ELES SE VÃO
Eles se vão, os olhos no infinito,
a alma em vigília, o tíbio pensamento
suspenso no ar como um emblema e um grito.
Eles se vão, eles se vão. As mãos
são flâmulas em fluido movimento
à procura de duendes e de irmãos.
Eles se vão, esguios bailarinos
que dançam entre as vértebras do vento
ao som arcaico de órficos violinos.
Sortilégios, ambíguos e secretos,
trazem na fronte o alfanje do tormento
e são-lhe os passos pássaros inquietos.
Nenhum palmo de terra os enraíza,
nem lhes concede gozo ou sofrimento,
e o efêmero em seu visgo os eterniza.
Nada os detém, nem rogos nem promessas,
e os dois extremos, morte e nascimento,
lhes sabem como imagens às avessas.
Cristais de um brilho esfíngico e assassino
ofuscam-lhes o rosto sonolento
quando os acorda o fel do sol a pino.
E a tarde escorre lenta como um rio
que os banha no torpor do esquecimento
ou de algo mais espesso e mais sombrio.
De si não deixam mais do que um indício,
como se à luz de um vago testamento
o fim lhes desse o frêmito do início.
Eles se vão. O céu não lhes responde
e o inferno não lhes ouve um só lamento.
Eles se vão. Mas para onde?
Ivan Junqueira. Poemas Reunidos, São Paulo:Record, 1999, p. 241
sábado, 15 de dezembro de 2012
sexta-feira, 14 de dezembro de 2012
José Tolentino Mendonça
O Anjo do Advento
Venha o teu anjo abrir de novo estas portas
ao anúncio da vida pura e repentina
que eleva os nossos dias mesmo baços
à altura da promessa
Venha o teu anjo restabelecer o alfabeto censurado
ensaiar a dança que os gestos ignoram
Venha apontar o dia límpido, só pelo azul esclarecido
desprender-nos da cinza do desânimo e do sono
guiar-nos para lá das fronteiras
Venha o teu anjo nomear o que trazemos
e passa de um dia para outro sempre adiado
Venha redizer o corpo inacabado
Este reticente modo de habitação
ainda à espera do seu nascer verdadeiro
Sobre José Tolentino Mendonça
Fonte: Site do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, Portugal
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| Ticiano |
Antonio Barreto
A TERCEIRA PARTE DA NOITE
Você é muda
por isso te amo sem censuras.
Ponho a mochila nas costas
estendo o corpo na grama
e te descubro no céu.
Você é um punhado de estrelas no lençol
querendo me dar carona.
O EXILADO AQUI
Não entrarei nessa guerra.
Prefiro matar pernilongos com gominha.
Mesmo que os tambores troem nos tímpanos
do vizinho, mesmo que os clarins espetem os grilos
do jardim, não entrarei. E não adianta
me oferecerem cigarros que o que quero mesmo é um
copo d´água.
(Fico com medo dos Rolling Stones terem plagiado
o Pixinguinha).
(Fico com medo da fechadura não servir na chave).
Mas se você tem todas as chaves
por que não faz de conta que sou a porta?
LOUCURAS DE VERÃO
Sem recheio não dá pra morder o sanduíche do céu.
A vida galinha comigo, Baby,
mas ainda tenho um barão pra dois meses de sorvete.
Vou botar teu retrato no bolso de trás.
Hoje os anjos estão menstruados
e Deus comendo ovo
com seus dois namorados. Amanhã eu mordo
teu coração.
Por enquanto fico aqui
amassando rosas no alicate das mãos.
MINAS GERAIS. Suplemento Literário, Belo Horizonte v. 18, n. 871, p. 12, jun. 1983
Fonte: Portal da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais.
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| SERLU |
quinta-feira, 13 de dezembro de 2012
Giorgos Seféris
Lembrança, I
e o mar não mais existe
Eu sozinho com uma flauta nas mãos;
a noite deserta a lua no minguante
e a terra a recender da última chuva.
Murmurei: "Onde quer que a toque, a lembrança me dói,
céu há pouco, o mar já não existe;
o que matam de dia, com carretas o esvaziam atrás do
[monte."
Meus dedos brincavam distraídos com a flauta
que um velho pastor me deu porque lhe desejei boa-tarde;
os outros aboliram cumprimentos:
despertam, barbeiam-se e começam a matança diária,
como se poda ou se opera, metodicamente, sem paixão;
a dor é um cadáver como Pátroclo e ninguém comete enganos.
Pensei em tocar uma ária mas tive vergonha das pessoas
que me vêem além da noite dentro da minha luz tecida pelos corpos vivos, pelos corações desnudos e pelo amor que pertence tanto às Fúrias
como ao homem e à pedra e à água e à erva
e ao bicho que olha a morte de frente quando ela o vem
[buscar.
Foi assim que avancei pela vereda escura
de volta ao meu jardim onde cavei um buraco e sepultei a
[flauta
e tornei a murmurar: "Um dia haverá ressurreição,
quando na primavera as árvores brilharem, a rósea manhã
[irá resplandecer,
voltará o mar e outra vez Afrodite surgirá das ondas;
Nós somos a semente que morre." E entrei na minha casa
[vazia.
