OITO
Ó linguagem de palavras
longas e desnecessárias!
Ó tempo lento
de malbaratado vento
nessas desordens amargas
do pensamento...
Vou-me pelas altas nuvens
onde os momentos se fundem
numa serena
ausência feliz e plena,
liso campo sem paludes
de febre ou pena.
Por adeuses, por suspiros,
no território dos mitos,
fica a memória
mirando a forma ilusória
dos precipícios
da humana e mortal história.
E agora podeis tratar-me
como quiserdes - que é tarde,
que a minha vida,
de chegada e de partida,
volta ao rodízio dos ares,
sem despedida.
Por mais que seja querida,
há menos felicidade
na volta do que na ida.
(O Aeronauta)
Obra Poética, Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1983, pp. 399-400
quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013
terça-feira, 12 de fevereiro de 2013
Arnaldo Antunes
O BURACO DO ESPELHO
o buraco do espelho está fechado
agora eu tenho que ficar aqui
com um olho aberto, outro acordado
no lado de lá onde eu caí
pro lado de cá não tem acesso
mesmo que me chamem pelo nome
mesmo que admitam meu regresso
toda vez que eu vou a porta some
a janela some na parede
a palavra de água se dissolve
na palavra sede, a boca cede
antes de falar, e não se ouve
já tentei dormir a noite inteira
quatro, cinco, seis da madrugada
vou ficar ali nessa cadeira
uma orelha alerta, outra ligada
o buraco do espelho está fechado
agora eu tenho que ficar agora
fui pelo abandono abandonado
aqui dentro do lado de fora
Arnaldo Antunes
agora eu tenho que ficar aqui
com um olho aberto, outro acordado
no lado de lá onde eu caí
pro lado de cá não tem acesso
mesmo que me chamem pelo nome
mesmo que admitam meu regresso
toda vez que eu vou a porta some
a janela some na parede
a palavra de água se dissolve
na palavra sede, a boca cede
antes de falar, e não se ouve
já tentei dormir a noite inteira
quatro, cinco, seis da madrugada
vou ficar ali nessa cadeira
uma orelha alerta, outra ligada
o buraco do espelho está fechado
agora eu tenho que ficar agora
fui pelo abandono abandonado
aqui dentro do lado de fora
Arnaldo Antunes
segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013
Herberto Helder
Se houvesse degraus na terra e tivesse anéis o céu
Se houvesse degraus na terra e tivesse anéis o céu,
eu subiria os degraus e aos anéis me prenderia.
No céu podia tecer uma nuvem toda negra.
E que nevasse, e chovesse, e houvesse luz nas montanhas,
e à porta do meu amor o ouro se acumulasse.
Beijei uma boca vermelha e a minha boca tingiu-se,
levei um lenço à boca e o lenço fez-se vermelho.
Fui lavá-lo na ribeira e a água tornou-se rubra,
e a fímbria do mar, e o meio do mar,
e vermelhas se volveram as asas da águia
que desceu para beber,
e metade do sol e a lua inteira se tornaram vermelhas.
Maldito seja quem atirou uma maçã para o outro mundo.
Uma maçã, uma mantilha de ouro e uma espada de prata.
Correram os rapazes à procura da espada,
e as raparigas correram à procura da mantilha,
e correram, correram as crianças à procura da maçã.
“A Faca Não Corta o Fogo”, Súmula & Inédita (2008)
Se houvesse degraus na terra e tivesse anéis o céu,
eu subiria os degraus e aos anéis me prenderia.
No céu podia tecer uma nuvem toda negra.
E que nevasse, e chovesse, e houvesse luz nas montanhas,
e à porta do meu amor o ouro se acumulasse.
Beijei uma boca vermelha e a minha boca tingiu-se,
levei um lenço à boca e o lenço fez-se vermelho.
Fui lavá-lo na ribeira e a água tornou-se rubra,
e a fímbria do mar, e o meio do mar,
e vermelhas se volveram as asas da águia
que desceu para beber,
e metade do sol e a lua inteira se tornaram vermelhas.
Maldito seja quem atirou uma maçã para o outro mundo.
Uma maçã, uma mantilha de ouro e uma espada de prata.
Correram os rapazes à procura da espada,
e as raparigas correram à procura da mantilha,
e correram, correram as crianças à procura da maçã.
