É NOITE, MÃE
As folhas já começam a cobrir
o bosque, mãe, do teu outono puro...
São tantas as palavras deste amor
que presas os meus lábios retiveram
pra colocar na tua face, mãe!...
Continuamente o bosque se define
em lividez de pântanos agora,
e aviva sempre mais as desprendidas
folhas que tornam minha dor maior.
No chão do sangue que me deste, humilde
e triste, as beijo. Um dia pra contigo
terei sido cruel: a minha boca,
em cada latejar do vento pelos ramos,
procura, seca, o teu perdão imenso...
É noite, mãe: aguardo, olhos fechados,
que uma qualquer manhã me ressuscite!...
[In DIFÍCIL PASSAGEM (1962)]
terça-feira, 19 de março de 2013
segunda-feira, 18 de março de 2013
Maria de Lourdes Hortas
ENQUANTO NÃO SABES, PETRUS
Enquanto não sabes
que as baleias não são peixes,
que as estrelas não são lanternas de anjos
ou buracos de fechaduras do infinito,
que o trovão não é Deus que está ralhando,
nem são Pedro arredando móveis no céu,
que a chuva não é o mesmo santo despejando cântaros
sobre a terra,
que as nuvens não são mares suspensos, cabeças de avós,
rebanhos, fantasmas, mas vapor - só vapor condensado.
Enquanto não sabes que tudo é fenômeno
como, por exemplo, o arco-íris,
espectro solar.
Enquanto não sabes o que é
fenômeno, Ltda, ONU, verbos e provérbios,
química, teu nome, sobrenome & Cia.
cores, alfabeto, psicologia.
Enquanto não sabes ver televisão
e olhas a Lua — Bolacha Maria -
que — não sabes — é satélite da Terra,
telhado de ébrios
e nau de poetas.
Enquanto não sabes o que é poesia,
crença ou ceticismo
e a diferença
de Banco maiúsculo e banco de praça.
Enquanto não sabes o que é comunismo,
megatons, foguete,
gregos e troianos.
Enquanto não sabes dar corda ao relógio,
só tu sabes tudo,
pois chegaste há pouco
da cidade-enigma.
(Logo esquecerás.)
Quano já souberes
falar convenções,
ler definições,
apertar botões,
lembra-te que és Petrus
e sobre esta pedra
tua mãe se reconstruirá.
(in AROMAS DA INFÂNCIA)
POEMA DE DESPEDIDA AO QUE PARTE PARA O MUNDO
Neste átrio para o mundo viste passar nove luas.
Agora estás pronto e eu te digo adeus porque não poderás voltar.
Aqui tens o teu farnel para a viagem.
Nele eu pus tudo, sem nada esquecer:
teus olhos, tuas mãos, teu cérebro,
teus nervos, teu sangue, tua vocação, teus sentimentos,
tuas palavras, teu nome, tua vida inteira
com atitudes a vestir em cada ocasião.
Aqui tens tua bagagem.
Vai devagar, sozinho, ao leme de tua nave.
De ti eu me despeço:
para este átrio onde nove luas passam silenciosamente
não há caminho de regresso.
(in FIO DE LÃ)
In: Palavra de Mulher (Poesia Feminina Brasileira Contemporânea), Rio de Janeiro: Ed. Fontana, 1979, pp. 184-185
Enquanto não sabes
que as baleias não são peixes,
que as estrelas não são lanternas de anjos
ou buracos de fechaduras do infinito,
que o trovão não é Deus que está ralhando,
nem são Pedro arredando móveis no céu,
que a chuva não é o mesmo santo despejando cântaros
sobre a terra,
que as nuvens não são mares suspensos, cabeças de avós,
rebanhos, fantasmas, mas vapor - só vapor condensado.
Enquanto não sabes que tudo é fenômeno
como, por exemplo, o arco-íris,
espectro solar.
Enquanto não sabes o que é
fenômeno, Ltda, ONU, verbos e provérbios,
química, teu nome, sobrenome & Cia.
cores, alfabeto, psicologia.
Enquanto não sabes ver televisão
e olhas a Lua — Bolacha Maria -
que — não sabes — é satélite da Terra,
telhado de ébrios
e nau de poetas.
Enquanto não sabes o que é poesia,
crença ou ceticismo
e a diferença
de Banco maiúsculo e banco de praça.
Enquanto não sabes o que é comunismo,
megatons, foguete,
gregos e troianos.
Enquanto não sabes dar corda ao relógio,
só tu sabes tudo,
pois chegaste há pouco
da cidade-enigma.
