sexta-feira, 29 de março de 2013

Murilo Mendes

QUARTA MEDITAÇÃO
Ó Deus tua solidão
Quando desde toda a eternidade
Conheces tua própria força e teu poder.                      
Tua solidão quando sopraste sobre o homem
Sabendo que ele te iria abandonar:
Tua solidão foi rompida pela intimidade
Que te incarnando concedeste ao homem...
E ao mesmo tempo que rompida, se agravou.
Ó Deus tua solidão
Porque o homem à tua sombra severa e suave
Prefere a companhia de imperfeitos
ídolos à base de terror.
Ó Deus tua solidão
Porque o homem não te pesquisa paciente
No Santo dos santos do seu próprio espírito
Mas observando sempre o espaço e o tempo.
Ó Deus tua solidão
Porque aceitaste experimentar a morte
Decretada pelo teu próprio Pai
E assim do enxerto da tua morte de homem
O homem um dia despontasse Deus.
Ó Deus tua solidão
Porque morte, fome, peste e guerra
Não te podem atingir nem alterar.
Ó Deus tua solidão
Porque abandonado nos abandonas.
Ó Deus tua solidão
Não te distancia — te aproxima de nós.
Ó Deus tua solidão
Te manifesta pobre, fraco e nu,
Ainda mais fraco do que o próprio homem
Usando seu poder de usurpação,
Ó Deus desfeito em sangue, verme vil.

Ó Deus tua solidão
Te desloca domado
Do infinito físico em que te limitaram
E te faz descer até nós
No infinito íntimo,
No recesso de miséria em que te recebemos,
No santuário sinistro do pecado,
Ó Deus que capitulas
E que te fazes semelhante a nós
Em nossa intransferível solidão

[In: Poesia Completa e Prosa, Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994, p.  246




Kent Williamns


quinta-feira, 28 de março de 2013

Lélia Coelho Frota

AUTOGRAVURA, EM ÁGUA FRÁGIL II
Pelo que fui de riso claro
no estágio de uma primavera
pela doída confidência
impressa em água curiosa
e navegada por estranhos
em sua vã mansuetude
urdiu o tempo o comentário
que para vós é minha imagem:
apenas jovem ocorrência
de olhos risonhos na paisagem.
E com mineira e atra constância
passeio os córregos delgados
em meandro pervago no trilho
dos novilhos de chocolate.
Coração entre mar e Minas
de ligeiro favônio aceno
brinco entre vossa habilidade
de não saber-me (mar ou Minas)
e de tanta fragilidade
efígie de água me desmancho
frêmito leve de suspiro
para surgir no vau tranquilo
do Rio Verde mapeado na
concreta cidade dos morros
onde o universo se resume
no olhar explícito dos bois
e no severo circunlóquio
dos homens pelo território
cinábrio de seu cafezal —
feudo em que o arame é geografia
única de interna valia
e o que o excede é horizonte
onde a atenção não se ilimita:
já é outra jurisdição.
Rios vermelhos e vermelhas
estradas de barro ferido
pelos arados sonolentos
casas de barro, bois de barro
oco, paixão e anjos barrocos
desfazendo-se no passado
como em lenta câmara rubra
a resumir tudo em difusa
mancha de quem encara o sol.
Mas é na ternura do barro
que se molda a fisionomia
das longínquas tardes de infância
e dos atalhos em surdina
onde o segredo era ciência
de perdular-se e não exaurir-se:
mina que sempre revertesse
um imutável diamante.
E como imprimir à feitura
(assim tão sobre o purpurino)
de minha paisagem madura
o tom que lhe ameiga o contorno
e responde pela moldura
que esmerilha em amorosa luz
mesmo a fidúcia solitária
de quem soma seus desconfortos?
Só descerrando em talho doce
certa líquida anatomia
do espelho antigo que escorria
em nós o humor e os estuários
da reserva que é sentimento
das Gerais em qualquer instância
e sobrepaira em absoluto
diário cerrado, nostálgico,
as noruegas do silêncio
onde itinero em singradura a
 nave azul deste poema
com leme aberto em madrigal
que atravessa na cerração
mares que nunca saberei
em perdida viagem — meu próprio
longo exílio sem remissão.

