domingo, 9 de setembro de 2012

Cecília Meireles

CANÇÃO
Se de novo passares, 
não procures por mim. 
Preservemos o fim 
dos saudosos olhares.

Bem sei que a noite e os rios 
engendram muita flor 
parecida com o amor,
em seus ermos sombrios.

Mas nem penso aonde vais. 
Adormeço nos prados 
com os lábios ocupados 
no néctar do jamais.

Um tempo sem fronteiras 
se abriu diante de nós.
Quando tiveram voz
as verdades inteiras?

Ai, talvez noutro instante 
chegue perto de ti, 
para ver que perdi 
minha alma antiga, — e cante.

Talvez chegue, talvez, 
mas que não seja agora,
quando quem foste chora 
aquilo que não vês.

Uma vaga canção 
cantarei com doçura,
e será morte escura 
sobre o meu coração.

DECLARAÇÃO DE AMOR EM TEMPO DE GUERRA

Senhora, eu vos amarei numa alcova de seda, 
entre mármores claros e altos ramos de rosas,
e cantarei por vós árias serenas 
com luar e barcas, em finas águas melodiosas.

(Na minha terra, os homens, Senhora, 
andavam nos campos, agora.)

Para ver vossos olhos, acenderei as velas 
que tornam suaves as pestanas e os diamantes. 
Caminharão pelos meus dedos vossas pérolas,
— por minha alma, as areias destes límpidos instantes.

(Na minha terra, os homens, Senhora, 
começam a sofrer, agora.)

Estaremos tão sós, entre as compactas cortinas, 
e tão graves serão nossos profundos espelhos 
que poderei deixar as minhas lágrimas tranquilas 
pelas colinas de cristal de vossos joelhos.

(Na minha terra, os homens, Senhora, 
estão sendo mortos, agora.)

Vós sois o meu cipreste, e a janela e a coluna 
e a estátua que ficar, — com seu vestido de hera; 
o pássaro a que um romano faz a última pergunta, 
e a flor que vem na mão ressuscitada da primavera.

(Na minha terra, os homens, Senhora, 
apodrecem no campo, agora...)

In: Obra Poética, Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1983, pp. 356-357


sábado, 8 de setembro de 2012

Carlos Pintado

Eu gostava quando lia
um poema de são João da Cruz,
e  pensava na noite
como a única porta para o possível,
quando falava de minha escuridão
ou do cadáver de minha escuridão,
arranhando no silêncio,
a pele do silêncio,
ou quando descansava à tarde,
olhando-me nos olhos,
dizendo-me: nada nos salva da noite,
nem a noite.

(El Unicornio e outros poemas)

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Miodrag Pávlovitch

O PRINCÍPIO DO POEMA
Uma mulher atravessou o rio comigo
na névoa e sob o luar,
atravessou o rio ao meu lado
e nem sei mesmo de quem se trata.

Subimos para as montanhas.
Seus cabelos longos e dourados,
coxas próximas ao caminhar.

Abandonamos leis e parentes,
olvidamos o aroma da mesa paterna,
abraçamo-nos de repente
e nem sei mesmo de quem se trata.

Não retornaremos aos telhados da cidade,
vivemos entre estrelas na planície,
exércitos não nos encontrarão,
águias tampouco,
um gigante descerá entre nós
e deverá possui-la
enquanto eu estiver caçando javalis.

E nossos filhos entoarão o princípio
desta tribo em longas canções
festejando fugitivos e deuses
que cruzaram o rio.