(Logo esquecerás.)
Quano já souberes
falar convenções,
ler definições,
apertar botões,
lembra-te que és Petrus
e sobre esta pedra
tua mãe se reconstruirá.
(in AROMAS DA INFÂNCIA)
POEMA DE DESPEDIDA AO QUE PARTE PARA O MUNDO
Neste átrio para o mundo viste passar nove luas.
Agora estás pronto e eu te digo adeus porque não poderás voltar.
Aqui tens o teu farnel para a viagem.
Nele eu pus tudo, sem nada esquecer:
teus olhos, tuas mãos, teu cérebro,
teus nervos, teu sangue, tua vocação, teus sentimentos,
tuas palavras, teu nome, tua vida inteira
com atitudes a vestir em cada ocasião.
Aqui tens tua bagagem.
Vai devagar, sozinho, ao leme de tua nave.
De ti eu me despeço:
para este átrio onde nove luas passam silenciosamente
não há caminho de regresso.
(in FIO DE LÃ)
In: Palavra de Mulher (Poesia Feminina Brasileira Contemporânea), Rio de Janeiro: Ed. Fontana, 1979, pp. 184-185
Sobre a autora: Maria de Lourdes Mateus Hortas nasceu na Vila de São Vicente da Beira, Beira Baixa, Portugal, a 4 de Dezembro de 1940. Na terra natal viveu até Outubro de 1950, quando, acompanhando a família (seus pais, Manuel Hortas e Maria Amélia Hortas e sua irmã Maria Daniel), emigrou para o Brasil (Recife, estado de Pernambuco), onde vive até hoje.
sábado, 16 de março de 2013
Mariana Ianelli
UMA ESTRELA NOS CAMPOS
Em memória de Etty Hillesum (1914 – 1943)
Trabalhava. Trabalhava numa primavera fria
esperando ser como a lua, ser como um pasto:
uma vasta paisagem tranquila –
e desenterrava Deus de sob pedras e cascalhos.
O caminho até o cais era feito entre soldados
(todos tão pequenos por trás de seus crimes).
E trabalhava mais: era uma estaca no mar,
era um pedaço de granito, era o próprio mundo
prestes a ser destruído. E trabalhava mais:
estava com os deportados, com os desaparecidos,
estava com uma flor num retângulo de jardim.
De minuto a minuto forjando a calma em pessoa,
o sorriso de Buda, um terreno baldio.
E já havia partido, muito antes de partir, debaixo
de um céu sem palavras: era uma estrela nos campos,
era a mulher já sem nome do vagão número 12
na direção do Leste, cantando de alegria.
O POETA
Para Paulo José Miranda
Todas essas terras disputadas,
uma vida de alcateia e de cobiça –
mas nem todos nós temos essa fome.
Alguém tem apenas o deserto
de uma história que nunca foi escrita,
a saga sem metáfora de glória
de ciganos tão antigos quanto estrelas –
ao menos um de nós é o outro filho,
o andarilho irmão que foi banido,
e outra vida vem do fundo de um poço,
uma flecha cruza um mundo sem divisas.
Fonte: Revista Pessoa
Em memória de Etty Hillesum (1914 – 1943)
Trabalhava. Trabalhava numa primavera fria
esperando ser como a lua, ser como um pasto:
uma vasta paisagem tranquila –
e desenterrava Deus de sob pedras e cascalhos.
O caminho até o cais era feito entre soldados
(todos tão pequenos por trás de seus crimes).
E trabalhava mais: era uma estaca no mar,
era um pedaço de granito, era o próprio mundo
prestes a ser destruído. E trabalhava mais:
estava com os deportados, com os desaparecidos,
estava com uma flor num retângulo de jardim.
De minuto a minuto forjando a calma em pessoa,
o sorriso de Buda, um terreno baldio.
E já havia partido, muito antes de partir, debaixo
de um céu sem palavras: era uma estrela nos campos,
era a mulher já sem nome do vagão número 12
na direção do Leste, cantando de alegria.
O POETA
Para Paulo José Miranda
Todas essas terras disputadas,
uma vida de alcateia e de cobiça –
mas nem todos nós temos essa fome.
Alguém tem apenas o deserto
de uma história que nunca foi escrita,
a saga sem metáfora de glória
de ciganos tão antigos quanto estrelas –
ao menos um de nós é o outro filho,
o andarilho irmão que foi banido,
e outra vida vem do fundo de um poço,
uma flecha cruza um mundo sem divisas.