Juan Carlos Boveri

[In Poesia Lembrada, Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1971, p. 119-120].


quarta-feira, 27 de março de 2013

António Ramos Rosa

UMA NOVA INTERPRETAÇÃO DO MITO DE NARCISO 

Quero aconchegar-me nos meus braços nocturnos
sou o meu próprio berço maternal e musical
inteiramente prolongando-se redondo
como um cavalo de veias nuas 
numa vagarosa torrente cálida
no radioso tremor do meu corpo nascente
pertenço-me numa onda que vai morrendo
numa ilha numa nuvem numa teia tecendo-me
pela minha língua pelas minhas mãos pela saliva
do meu sol embriagado
pelo sabor do meu corpo que se dilata como um fruto branco
como um rio que enrola e desenrola numa contínua onda
sou o que só a si se pertence e de um útero verde desponta
numa fuga amorosa
sou Narciso aquele a que se dá esse nome puro
de flor e adolescente de solidão amada
no berço da sua extasiada fonte
e me pertenço na dádiva de me dar
o que vem do fundo de um sim de um princípio divino
e é uma mulher na sua origem de irmã incestuosa
de virgem pródiga na primitiva nudez de Eva.




terça-feira, 26 de março de 2013

Cristina Campo

RÁDONITZA 
(Anúncio da Páscoa aos mortos)

Vento de primavera
translúcido como espada:
afasta do sépalo afiado
a corola carmesim que ainda treme,
como na alma o espírito,
o sangue da veia.
O inverno, oculta haste
que balouçou os desejos, assombrou as mortais hesitações,
decepada sem um grito;
a velhice interior decepa
da terrível vida.
Páscoa da incorrupção!
No vento de primavera
a antiga igreja indivisa
anuncia aos mortos que indivisa é a vida:
sobre as lápides dos túmulos
pousa os sépalos que ainda tremem
e no centro, no plexo, no coração,
lá onde está sepultado o Sol,
lá onde está sepultado o Dom,
o pequeno ovo carmesim do perene retorno,
do humilde, irreconhecível
transfigurado retorno.
Páscoa que libertas todas as culpas!

Paradoxal deserto
de um cemitério metropolitano
entre suavíssimas asas
de andorinhas e véus: quinto tom,
gritos de boiardos sem postura, a espada exposta
na celeste Cidade tomada,
a qual se cruza e enrola, oitavo tom,
— como à vivificante, venerável Cruz
do Arqueiro a rosa que ainda treme —
naquele tão terno lamento fúnebre:
Páscoa, memória eterna!

Patética, patrícia
morte da morte metropolitana
testemunhada apenas por escassas e imóveis bonecas
da Corte asiática: carmesim, prata e ouro.
Pálpebras escavadas,
pálpebras afiadas,
olhos fixos, parados, empedrados
sobre os túmulos de cada lugar, cada memória, cada estirpe,
cada psique que morre.
Lenços enxugam furtivos
os cantos da boca que rega como sangue
o divino grito, as raízes carbonizadas da água
inexaurível da notícia tremenda:
Páscoa, memória eterna!

[Cristina Campo, O Passo do Adeus, tr. José Tolentino Mendonça, Assírio & Alvim, Lisboa, 2002, pp. 103-105].

Tiziano

segunda-feira, 25 de março de 2013

María Victoria Atencia

MARTA E MARIA
Uma coisa, meu amor, ser-me-á imprescindível.
Jan Vermeer
para estar sentada a teu lado no chão;
que meus olhos te olhem e tua graça me preencha;
que teu olhar cubra meu peito de ternura
e extasiada não encontre outro motivo
para morrer que tua ausência.

Mas, que será de mim quando tu te fores?
pouco ou quase nada servem, fora de tuas razões,
a casa e seus afazeres, a cozinha e a horta.
És todo meu ócio:
o que importa que minha irmã ou os demais murmurem,
se sais em minha defesa, já que só amor conta.