Miodrag Pávlovitch, Poetas do Mundo, Bosque da Maldição, Brasília: Editora UNB, 2003, p. 27-29, trad. Aleksandar Jovanovic, p. 65


quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Eduardo García

TINHA QUE ENCONTRÁ-LO NUM POEMA
Saiu não sei de onde. Ia descalço,
Com o rosto manchado como então,
O jeito de um pirata diminuto,
O sorriso torto, e nos olhos
A intacta malícia.
                           Conseguiu reconhecer-me
Apesar das rugas no meu rosto,
Apesar de meu aspecto improcedente,
Meu disfarce de adulto, e a voz grave.
“Onde estavas?  - indagou. Neste verão
Sentimos tua falta. Junto ao rio
Encontramos os restos de um naufrágio.
Vamos cavar juntos. Na outra margem
Cavaleiros vigiam na emboscada.”
Tive que convencê-lo que não,
Que estava ali só por casualidade.
- Como iria acompanhá-lo
Com este corpo enorme e preguiçoso? -.
Ali nos despedimos, não sem antes
Enviar lembranças para todos.
Deixei-o em seu verão inesgotável.

Eduardo García, Antologia Pessoal, Brasília: Ed. Thesaurus, 2011, p. 39, trad. Antonio Miranda

Nasceu em São Paulo em 1965, filho de espanhóis. Viveu a sua primeira infância entre duas línguas. Permanece no Brasil até os sete anos, idade em que sua família resolve voltar a Espanha. Passa a viver em Madrid, durante a adolescência e a primeira juventude. Estuda Filosofía, cursando a sua especialidade em Pensamento Estético. Professor de Filosofía, mora em Córdoba desde o ano 1991. Tem dupla nacionalidade: espanhola e brasileira. 

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Roberto Piva

VISÃO 1961
as mentes ficaram sonhando penduradas nos esqueletos de fósforo
         invocando as coxas do primeiro amor brilhando como uma 
         flor de saliva
o frio dos lábios verdes deixou uma marca azul-clara debaixo do pálido 
         maxilar ainda desesperadamente fechado sobre o seu mágico vazio
marchas nômades através da vida noturna fazendo desaparecer o perfume 
         das velas e dos violinos que brota dos túmulos sob as nuvens de 
         chuva
fagulha de lua partida precipitava nos becos frenéticos onde
         cafetinas magras ajoelhadas no tapete tocando o trombone de vidro 
         da Loucura repartiam lascas de hóstias invisíveis
a náusea circulava nas galerias entre borboletas adiposas e
         lábios de menina febril colados na vitrina onde almas coloridas 
         tinham 10% de desconto enquanto costureiros arrancavam os ovários dos manequins
minhas alucinações pendiam fora da alma protegidas por caixas de matéria 
         plástica eriçando o pêlo através das ruas iluminadas e nos arrabaldes 
         de lábios apodrecidos
na solidão de um comboio de maconha Mário de Andrade surge como um 
         Lótus colando sua boca no meu ouvido fitando as estrelas e o céu 
         que renascem nas caminhadas 
noite profunda de cinemas iluminados e lâmpada azul da alma desarticulando 
         aos trambolhões pelas esquinas onde conheci os estranhos 
         visionários da Beleza
já é quinta-feira na avenida Rio Branco onde um enxame de Harpias 
         vacilava com cabelos presos nos luminosos e minha imaginação 
         gritava no perpétuo impulso dos corpos encerrados pela 
         Noite
os banqueiros mandam aos comissários lindas caixas azuis de excrementos 
         secos enquanto um milhão de anjos em cólera gritam nas assembleias 
         de cinza OH cidade de lábios tristes e trêmulos onde encontrar 
         asilo na tua face?
no espaço de uma Tarde os moluscos engoliram suas mãos
         em sua vida de Camomila nas vielas onde meninos dão o cu 
         e jogam malha e os papagaios morrem de Tédio nas cozinhas 
         engorduradas
a Bolsa de Valores e os Fonógrafos pintaram seus lábios com urtigas 
         sob o chapéu de prata do ditador Tacanho e o ferro e a borracha 
         verteram monstros inconcebíveis 
ao sudoeste do teu sonho uma dúzia de anjos de pijama urinam com 
         transporte e em silêncio nos telefones nas portas nos capachos 
         das Catedrais sem Deus
imensos telegramas moribundos trocam entre si abraços e condolências 
         pendurando nos cabides de vento das maternidades um batalhão 
         de novos idiotas
os professores são máquinas de fezes conquistadas pelo Tempo invocando 
         em jejum de Vida as trombetas de fogo do Apocalipse 
afã irrisório de ossadas inchadas pela chuva e bomba H árvore 
         branca coberta de anjos e loucos adiando seus frutos 
         até o século futuro 
meus êxtases não admitindo mais o calor das mãos e o brilho
         platônico dos postes da rua Aurora comichando nas omoplatas
          irreais do meu Delírio
arte culinária ensinada nos apopléticos vagões da Seriedade por 
         quinze mil perdidas almas sem rosto destrinçando barrigas 
         adolescentes numa Apoteose de intestinos 
porres acabando lentamente nas alamedas de mendigos perdidos esperando 
         a sangria diurna de olhos fundos e neblina enrolada na voz 
         exaurida na distância
cus de granito destruídos com estardalhaço nos subúrbios demoníacos pelo 
         cometa sem fé meditando beatamente nos púlpitos agonizantes 
minhas tristezas quilometradas pela sensível persiana semi-aberta da
         Pureza Estagnada e gargarejo de amêndoas emocionante nas palavras 
         cruzadas no olhar 
as névoas enganadoras das maravilhas consumidas sobre o arco-íris
         de Orfeu amortalhado despejavam um milhão de crianças atrás das 
         portas sofrendo
nos espelhos meninas desarticuladas pelos mitos recém-nascidos vagabundeavam 
         acompanhadas pelas pombas a serem fuziladas pelo veneno 
         da noite no coração seco do amor solar 
meu pequeno Dostoievski no último corrimão do ciclone de almofadas 
         furadas derrama sua cabeça e sua barba como um enxoval noturno 
         estende até o Mar no exílio onde padeço angústia os muros invadem minha memória 
         atirada no Abismo e meus olhos meus manuscritos meus amores 
         pulam no Caos