Fonte: Revista Pessoa
sexta-feira, 15 de março de 2013
Maria do Sameiro Barroso
COMO UM DITIRAMBO
Desperto, num limiar sonâmbulo, imóvel, quase opaco,
como se o mar me acordasse, nas suas lâmpadas,
e no seu fulgor me enredasse, nos seus búzios claros
de ardor e doçura.
Entre ossadas, cimento e música, uma árvore brilha,
entre as muralhas irredutíveis de outro tempo.
No sabor de mangas, coco, a lua acorda-me,
cheia de cristais pendentes, qual árvore enamorada,
leito de gatos macios, silêncio onde um suspiro
se extingue, num novo rumor, que de novo se inicia.
No limiar da bruma, as névoas separam-se.
Como um ditirambo, a luz soletra a rota de Dioniso,
Alexandre, à beira do Hidaspes.
Nos vitrais exóticos, à luz de um candelabro,
vislumbro anis, alaúdes, elefantes de magia.
Na noite, acendem-se as jóias obscuras de secreta
alquimia.
Junto das árvores, onde os pássaros cantam,
pela manhã, a erva-doce preenche o espaço, a boca,
a névoa, onde o peito de asas sôfregas respira.
Há pouco, ânforas vazias eram os meus olhos
e amuletos de luz eram as palavras que segredavam
os navios brilhantes, que alguma palavra selou.
Há pouco, num instante apenas nasceria, se no leito
dos teus rios me banhasse,
numa só noite viveria, se no corpo das algas me espraiasse,
e, num só gesto morreria, se de tuas cisternas de cristal
me apartasse.
Nas torrentes de murmúrios e mel, há um rio
onde anémonas de sangue se associam,
para dizer as palavras transparentes.
Nos desertos onde pairam a lua e hibiscos, o céu murmura
as areias límpidas, as sombras que se desprendem
e as ânforas que se enchem-se, de novo,
no liquor luminoso de preciosos sinais.
In “Uma Ânfora no Horizonte” 2009
FANTASIA SOBRE UM TEMA BÍBLICO
Escurecem os jardins, as fontes, as cisternas,
apenas a noite e esta mulher, para mim, Saul,
coroado de treva.
Da sombra, igual ao sheol , recebo as insígnias sagradas,
do espírito divino me chega o lírio tenebroso,
a unção da morte,
e qual rebanho entre as macieiras, repouso em ti,
mulher de En-Dor,
porque as harpas tocam e as fontes vivas reclamam
o meu nome,
o meu sangue, o teu silêncio mo diz,
por isso prossigo, por isso me fortaleço
e no teu seio me demoro.
Em ti bebo a sede eterna, porque as harpas sempre
se pareceram com mulheres e as mulheres
com nenúfares, acedendo à noite incandescente,
de nardos e ciprestes.
Amanhã regressarei às pastagens celestes,
Antes sorverei o teu rútilo mel, nos teus umbrais
perfumados,
breve mandrágora, estrela entre os cardos.
secreta flor colhida em En-Gaddi.
In “Uma Ânfora no Horizonte” 2009
FRAGMENTOS HELÉNICOS
O mar, o vinho e os seus reflexos (as baías do Egeu),
a cal, o húmus, um sol de espigas plenas,
o mistério das coisas simples,
um mundo de dimensões perfeitas.
Depois, as mãos, as raízes, os muros, as manhãs
odorosas.
Uma sílaba exacta semeando um átrio,
a Primavera úbere, o mosto quente de Setembro,
o vinho cristalino, o sabor dos frutos,
cristais de Outono,
Inverno, uma rosa túmida, Eugénio de Andrade.
Como quando li, pela primeira vez
e a poesia me envolveu,
em suas sílabas nocturnas, luminosas,
como girassóis primordiais.
In “Uma Ânfora no Horizonte” 2009
Para os amigos do outro lado do Atlântico:
MAGNÓLIA ATLÂNTICA
É de vida que o poeta se nutre, de poemas que vai beber
aos rios,
por isso as suas palavras são carne, fruto, seiva, essência,
constelação brilhante, semeada entre os livros.
É de vida que o poeta se nutre, do cântico dos pássaros,
de vivências exóticas.
Do outro lado do Atlântico, há brisas doces, água de coco,
palmeiras estivais, e a vida recorta-se, em toda a sua luz,
construindo do nada a sua essência.
