuidado da supremacia não pesa como um fardo de joias.

[CONSCIÊNCIA DA MISSÃO]
[ms. 21.11.1914]

HOJE, ao tomar de vez a decisão de ser Eu, de viver à altura do meu mister, e, por isso, de desprezar a ideia do reclame, e plebeia sociabilização de mim, do Interseccionismo, reentrei de vez, de volta da minha viagem de impressões pelos outros, na posse plena do meu Gênio e na divina consciência da minha Missão. Hoje só me quero tal qual meu caráter nato quer que eu seja; e meu Gênio, com ele nascido, me impõe que eu não deixe de ser.
Atitude por atitude, melhor a mais nobre, a mais alta e a mais calma. Pose por pose, a pose de ser o que sou.
Nada de desafios à plebe, nada de girândolas para o riso ou a raiva dos inferiores. A superioridade não se mascara de palhaço; é de renúncia e de silêncio que se veste.
O último rasto de influência dos outros no meu caráter cessou com isto. Reconheci — ao sentir que podia e ia dominar o desejo intenso e infantil de “lançar o Interseccionismo” — a tranquila posse de mim.
Um raio hoje deslumbrou-se de lucidez. Nasci.
(O Eu Profundo)

Obras em Prosa, Rio de Janeiro: Ed. Nova Aguillar, 1993, p. 42

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

João Anzanello Carrascoza


 A ÚLTIMA ESTAÇÃO
No início, fazíamos amor às claras, pelos cantos da casa. Encantavam-nos o sol em nossos corpos suados, a saliva em nossas bocas, o frescor de nossos sexos. Quería­mos ver os músculos rijos, as manobras da ancoragem, o entra e sai alucinante. Ela gritava. Eu grunhia. Jorrávamos palavrões. E, se fosse noite, acendíamos todas as luzes, humilhando o escuro com nossa juventude.
Depois, veio o tempo de nos entregarmos à penumbra, escondidos das crianças. As sombras cúmplices oculta­vam nossos dentes manchados, as rugas que começavam a florescer, os primeiros cabelos brancos. No quarto fe­chado à chave, ela gemia e eu murmurava umas palavras de incentivo.
Chegou, então, a era das trevas. No breu total, esqueci­dos das longas carícias, fechamos agora os olhos e engata­mos silenciosamente, com medo da luz e seu impiedoso esplendor.

In: Amores Mínimos, São Paulo: Record, 2011, p. 125

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Alexandre Magno da Silva

"Em tom solene diante da folha em branco com os cabelos desgrenhados e os lábios finos inconfundíveis, eis o poeta. Num movimento amplo do braço direito, feito um regente, um verso inteiro, límpido, amplo e impenetrável, nascido como a letra pintada de única feita pelo mestre japonês. As mãos abertas diante da folha e a aproximação, a releitura, ele não tem dúvida, é a Musa. Abruptamente dá um tiro no peito dela e recomeça o árduo trabalho do verso. Acampa em volta da fogueira da inspiração, mas tira o brilho, os enfeites, a pompa e a afetação. Outro verso e mais outro. Relê em voz alta, “não, não é isso”. Recomeça, revolve as palavras uma a uma, procura livros, fuma um cigarro e olha pela janela, o tempo da chama é o tempo para a rima e eis que ela surge. “Não, rima, não. Os poetas modernos já não se interessam mais por este tipo de coisa, que o verso seja livre, como o pensamento e o sentimento”. Senta-se novamente, ajeita a cadeira, ergue o braço direito, olha para o teto e pára no ar como um beija-flor. Nada. Dá um murro na folha. “Estúpida”, esbraveja, “porque não te revelas?”. A folha é amassada e jogada à lixeira como o caroço de uma fruta. O poeta pega outra folha, praticamente a agarra, “será ela, será esta, o claro enigma da poesia está nesta folha!”. Olha desconfiado, meio que de lado, abaixa a mão direita sobre ela e sente a sua textura, como que lhe fazendo um carinho. Mas não a compra. Outro caroço, agora como se fosse da alma, é jogado ao lixo. Caminha pelo quarto, releitura de velhos amigos, Horácio, Dante, Pessoa, Drummond: declama, proclama, reclama. Senta-se, novamente, vencido. O poeta não tem nada a dizer. E do modo como fica, sentado como fica, o braço, seco, velho e gasto segurando a cabeça que pende, confusa e aborrecida, as pernas desalinhadas e os pés descalços, ele todo, no conjunto, imagem do poema perfeito, inacreditável na beleza e expressão."

© Alexandre Magno

Escritor catarinense
Blog http://
palavraguda.wordpress.com

Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...