In Paranoia, São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2000, pp. 7-20

Saiba quem foi Roberto Piva

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Carlos Pintado


JOY ESLAVA

My "place of clear water,"
the first hill in the world
where springs washed into
the shiny grass
and darkened cobbles
in the bed of the lane.
- Seamus Heaney

"Esta história não aconteceu, ou está para acontecer, o que dá no mesmo".

As palavras ecoaram, reverberando em sua cabeça como o som distante e impreciso das coisas que se ouvem nos sonhos. Mais tarde, procuraria algo sem saber o que  estava procurando.  O quarto parecia um deserto: uma pasta com papéis, alguns livros jogados ao chão e um espelho oval com manchas cinzentas  a ofuscar a limpidez dos reflexos. A máquina de escrever indicava que algo ficara inacabado. O barulho de uma torneira pingando abafava a música que vinha de algum lugar. O homem piscou várias vezes. Suava. Foi à torneira e a fechou abruptamente.

A música de Clannad voltou a reinar no quarto.

Perguntou-se sobre o que fora fazer em Joy Eslava  essa noite, e, na tentativa de encontrar uma resposta, lembrou-se da palavra  Anahorish, que o remetia a um poema de Heaney e às noites imaginadas num pub de Dublin.

Nesse ponto  eu entro na história.

A história que ia acontecer começou com minha ida a  Joy Eslava;  tento explicar-lhe algo desta conjunção casual, mas ele não entende; não quer entender. Tem a teimosia característica dos irlandeses. Eu tento explicar, filosofar, lembrar-lhe que num poema de Heaney existe essa palavra intraduzível. Repito Anahorish e suponho que nem ele saberá traduzi-la.  Limitou-se a sorrir e eu não sorri.  Vamos dançar,  disse. Não foi uma pergunta. Eu não queria dançar, mas não pude negar o convite; suas mãos (talvez tenha sido apenas uma mão) se entrelaçam às minhas. Procuro a confirmação desse toque  e não é possível: a penumbra imposta impede qualquer visão; as luzes explodem  nas paredes, brilham com força na fátua escuridão do bar; seus dedos se enroscam nos meus, persistentes. Anos depois eu escreveria,  numa história que nada tem a ver com esta, como um personagem lembra o outro:

 "Com teus dedos de sombra me tocaste". Eu disse algo assim, mas mal se podia ouvir. Eu não conseguiria lembrar precisamente agora. Suas palavras me levaram de volta àquele momento.

