INVOCAÇÃO AO AMOR
Pedir-te a sensação
a água
o travo
Aquele odor antigo
de uma parede
branca
Pedir-te da vertigem a certeza
que tens nos olhos quando
me desejas
Pedir-te sobre a mão
a boca inchada
um rasto de saliva na garganta
Pedir-te que me dispas
e me deites
de borco e os meus seios na tua cara
Pedir-te que me olhes e me aceites
me percorras
me invadas me pressintas
Pedir-te que me peças
que te queira
no separar das horas sobre a língua
Meu ciúme
meu perfil
minha fome
Meu sossego
minha paz
minha aventura
Meu sabor
minha avidez
saciedade
Minha noite
minha angústia
meu costume
TU
Com esse teu ar
de arcanjo negro
pálido e magro
triste e alheado
ficas por vezes quase etéreo
calado
enquanto eu te olho docemente
Num espanto condenado
quase místico
debruço-me secreta à tua beira
e numa espécie de prece
porque existes
alheado magro
belo e triste
estou de joelhos meu amor
e beijo-te
(Palavras Secretas, São Paulo, Ed. Escrituras, 2007, p. 41-43)
ACUSAÇÃO NO VENTO
Acusaram-me as mãos
na loucura das luas
inclinadas na cintura
das noites
A angústia das aves
só duas
em horizontal no coração das gôndolas
celebraram a paixão
dos amantes sem lábios
rarearam os pianos
nos sonhos
nos espelhos
a angústia
tomou a forma
duma mulher
vestida de encarnado
paixões desencontradas
no som dos violinos
mortos pelo vento
pântanos na vertigem
das princesas
deslealdade
das luzes de neon
entornada nos lagos
acusaram-me os arbustos
nos cabelos
(Palavras Secretas, São Paulo, Ed. Escrituras, 2007, p. 19)
segunda-feira, 7 de janeiro de 2013
domingo, 6 de janeiro de 2013
Alejandra Pizarnik
Um golpe da aurora nas flores
me abandona ébria de nada e de luz lilás
ébria de imobilidade e de certeza
***
Te distancias dos nomes
que fiam o silêncio das coisas
***
Aqui vivemos com uma mão na garganta. Que nada é possível, isso já o sabiam os que inventavam chuvas e teciam palavras com o tormento da ausência. Por isso em suas orações havia um som de mãos enamoradas da névoa.
Para André Pieyre de Mandiargues
***
no inverno fabuloso
a endecha das asas na chuva
na memória da água dedos de névoa
***
É um cerrar os olhos e jurar não abri-los. Enquanto isso, do lado de fora, se alimentem de relógios e de flores nascidas da astúcia. Mas com os olhos fechados e um sofrimento imenso pressionamos os espelhos até que as palavras esquecidas soem magicamente.
***
alguma vez
alguma vez tal vez
irei sem ficar
irei como quem vai
Para Ester Singer
***
Vida, minha vida, cai, dói, minha vida, enlaça-te de fogo, de silêncio ingênuo, de pedras verdes na casa da noite, cai e dói, minha vida.
***
Para além de qualquer zona proibida
há um espelho para nossa triste transparência
In Árbol de Diana (1962)
me abandona ébria de nada e de luz lilás
ébria de imobilidade e de certeza
***
Te distancias dos nomes
que fiam o silêncio das coisas
***
Aqui vivemos com uma mão na garganta. Que nada é possível, isso já o sabiam os que inventavam chuvas e teciam palavras com o tormento da ausência. Por isso em suas orações havia um som de mãos enamoradas da névoa.
Para André Pieyre de Mandiargues
***
no inverno fabuloso
a endecha das asas na chuva
na memória da água dedos de névoa
***
É um cerrar os olhos e jurar não abri-los. Enquanto isso, do lado de fora, se alimentem de relógios e de flores nascidas da astúcia. Mas com os olhos fechados e um sofrimento imenso pressionamos os espelhos até que as palavras esquecidas soem magicamente.
***
alguma vez
alguma vez tal vez
irei sem ficar
irei como quem vai
Para Ester Singer
***
Vida, minha vida, cai, dói, minha vida, enlaça-te de fogo, de silêncio ingênuo, de pedras verdes na casa da noite, cai e dói, minha vida.
