quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Eucanaã Ferraz

ÚLTIMAS NOVIDADES
Houve o tempo em que se acreditava 
no poder da estampa: dizer um nome; 
no dizê-lo por escrito o dito era tinta 
e espírito unidos a quem o dizia de modo

fisiológico, porque tudo lhe pertencia.
Louca tecnologia a de um tempo aquele 
em que se acreditava que o nome assim 
escrito pudesse acender uma janela para

tanto todos tudo um mesmo fruto, e nisso 
um cinema sem tempo, uma ciência do instante, 
o poema, acredite, era o que parecia, que 
a felicidade se fabricava nos pertencia.

**

Recebemos um cartão. Onde estará? Havia 
um sinal característico, a carta, o papel, 
a linha-d'água, era possível segui-la, 
ia dar numa árvore, numa cidade; talvez 
fosse longe a mão que nos fizesse companhia, 
mas o farol, Pequena Ursa, boias de luz 
certificavam se era ou não a direção certa; 
porque as iniciais no envelope não mentiam,
havia presságios e, logo depois, a prova, bastava 
escolher os nomes, saber a data, agitávamos 
um lenço e, então, protocolo, métrica, ali­-
ança, pantomima, avistávamos no outro 
lado o nosso rosto e a terra e o tempo; ou 
uma frase qualquer consolava do desgosto 
de, afinal, não sabermos muita coisa, tanto 
engano, nunca sermos nada, mas nada era 
tão terrível assim. Nunca foi de outro modo, 
afinal. Recebemos um cartão. Onde andará?
Era uma palavra que dizia exatamente 
o que eu pensava.

[In Sentimental, São Paulo, Companhia das Letras, 2012, pp. 62-63]

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Gastão Cruz

MARGEM DO MAR
Volto-me para ti ou antes para
o teu lugar se é que tal abstracção
é possível, noite sem
som onde tu és o eco múltiplo
procuro

ver novamente os teus vários retratos
animados pelo sol o amor ou a respiração
o sangue torna
a passar-te nos braços fotográficos
devo continuar

a narrar o percurso irregular
da tua multiplicidade
eras o ar a árvore voltar-me
para ti é como procurar
no mar os afogados


NÃO MAIS
Não mais te seguirei a um palco suburbano 
como num mês incerto de setenta e três 
ou mais exactamente

a ninguém seguirei
seja a que lugar for com o duvidoso
e porventura inútil desígnio do amor

Gastão Cruz
Escarpas
Rio de Janeiro, Móbile Editorial
2011
pp. 26-27


terça-feira, 13 de novembro de 2012

Sophia de Mello Breyner Andresen

O SOL O MURO O MAR
O olhar procura reunir um mundo que foi destroçado
pelas fúrias.
Pequenas cidades: muros caiados e recaiados
para manter intacto o alvoroço do início.
Ruas metade ao sol metade à sombra.
Janelas com as portadas azuis fechadas: violento azul
sem nenhum rosto.
Lugares despovoados, labirinto deserto: ausência intensa
como o arfar de um toiro.
Exterior exposto ao sol, senhor dos muros dos pátios
dos terraços.
Obscuros interiores rente à claridade, secretos e atentos:
silêncio vigiando o clamor do sol sobre as pedras da
calçada.
Diz-se que para que um segredo não nos devore é
preciso dizê-lo em voz alta no sol de um terraço ou de
um pátio.
Essa é a missão do poeta: trazer para a luz e para o
exterior o medo.
Muros sem nenhum rosto morados por densas ausências.
Não o homem mas os sinais do homem, a sua arte, os
seus hábitos, o seu violento azul, o espesso amarelo, a
veemência da cal.
Muro de taipa que devagar se esboroa — tinta que se
despinta — porta aberta para o pátio de chão verde:
soleira do quotidiano onde a roupa seca e espaço de teatro.
Mas também pórtico solene aberto para a vida
sagrada do homem.
Muro branco que se descaia e azula irisado de manchas
nebulosas e sonhadoras.
A porta desenha sua forma perfeita à medida do homem: as
cores do cortinado de fitas contam a nostalgia de uma festa.
Lá dentro a penumbra é fresca e vagarosa.
Nenhum rosto, nenhum vulto.
As marcas do homem contando a história do homem.

No promontório o muro nada fecha ou cerca.
Longo muro branco entre a sombra e o rochedo e as
lâmpadas das águas.
No quadrado aberto da janela o mar cintila coberto de
escamas e brilhos como na infância.
O mar ergue o seu radioso sorrir de estátua arcaica,
Toda a luz se azula.
Reconhecemos nossa inata alegria: a evidência do lugar
sagrado.


