sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Jorge Luis Borges

Em memória de angélica
Quantas possíveis vidas terão ido 
Com esta pobre e diminuta morte,
Quantas possíveis vidas que a sorte 
Daria à memória ou ao olvido!
Quando eu morrer, morrerá um passado; 
Com esta flor um futuro está morto Nas águas que ignoram, um aberto 
Futuro pelos astros arrasado.
Eu, como ela, morro de infinitos 
Destinos que o acaso não me depara;
Busca minha sombra os desgastados mitos
De uma pátria que sempre mostrou a cara.
Um breve mármore vela sua memória;
Sobre nós vai crescendo, atroz, a história.

Meus livros
Meus livros (que não sabem que eu existo)
São tão parte de mim como este rosto
De fontes grises e de grises olhos 
Que inutilmente busco nos cristais 
E que com a mão côncava percorro.
Não sem alguma lógica amargura
Penso que as palavras essenciais
Que me expressam se encontram nessas folhas
Que não sabem quem sou, não nas que escrevi.
Melhor assim. As vozes dos mortos
Vão me dizer para sempre.

Poesia Borges, Companhia das Letras, 2009, p. 190-191

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Ximena Gómez

REVERIE
Sangue
Lixo
E migalhas
De uma noite
Orgiástica.
Na copa de uma árvore
Um corvo azul
Agita as asas
Relambendo-se.

ALUCINAÇÃO
Deambula pelos montes ao crepúsculo.
As noites reconhecem seu latido inaudível.
É visto a vadiar pelas portas do Hades.
Os pássaros riem de sua extravagância.
Criatura da sombra, errante e sem repouso.
A luz o vê esconder-se sob as pedras,
no buraco de uma árvore,
ou desaparecer nas montanhas.
Sente-se sua presença no canto da coruja.
Temido no grito da selva.
Sabe-se dele nos sonhos.
É filho da angústia.

CATÁSTROFE
Uma avalanche marrom
desmorona
sobre um ninho
de formigas.
Do alto
um cavalo risonho
defeca.

ESCARROS
Ladainha do pregão do outro lado da rua.
Latidos de um cão no cercado. Na janela,
um velho escarra e e cospe imprecações.
Um projétil cai no calçamento.
Abaixo,
algumas crianças, quais médicos legistas,
auscultam o mistério de um cadáver viscoso
colado às pedras.

EXTERMÍNIO, NASCIMENTO
1.   Os ritos infantis da morte,
      Lascas de madeira, escaravelhos.
      Faíscas e resplendores na gruta.
      Cremação de caídos na matança noturna.
2.    Enxames de tartarugas desovam na costa.

ÉDEN
Jardim gozoso
no quintal.
Uma velha latrina
como nicho,
sepultada na erva.
Lá dentro lagartas, percevejos,
um ninho de pombas;
Um galho de lilás
toca-lhe o ventre.
Uma mosca corteja
as fezes de um cavalo.
O sorriso de deus.

VIOLAÇÃO
Brincadeiras do gato na folhagem
com o sexo de pólen de uma rosa.
Alguém geme baixinho no talo.



Fonte: http://conexos.org/2012/08/25/poemas-de-ximena-gomez/

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Antonio Barreto

BAILARINOS MANCOS
É quando poemo o pó de outrora
que morto fico sessenta vezes
e sobretudo quando penso no sol e seus insones
salvo, com tiros de trabuco para o chão,
no mínimo o som dos telefones.

É quando os camaradas tropeçam nos jornais
e machados retinem nos quintais do ouvido
que na floresta dos sexos nascem mais maridos.

Então fundo na mulher o que pulsa nas pedras:
no mínimo o compromisso de durar.

Mas durar é tomar o pulso do medo
quando a coragem consente.
Mora em mim, portanto, um batalhão de sustos convenientes.
Mora em nós, você e eu, uma procissão de bailarinos mancos
que deixam rastros no peito da noite, no mínimo
diariamente.

Publicado no "Minas Gerais" (Suplemento Literário), n. 942, 20 de outubro de 1984.
Fonte: Acervo digital da Faculdade de Letras da UFMG

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Afonso Henriques Neto

CÃO
não vou mais respirar
nunca mais ordenhar
para escrever um livro.
não vou às bacantes
ao verão de vidro sobre o mar
dos diamantes.
ficarei só com meu bulldog
(nunca tive um
apenas uma gargalhada)
só com minhas pulgas
minha pele de vulcões silenciosos
esta espécie de incêndio solitário
brilho agudo
animal titânico.
(o cão rosna
e quando todos adormecem
o licor do sonho adoça o nervo da noite
mantém o invisível).
agora só vou ao poema
pela paixão a ganir nas palavras
pelo gozo de chupá-las
corpo contra corpo
cuspo na realidade.
foda-se a musa
as cordilheiras de luz
coxas de outro verão.
o tempo sempre foi impaciência.
só agora que perdi os dentes
e o rugido
descubro a contragosto meu bulldog.
mesmos acordes aleatórios
músculos violentos sobre a presa
sais do amor
ácidos da fortuna
e estamos mortos, baby.
mas fodidos assim é que brilhamos.
não quero mais harmonia
para escrever o livro.
não vou escrevê-lo.