MENINA
Levas um copo cheio de transparências
entre inquietas mãos e escorregadios dedos.

Podes cantar o céu, o amor, as estrelas:
tudo nascerá novo de teus lábios formosos.

Descobrirás em sonhos a vida que te persegue
tão docilmente mansa e lhe sorrirás.

Despertarás o dia menos pensado entre
um maio e um setembro e moverá o assombro
ao fio de tua anágua.

Revolverás então de um desconserto grande
o mundo que te preenche; uma luz saltará,
em canos, por teus olhos.

E, seguirá a fonte o curso de teu colo
enquanto pássaros haja em voo por tuas veias
e palavras falando do amor em tua boca.

BONECA QUEBRADA
Que me tenta dizer tua deterioração? Vem,
boneca frágil, doente e ferida,
sem grande saias que cubram teu corpo descomposto,
sem uma alma mecânica que te cubra, desastre
dos anos e o trato.
Não me apartei de ti, nos apartaram
convenções e usos: não era próprio querer-te,
e hoje penso que outras mãos te mexeram em excesso.

Tradução do professor José Pires

Sobre María Victoria Atencia

domingo, 24 de março de 2013

Carminha Gouthier

ADORO-TE
Adoro-Te,
maravilhada,
quando plantas na areia selvagem
cedros e acácias,
murtas e oliveiras,
quando chamas as estrelas pelo nome.

Temendo,
quando surges na ilha da visão:
olhos de fogo,
pés de metal ardente,
na Tua voz, ruído de muitas águas,
na boca, a espada de dois gumes.
Distante e violento,
a medir, a pesar,
a julgar para sempre.

Comovida,
quando Te sei humano,
estremecendo de dor
ante a pedra de um sepulcro.

Amando Teus amigos
com a ternura
com que amo os meus.

Carminha Gouthier, Mystica Poesia - Poemas Reunidos, p. 139.

Rainer Maria Rilke

O TORSO ARCAICO DE APOLO
Não conhecemos sua cabeça inaudita
Onde as pupilas amadureciam. Mas
Seu torso brilha ainda como um candelabro
No qual o seu olhar, sobre si mesmo voltado

Detém-se e brilha. Do contrário não poderia
Seu mamilo cegar-te e nem à leve curva
Dos rins poderia chegar um sorriso
Até aquele centro, donde o sexo pendia.

De outro modo erguer-se-ia esta pedra breve e mutilada
Sob a queda translúcida dos ombros.
E não tremeria assim, como pele selvagem.

E nem explodiria para além de todas as fronteiras
Tal como uma estrela. Pois nela não há lugar
Que não te mire: precisas mudar de vida.

Tradução: Paulo Quintela

QUE FARÁS TU, MEU DEUS, SE EU PERECER?
Que farás tu, meu Deus, se eu perecer?
Eu sou o teu vaso - e se me quebro?
Eu sou tua água - e se apodreço?
Sou tua roupa e teu trabalho
Comigo perdes tu o teu sentido.

Depois de mim não terás um lugar
Onde as palavras ardentes te saúdem.
Dos teus pés cansados cairão
As sandálias que sou.
Perderás tua ampla túnica.
Teu olhar que em minhas pálpebras,
Como num travesseiro,
Ardentemente recebo,
Virá me procurar por largo tempo
E se deitará, na hora do crepúsculo,
No duro chão de pedra.

Que farás tu, meu Deus? O medo me domina.

Tradução: Paulo Plínio Abreu

MORGUE
Estão prontos, ali, como a esperar
que um gesto só, ainda que tardio,
possa reconciliar com tanto frio
os corpos e um ao outro harmonizar;

como se algo faltasse para o fim.
Que nome no seu bolso já vazio
há por achar? Alguém procura, enfim,
enxugar dos seus lábios o fastio:

em vão; eles só ficam mais polidos.
A barba está mais dura, todavia
ficou mais limpa ao toque do vigia,

para não repugnar o circunstante.
Os olhos, sob a pálpebra, invertidos,
olham só para dentro, doravante.

