quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Etty Hillesum


19 de Junho [1942]. Sexta-feira de manha, às nove e meia.
Sabes o que me exaspera em ti, menina? A tua meia sinceridade e meia pomposidade. Ontem à noite queria escrever  ainda meia dúzia de palavras, mas na realidade eram palermices vagas. Às vezes tenho medo de chamar as coisas pelos nomes. Talvez porque depois não sobra nada? As coisas deviam aguentar ser nomeadas. Não aguentam, então não têm direito a existir. As pessoas tentam salvar muitas coisas na vida usando uma espécie de misticismo vago. A mística deve basear-se  numa sinceridade cristalina. Após ter investigado as coisas até à sua última realidade.

[In DIÁRIO, 1941-1943, Assírio & Alvim, Lisboa, 2009, p. 200].


terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Henriqueta Lisboa

ELEGIA DE MARIANA
Doce Mariana melancólica,
a evocação do teu passado
é um novo Ribeirão do Carmo
a propiciar centelhas de ouro,
em redundâncias e reflexos
do ouro que dava e sobejava
ao lume das correntes de água
quando as primeiras descobertas
eram fascínio para os povos.

Vejo-te ainda como outrora
encravada no coração
das Minas-do-Ouro, o porte ardente
das montanhas que serpenteiam
em torno de planície e vale
acenando para os de longe,
defendendo seu patrimônio
da gana dos faiscadores,
prometendo mundos e fundos
para a alforria do futuro
na gangorra do perde-ganha.

Retomo à Fonte das Saudades:
a mesma lua a antiga lua
inaugura a noite em que as Fadas
de tanto sonho pelo azul
pairam nos ares vêm baixando
em revoada de transparência
para o mergulho à flor do lago
entre lucilações e espumas.
Logo erguida nas próprias asas
Fada formosa entre as demais
abraça a lira e apura o canto:

Serás Mariana uma Rainha
sagrada para sempre à chama
desse “Candor Lucis Aeternae"
— pergaminho de privilégio
para teus foros de cristã.

E no “Áureo Trono Episcopal”
em sintonia de homenagem
ao Bispo Dom Manuel da Cruz
vencerás a imaginação
das cores das formas dos sons.

Tal cerimônia se inicia:
São flautas pífanos clarins
são claras vozes de cristal
cantando antífonas e salmos.
São arcos e jardins suspensos
dosséis portando girassóis.
São cavalos ajaezados
de ouro e veludo carmesim.
São figuras de alegoria
ornadas de plumas e franjas
de diamantes e de topázios.
Uma delas ostenta à fronte
um rubi que desfere fogo.
Vai desfolhando-se a Folhinha
a marcar um dia e mais outro.
Ê sexta-feira da Quaresma.
Ressoa meia-noite em ponto.
Já vem vindo em lento cortejo
a Procissão do Miserere.
Não se abram portas nem janelas
que a rua pertence aos defuntos.
Almas em grau de penitência,
envoltas em manto e capuz
carregando velas de cera
pisando áscuas de fogo fátuo,
exprobam os sete segredos
por que finalmente se salvem.

Guia espiritual da Província
Mariana do primeiro ofício:
Fé Esperança e Caridade
foram teus dons para que sejam
remissíveis os teus pecados.

Salvem-se do tempo teus templos
teus palácios de amplas varandas
tuas pratarias avoengas
as messes do teu Seminário
tuas Irmãs da Providência.
Salvem-se os exemplos mais altos
do servo de Deus Dom Viçoso
de braços abertos em pálio
pelo sinal que te abençoe.

Teu ouro, oculto nas gavetas
para surpresa de rivais
à hora da avaliação do peso
no confronto diante do Reino,
além da doação de arrobas
sobrou para beneficiar
a florescência do Barroco
no revestimento de entalhes.

Ouro de maior relevância
extraído das minas da alma
entre as brumas da solidão
pulsa na pena de teus poetas:
Cláudio desbrava seus penhascos
mais rudes que os da natureza
pastor apascentando musas.
Alphonsus diante do oratório
mais celestial do que terrestre
desfia o rosário de pérolas.

A saudade punge e conforta.

Em meio a vultos que pervagam
e confidências que se enleiam,
com mãos trêmulas o crepúsculo
afaga teus ombros recurvos,
doce Mariana melancólica.

[In Henriqueta Lisboa, Obras Completas, Vol. I, Poesia Geral,  São Paulo, Duas Cidades, 1985, pp. 229-232]


Albano Martins

PEQUENAS COISAS
Falar do trigo e não dizer
o joio. Percorrer
em voo raso os campos
sem pousar
os pés no chão. Abrir
um fruto e sentir
no ar o cheiro
a alfazema. Pequenas coisas,
dirás, que nada
significam perante
esta outra, maior: dizer
o indizível. Ou esta:
entrar sem bússola
na floresta e não perder
o rumo. Ou essa outra, maior
que todas e cujo
nome por precaução
omites. Que é preciso,
às vezes,
não acordar o silêncio.