“A Faca Não Corta o Fogo”, Súmula & Inédita (2008)
domingo, 10 de fevereiro de 2013
Paulo José Miranda
CHIPRE REVISITADA
Chipre não é uma ilha, mas duas
penínsulas. De um lado
os Gregos, do outro os Troianos,
que, como na Ilíada,
são apenas dois modos
de se olhar Helena: os trabalhos
de a ter e o castigo de a ter
perdido. O avião
chega como a faca no porco.
Ulisses, o artífice
do engenho, aterrou
perfeito no seu fato azul
mediterrâneo. Nestor
conduz-nos até ao hotel
pela paisagem desértica e Helena,
esse nome nos lábios
como livro decorado para exame.
(Ou será antes como as putas
a quem nos feriados se paga?
Depois das montanhas, o mar
a origem de todos os crimes
sobre a terra. À chegada
aos muros da cidade
há muito mais vento
do que árvores, muito
mais vento do que almas,
muito mais do que qualquer outra coisa) pensamos
em Aquiles, em tudo
o que não trouxemos.
Se fosse só para sofrer,
pela vida, não se tinha vindo
aqui. A felicidade fica
para os turistas, às mãos
de Ulisses e da culinária
abjecta onde gastam as suas
economias. Nestes séculos
quem morre mata. Por isso
a vida é uma cor,
não tem significado.
________________________
Chipre não é uma ilha, mas duas
penínsulas. De um lado
os Gregos, do outro os Troianos,
que, como na Ilíada,
são apenas dois modos
de se olhar Helena: os trabalhos
de a ter e o castigo de a ter
perdido. O avião
chega como a faca no porco.
Ulisses, o artífice
do engenho, aterrou
perfeito no seu fato azul
mediterrâneo. Nestor
conduz-nos até ao hotel
pela paisagem desértica e Helena,
esse nome nos lábios
como livro decorado para exame.
(Ou será antes como as putas
a quem nos feriados se paga?
Depois das montanhas, o mar
a origem de todos os crimes
sobre a terra. À chegada
aos muros da cidade
há muito mais vento
do que árvores, muito
mais vento do que almas,
muito mais do que qualquer outra coisa) pensamos
em Aquiles, em tudo
o que não trouxemos.
Se fosse só para sofrer,
pela vida, não se tinha vindo
aqui. A felicidade fica
para os turistas, às mãos
de Ulisses e da culinária
abjecta onde gastam as suas
economias. Nestes séculos
quem morre mata. Por isso
a vida é uma cor,
não tem significado.
________________________
(O Tabaco de Deus, Edições Cotovia: Lisboa, 2002, pp. 30-31)
sábado, 9 de fevereiro de 2013
Charles Baudelaire
ELEVAÇÃO
Acima dos lagos, acima dos vales,
Das montanhas, dos bosques, das nuvens, dos mares
Para além do sol, para além dos éteres,Para além dos confins das esferas de estrelas,
Meu espírito, tu moves-te com agilidade,
E, como um bom nadador que desfalece na onda,
Sulcas jubilosamente a imensidão profunda
Com uma indescritível e viril volúpia.
Voa para bem longe desses miasmas mórbidos;
Vai purificar-te no ar celestial,
E bebe como um puro e divino licor,
O fogo claro que enche os espaços límpidos.
Por detrás das atribulações e das vastas angústias
Que carregam com seu peso a existência sombria,
Feliz aquele que pode com uma asa vigorosa
Lançar-se até aos campos luminosos e serenos;
Aquele, cujos pensamentos, como cotovias,
Aos céus na manhã tomam um voo livre,
- Quem plana sobre a vida, e compreende sem esforço
A linguagem das flores e das coisas mudas!
Élévation, in “Les Fleurs du Mal”
Tradução de Ana Pinto
[In Fonte de Hipocrene - Poesia de temática clássica e arqueológica, grupo do Facebook]
Sobre CHARLES BAUDELAIRE
Acima dos lagos, acima dos vales,
Das montanhas, dos bosques, das nuvens, dos mares
Para além do sol, para além dos éteres,Para além dos confins das esferas de estrelas,
Meu espírito, tu moves-te com agilidade,
E, como um bom nadador que desfalece na onda,
Sulcas jubilosamente a imensidão profunda
Com uma indescritível e viril volúpia.
Voa para bem longe desses miasmas mórbidos;
Vai purificar-te no ar celestial,
E bebe como um puro e divino licor,
O fogo claro que enche os espaços límpidos.
