Aqui, onde a mão não
alcança o interruptor da vida, aqui
só brilha a solidão.
Desfazem-se as lembranças contra os vidros.
Aqui, onde a brancura
dum lenço é a brancura do infortúnio,
aqui a solidão
não brilha, apenas
se estorce.
A fome fala através das feridas.
Vulcão, Lisboa, Quetzal, 1994, p.17
Avanço devagar, vão-se os amigos na ressaca
de cujo amor avanço assim deixando
ficar contudo aos poucos para trás, embora o mar
lhes sobre ainda às vezes do sorriso.
Procuro esses amigos. É possível
atar-lhes o horizonte entre o cabelo e acariciá-los
ainda uma vez mais. Fazer-lhes através
das mãos passar o sopro das pedreiras.
Poemas. Porto, Limiar, 1987, p.33.
As ondas que se encontram
ainda agora em formação no espírito
dele já não vêm rebentar ao meu.
Por mim não volto a vê-lo, encontros houve
com ele dos quais a alma ficou cheia de dedadas.
Já nem sequer dele quero ouvir falar,
saber que se ele
fosse uma cama estaria por fazer nada me traz
agora além de desconforto.
O Céu Sob as Entranhas, Porto, Limiar,1989, p.53
sábado, 13 de abril de 2013
sexta-feira, 12 de abril de 2013
Campos de Carvalho
Fragmento de "A Chuva Imóvel"
Há quanto tempo estou vagando neste mar, neste deserto — neste abismo? Há quantas noites?
Há quanto tempo estou vagando neste mar, neste deserto — neste abismo? Há quantas noites?
Ainda estão comigo a minha carne e os meus ossos, esteja
onde estiver ainda é em mim que eu estou viajando, assim parado mas girando com
a Terra e o seu eixo, com estas águas e o seu silêncio: com este frio que só
pode vir de um corpo imóvel ou projetado no infinito.
Já me parece ouvir sob os pés algo de estranho, os meus
dois pés e não os de outro: assim como uma música feita de areia, como quando
eu pisava a praia ainda que em pensamento, exatamente esta sensação de música
nos pés. Posso estar suspenso — a corda! —
mas toco com os pés
essa areia da infância, assim e cada vez mais nítida, penetrando-me mais do que
a penetro, sem que eu faça o mínimo esforço ou movimento. Que é um chão de
areia eu não tenho dúvida, irreal ou real, eu suspenso da corda ou apenas meu
pensamento, e esta lucidez que me põe tranquilo e ao mesmo tempo em espanto:
embora ainda calmo, muito mais calmo do que antes — terrivelmente calmo.
Destes pés é que me virá a revelação, qualquer que seja, e
não do meu fígado nem dos intestinos, nem das minhas mãos que nem sei onde
estão —: dos meus pés! Sinto, pressinto, algo tão silencioso e frio quanto eu
mesmo, como se fosse apenas uma continuação do meu corpo mas não sendo: MAS NÃO É — um outro mundo que bem pode ser o meu mas também um mundo
novo, completamente diferente, e que estou pisando pela primeira vez. Tocam-me
não as águas mas a areia que há no fundo dessas águas, a AREIA — e já lhe posso até adivinhar a cor só pelo tato:
vermelho, vermelha — como fazia em criança quando pegava alguma coisa no
escuro. — Fofo e vermelho.
Daqui sairei eu e vivo, tenho certeza, apesar do frio e
deste peso quase insuportável que suporto sobre os ombros, como se suportasse
todo o peso do mundo. Valeu-me ao menos para isso a minha experiência de
afogado, a minha inexperiência — e sobretudo o que me ficou da calma do irmão
em cima e fora da sua bicicleta, o irmão, respirando e andando comigo desde que
o enterraram dentro de mim. — E possível que este seja o seu mundo e ele me
tenha arrastado até aqui, preso a essa corda que eu comprei e armei julgando
ser minha: a corda justamente que se atira ao afogado para que não se afogue,
não se afobe — assim como eu ainda há pouco, antes de atingir esta praia.
In A Chuva Imóvel, In Obra Reunida, Rio de Janeiro: José Olympio Ed., 2008, 5a. ed., pp. 277-278.