In Poemas Giorgos Seféris, São Paulo: Nova Alexandria, 1995, pp. 140-141, sel., trad. e notas de José Paulo Paes.
quarta-feira, 12 de dezembro de 2012
Cláudio Daniel
A ARTE DA POESIA
Os poetas em Lizzey são todos cegos.
Caminham apoiados em bengalas em
forma de serpente e são guiados por
cães que lhes mordem as pernas e
depois lambem as feridas. Ninguém
pode tocá-los, nem mesmo ficar à sua
sombra ou dirigir-lhes a palavra sem
sujar-se. Eles se arrastam pelas ruas
declamando seus romances, cuspindo
as sílabas entre caretas de suas bocas
tortas. Quando um poeta consegue
causar êxtase à multidão, às vezes pela
pronúncia de uma única palavra, todos
se calam e ficam como sonâmbulos.
Depois, como recompensa, os habi-
tantes de Lizzey juntam paus e pedras
e apedrejam o rapsodo. O seu corpo,
então, é disputado com avidez pelas
feras, que nada sabem de poesia.
(Inédito)
Sobre Cláudio Daniel
Fonte: Poetas na Biblioteca Antologia, São Paulo: Fundação Memorial da América Latina, 2001, p. 75
terça-feira, 11 de dezembro de 2012
Carminha Gouthier
E EU ME CURVO DE DOR
Teus rebanhos se multiplicam
em doce alvura pelo sem fim,
teares trabalham dia e noite,
urdindo mantos de inverno.
E eu me curvo de frio.
Espigas silenciam de tão pesadas,
abelhas dançam música
nos ramos floridos,
o mel transborda nas Tuas medidas.
E eu me curvo de fome.
Em tuas arcas refulgem
braceletes, diademas, pérolas,
que ninguém pode contar.
E eu me curvo de dor,
porque levaste
o pequeno aro de ouro da minha mão.
DE ONDE O LAMENTO?
Tão próximo este mar,
grande a noite que desceu,
treva única, murmurante.
Onde a montanha,
o barco,
papagaios que dançavam cores
em hastes invisíveis?
Ondas da noite?
Ondas do mar?
Abismos de sombra,
estrelas paradas,
abismos humanos,
angústias somadas.
De onde o lamento?
Navio fantasma
levou tantos sóis
levou tantos sonhos,
levou o que era
de muito guardar...
Levou o anel
de nome gravado,
levou os vestidos
tecidos de prata.
De onde o lamento?
Da noite ou do mar?
Das praias de hoje,
da serra longínqua,
dos velhos telhados?
De onde o lamento,
ninguém saberá.
Mystica poesia, poemas reunidos, ed. José Hipólito de Faria, Belo Horizonte, 2003, pp. 136-137
Teus rebanhos se multiplicam
em doce alvura pelo sem fim,
teares trabalham dia e noite,
urdindo mantos de inverno.
E eu me curvo de frio.
Espigas silenciam de tão pesadas,
abelhas dançam música
nos ramos floridos,
o mel transborda nas Tuas medidas.
E eu me curvo de fome.
Em tuas arcas refulgem
braceletes, diademas, pérolas,
que ninguém pode contar.
E eu me curvo de dor,
porque levaste
o pequeno aro de ouro da minha mão.
DE ONDE O LAMENTO?
Tão próximo este mar,
grande a noite que desceu,
treva única, murmurante.
Onde a montanha,
o barco,
papagaios que dançavam cores
em hastes invisíveis?
Ondas da noite?
Ondas do mar?
Abismos de sombra,
estrelas paradas,
abismos humanos,
angústias somadas.
De onde o lamento?
Navio fantasma
levou tantos sóis
levou tantos sonhos,
levou o que era
de muito guardar...
Levou o anel
de nome gravado,
levou os vestidos
tecidos de prata.
De onde o lamento?
Da noite ou do mar?
Das praias de hoje,
da serra longínqua,
dos velhos telhados?
De onde o lamento,
ninguém saberá.
Mystica poesia, poemas reunidos, ed. José Hipólito de Faria, Belo Horizonte, 2003, pp. 136-137
segunda-feira, 10 de dezembro de 2012
Mariana Ianelli
DEZEMBRO
Três e meia da tarde no relógio de parede
No fundo à esquerda de uma fotografia
E do teu rastro d’água contra um céu de dezembro
Nem o mais tênue vestígio.
Antes alguma âncora te prendesse.
Nada te prende. O que inspira
Não te move mas te apaga e dessedenta.
Um sol de dezembro. Um sol além do medo.
In O Amor e Depois, São Paulo: Iluminuras, 2012, p.63
Três e meia da tarde no relógio de parede
No fundo à esquerda de uma fotografia
E do teu rastro d’água contra um céu de dezembro
Nem o mais tênue vestígio.
Antes alguma âncora te prendesse.
Nada te prende. O que inspira
Não te move mas te apaga e dessedenta.
Um sol de dezembro. Um sol além do medo.
In O Amor e Depois, São Paulo: Iluminuras, 2012, p.63
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