Na luminosidade dos dias, releio o Memorial de Aires,
e as lágrimas aguardam, pacientes, num jazigo,
entre momentos lépidos, passados entre Shelley,
Thackery, e Fidelia, qualquer coisa a lembrar Beethoven.
Gosto quando as narrativas se enredam e me enredam,
entre uma carta de alforria, uma referência a Heine,
os jacarandás, o cheiro do café,
ou uma reflexão sobre a abolição da escravatura.
É assim o Brasil; entre araras e araucárias,
também se pode ler Goethe, Fausto (o Prólogo do Céu),
nas brisas mornas, feitas de pedras soltas, limas,
jacarandás, limões de açúcar,
quando o cheiro a tinta das tipografias atravessa as praças,
as ruas, os cafés, o céu perfumado e o vasto oceano,
onde refulge o sal precioso da magnólia atlântica.
In “Uma Ânfora no Horizonte” 2009
Desperto, num limiar sonâmbulo, imóvel, quase opaco,
como se o mar me acordasse, nas suas lâmpadas,
e no seu fulgor me enredasse, nos seus búzios claros
Entre ossadas, cimento e música, uma árvore brilha,
entre as muralhas irredutíveis de outro tempo.
No sabor de mangas, coco, a lua acorda-me,
cheia de cristais pendentes, qual árvore enamorada,
leito de gatos macios, silêncio onde um suspiro
se extingue, num novo rumor, que de novo se inicia.
No limiar da bruma, as névoas separam-se.
Como um ditirambo, a luz soletra a rota de Dioniso,
Alexandre, à beira do Hidaspes.
Nos vitrais exóticos, à luz de um candelabro,
vislumbro anis, alaúdes, elefantes de magia.
Na noite, acendem-se as jóias obscuras de secreta
alquimia.
Junto das árvores, onde os pássaros cantam,
pela manhã, a erva-doce preenche o espaço, a boca,
a névoa, onde o peito de asas sôfregas respira.
Há pouco, ânforas vazias eram os meus olhos
e amuletos de luz eram as palavras que segredavam
os navios brilhantes, que alguma palavra selou.
Há pouco, num instante apenas nasceria, se no leito
dos teus rios me banhasse,
numa só noite viveria, se no corpo das algas me espraiasse,
e, num só gesto morreria, se de tuas cisternas de cristal
me apartasse.
Nas torrentes de murmúrios e mel, há um rio
onde anémonas de sangue se associam,
para dizer as palavras transparentes.
Nos desertos onde pairam a lua e hibiscos, o céu murmura
as areias límpidas, as sombras que se desprendem
e as ânforas que se enchem-se, de novo,
no liquor luminoso de preciosos sinais.
In “Uma Ânfora no Horizonte” 2009
FANTASIA SOBRE UM TEMA BÍBLICO
Escurecem os jardins, as fontes, as cisternas,
apenas a noite e esta mulher, para mim, Saul,
coroado de treva.
Da sombra, igual ao sheol , recebo as insígnias sagradas,
do espírito divino me chega o lírio tenebroso,
a unção da morte,
e qual rebanho entre as macieiras, repouso em ti,
mulher de En-Dor,
porque as harpas tocam e as fontes vivas reclamam
o meu nome,
o meu sangue, o teu silêncio mo diz,
por isso prossigo, por isso me fortaleço
e no teu seio me demoro.
Em ti bebo a sede eterna, porque as harpas sempre
se pareceram com mulheres e as mulheres
com nenúfares, acedendo à noite incandescente,
de nardos e ciprestes.
Amanhã regressarei às pastagens celestes,
Antes sorverei o teu rútilo mel, nos teus umbrais
perfumados,
breve mandrágora, estrela entre os cardos.
secreta flor colhida em En-Gaddi.
In “Uma Ânfora no Horizonte” 2009
FRAGMENTOS HELÉNICOS
O mar, o vinho e os seus reflexos (as baías do Egeu),
a cal, o húmus, um sol de espigas plenas,
o mistério das coisas simples,
um mundo de dimensões perfeitas.
Depois, as mãos, as raízes, os muros, as manhãs
odorosas.
Uma sílaba exacta semeando um átrio,
a Primavera úbere, o mosto quente de Setembro,
o vinho cristalino, o sabor dos frutos,
cristais de Outono,
Inverno, uma rosa túmida, Eugénio de Andrade.
Como quando li, pela primeira vez
e a poesia me envolveu,
em suas sílabas nocturnas, luminosas,
como girassóis primordiais.