In Coisas e anjos de Rilke, 130 poemas traduzidos, Augusto de Campos, 2a. ed., São Paulo: Perspectiva, 2013, p. 115

A PANTERA
                        No Jardin des Plantes, Paris
De tanto olhar as grades seu olhar
esmoreceu e nada mais aferra.
Como se houvesse só grades na terra:
grades, apenas grades para olhar.

A onda andante e flexível do seu vulto
em círculos concêntricos decresce,
dança de força em torno a um ponto oculto
no qual um grande impulso se arrefece.

De vez em quando o fecho da pupila
se abre em silêncio. Uma imagem, então,
na tensa paz dos músculos se instila
para morrer no coração.

In Coisas e anjos de Rilke, 130 poemas traduzidos, Augusto de Campos, 2a. ed., São Paulo: Perspectiva, 2013, p. 121


A GAZELA
                            Gazella Dorcas
Mágico ser: onde encontrar quem colha
duas palavras numa rima igual
a essa que pulsa em ti como um sinal?
De tua fronte se erguem lira e folha

e tudo o que és se move em similar
canto de amor cujas palavras, quais
pétalas, vão caindo sobre o olhar
de quem fechou os olhos, sem ler mais,

para te ver: no alerta dos sentidos,
em cada perna os saltos reprimidos
sem disparar, enquanto só a fronte

a prumo, prestes, pára: assim, na fonte,
a banhista que um frêmito assustasse:
a chispa de água no voltear da face.

In Coisas e anjos de Rilke, 130 poemas traduzidos, Augusto de Campos, 2a. ed., São Paulo: Perspectiva, 2013, p. 123

SÃO SEBASTIÃO
Como alguém que jazesse, está de pé,
sustentado por sua grande fé.
Como mãe que amamenta, a tudo alheia,
grinalda que a si mesma se cerceia.

E as setas chegam: de espaço em espaço,
como se de seu corpo desferidas,
tremendo em suas pontas soltas de aço.
Mas ele ri, incólume, às feridas.

Num só passo a tristeza sobrevém
e em seus olhos desnudos se detém,
até que a neguem, como bagatela,
e como se poupassem com desdém
os destrutores de uma coisa bela.

In Coisas e anjos de Rilke, 130 poemas traduzidos, Augusto de Campos, 2a. ed., São Paulo: Perspectiva, 2013,p. 125

O ANJO
Com um mover da fronte ele descarta
tudo o que obriga, tudo o que coarta,
pois em seu coração, quando ela o adentra,
a eterna Vinda os círculos concentra.

O céu com muitas formas lhe aparece
e cada qual demanda: vem, conhece -.
Não dês às suas mãos ligeiras nem
um só fardo; pois ele, à noite, vem

à tua casa conferir teu peso,
cheio de ira, e com a mão mais dura,
como se fosses sua criatura,
te arranca do teu molde com desprezo.

In Coisas e anjos de Rilke, 130 poemas traduzidos, Augusto de Campos, 2a. ed., São Paulo: Perspectiva, 2013, p. 127

FONTE ROMANA
                               Borghese
Duas velhas bacias sobrepondo
suas bordas de mármore redondo.
Do alto a água fluindo, devagar,
sobre a água, mais em baixo, a esperar,

muda, ao murmúrio, em diálogo secreto,
como que só no côncavo da mão,
entremostrando um singular objeto:
o céu, atrás da verde escuridão;

ela mesma a escorrer na bela pia,
em círculos e círculos, constante-
mente, impassível e sem nostalgia,

descendo pelo musgo circundante
ao espelho da última bacia
que faz sorrir, fechando a travessia.

In Coisas e anjos de Rilke, 130 poemas traduzidos, Augusto de Campos, 2a. ed., São Paulo: Perspectiva, 2013, p. 157

DANÇARINA ESPANHOLA
Como um fósforo a arder antes que cresça
a flama, distendendo em raios brancos
suas línguas de luz, assim começa
e se alastra ao redor, ágil e ardente,
a dança em arco aos trêmulos arrancos.

E logo ela é só flama, inteiramente.