Por detrás das atribulações e das vastas angústias
Que carregam com seu peso a existência sombria,
Feliz aquele que pode com uma asa vigorosa
Lançar-se até aos campos luminosos e serenos;
Aquele, cujos pensamentos, como cotovias,
Aos céus na manhã tomam um voo livre,
- Quem plana sobre a vida, e compreende sem esforço
A linguagem das flores e das coisas mudas!
Élévation, in “Les Fleurs du Mal”
Tradução de Ana Pinto
[In Fonte de Hipocrene - Poesia de temática clássica e arqueológica, grupo do Facebook]
Sobre CHARLES BAUDELAIRE
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| juan carlos boveri |
sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013
Reynaldo Valinho Alvarez
Uivam lobos até que chegue a aurora
Uivam lobos até que chegue a aurora,
entre árvores sombrias, em ignotos
cimos selvagens, nos rincões remotos,
mais para lá, onde a saudade mora.
Enquanto a noite, entre soluços, chora,
os maltrapilhos fogem. Vão, devotos,
cheios de medo, a murmurar seus votos
de que não sofram nenhum mal nessa hora.
Mude-se o olhar agora para as ruas
sem lobos pelas noites, mas de cruas
explosões de uma raiva que assassina.
Eis aqui a colheita de perigos:
são todos a fugir, não só mendigos.
Mais que o lobo, é o homem que extermina.
Não pergunteis aos que andam no caminho
Não pergunteis aos que andam no caminho
por que se foram cedo de suas casas
e andam agora a suportar as brasas
de um martírio cruel, rude e mesquinho.
Antes deveis deixar de lado o vinho
e olhar bem dentro dessas almas rasas,
que se arrastam na rua, aves sem asas,
à procura de um pouco de carinho.
Desde a aurora, a chorar. Até a noite
não há, para ajudá-las, quem se afoite
e infortunadas vão, tão infelizes.
Eis aí quanto horror há nessas vidas,
a matar-se entre si, enlouquecidas,
reabrindo as fechadas cicatrizes.
Esse passar do tempo, essa miséria
Esse passar do tempo, essa miséria
dos dias submergidos, essas horas
que escorrem devagar, essas auroras,
o amanhecer tardio, essa matéria
feita de lodo e espuma, essa bactéria
no mais fundo do estômago, essas floras
de flores más, fanadas e inodoras,
o sangue derramado pela artéria,
todas as coisas que o caruncho come,
mais o mal dentro do homem, qual a fome,
vertendo-se nas taças do ódio fero,
revelam cada um vivendo um drama,
desde que o pare a mãe em sua cama
até que veja em si não mais que um zero.
Contam os ventos lendas que, na rua
Contam os ventos lendas que, na rua,
não são mais que verdade. Aí vai com fome
o homem que desconhece o próprio nome,
mas, com frequência, exibe sua alma nua.
Cada homem tem, na rua, o palco e atua
sem atingir a glória do renome
e vai comendo o seu deserto abdome,
seu celeiro sem grão da vida crua.
Voam pássaros livres sobre o asfalto,
mas o homem segue escravo, em sobressalto,
catando níqueis e fingindo o riso.
Enquanto aspira os gases dos motores,
deixa na rua um rastro mau de dores,
abandona a esperança e perde o siso.
Fonte: Revista da Academia Brasileira de Letras, n. 57
Biografia do Autor
Uivam lobos até que chegue a aurora,
entre árvores sombrias, em ignotos
cimos selvagens, nos rincões remotos,
mais para lá, onde a saudade mora.
Enquanto a noite, entre soluços, chora,
os maltrapilhos fogem. Vão, devotos,
cheios de medo, a murmurar seus votos
de que não sofram nenhum mal nessa hora.
Mude-se o olhar agora para as ruas
sem lobos pelas noites, mas de cruas
explosões de uma raiva que assassina.
Eis aqui a colheita de perigos:
são todos a fugir, não só mendigos.
Mais que o lobo, é o homem que extermina.
Não pergunteis aos que andam no caminho
Não pergunteis aos que andam no caminho
por que se foram cedo de suas casas
e andam agora a suportar as brasas
de um martírio cruel, rude e mesquinho.
Antes deveis deixar de lado o vinho
e olhar bem dentro dessas almas rasas,
que se arrastam na rua, aves sem asas,
à procura de um pouco de carinho.
Desde a aurora, a chorar. Até a noite
não há, para ajudá-las, quem se afoite
e infortunadas vão, tão infelizes.
Eis aí quanto horror há nessas vidas,
a matar-se entre si, enlouquecidas,
reabrindo as fechadas cicatrizes.