In “Uma Ânfora no Horizonte” 2009
Para os amigos do outro lado do Atlântico:
MAGNÓLIA ATLÂNTICA
É de vida que o poeta se nutre, de poemas que vai beber
aos rios,
por isso as suas palavras são carne, fruto, seiva, essência,
constelação brilhante, semeada entre os livros.
É de vida que o poeta se nutre, do cântico dos pássaros,
de vivências exóticas.
Do outro lado do Atlântico, há brisas doces, água de coco,
palmeiras estivais, e a vida recorta-se, em toda a sua luz,
construindo do nada a sua essência.
Na luminosidade dos dias, releio o Memorial de Aires,
e as lágrimas aguardam, pacientes, num jazigo,
entre momentos lépidos, passados entre Shelley,
Thackery, e Fidelia, qualquer coisa a lembrar Beethoven.
Gosto quando as narrativas se enredam e me enredam,
entre uma carta de alforria, uma referência a Heine,
os jacarandás, o cheiro do café,
ou uma reflexão sobre a abolição da escravatura.
É assim o Brasil; entre araras e araucárias,
também se pode ler Goethe, Fausto (o Prólogo do Céu),
nas brisas mornas, feitas de pedras soltas, limas,
jacarandás, limões de açúcar,
quando o cheiro a tinta das tipografias atravessa as praças,
as ruas, os cafés, o céu perfumado e o vasto oceano,
onde refulge o sal precioso da magnólia atlântica.
In “Uma Ânfora no Horizonte” 2009
quinta-feira, 14 de março de 2013
Lélia Coelho Frota
EMPECILHO
Dura efígie que interfere
em seu mais ínfimo gesto
artifício negador
suprimindo amenidades
armazenadas em azul
cor de flor primaveril.
Artifício volantim
equivocando emoções
(eis a troca sub-reptícia!).
Onde era lume, o fastio
resignado dos legumes
disciplinados em horta.
Sol, que não era, mas um
florim esculpido em blau
irradiando cordura
para as gentes sem paixão
é planeta moderado
a medir luz, donativo.
Fino cicio da grama
sugerindo proporções
de amar que se harmonizassem
ao segredo da paisagem
é verde epitáfio, e talha
sob placidez nossa face
devaneio choro talhe.
Violinha sonantinho
para nosso pé dançar
é pífaro intermitente
convidando a meditar.
Minuto que atrairia
o poema, a flor arisca,
se estilhaça no tinteiro
atrasa a memória pouca:
é fascículo incompleto
o livro que esmeraríamos
limitados,
pobres, tensos,
desmedidamente
avaros
fixos em
lenta dolência
de navio
sob pilhagem
a tentar
fugas na brisa
mas
contido no pesado
calado de
sua rota
cor,
velame, referência.
É
partícula de tédio
e
desencontro, letreiro
de nítidos
argumentos
carreando
senso ao denso
panejamento
de amar.
É trave, é
pílula grave
que
assimilamos, desgosto
mudo,
severo, pausado
a afiar no
coração
seu dente
de interferência
madureza e
abstenção.
[In: Poesia Lembrada, Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1971, p. 56]
![]() |
| Siron Franco |
quarta-feira, 13 de março de 2013
Conceição Lima
QUANDO A LUA CAIU
Quando o luar caiu e
tingiu de escuro os verdes da ilha
cheguei, mas tu já não eras.
Cheguei quando as sombras revelavam
os murmúrios do teu corpo
e não eras.
Cheguei para despojar de limites o teu nome.
Não eras.
As nuvens estão densas de ti
sustentam a tua ausência
recusam o ocaso do teu corpo
mas não és.
Pedra a pedra encho a noite
do teu rosto sem medida
para te construir convoco os dias
pedra a pedra
no teu tempo consumido.
As pedras crescem como ondas
no silêncio do teu corpo.
Jorram e rolam
como flores violentas.
E sangram como pássaros exaustos
no silêncio do teu corpo
onde a noite e o vento se entrelaçam
no vazio que te espera.
Súbito e transparente chegaste
quando falsos deuses subornavam o tempo,
chegaste sem aviso
para despedir o defeso e o frio,
chegaste quando a estrada se abria
como um rio,
chegaste para resgatar sem demora o principio.
Grave o silêncio agarra-se ao teu corpo,
hostil o silêncio agarra-se ao teu corpo
mas já tomaste horas e caminhos
já venceste matos e abismos
já a espessura do obô resplandece em tua testa.
E não me bastam pombas dementes no teu rosto
não bastam consciências soluçante em teu rasto
não basta o delírio das lágrimas libertas.