In A Chuva Imóvel, In Obra Reunida, Rio de Janeiro: José Olympio Ed., 2008, 5a. ed., pp. 277-278.
quinta-feira, 11 de abril de 2013
Murilo Mendes
Mariana Alcoforado
A Isabel da Nóbrega
Transcurso o subsistente enigma crítico. Existiu Soror Mariana Alcoforado, existiu o (intolerável?) capitão de cavalaria Noel de Chamilly; forjadas ou não, alteradas ou não por algum esperto literato, existiam até hoje, ignoro se até sempre, as cartas.
Na verdade, para muitos europeus que talvez desconhecessem, mesmo de nome, Os Lusíadas, o vinho do Porto e o — gêmeo — da Madeira, Portugal afigura-se um país resultante destas cartas; descoberto, sem que ela o soubesse, por Mariana Alcoforado.
Um comentário pessoal em torno deste nome não tem nenhuma relação com a história ou a crítica; mencionando-o, adoto o regime da confidência; pretendo apenas dialogar com o possível leitor.
Direi pois: Mariana é um nome da minha adesão. Reúne duas grandes senhoras bíblicas, Maria e Ana; alude também à poetisa Marianne Moore que
semprevoando-se, trata com lucidez e ciência da linguagem os objetos; atenta à
ideia do limite.
Alcoforado:
nome singular, simétrico, porque composto de cinco sílabas de duas letras cada
uma. A raiz “al” será relativa à origem mourisca da palavra? O fato é que o
Alentejo, onde vivia Mariana, sofreu influência dessa cultura.
Ninguém
ignora qua as cartas tocaram escritores consideráveis: Racine, Saint-Simon,
Rousseau, Stendhal, Rilke e muilos outros. Deram a deixa a Elizabetl Barrctt
Browning para o tema dos Sonnets from the Portuguese. Segundo Rilke, teriam sido escritas por mão de sibila;
personagem futurível que sempre me despertou terror e fàscino.
Difícil
determinar se esta freira é pagã ou cristã; mesmo porque talvez nenhum
teólogo-geógrafo conheça as fronteiras entre paganismo e cristianismo; sendo
também absurdo rotular os pagãos de a-religiosos. Quanto ao cristianismo: vasto
demais para se poder entendê-lo claramente.
De
qualquer modo Mariana experimenta na carne e no espírito a fúria amorosa,
palavra banal, mas que funciona. (No momento não disponho de nenhuma
metáfora-arquétipo.) Aplicarei portanto a Mariana a etiqueta “cristopagã”, sem
insinuar que ela seria cristã pelo espírito e pagã pela carne. A doutrina
católica declara-os intimamente unidos; além disto recomenda com insistência o
amor carnal que não deve se limitar ao prazer momentâneo, mas acudir à
perpetuação da espécie; Santo Agostinho e Santo Tomás dixerunt; logo, exclui-se a pílula. Discordo
deste último ponto: e como Paulo VI jamais lerá este livro, driblo a censura,
continuando, mesmo de binóculo, a entrevê-lo, debruçado à sua janela parda, ou
inserido na sédia gestatória, móvel felizmente já quase bissexto. Em quanto à
terra, superpovoando-se, ameaça explodir à força de complexos problemas, e
irresponde aos seus mútiplos apelos de paz universal.
Considerável,
nas cartas, a prioridade atribuída ao tema do amor-paixão, tratado em modo
raro, fora dos esquemas estilísticos então vigentes na Península Ibérica; sem
metáforas nem afetações cultistas. Segundo se escreveu, temos aqui a
anatomia do amor português levado à saturação; mas, o que é
incomum em Portugal, sem mancha de sentimentalismo ou excessos de “meiguice”,
ausente o diminutivo; nem atenção ao cenário e à natureza física. Com alguma
coisa da precedente Teresa de Ávila e o preanúncio do ímpeto de Mathilde de la
Mole.
Nessa
fúria amorosa todas as probabilidades se afirmam dentro da contradição, se
combinam e se destroem. Mariana sabe que não tem saída; nisto reside seu
caráter patético, exposto literalmente com vigor e audácia.
Seus
limites determinam-lhe a faixa da grandeza. É terrestre: “Já não quero honra
nem religião senão para amar-te perdidamente a vida inteira.” Inicia- se um
diálogo-monólogo: “Escrevo mais para mim do que para ti.” Ama o próprio texto:
“Custa-me mais a deixar esta carta do que a ti custou a deixar-me talvez para
sempre”; “Então este desespero só é verdadeiro nas minhas cartas?"