Clannad dá lugar aos  Cranberries. O teatro de teto circular ampara a noite. Viro a cabeça para olhar para algo no segundo andar e ele aproveita a oportunidade para beijar meu pescoço. Ia fazer-lhe uma pergunta, mas me calo.  Prefiro sair e inventar a história que poderia ter acontecido: sobre os dois na Joy Eslava, dançando, bêbados; eu seria o turista de passagem por Madri e ele a sombra de um sonho, uma invenção minha, embora certamente negaria isso. Não quer para si o destino que lhe dou; diz que, se existe, não é a sombra de ninguém. Ele me pegaria nos ombros e eu teria que lembrar - em outra história que escreverei - que na realidade alguém me segurou pelos ombos naquele lugar.  Em vão tentaria lembrar-me do momento em que  trocamos os agasalhos. "Então terás algo para se lembrar de mim", disse, entregando-me o casaco de peles que me fez lembrar um urso morto. Nesse momento penso que é melhor fechar os olhos; pensar nessa palavra que nunca pude traduzir e que ele não entende. A única coisa que não existe é essa palavra, ele diria.

Se eu lhe desse mais atenção, talvez escreveria melhor esta história. Escreveria: o cheiro de seu cigarro me lembra outras ervas. Admitiria, depois, que gostava de vê-lo fumar no meio da multidão colorida.  Fumaça de Dublin, penso. Como se lesse o pensamento,  pergunta-me se conheço a Irlanda. Fitamo-nos. A fumaça é uma nuvem azul em meus olhos; eu a inalo; o perfume do tabaco é diferente. Fumaça de Dublin, eu escreveria anos mais tarde, em outra história que nada tem a ver com esta. Eu explico - tento explicar -  que um dia escreveria esta história, mas ele não dá atenção. Jogamos o mesmo jogo de inventar-nos com  palavras ditas no escuro, naquele mar de beijos e cotovelos e música alta.

Acordei com um fogo ardendo em meu peito. Tentara traduzir Heaney antes de dormir. Acordei pensando nessa tradução. Sussurrei Anahorish como se eu não estivesse sozinho no quarto e alguém, nas sombras do sono, pudesse me ouvir. Esperei alguns segundos, mas nada aconteceu.  Esta história,  devo-a a ignorância daquela palavra. Levantei-me convicto  de que precisava ir a algum lugar. Pensei naquele que me lembrava uma "alegria eslava". Hesitei em ir ou ficar. Em algum lugar do meu pescoço eu  tinha a marca, ainda úmida, de um beijo.

Ao entrar, vê-lo-ia dançando. Exatamente assim: sorrindo sem olhar ninguém, com um boné inclinado para baixo,  quase tapando-lhe os olhos. Não sei se devo aproximar-me dele. Espanta-me sua pele pálida, como se há anos não tivesse visto sol. Minutos depois estávamos dançando. Fascina-me vê-lo envolvido pela luz dos holofotes.  Contra a luz seu corpo parece frágil, a ponto de perder-se na sombra.   Achego-me devagar. Como explicar-lhe que há algumas horas eu sonhara com ele? Pensaria que eu estava louco? Essa ideia me assusta. Não queria assustá-lo. Quem sabe o sonho se prolongara até aqui, até este momento em que, finalmente, estamos os dois: ele dançando, lentamente, sorrindo como um menino; eu, como uma estátua, observando a irrealidade da situação. Ainda estarei sonhando? pergunto-me, até que a voz de Dolores O´Riordan me acalma.