(Abismo com violinos - 1995)

[In: Roteiro da Poesia Brasileira - anos 70, seleção e prefácio Afonso Henriques Neto, São Paulo: Global, 2009, p. 114]

Afonso Henriques Neto

QUANDO O SOL
quando o sol tornar a colorir a figueira da montanha
aves iluminadas estarão cantando em teu silêncio.

escutarás então o inexistente tempo 
fluindo sob o peso morno das lágrimas 
sob sob.

quando o sol tocar o vento
e os longos dedos de gelo
coçarem a pele da manhã
incendiando os galos e os cabelos
das árvores e das montanhas
ninfas girando entre vertigens castanhas

quando o sol puxar entre os dentes 
o interno verbo de todas as galáxias 
altas redes de vento e luz e infinito

saberás que atrás de cada tortura 
de cada assassínio 
de toda a impostura

detrás de cada negação ou falsificação 
do humano manancial 
o olhar da vida

o permanente olhar da vida
sempre ardeu como um grito saltando do pó do avesso do ódio
dos ossos das sepulturas dos cárceres do rosto vazio e 
implacável
(Restos & estrelas & fraturas - 1975)

In: Roteiro da Poesia Brasileira - anos 70, seleção e prefácio Afonso Henriques Neto, São Paulo: Global, 2009, p. 114


segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Giorgos Seféris

De cinco Poemas do Sr. Strátis Marinheiro
I. Hampstead
Como um pássaro de asa partida
que tivesse viajado no vento anos a fio
como um pássaro que não mais pudesse suportar
o vento e a tempestade
cai a tarde.
Sobre a erva verdejante
três mil anjos tinham dançado o dia inteiro
desnudos feito aço,
cai a tarde pálida;
os três mil anjos
juntaram suas asas e trouxeram à luz
um cão
esquecido
que late
solitário
e que busca o dono 
ou o segundo advento 
ou um osso.
Agora eu busco um pouquinho de paz 
me bastaria uma choça na colina ou numa praia
me bastaria em frente da janela
um lençol tinto de anil
estendido feito mar
bastaria no meu vaso de flores
até mesmo um cravo artificial
um pedaço de papel vermelho num arame
que o vento pudesse
o vento, dirigi-lo sem esforço
a seu talante.
Vai cair a tarde
os rebanhos descem balindo para seu aprisco
como um simples e ditoso pensamento
e vai cair para que eu durma
já que não teria
uma vela sequer para acender
nem luz
para ler.
1931

In Poemas Giorgos Seféris, São Paulo: Nova Alexandria, 1995, pp. 86-87, sel., trad. e notas de José Paulo Paes. 

Quem foi Giorgos Seféris

domingo, 9 de setembro de 2012

Machado de Assis


ERRO*
(1860)

Vous...
Qui des combats du coeur n'aimez que la victoire 
Et qui revêz d 'amour, comme on rêve de gloire, 
L 'oeilfier et non voilé des pleurs...
Georges Farcy

Erro é teu. Amei-te um dia
Com esse amor passageiro
Que nasce na phantasia
E não chega ao coração;
Nem foi amor, foi apenas
Uma ligeira impressão;
Um querer indifferente,
Em tua presença vivo,
Nullo se estavas ausente.
E se ora me vês esquivo,
Se, como outr’ora, não vês
Meus incensos de poeta
Ir eu queimar a teus pés,
E que, — como obra de um dia,
Passou-me essa phantasia.

Para eu amar-te devias
Outra ser e não como eras.
Tuas frivolas chimeras,
Teu vão amor de ti mesma,
Essa pêndula gelada
Que chamavas coração,
Eram bem fracos liames
Para que a alma enamorada
Me conseguissem prender;
Foram baldados tentames,
Sahio contra ti o azar,
E embora pouca, perdeste
A gloria de me arrastar
Ao teu carro... Vãs chimeras!
Para eu amar-te devias
Outra ser e não como eras...


* Publicado originalmente no Jornal das Famílias, sob o título Amor passageiro. (NE)

Fonte: Chrysalidas,  Belo Horizonte: Ed. Crisálida:, 2000, pp. 48-49, ed. Oséias Silas Ferraz


Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...