***
Para além de qualquer zona proibida
há um espelho para nossa triste transparência
In Árbol de Diana (1962)
sábado, 5 de janeiro de 2013
Mariana Ianelli
EXPIAÇÃO
Da parceria profunda
reconheço os meus filhos alçados pelo reverso,
nos cordéis do pavilhão
onde cessam aqueles aventureiros
que aprovaram sobre seus prazeres o mal.
Desalinhados pelo osso,
com suas letras emborcadas na pedra,
o couro jovem desfiado em escarlate,
cravado na vara alta por semanas.
Ao toque de alarma para a agonia,
entre se resolverem pelo ferro
ou pelo único tributo indulgente
de rendição que os vingasse,
eles foram acautelados por mim,
ungidos com o meu soro bento
e depois completamente escarnados.
In Duas Chagas, São Paulo: Iluminuras, 2001, p. 95
Da parceria profunda
reconheço os meus filhos alçados pelo reverso,
nos cordéis do pavilhão
onde cessam aqueles aventureiros
que aprovaram sobre seus prazeres o mal.
Desalinhados pelo osso,
com suas letras emborcadas na pedra,
o couro jovem desfiado em escarlate,
cravado na vara alta por semanas.
Ao toque de alarma para a agonia,
entre se resolverem pelo ferro
ou pelo único tributo indulgente
de rendição que os vingasse,
eles foram acautelados por mim,
ungidos com o meu soro bento
e depois completamente escarnados.
In Duas Chagas, São Paulo: Iluminuras, 2001, p. 95
sexta-feira, 4 de janeiro de 2013
Hilda Hilst
I
Carrega-me contigo, Pássaro-Poesia
Quando cruzares o Amanhã, a luz, o impossível
Porque de barro e palha tem sido esta viagem
Que faço a sós comigo. Isenta de traçado
Ou de complicada geografia, sem nenhuma bagagem
Hei de levar apenas a vertigem e a fé:
Para teu corpo de luz, dois fardos breves.
Deixarei palavras e cantigas. E movediças
Embaçadas vias de Ilusão.
Não cantei cotidianos. Só cantei a ti
Pássaro-Poesia
E a paisagem-limite: o fosso, o extremo
A convulsão do Homem.
Carrega-me contigo.
No Amanhã.
II
Como se perdesse, assim te quero.
Como se não te visse (favas douradas
Sob um amarelo) assim te apreendo brusco
Inamovível, e te respiro inteiro
Um arco-íris de ar em águas profundas.
Como se fosse tudo o mais me permitisses,
A mim me fotografo nuns portões de ferro
Ocres, altos, e eu mesma diluída e mínima
No dissoluto de toda despedida.
Como se te perdesse nos trens, nas estações
Ou contornando um círculo de águas
Removente ave, assim te somo a mim:
De redes e de anseios inundada.
III
De uma fome de afagos, tigres baços
Vêm se juntar a mim na noite oca.
E eu mesma estilhaçada, prenhe de solidões
Tento voltar à luz que me foi dada
E sobreponho as mãos nas veludosas patas.
De uma fome de sonhos
Tento voltar àquelas geografias
De um Fazedor de versos e sua estada.
Memorizo este ser que me sou
E sobre os fulcros dentes, ali
É que passeio e deslizo a minha fome.
Então se aquietam de pura madrugada
Meus tigres de ferrugem. As garras recolhidas
Como se mesmo a morte os excluísse.
In Obra Poética Reunida, Brasilia: Editora da UNB, 1998 pp. 35-36
Carrega-me contigo, Pássaro-Poesia
Quando cruzares o Amanhã, a luz, o impossível
Porque de barro e palha tem sido esta viagem
Que faço a sós comigo. Isenta de traçado
![]() |
| Aquarela Marina Martinelli |
Hei de levar apenas a vertigem e a fé:
Para teu corpo de luz, dois fardos breves.
Deixarei palavras e cantigas. E movediças
Embaçadas vias de Ilusão.
Não cantei cotidianos. Só cantei a ti
Pássaro-Poesia
E a paisagem-limite: o fosso, o extremo
A convulsão do Homem.
Carrega-me contigo.
No Amanhã.
II
Como se perdesse, assim te quero.
Como se não te visse (favas douradas
Sob um amarelo) assim te apreendo brusco
Inamovível, e te respiro inteiro
Um arco-íris de ar em águas profundas.
Como se fosse tudo o mais me permitisses,
A mim me fotografo nuns portões de ferro
Ocres, altos, e eu mesma diluída e mínima
No dissoluto de toda despedida.