[In OBRA POÉTICA, Alfragide,  Caminho, 2011, pp. 739-740].


domingo, 11 de novembro de 2012

Júlio Castañon Guimarães


ESTUDO PARA ONTEM
tanto quanto se sobe a Mantiqueira
tanto quanto noite adentro
a Mantiqueira te envolve com o frio
tanto quanto à noite no alto da Mantiqueira
os perfis escuros das árvores
marcados contra a noite
assim quase imóveis na cerração que corre
tanto quanto na Mantiqueira
se chega a tal ponto

a tal ponto da memória
em que ao longo das curvas
lento se recurva sobre si o corpo
contra ele próprio envolto
e uma espiral desaba desenvolta
até os confins de outra cerrada cerração
tão remota tão sem repercurso
que sequer se pode entrever
a manhã clara e o espaço aberto
dentro em pouco sobre a Mantiqueira

a noite sim a noite insiste sempre adiante
tanto quanto se sobe a Mantiqueira
para que melhor se desfie a espiral
que desce até quando
o corpo sobre outro se envolvia
até mesmo quando lá no alto
em meio às árvores
ainda eram desde sempre
os únicos personagens do horizonte
mergulhados num silêncio
tanto quanto se sobe a Mantiqueira
a  cada curva da espiral
num silêncio que subsiste
concreto como uma sombra

In Poemas [1975 - 2005], Cosacnaif: São Paulo, 2006, pp. 85-86

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Olga Orozco


LAMENTO DE JONAS
Este corpo tão denso com que fecho todas as saídas,
este paletó de sombras costurado às minhas duas asas
não me impede de ir até o fundo de mim:
uma noite fechada onde se refletem todas as miragens da noite,
umas águas absortas onde molha seus pés a esfinge de outro mundo.

Aqui costumo encontrar vestígios de outra idade,
fragmentos de panteões não dissolvidos pelo sal de meu sangue,
oráculos e faunas aspirados pelas cinzas de meu porvir.
Às vezes aparecem continentes voando, plumas de outras roupagens submersas;
Às vezes permanecem quase como o anúncio da ressurreição.

Mas é melhor não estar.
Porque aqui há armadilhas.
Alguém brinca de não estar quando eu estou
ou me observa das tocas de cada solidão.
Alguém simula um fosso entre o sonho e a pele para que me
deslize até o último abismo dos outros.
 Ou me induz a escavar debaixo de minha sombra.

É difícil sair.
Me tampam com um muro que só corre em direção ao nunca, jamais;
me escolhem para morrer lentamente;
me amaram às veias de um organismo cego que me exala e
me aspira sem cessar.

E o coração no entanto,
onde o coração, o tambor de saudades
que convoca em trevas a todos os relevos?
Para não falar deste corpo,
deste guardião opaco que me transporta e me retém
e me lança consigo em uma náusea dos pés à cabeça.

Sou meu próprio refém,
o lento refugio do veneno do verdugo,
o pacto com a morte.
E quem acaso disse que este seria um lugar para mim?


Fonte: Olga Orozco, Poesía Completa, Adriana Higaldo Editora: Buenos Aires, 2011, pp. 162-163.
Tradução: José Pires Cardoso e Antonio Damásio Rêgo Filho 




quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Renata Pallottini

ANTONIO EM LISBOA
1
Ouve, Antonio, quando fores a Lisboa 
espera a noite chegar,
mas que seja noite funda
e noite desesperada,
sai pra longe da cidade
pra fora, ao que lá se chama
não sei se fora de portas 
e vai ao Lobos do Mar.
O lobo é falsificado,
o mar é falsificado,
Nazaré cheira a Miami
mas não faz mal.
Vai e diz àqueles lobos
que eu os amo com constância,
com muita inutilidade
como convém que se ame
ao que longe nos está.
Em disponibilidade:
e que choro a madrugada
(e que choro a madrugada)
que me arrebatou de lá.

2
Imprecisão de lugares e réstias de sol sobre as pedras;
um cheiro de flor anônima: ciência de primavera.

Lembras-te do café no Rocio? Era de tarde,
o frio era amável e abria os braços
enquanto a fonte distribuía pássaros.

Lembras-te dos livros postos para a nossa gula?
Depois de subir a ladeira
que grande fome, a nossa, de Pessoa!

Bela coisa, ter-se fome e ser primavera,
bela coisa, beber-se café num grande gole tranqüilo
e estar-se tão imensamente vivo,
com o ar transeunte entre os dedos,
com sangue nos lábios conscientes
que vedam para sempre as palavras denunciadoras,
que guardam para sempre essa solene alegria.

3 (Cantadeira)
Fazes pensar num quarto — água-furtada —
num leito modestíssimo e insalubre
onde deitassem tua submissão.

Ali, tendo a cabeça subjugada,
havias de cantar um fado triste
pra aquela original celebração

a alguém que por mulher te tomaria
e não, como o desejas, por canção.

[In Obra Poética, São Paulo, Editora Hucitec, 1995, p. 82-84]
Abel Manta

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Augusto Frederico Schmidt


ALMA
Às vezes eu sinto – minha alma
Bem viva.
Outras vezes porém ando erradio,
Perdido na bruma, atraído por todas as distâncias.

Às vezes entro na posse absoluta de mim mesmo
E a minha essência é alguma coisa de palpável
E de real.
Outras vezes porém ouço vozes chamando por mim,
Vozes vindas de longe, vozes distantes que o vento traz nas tardes mansas.

Sou o que fui ...
Sou o que serei ...

Às vezes me abandono inteiramente a saudades estranhas
E viajo por terras incríveis, incríveis.
Outras vezes porém qualquer coisa à-toa –
O uivo de um cão na noite morta,
O apito de um trem cortando o silêncio,
Uma paisagem matinal,
Uma canção qualquer surpreendida na rua –
Qualquer coisa acorda em mim coisas perdidas no tempo
E há no meu ser uma unidade tão perfeita
Que perco a noção da hora presente, e então

Sou o que fui.
E sou o que serei.

Coleção Melhores Poemas, seleção de Ivan Marques, Global Editora: São Paulo, 2010, pp. 41-42


Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...