Albano Martins,
"Escrito a vermelho"
Campo das Letras,1999
(1ª edição)


segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Giuseppe Ungaretti

OS RIOS
Agarro-me a esta árvore mutilada
abandonada nesta ribanceira
que tem o langor
de um circo
antes ou depois do espectáculo
e observo
a quieta passagem
das nuvens sobre a lua

Hoje de manhã estendi-me
num caixão de água
e como uma relíquia
ali descansei

Como uma das suas pedras
a corrente do Isonzo
alisava-me

E ergui as minhas
ossadas
e caminhei
como um acrobata
por cima da água

Junto das minha roupas
sujas de guerra
acocorei-me
e como um beduíno
verguei-me
e recebi o sol

Este é o Isonzo
foi aqui que descobri
finalmente quem sou:
uma dócil fibra
do universo

O meu suplício
aumenta
quando não me encontro
em harmonia

Mas estas mãos
ocultas
que m’amassam
oferecem-me
a rara
felicidade

mais uma vez
percorri a época
da minha vida

Estes são os
meus rios

Este é o Serchio
dele se alimentaram
durante dois mil anos talvez
as gentes da minha terra
e o meu pai e minha mãe

Este é o Nilo
que me viu nascer e crescer
e arder
sem consciência
nas longas planícies

Este é o Sena
e de novo misturei-me
no seu turbilhão
e assim me reconheci

Estes são os meus rios
contados à beira do Isonso

Esta é a minha nostalgia
com que cada rio
me trespassa
agora que já é noite
e que a minha vida parece
uma corola
de trevas

Versão de Luís Costa 

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Luís Costa

COBRA DE JADE
Tu eras a chuva dos pássaros nascida na boca faminta de estrelas.
olor da violência feminina.
amoras que se desfaziam nos alvéolos
poderosos.

ó Ilustres tardes onde os bichos-da-seda teciam o ouro.
metalurgia absoluta.
obra secreta dos ígneos metais.
a genialidade dos ourives.

tudo jorrava do núcleo perpétuo
e era o movimento e a pedra
que as mãos recolhiam com o louvor da luz.
rotação alegre.
oráculos fotográficos por onde um deus espreita.

assim te via com mantos dourados e lembranças excessivas,
entre o verde das ramagens,
de onde os mamíferos saltavam,
rápidos e elegantes.

costuras que erguiam o espaço
com as pressões ejaculares do fogo.

e tudo circulava, agreste,
como o sol em repouso nas hastes das sombras ,
nos canaviais.

assim te via.

e eras real como a água secreta que murmurava, cintilante,
nos tanques.

In Arqueologia Nocturna

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Rainer Marie Rilke

O CISNE
Esta labuta avançar pelo que ainda não está acabado
pesadamente, com os pés como que ligados,
assemelha-se ao cisne, com o seu andar desajeitado.

E o morrer, essa súbita incapacidade
para entender o solo que todos os dias pisamos,
o seu deixar-se ir ao fundo angustiante -:

na água que suavemente o acolhe
e que, como que feliz e passada,
sob ele passa, fluxo por fluxo;
enquanto, infinitamente calmo e seguro
cada vez mais emancipado e majestoso
ele se move, cada vez mais imperturbado.


Tradução de Maria do Sameiro Barroso

Der Schwan

Diese Mühsal, durch noch Ungetanes
schwer und wie gebunden hinzugehn,
gleicht dem ungeschaffnen Gang des Schwanes.

Und das Sterben, dieses Nichtmehrfassen
jenes Grunds, auf dem wir täglich stehn,
seinem ängstlichen Sich-Niederlassen -:

in die Wasser, die ihn sanft empfangen
und die sich, wie glücklich und vergangen,
unter ihm zurückziehn, Flut um Flut;
während er unendlich still und sicher
immer mündiger und königlicher
und gelassener zu ziehn geruht.

Rainer Marie Rilke

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Ruy Belo

VESTIGIA DEI
És tu quem perseguimos pelos lábios
e tens em equilíbrio os seres e o tempo
És tu quem está nos começos do mar
e as nossas palavras vão molhar-te os pés
Tu tens na tua mão as rédeas dos caminhos
descem do teu olhar as mais nobres cidades
onde nasceram os primeiros homens
e onde os últimos desejarão talvez morrer

Tu és maior que esta alegria de haver rios
e árvores ou ruas donde serem vistos
Por ti é que aceitamos a manhã
sacrificada aos vidros das janelas
aceitamos por ti o sol ou a neblina
que faz dos candeeiros sentinelas
É para ti que os pensamentos se orientam
e se dirigem os passos transviados
e o vento que nos veste nas esquinas

És sempre como aquele que encontramos
diariamente pela rua fora
e a pouco e pouco vemos onde mora
Só tu é que nos faltas quando reparamos
que os papéis nos vão envelhecendo
e os dias um por um morrendo em nossas mãos
És tu que vens com todos os versos
És tu quem pressentimos na chuva adivinhada
quando os olhos ainda se nos fecham
embora o sono nunca mais seja possível
É tua a face oposta a todas as manhãs
onde o tempo levanta ombros de espuma
que deixam fundas rugas pelas faces

Os céus contam contigo é para teu repouso
a terra combalida e sem caminhos
Ser indecomponível teu corpo foi maior
que vítimas e oblações. Quando tu vens
a solidão cai leve como a flor do lírio
e as aves nos pauis levantam voo
e há orvalho em teus primeiros pés

Não assistisses tu a esta nossa vida
caíssem-nos os gestos ou quebrados ou dispersos
e nenhum rosto decisivo um dia fecharia
todas as palavras com que dissemos os versos

 [in Aquele Grande Rio Eufrates]

Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...