Como se te perdesse nos trens, nas estações
Ou contornando um círculo de águas
Removente ave, assim te somo a mim:
De redes e de anseios inundada.
III
De uma fome de afagos, tigres baços
Vêm se juntar a mim na noite oca.
E eu mesma estilhaçada, prenhe de solidões
Tento voltar à luz que me foi dada
E sobreponho as mãos nas veludosas patas.
De uma fome de sonhos
Tento voltar àquelas geografias
De um Fazedor de versos e sua estada.
Memorizo este ser que me sou
E sobre os fulcros dentes, ali
É que passeio e deslizo a minha fome.
Então se aquietam de pura madrugada
Meus tigres de ferrugem. As garras recolhidas
Como se mesmo a morte os excluísse.
In Obra Poética Reunida, Brasilia: Editora da UNB, 1998 pp. 35-36
quinta-feira, 3 de janeiro de 2013
Henriqueta Lisboa
AS PALAVRAS
1
Este é um planeta de palavras
neutras movíveis e versáteis
que de rodízio pela ponte
vão ter à margem oposta
Candentes em água fria
petrificadas no fogo
tumultuam-se as palavras
umas prontas para o jogo
outras intactas à sorte
Mantêm auras de mistério
nos percursos de ida e volta
conforme o sangue que as gera
o incentivo que as abrasa
conforme a língua que as solta
ou que as segura na raça.
2
Os cardos se abriram
fecharam-se os lírios
horizontes amplos
estreitaram o âmbito
só pela palavra
que em tempo de espera
nos foi sonegada.
A casa estremece
no próprio alicerce
pelo desatino
de alguma palavra
de metal ferino
que nos fira o ouvido
sem qualquer preparo.
Os verdes ondulam
ao longo das várzeas
espelhos se aclaram
no colo das grutas
por palavra terna
que a alma nos enleva
no momento exato.
Ó cores nascidas
ó sombras criadas
ó fontes detidas
Ó águas roladas
Ó campos abertos
por simples palavras.
3
Segredos expostos
tingem de rubor
a palavra rosa
Como que em deslize
tocam-se cristais
na palavra brisa
Algo se insinua
de abandono e flauta
na palavra azul
Desgastados mantos
pesam sobre o leito
da palavra fama
Espinheiro agreste
rompe raiva e ruge
na palavra guerra
Não há luz que corte
o ermo corredor
da palavra morte.
1
Este é um planeta de palavrasneutras movíveis e versáteis
que de rodízio pela ponte
vão ter à margem oposta
Candentes em água fria
petrificadas no fogo
tumultuam-se as palavras
umas prontas para o jogo
outras intactas à sorte
Mantêm auras de mistério
nos percursos de ida e volta
conforme o sangue que as gera
o incentivo que as abrasa
conforme a língua que as solta
ou que as segura na raça.
2
Os cardos se abriram
fecharam-se os lírios
horizontes amplos
estreitaram o âmbito
só pela palavra
que em tempo de espera
nos foi sonegada.
A casa estremece
no próprio alicerce
pelo desatino
de alguma palavra
de metal ferino
que nos fira o ouvido
sem qualquer preparo.
Os verdes ondulam
ao longo das várzeas
espelhos se aclaram
no colo das grutas
por palavra terna
que a alma nos enleva
no momento exato.
Ó cores nascidas
ó sombras criadas
ó fontes detidas
Ó águas roladas
Ó campos abertos
por simples palavras.
3
Segredos expostos
tingem de rubor
a palavra rosa
Como que em deslize
tocam-se cristais
na palavra brisa
Algo se insinua
de abandono e flauta
na palavra azul
Desgastados mantos
pesam sobre o leito
da palavra fama
Espinheiro agreste
rompe raiva e ruge
na palavra guerra
Não há luz que corte
o ermo corredor
da palavra morte.
ROSA PLENA
Rosa plena. Em glória
de cor
de forma
de febre
de garbo.
Em auréola sobre si mesma
— estática.
Em arroubo diante da luz
— dinâmica.
Enrodilhada em aconchego de concha
buscando o núcleo.
Fugindo-lhe ao cerco
— asas aflantes flamejantes.
Rosa plena.
Turíbulo. Ostensório.
Convite à valsa dos ventos.
Tributo ao círculo — perfeição
de chegar e partir.
Cada pétala é um sonho de retorno.