Estamos em Joy Eslava. Esta historia é verdadeira.  Está acontecendo, digo a mim mesmo. A voz da cantora murmura em minha cabeça, zumbi, zumbi... Volto a pensar que tudo foi um sonho. É novembro:  Joy Eslava está repleta de gente linda, de turistas, de madrilenos  que, para escapar ao frio, vêm a lugares como este. As pessoas se movem ao ritmo de um transe inatingível.   Sei que estou numa dança estranha e isso me incomoda. Vou ao bar e peço uma bebida que me tire a timidez. Teria preferido fumar um pouco. Há anos não ponho um cigarro em meus lábios. Escuto: and the violence causes silence, who are we mistaken? Tudo gira sem um centro fixo, sem gravidade, repleto de sombras que trocam beijos e abraços. Penso no garoto do sonho, que pouco a pouco vai desaparecendo de minha memória; o sonho deixa tudo muito irreal, como o poema de Heaney, que fala de um lugar tranquilo, cercado de águas quentes, onde se pode estender-se e falar. Repito a palavra, como para lembrar um conjuro - a esta altura duvido se o fato de repeti-la é de  fato um conjuro ou um surto esquizofrênico - e nesse momento um casal se senta perto de mim; vejo-os de mãos dadas; ela me olha e me cumprimenta; ele faz o mesmo; ela para de me olhar e sussurra-lhe algo; o rapaz se demora fitando-me. Eu abaixo os olhos; as mãos se entrelaçam, persistentes. Anahorish, digo, ante o arranque estridente da música. Depois disso perco a noção de tudo.  Há um fio muito tênue entre a realidade e o sonho, quando a garota deixa o rapaz e vai dançar sozinha. Meus olhos e os olhos do rapaz se encontram naquele mar de sombras e contornos enfumaçados. Ele quer dançar e eu digo sim, é claro. Suas mãos - ou talvez fosse apenas uma mão - se prendem às minhas mãos. Lembro-me de uma carícia ou da imagem de uma carícia.  A pele arrepiada pelo tato. Olho para  seu rosto, ele estava sorrindo. Em outra história, ao tentar descrevê-lo, eu escreveria: "Eu vou ser capaz de esquecer tudo sobre ele, exceto seu sorriso, suave, sensual, como o de uma menina. Mais tarde eu saberia que sua pele, ou melhor, a brancura de sua pele, era inesquecível.

Sorriu pela última vez e nos beijamos.

Quando ela voltou, ele e eu estávamos dançando. Suas mãos - muito mais suaves do que as dele - me abraçaram por trás. Senti sua língua brincalhona fincada em minha nuca. Neste momento confundo as duas histórias; há anos pintei um bosque cheio de caminhos que se cruzavam sob a neblina inglesa. Esta imagem retorna à minha memória. Pela manhã os dois serão somente uma sombra. Estarei, lamentavelmente, à margem dessa sombra. Recordarei de suas palavras: "amanhã pensarás que tudo isto foi um sonho". Vi que a menina já não estava. Surpreso, pareceu-me vê-la fugindo para algum lugar. Quis gritar-lhe algo, mas  era inútil: a música se elevava como se fôssemos surdos. Ele e eu seguimos dançando grudados com as camisas abertas. De seu peito ressumavam gotas luminosas. Sorríamos e eu pensei que poderia morrer olhando aquele sorriso.

A noite nos deixou ali como náufragos. O ar se tornava menos ar. Sem deixar de abraçá-lo, busquei o rosto dela entre as centenas de rostos que nos olhavam.  Aqui me dou conta de que esta não é a história dele nem a minha, mas a história dela. Amanhã será ela quem  a escreverá: ele e eu dançando e beijando-nos na Joy Eslava. "Não te preocupes", me acalmaria, e as palavras ecoariam como saídas de dentro de um túnel, sobrepondo-se à música. "Ela saberá terminar esta história da melhor forma que lhe pareça".