Cantarei em pranto teu regresso sem idade
teu retorno do exílio na saudade
cantarei sobre esta terra teu destino de rebelde.
Para te saudar no mar e no palma
na manhã dos cantos sem represas
saudarei a praia lisa e o pomar.
Direi teu nome e tu serás.
1986
Fonte: Jornal de Poesia
Sobre a autora
Quando o luar caiu e
tingiu de escuro os verdes da ilha
cheguei, mas tu já não eras.
Cheguei quando as sombras revelavam
os murmúrios do teu corpo
e não eras.
Cheguei para despojar de limites o teu nome.
Não eras.
As nuvens estão densas de ti
sustentam a tua ausência
recusam o ocaso do teu corpo
mas não és.
Pedra a pedra encho a noite
do teu rosto sem medida
para te construir convoco os dias
pedra a pedra
no teu tempo consumido.
![]() |
| Georgi Petrov |
no silêncio do teu corpo.
Jorram e rolam
como flores violentas.
E sangram como pássaros exaustos
no silêncio do teu corpo
onde a noite e o vento se entrelaçam
no vazio que te espera.
Súbito e transparente chegaste
quando falsos deuses subornavam o tempo,
chegaste sem aviso
para despedir o defeso e o frio,
chegaste quando a estrada se abria
como um rio,
chegaste para resgatar sem demora o principio.
Grave o silêncio agarra-se ao teu corpo,
hostil o silêncio agarra-se ao teu corpo
mas já tomaste horas e caminhos
já venceste matos e abismos
já a espessura do obô resplandece em tua testa.
E não me bastam pombas dementes no teu rosto
não bastam consciências soluçante em teu rasto
não basta o delírio das lágrimas libertas.
Cantarei em pranto teu regresso sem idade
teu retorno do exílio na saudade
cantarei sobre esta terra teu destino de rebelde.
Para te saudar no mar e no palma
na manhã dos cantos sem represas
saudarei a praia lisa e o pomar.
Direi teu nome e tu serás.
1986
Fonte: Jornal de Poesia
Sobre a autora
terça-feira, 12 de março de 2013
Sophia de Mello Breyner Andresen
TRANSPARÊNCIA
Senhor libertai-nos do jogo perigoso da transparência
No fundo do mar da nossa alma não há corais nem búzios
Mas sufocado sonho
E não sabemos bem que coisa são os sonhos
Condutores silenciosos canto surdo
Que um dia subitamente emergem
No grande pátio liso dos desastres
POEMA
Senhor libertai-nos do jogo perigoso da transparência
No fundo do mar da nossa alma não há corais nem búzios
Mas sufocado sonho
E não sabemos bem que coisa são os sonhos
Condutores silenciosos canto surdo
Que um dia subitamente emergem
No grande pátio liso dos desastres
POEMA
A minha vida é o mar o Abril a rua
O meu interior
é uma atenção voltada para fora
O meu viver escuta
A frase que de coisa em coisa silabada
Grava no espaço e no tempo a sua escrita
O meu viver escuta
A frase que de coisa em coisa silabada
Grava no espaço e no tempo a sua escrita
Não trago Deus em mim mas no mundo o procuro
Sabendo que o real o mostrará
Sabendo que o real o mostrará
Não tenho explicações
Olho e confronto
Olho e confronto
E por método é nu meu pensamento
A terra o sol o vento o mar
São minha biografia e são meu rosto
Por isso não me peçam cartão de identidade
Pois nenhum outro senão o mundo tenho
Não me peçam opiniões nem entrevistas
Não me perguntem datas nem moradas
De tudo quanto vejo me acrescento
Pois nenhum outro senão o mundo tenho
Não me peçam opiniões nem entrevistas
Não me perguntem datas nem moradas
De tudo quanto vejo me acrescento
E a hora da minha morte aflora lentamente
Cada dia preparada
Cada dia preparada
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Fernando Paixão
Os berros das ovelhas de tão articulados quebram os motivos. Um lençol de silêncio cobre a tudo e todos. Passam os homens velho...
-
Os berros das ovelhas de tão articulados quebram os motivos. Um lençol de silêncio cobre a tudo e todos. Passam os homens velho...
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Callas na escala ascendente A Ziriguimel Inteira, tua voz é um cone, torre de catedral, coisa tátil, que se avista, mutáv...
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Não conheço nenhum romancista que não tenha o vício desaforado da leitura. Somos, por definição, bichos leitores. Roemos as palavras dos l...