E as pétalas se avolumam compactas
e esmaecidas logo se despejam ao longo e ao largo
— no fascínio
do pretérito pelo devir.
Sangue em oblata
Amor e morte
pela revelação.
Rosa plena.
Poesia,
que se fez Carne.
(Pousada do Ser)
Henriqueta Lisboa, Obras Completas, Vol. I, Poesia Geral, São Paulo, Duas Cidades, 1985, pp. 514-517.
quarta-feira, 2 de janeiro de 2013
Marguerite Duras
EXCERTO DE "YANN ANDRÉA STEINER"
Você entende, como resistir a uma coisa dessas, alguém tão pleno de infância que quer tudo junto, ao mesmo tempo. Rasgar os livros, queimá-los. E sentir medo pelo seu desaparecimento. Você sabia que o livro já existia. Você me dizia: o que a senhora pensa fazer? O que tudo isso quer dizer? Estar escrevendo o tempo todo, o dia todo? A senhora vai ser abandonada por todos, porque é louca, insuportável. Uma babaca... Nem vê que está bagunçando as mesas com tantos rascunhos, por toda a parte pilhas e pilhas...
Acontece de a gente rir junto dos seus acessos de raiva. De repente. Às vezes acontece você ficar com medo de que eu jogue o livro no mar ou o queime. Às vezes você volta às cinco da manhã das suas perambulações, das suas seções de contemplação daqueles inefáveis barmen dos grandes hotéis da colina, considerados os mais luxuosos do mundo. Feliz de voltar desses lugares maravilhosos. Muitas vezes estou dormindo quando você volta. Ouço você se dirigir à sala para verificar se o manuscrito está ali, em cima da mesa. E depois à cozinha, para ver se sobrou café no pacote, pão e manteiga e café!
Comecei a não falar mais com você. A somente lhe dar bom dia no meio da felicidade. A deixá-lo sozinho. A comprar-lhe bifes. A vê-lo apenas de manhã, saindo desgrenhado do seu quarto à procura de um café forte, e a rir até as lágrimas do seu ar de administrador, da sua fiscalização.
Você assustava, muitas vezes eu tinha medo de você. E em volta de nós se tinha medo por mim. Eu achava que a cada dia você era mais sincero, mas que era tarde demais para mim, que eu não podia mais conter você. Como nunca consegui conter o medo de você. Você não sabe me poupar do medo de ser morta por você. Todas as minhas amigas e conhecidas estão encantadas com a sua doçura. Você é meu melhor cartão de visitas. Para mim, sua doçura me leva de volta à morte, a qual você certamente sonha em me dar, sem saber. A cada noite.
Às vezes, sinto medo desde que você acorda. A cada dia, nem que seja somente durante alguns segundos, você se torna, como todos os homens, um assassino de mulheres. Isso pode ocorrer todos os dias. Às vezes, você dá medo como um caçador sem rumo, um criminoso em fuga. E disto, em volta de mim, acontecia que temessem por mim. Mas eu conservei isso, tenho medo de você. A cada dia, em momentos muito breves que lhe escapam, tenho medo do seu olhar sobre mim.
Às vezes, basta o seu olhar para eu ter medo. Às vezes, nunca te vi antes. Não sei mais o que vieste buscar nessa estação balneária tão frequentada nessa temporada mortal, lotada, onde estás ainda mais só do que na tua cidade de província.
A fim, talvez, de conseguir matá-lo, expulsá-lo, não sei, acontece-me de nunca ter te visto antes. De te ignorar até o pânico. De não mais saber de modo algum por que estás aqui, o que vieste procurar aqui e também o que vais fazer de ti mesmo. O dia de amanhã é o único assunto que jamais abordamos.
Tu também não deves mais saber o que estás fazendo aqui, na casa desta mulher já idosa, louca de escrever.
Pode ser que seja como de costume, que seja sempre assim, que não seja nada, que tenhas simplesmente vindo porque estavas desesperado, como em cada dia da tua vida estás, e também durante alguns verões e a certas horas dos dias e das noites quando o sol deixa o céu, por exemplo, e penetra no mar a cada noite para sempre, tu não podes te impedir de querer morrer. Sei disso.
Nos vejo perdidos os dois na mesma espécie de natureza. Me acontece de ser invadida de ternura pela espécie de gente que somos. Instáveis, dizem as pessoas, loucos, um pouco. “Gente que não vai mais ao cinema, nem ao teatro, nem às recepções.” Gente de esquerda, está se vendo, é assim mesmo, não sabe mais viver, Cannes os aborrece e também os grandes hotéis marroquinos. O cinema, o teatro, tudo igual.