À distância,  observei-a conversando com o barman: seu corpo parecia um arco; segundos depois ela estava terminando de tragar uma bebida azul, muito azul. Sob o cone de luz seu rosto  filtrava uma certa semelhança com o do rapaz que me abraçava. No vidro do bar sua silhueta se refletia imprecisa, deformada. Réstias de uma luz difusa mantinham seu reflexo no vidro. Temi que aquela imagem fosse mais que um sonho. Senti que ela nos olhou com inveja. "Não lhe dê atenção. Tu e eu estamos onde ela não pode ir, "Eu ouvi", é por isso que ela nos sonha. Pergunto, sem entender: “Ela nos sonha”? Quando ela saiu invadiu-me o desespero de não saber o que aconteceria.  Torno a perguntar "Ela nos sonha ou nos inventa?", mas ele não sabe a resposta ou preferiu não responder. Por fim, murmurou: "só ela o sabe. Nós estamos do lado de cá das coisas". E fez um gesto que não entendi. Dancei não pelo prazer de dançar mas pela distância que dá a dança  quando há pouca coisa a falar.  Eu precisava organizar meus pensamentos.

Suas últimas palavras deixaram-me com uma sensação estranha: "se ela deixar de sonhar-nos, nós deixaremos de existir". Ao levantar os olhos vi novamente seu sorriso. Contei-lhe meu sonho, falei sobre os poemas de Heaney e sobre aquela palavra que soava em meu sonho como um eco de címbalos,  que jamais poderei traduzir. "É uma ladainha insuportável", ele disse, enquanto tentava me explicar que no sonho as coisas se repetem incansavelmente; falou de uma eternidade no sonho que não entendi. "Esta história não aconteceu, ou está por acontecer, o que é a mesma coisa", disse ao ver meu rosto assombrado pela dúvida. Fechei os olhos. Lembrei-me dessas palavras. Uma multidão enfurecida e bêbada avançava sobre mim,  vinda de todos os lados. A lembrança da chegada a Madri foi um ardil a mais. Quis negar-me a ser sonhado, mas me faltava  o desespero inato a algumas pessoas em situações tão inusitadas. Uma das portas do bar se abriu e induzi que poderia escapar. Dei alguns passos, mas sua mão segurou a minha. “Não sejas louco, ninguém escapa de um sonho. Se ela te sonha aqui é porque aqui deves ficar". Eu o escuto e fecho os olhos. O rosto dela me vem à memória. Ao abri-los estamos os três dançando. Não sei como isso aconteceu.  As mãos dela serpenteavam em meu peito, sua língua fincou-se em minha nuca. Eu descansei minha mão em seu torso nu e o afastei um pouco; ao virar, percebi que ela olhava para mim; quis mostrar-se surpreendida.  "Por que  o afastaste", ela perguntou. Sua voz soava como metal. Dei de ombros. "Foi um instinto", disse. Segurei-a pela cintura. Dançamos agarrados. A música era quase inaudível. O ar era mais fumaça  que  ar: uma névoa espessa - acumulada por tantos cigarros acesos - flutuava sobre dezenas de corpos. Dançamos como se não estivéssemos tocando o chão. Perguntei-lhe qual era seu nome, mas ela não respondeu, "Eu quero ver-te de novo", pedi, e ela sorriu. Senti o peso do silêncio. Com o canto do meu olho eu podia ver que o espelho nos duplicava. Minha mão acariciou a pele de suas costas, como se pressentisse que ela estava prestes a escapar.

“Não vou escapar; também estou presa a um sonho", respondeu-me. Enquanto nos fitávamos,  ele chegou e firmou meu ombro. Senti seus dentes lúdicos mordendo o lóbulo de minha orelha. Ela nos olhava e ria sem motivo. Ele disse:  "Eu sou o reflexo dela em teu mundo; ela não pode vir até aqui,  por isso  inventou-me ..." Tentei responder, mas ela continuou: "... e ele te inventa", eu pedi que se calasse e, como se não estivesse me ouvindo, concluiu: "... e tu também o inventas. Os três somos a matéria de teus sonhos. Nada disso existirá amanhã". Ia dizer-lhe que não era verdade, mas preferi sair.