Com um olhar põe fogo nos cabelos
e com a arte sutil dos tornozelos
incendeia também os seus vestidos
de onde, serpentes doidas, a rompê-los,
saltam os braços nus com estalidos.

Então, como se fosse um feixe aceso,
colhe o fogo num gesto de desprezo,
atira-o bruscamente no tablado
e o contempla. Ei-lo ao rés do chão, irado,
a sustentar ainda a chama viva.
Mas ela, do alto, num leve sorriso
de saudação, erguendo a fronte altiva,
pisa-o com seu pequeno pé preciso.

In Coisas e anjos de Rilke, 130 poemas traduzidos, Augusto de Campos, 2a. ed., São Paulo: Perspectiva, 2013, p. 159

O CEGO
Ele caminha e interrompe a cidade,
que não existe em sua cela escura,
como uma escura rachadura
numa taça atravessa a claridade.

Sombras das coisas, como numa folha,
nele se riscam sem que ele as acolha:
só sensações de tato, como sondas,
captam o mundo em diminutas ondas:

serenidade; resistência -
como se à espera de escolher alguém, atento,
ele soergue, quase em reverência,
a mão, como num casamento.

In Coisas e anjos de Rilke, 130 poemas traduzidos, Augusto de Campos, 2a. ed., São Paulo: Perspectiva, 2013, p. 243

EXERCÍCIOS AO PIANO
O calor cola. A tarde arde e arqueja.
Ela arfa, sem querer, nas leves vestes
e num étude enérgico despeja
a impaciência por algo que está prestes

a acontecer: hoje, amanhã, quem sabe
agora mesmo, oculto, do seu lado;
da janela, onde um mundo inteiro cabe,
ela percebe o parque arrebicado.

Desiste, enfim, o olhar distante; cruza
as mãos; desejaria um livro; sente
o aroma dos jasmins, mas o recusa
num gesto brusco. Acha que á faz doente.

In Coisas e anjos de Rilke, 130 poemas traduzidos, Augusto de Campos, 2a. ed., São Paulo: Perspectiva, 2013, p. 277

O SOLITÁRIO
Não: uma torre se erguerá do fundo
do coração e eu estarei à borda:
onde não há mais nada, ainda acorda
o indizível, a dor, de novo o mundo.

Ainda uma coisa, só, no imenso mar
das coisas, e uma luz depois do escuro,
um rosto extremo do desejo obscuro
exilado em um nunca-apaziguar,

ainda um rosto de pedra, que só sente
a gravidade interna, de tão denso:
as distâncias que o extinguem lentamente
tornam seu júbilo ainda mais intenso.

In Coisas e anjos de Rilke, 130 poemas traduzidos, Augusto de Campos, 2a. ed., São Paulo: Perspectiva, 2013, p. 293

O FRUTO
Subia, algo subia, ali, do chão,
quieto, no caule calmo, algo subia,
até que se fez flama em floração
clara e calou sua harmonia.

Floresceu, sem cessar, todo um verão
na árvore obstinada, noite e dia,
e se soube futura doação
diante do espaço que o acolhia.

E quando, enfim, se arredondou, oval,
na plenitude de sua alegria,
dentro da mesma casca que o encobria
volveu ao centro original.

In Coisas e anjos de Rilke, 130 poemas traduzidos, Augusto de Campos, 2a. ed., São Paulo: Perspectiva, 2013, p. 349

O MUNDO ESTAVA NO ROSTO DA AMADA
O mundo estava no rosto da amada -
e logo converteu-se em nada, em
mundo fora do alcance, mundo-além.

Por que não o bebi quando o encontrei
no rosto amado, um mundo à mão, ali,
aroma em minha boca, eu só seu rei?

Ah, eu bebi. Com que sede eu bebi.
Mas eu também estava pleno de
mundo e, bebendo, eu mesmo transbordei.

In Coisas e anjos de Rilke, 130 poemas traduzidos, Augusto de Campos, 2a. ed., São Paulo: Perspectiva, 2013, p. 351


Marc Chagall





Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...