[In Yann Andréa Steiner, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1993, pp. 61-64].
terça-feira, 1 de janeiro de 2013
Florisvaldo Mattos
CAFÉ MATINAL
A Carlos Nelson Coutinho
I
Agora podemos saber o que é pior:
a mente desconexa, a fome a navalhadas.
Mesmo que nos reste a ferida dos signos,
roto lábio sobre espigas de fel,
nada nos salvará, nada será pior.
A luz está no caos celebrando vontades
durando nos espaços matutinos.
No exato momento, ao deus
que nos valeu somos gratos - e mudos
nem mesmo reparamos que se fende
o universo da ilusão.
A lição de modéstia que renova
o passado dos gestos preferimos
o som metálico das vozes - ou apenas
nos rendemos ao peso do silêncio.
II
De meu querer me liberto. Agora vejo:
a verdade resiste a meu próprio consumo.
E sendo credo e coisa, permaneço
longe de mim e perto da verdade,
canto civil engendrado nas perfídias
do tempo, inscrito no muro do sono.
Agora vejo claramente: a luz
rompe o surdo planalto de bandeiras,
favorecida pelo inédito
de tudo. Desce e inaugura para sempre
o instante anônimo da verdade -
o súbito clarão das coisas simples.
A luz está no caos. Acorde e veja.
Fonte: Poesia Reunida e Inéditos, São Paulo: Escrituras Editora, 2011, p. 84
Sobre o autor: Florisvaldo Mattos é natural de Uruçuça, no sul da Bahia. Escritor e poeta, participou com Gláuber Rocha do grupo que editava a revista Mapa. Publicou, dentre outros, os livros Lucernário, poesia, e Uma História da Poesia Brasileira. Membro da Academia de Letras da Bahia, atualmente ocupa o cargo de editor-chefe do jornal diário A tarde, de Salvador.
A Carlos Nelson Coutinho
I
Agora podemos saber o que é pior:
a mente desconexa, a fome a navalhadas.
Mesmo que nos reste a ferida dos signos,
roto lábio sobre espigas de fel,
nada nos salvará, nada será pior.
A luz está no caos celebrando vontades
durando nos espaços matutinos.
No exato momento, ao deus
que nos valeu somos gratos - e mudos
nem mesmo reparamos que se fende
o universo da ilusão.
A lição de modéstia que renova
o passado dos gestos preferimos
o som metálico das vozes - ou apenas
nos rendemos ao peso do silêncio.
II
De meu querer me liberto. Agora vejo:
a verdade resiste a meu próprio consumo.
E sendo credo e coisa, permaneço
longe de mim e perto da verdade,
canto civil engendrado nas perfídias
do tempo, inscrito no muro do sono.
Agora vejo claramente: a luz
rompe o surdo planalto de bandeiras,
favorecida pelo inédito
de tudo. Desce e inaugura para sempre
o instante anônimo da verdade -
o súbito clarão das coisas simples.
A luz está no caos. Acorde e veja.
Fonte: Poesia Reunida e Inéditos, São Paulo: Escrituras Editora, 2011, p. 84
Sobre o autor: Florisvaldo Mattos é natural de Uruçuça, no sul da Bahia. Escritor e poeta, participou com Gláuber Rocha do grupo que editava a revista Mapa. Publicou, dentre outros, os livros Lucernário, poesia, e Uma História da Poesia Brasileira. Membro da Academia de Letras da Bahia, atualmente ocupa o cargo de editor-chefe do jornal diário A tarde, de Salvador.
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Fernando Paixão
Os berros das ovelhas de tão articulados quebram os motivos. Um lençol de silêncio cobre a tudo e todos. Passam os homens velho...
-
Os berros das ovelhas de tão articulados quebram os motivos. Um lençol de silêncio cobre a tudo e todos. Passam os homens velho...
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PÃO-PAZ O Pão chega pela manhã em nossa casa. Traz um resto de madrugada. Cheiro de forno aquecido, de levedo e de lenha queimada. Traz as...
-
O Barco Bêbado Quando eu atravessava os Rios impassíveis, Senti-me libertar dos meus rebocadores. Cruéis peles-vermelhas com uivos terríve...