 Comecei a andar no meio da multidão. Imaginava que a porta do bar se abria e fechava constantemente. Fui até ela. Ao empurrá-la, transportei-me ao quarto do hotel. Havia ainda o som abafado de outro lugar. Eu fecho a porta e olho para o livro de Seamus Heaney em minhas mãos. Eu acho que dormi lendo os poemas.  Repito Anahorish entendiado, com a impressão de que eu imaginara uma história na qual alguém conjectura o significado da palavra. Eu vou escrever esse conto amanhã,  digo a mim mesmo e caio no sofá. À minha direita há uma cesta cheia de papéis, um espelho oval cheio de nuvens cinzentas. O som da água vem da cozinha. Eu mal posso ouvir o disco de Clannad. Penso: "Esta história não aconteceu, ou ainda está para acontecer, o que dá no mesmo."

Eu me levanto e vou desligar a torneira.

Madri, 2 de dezembro de 1998

Fonte: http://zafralitenespanol.blogspot.com.br/2009/12/joy-eslava-de-carlos-pintado.html

Tradução livre: Antonio Damásio Rêgo Filho

Cecília Meireles

O RAMO DE FLORES DO MUSEU
1
Ó cinérea princesa, as vossas flores
ficarão para sempre mais perfeitas,
já que o tempo extinguiu brilhos e cores;
já que o tempo extinguiu a habilidosa
mão que levou, serenas e direitas,
a tulipa sucinta e a ardente rosa.

Não há mais ilusão de outra presença
que a do Amor, que inspirou graças tão finas
— que ninguém viu e em que ninguém mais pensa
porque os homens e o mundo são de ruínas.

E este ramo de pétalas franzinas,
leve, liberto da mortal sentença,
tinha, ó Princesa, fábulas divinas
em cada flor, sobre o nada suspensa.

2
Que fantasmas lerão, nas incolores
pétalas, as mensagens não aceitas
em nítidos momentos anteriores?

Que fantasmas verão a vossa airosa
figura erguendo as claras mãos desfeitas,
noutro império, a uma luz mais gloriosa?

Ó cinérea Princesa, é muito densa
no mundo humano a trama das neblinas. . .
A floresta do absurdo é negra, é imensa,
e as sibilas se escondem, repentinas.

Crepitam os junquilhos e as boninas
a um vento secular de indiferença.
Mas, entre vãs paredes vespertinas,
o ramo existe, sem que a morte o vença.


OS GATOS DA TINTURARIA
Os gatos brancos, descoloridos,
passeiam pela tinturaria,
miram polícromos vestidos.

Com soberana melancolia,
brota nos seus olhos erguidos
o arco-íris, resumo do dia,

ressuscitando dos seus olvidos, 
onde apagado cada um jazia, 
abstratos lumes sucumbidos.

No vasto chão da tinturaria, 
xadrez sem fim, por onde os ruídos 
atropelam a geometria,

os grandes gatos abrem compridos 
bocejos, na dispersão vazia 
da voz feita para gemidos.

E assim proclamam a monarquia 
da renúncia, e, tranquilos vencidos, 
dormem seu tempo de agonia.

Olham ainda para os vestidos, 
mas baixam a pálpebra fria.

BALADA DE OURO PRETO
Parei a uma porta aberta 
para mirar um ladrilho.
Veio de dentro o leproso 
como quem sai de um jazigo. 
Caminhava ao meu encontro, 
sinistramente sorrindo.

Mas vi-lhe os braços de líquen, 
e as duas mãos desfolhadas, 
que cauteloso escondia 
nos fundos bolsos das calças. 
Chamas de um secreto inferno 
em seu sorriso oscilavam.

Fora menos triste a lepra 
do que o fogo do sorriso.
E era linda aquela casa 
com o vestíbulo vazio; 
e era alegre aquela porta 
de claro azulejo antigo.

Ó santos da Idade Média, 
descei por esta ladeira, 
parai a esta porta suave, 
que de azul toda se enfeita, 
tocai estes braços fluidos 
que vão sendo rosa e areia,
tornai-os firmes e pulcros,
com mãos lisas, dedos novos,
para que este homem não fite
ninguém mais com os mesmos olhos,
e seja outro o seu sorriso
per saecula saeculorum.

[In: Obra Poética, Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1983, pp. 341-344]



Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...