segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Maria do Sameiro Barroso

POEMA PARA MARIA GABRIELA MARTINS
Frescura alvíssima de magnólia e nuvens,
assim és tu, estrela branca, figura esguia,
roteiro de sol,
chama derramada, na fronte algarvia.

Na noite de pérolas, és amendoeira puríssima,
jardim luminoso,
recanto onde voam aves antiquíssimas,
entre as pedras, o limbo,
as águas mouras, as águas cintilantes,
as águas de Abril.

Porque te conheci, um dia, como exaltada flor,
no teu país de brisas doces,
é que repenso o agora, o antes, o sempre,
penso nas rimas perfeitas, nas águas lentas,
coloco um candelabro sobre a mesa,
escuto as estrofes do silêncio,
neste lugar onde o arvoredo brama
e a palavra brilha, no espaço
em que a poesia é a ramagem eleita,
sobre castelos semeados,

na lua clara de preciosas sementes.

Fonte:  sites.google.com/site/nasmargensdapoesia/poetas/maria-do-sameiro-barroso


Thomas Moran

domingo, 13 de janeiro de 2013

María Zambrano

PORQUE SE ESCREVE
Escrever é defender a solidão em que se está;
é uma ação que brota de um isolamento afetivo,
mas de um isolamento comunicável,
em que, necessariamente, pelo distanciamento de toda coisa
concreta possibilita-se uma descoberta
de relações entre elas. O escritor sai de sua solidão
a comunicar o segredo. Logo já não é o segredo
mesmo por ele conhecido que completa,
posto que necessita comunicá-lo.
Será esta a comunicação?
Se é ela, o ato de escrever é só um meio,
e o escrito, o instrumento forjado.
Mas caracteriza o instrumento o que se forja
em vista de algo, e este algo é o que
lhe empresta sua nobreza e esplendor.

AMO MEU EXÍLIO
Renunciei a meu exílio e estou feliz e contente, mas isso não me leva a esquecê-lo. Seria como negar uma parte de nossa história e de minha história. Quarenta anos de exílio não podem me devolver ninguém, o que torna mais bonito a ausência de rancor. Meu exílio está plenamente aceito, mas eu, ao mesmo tempo, não peço nem desejo que nenhum jovem o entenda, porque para entendê-lo seria necessário padecê-lo e eu não posso querer que ninguém seja crucificado.

A TUMBA DE ANTÍGONA
Sombra de minha vida, minha sombra. Sou uma mocinha, nada mais que isso. E o  fui mesmo? Fui algum dia  somente isso, uma mocinha? Por que vejo essa sombra? É a minha? Há novamente luz aqui? Não, não é de hoje, não posso ser a sombra dessa mocinha, rápida, alta, perfumada. Nunca o fui. E agora há outra sombra. És tu, meu irmão, que finalmente foste recebido pela terra e vens buscar-me? Traze-me água, os aromas, me darás tua mão para levar-me ao outro lado? 

Sobre María Zambrano

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Eduardo García

REFUTAÇÃO DA ALEGRIA
Perdoem a imprudência, estou de passagem,
despenquei nesta página, não soube
medir as minhas forças, apurar a brisa,
resistir ao seu enérgico convite,
a página pedia um desalento
à altura do pranto e dos sapatos,
mas não estava eu para defuntos,
brotou em mim uma sonora gargalhada,
um carvalho pendurado de um trapézio,
um tigre amamentando uma gazela,
uma centopeia saudando, inumerável,
nada é seguro aqui, já me dou conta,
por desgraça a página está inquieta,
reclama já seu fastio imemorial,
e eu nos musaranhos, tão contente,
encouraçado, enfim, feliz, já vem,
pouco propenso à melancolia,
convocando o desejo na figura
de uma mulher no término do gozo,
sem tristeza post-coitum, não faz mal,
esplêndido animal, fruta sem dono,
deslumbrante na página, sensual,
uma refutação da elegia,
uma celebração da alegria,
corpo fugaz, matéria derramada,
zomba da página, transpira,
deixo-os com seu deleite, não sem antes
convidá-los a arder pelas raízes,
a viver pela pele na contramão,
não quero saber se a página
persiste por inércia em sua aflição,
se gosta de sofrer é problema dela,
nós com o que é nosso, até o mar alto.

Marcone Moreira










Eduardo García, Antologia Pessoal, Brasília: Ed. Thesaurus, 2011, p. 105, trad. Antonio Miranda

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Paul Celan

TENEBRAE
Estamos próximos, Senhor,
próximos e palpáveis.

Palpados já, Senhor,
Agarrados uns aos outros, como se
o corpo de cada um de nós fosse
teu corpo, Senhor.

Roga, Senhor,
roga por nós,
estamos próximos.

Empurrados pelo vento fomos,
fomos até lá para curvar-nos
rumo a vale e cratera.

Havia sangue, havia
o que verteste, Senhor.

Brilhava.

Cristal, São Paulo, Ed. Iluminuras, 1999, seleção  e tradução Cláudia Cavalcanti, p. 67

OS CÂNTAROS
Nas longas mesas do tempo
embebedam-se os cântaros de Deus.
Eles esvaziam os olhos de quem vê e de quem
                                                              [não,
os corações das sombras reinantes,
o magro rosto da noite.
São os maiores bebedores:
levam à boca o vazio como o pleno
e não transbordam como eu ou tu.