Esse passar do tempo, essa miséria
Esse passar do tempo, essa miséria
dos dias submergidos, essas horas
que escorrem devagar, essas auroras,
o amanhecer tardio, essa matéria
feita de lodo e espuma, essa bactéria
no mais fundo do estômago, essas floras
de flores más, fanadas e inodoras,
o sangue derramado pela artéria,
todas as coisas que o caruncho come,
mais o mal dentro do homem, qual a fome,
vertendo-se nas taças do ódio fero,
revelam cada um vivendo um drama,
desde que o pare a mãe em sua cama
até que veja em si não mais que um zero.
Contam os ventos lendas que, na rua
Contam os ventos lendas que, na rua,
não são mais que verdade. Aí vai com fome
o homem que desconhece o próprio nome,
mas, com frequência, exibe sua alma nua.
Cada homem tem, na rua, o palco e atua
sem atingir a glória do renome
e vai comendo o seu deserto abdome,
seu celeiro sem grão da vida crua.
Voam pássaros livres sobre o asfalto,
mas o homem segue escravo, em sobressalto,
catando níqueis e fingindo o riso.
Enquanto aspira os gases dos motores,
deixa na rua um rastro mau de dores,
abandona a esperança e perde o siso.
Fonte: Revista da Academia Brasileira de Letras, n. 57
Biografia do Autor
quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013
Luís Costa
DA MAGNITUDE
A magnitude sísmica de um pulso aberto por onde crescem
as flores primaveris
insectos furiosos emergindo da profundeza arterial
astros ou olhos penetrantes
pólipos embatendo contra o rochedo das clareiras
a cicatriz do metal que aflora dentro de um coração
prestes a quebrar de amor
e as armaduras possantes de um novo dia
o sol
a água
as choupanas
o sexo à procura dos primeiros sinais de vida
um pulsímetro que se gera na garganta
ainda seca
ainda sem esperança ou negação
ainda liberta dos vermes e dos lagartos
dos tigres
que dilacerem as carnes nos tanques de Agosto
ó branca escuridão que corres pelas veias!
que te entranhas na alma
viril aço rudimentar
curto-circuito
devastação nos côncavos inchados de pedras
quem conhece os teus fabulosos mistérios?
quem sabe o porquê
desta cavalgada exterior aos cuidados da amamentação?
ah! como tudo se ergue e cai
como tudo se processa no movimento rigoroso
onde os sentidos são sombras graníticas
sobre a fina
areia dos pantanais
ó fenda que expeles lava nas ventas do animal
eis a boca possessa que mal acorda logo em si recebe
a bênção da destruição
In: Arqueologia nocturna
A magnitude sísmica de um pulso aberto por onde crescem
as flores primaveris
insectos furiosos emergindo da profundeza arterial
astros ou olhos penetrantes
pólipos embatendo contra o rochedo das clareiras
a cicatriz do metal que aflora dentro de um coração
prestes a quebrar de amor
e as armaduras possantes de um novo dia
o sol
a água
as choupanas
o sexo à procura dos primeiros sinais de vida
um pulsímetro que se gera na garganta
ainda seca
ainda sem esperança ou negação
ainda liberta dos vermes e dos lagartos
dos tigres
que dilacerem as carnes nos tanques de Agosto
ó branca escuridão que corres pelas veias!
que te entranhas na alma
viril aço rudimentar
curto-circuito
devastação nos côncavos inchados de pedras
quem conhece os teus fabulosos mistérios?
quem sabe o porquê
desta cavalgada exterior aos cuidados da amamentação?
ah! como tudo se ergue e cai
como tudo se processa no movimento rigoroso
onde os sentidos são sombras graníticas
sobre a fina
areia dos pantanais
ó fenda que expeles lava nas ventas do animal
eis a boca possessa que mal acorda logo em si recebe
a bênção da destruição
In: Arqueologia nocturna
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Fernando Paixão
Os berros das ovelhas de tão articulados quebram os motivos. Um lençol de silêncio cobre a tudo e todos. Passam os homens velho...
-
Os berros das ovelhas de tão articulados quebram os motivos. Um lençol de silêncio cobre a tudo e todos. Passam os homens velho...
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Callas na escala ascendente A Ziriguimel Inteira, tua voz é um cone, torre de catedral, coisa tátil, que se avista, mutáv...
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Não conheço nenhum romancista que não tenha o vício desaforado da leitura. Somos, por definição, bichos leitores. Roemos as palavras dos l...