Cristal, São Paulo, Ed. Iluminuras, 1999, seleção  e tradução Cláudia Cavalcanti, p. 41


CANÇÃO DE UMA DAMA NA SOMBRA
Quando vem a taciturna e poda as tulipas:
Quem sai ganhando?
                  Quem perde?
                        Quem aparece na janela?
Quem diz primeiro o nome dela?

É alguém que carrega meus cabelos.
Carrega-os como quem carrega mortos nos braços.
Carrega-os como o céu carregou meus cabelos no ano em
                                                                        [que amei.
Carrega-os assim por vaidade.  

E ganha.
              E não perde.
                         E não aparece na janela.
E não diz o nome dela.  
É alguém que tem meus olhos.
Tem-nos desde quando portas se fecham.
Carrega-os no dedo, como anéis.
Carrega-os como cacos de desejo e safira:
era já meu irmão no outono;
conta já os dias e noites.

E ganha.
             E não perde.
                    E não aparece na janela.  

E diz por último o nome dela.
É alguém que tem o que eu disse.
Carrega-o debaixo do braço como um embrulho.
Carrega-o como o relógio a sua pior hora.
Carrega-o de limiar a limiar, não o joga fora.

E não ganha.
                    E perde.
                              E aparece na janela.
E diz primeiro o nome dela.  

E é podado com as tulipas.

(Tradução: Claudia Cavalcanti )

Fonte: www.culturapara.art.br

Sobre Paul Celan

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Adonis

ESPELHO DO CORPO DO OUTONO
Você já viu a mulher
como carrega o corpo do outono?
Primeiro ela mistura o rosto e a calçada
depois tece um vestido com os fios
          da chuva
as pessoas
          na cinza da rua
são brasa apagada. 

ESPELHO DO TEMPO E DO OLHO
Cantei, disse aos dias:
do sangue ergui cidades
que geram ritmos
disse aos dias: estendi-o
como um ramo saudoso
que na seiva me leva ilumina a morte, a mortalha
cantei disse aos dias:
este é o meu sangue
          (certa essência talvez de
          certa ciência
          se a declarasse diriam:
          adora ídolos)
cantei desjuntei — dos cílios que o teciam —
o sonho e juntei ao tempo
o olho.

[ADONIS poemas, São Paulo, Companhia das Letras, 2012, seleção e tradução do árabe Michel Sleiman, pp. 128-129].

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Maria Teresa Horta

INVOCAÇÃO AO AMOR
Pedir-te a sensação
a água
o travo

Aquele odor antigo
de uma parede
branca

Pedir-te da vertigem a certeza
que tens nos olhos quando
me desejas

Pedir-te sobre a mão
a boca inchada
um rasto de saliva na garganta

Pedir-te que me dispas
e me deites
de borco e os meus seios na tua cara

Pedir-te que me olhes e me aceites
me percorras
me invadas me pressintas

Pedir-te que me peças
que te queira
no separar das horas sobre a língua

Meu ciúme
meu perfil
minha fome

Meu sossego
minha paz
minha aventura

Meu sabor
minha avidez
saciedade

Minha noite
minha angústia
meu costume

TU
Com esse teu ar
de arcanjo negro

pálido e magro
triste e alheado

ficas por vezes quase etéreo
calado
enquanto eu te olho docemente

Num espanto condenado
quase místico
debruço-me secreta à tua beira

e numa espécie de prece
porque existes

alheado magro
belo e triste

estou de joelhos meu amor
e beijo-te

(Palavras Secretas, São Paulo, Ed. Escrituras, 2007, p. 41-43)

ACUSAÇÃO NO VENTO
Acusaram-me as mãos
na loucura das luas
inclinadas na cintura
das noites

A angústia das aves
só duas
em horizontal no coração das gôndolas
celebraram a paixão
dos amantes sem lábios

rarearam os pianos
nos sonhos

nos espelhos
a angústia
tomou a forma
duma mulher
vestida de encarnado

paixões desencontradas
no som dos violinos
mortos pelo vento

pântanos na vertigem
das princesas

deslealdade
das luzes de neon
entornada nos lagos

acusaram-me os arbustos
nos cabelos

(Palavras Secretas, São Paulo, Ed. Escrituras, 2007, p. 19)
Andrea Farmer

domingo, 6 de janeiro de 2013

Alejandra Pizarnik

Um golpe da aurora nas flores
me abandona ébria de nada e de luz lilás
ébria de imobilidade e de certeza

***
Te distancias dos nomes
que fiam o silêncio das coisas

***
Aqui vivemos com uma mão na garganta. Que nada é possível, isso já o sabiam os que inventavam chuvas e teciam palavras com o tormento da ausência. Por isso em suas orações havia um som de mãos enamoradas da névoa.

Para André Pieyre de Mandiargues

***
no inverno fabuloso
a endecha das asas na chuva
na memória da água dedos de névoa

***
É um cerrar os olhos e jurar não abri-los. Enquanto isso, do lado de fora, se alimentem de relógios e de flores nascidas da astúcia. Mas com os olhos fechados e um sofrimento  imenso pressionamos os espelhos até que as palavras esquecidas soem magicamente.

***
alguma vez
          alguma vez tal vez
irei sem ficar
          irei como quem vai
Para Ester Singer

***
Vida, minha vida, cai, dói, minha vida, enlaça-te de fogo, de silêncio ingênuo, de pedras verdes na casa da noite, cai e dói, minha vida.

***
Para além de qualquer zona proibida
há um espelho para nossa triste transparência

In Árbol de Diana (1962)

Maxim Grunin - acrílico sobre tela

Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...