Consciente da sua abjeção (quem sabe seria masoquista), quer exorcizá-la: “Em
certos momentos parece-me que era capaz de levar a minha sujeição até servir
aquela que amas”. E seu impudor: igual ao seu pudor.
Esta
freira reversível, constrangida a trazer um véu preto em vez dum véu vermelho
disfarçando espada, pressente, antes de Baudelaire e Michel Leiris, o amor
como forma de tauromaquia. Meduséia talvez, mas não tele- meduséia; pelo que o
amante, já agora reinstalado na França, pode escapar à sua fúria.
Como
seria, fisicamente falando, a palavra Marina Alcoforado? Conservo para mim a
trama do seu retrato; a atenção que dedico ao leitor não vai até o ponto de
desvendá-la. Na época do julgamento universal (dogma que espaventava Quevedo)
saberei se esse retrato discrepa ou não do original; também tu, leitor amigo,
o saberás; além de, naturalmente, muitas outras coisas.
[In Poesia Completa e Prosa, Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994, pp. 1421-1423].
[In Poesia Completa e Prosa, Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994, pp. 1421-1423].
Sophia de Mello Breyner Andresen
COM FÚRIA E RAIVA
Com fúria e raiva acuso o demagogo
E o seu capitalismo das palavras
Pois é preciso saber que a palavra é sagrada
Que de longe muito longe um povo a trouxe
E nela pôs sua alma confiada
De longe muito longe desde o início
O homem soube de si pela palavra
E nomeou a pedra a flor a água
E tudo emergiu porque ele disse
Com fúria e raiva acuso o demagogo
Que se promove à sombra da palavra
E da palavra faz poder e jogo
E transforma as palavras em moeda
Como se fez com o trigo e com a terra
Junho de 1974
[In O Nome das Coisas, in OBRA POÉTICA, Alfragide, Caminho, 2011, pp. 524-525].
Com fúria e raiva acuso o demagogo
E o seu capitalismo das palavras
Pois é preciso saber que a palavra é sagrada
Que de longe muito longe um povo a trouxe
E nela pôs sua alma confiada
De longe muito longe desde o início
O homem soube de si pela palavra
E nomeou a pedra a flor a água
E tudo emergiu porque ele disse
Com fúria e raiva acuso o demagogo
Que se promove à sombra da palavra
E da palavra faz poder e jogo
E transforma as palavras em moeda
Como se fez com o trigo e com a terra
Junho de 1974
[In O Nome das Coisas, in OBRA POÉTICA, Alfragide, Caminho, 2011, pp. 524-525].
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| Amadeu de Souza-Cardoso |
quarta-feira, 10 de abril de 2013
Marly de Oliveira
XIX
A morte é meu espanto cotidiano.
Por isso não entendo que a chames
irmã, como à água, à lua,
a tudo o que é vivo e floresce,
a tudo o que é vivo e mata para viver ainda,
como o animal mais terno,
o mais empedernido.
Teu Cântico do Sol é uma oração tão bela
quanto a outra, que se insere
entre as mais belas.
E fala de uma forma tão perfeita
de amar — Ah, se o soubeste! —
sem esperança da mais leve recompensa.
Mas esse renascer de que me falas
para uma vida eterna?
São eternos os campos, as espécies?
Ou todos, se renascem de si mesmos,
conhecem essa estranha sensação
do não-ser, até que vem de novo
a primavera?
Tenho medo de mim, do que não sei,
do que me confiaram certa vez
e por incúria esqueci.
Obedeço a uma lei que desconheço,
e vim, tão sem escolha,
que nem sei a que vim.
XX
XXI
Tua maior lição:
essa humildade
de perdoar sem conta,
esquecendo até mesmo a chaga aberta
em cada mão,
no canto sem suplício levantado
na eterna louvação do que é criado
a cada dia,
cada nova estação.
Se se pudesse ao menos aprender
essa alegria de ser, tão desprovida
de medo ou de paixão,
que até mesmo a Indesejada, a incompreensível
e fatal se incorporasse
ao ofício de viver!
criando um novo espaço para o amor,
onde nada se exclui, nem mesmo a aceitação
do absurdo, a submissão àquilo que me escapa.
[Marly de Oliveira, Aliança, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1978, pp. 41-43].
A morte é meu espanto cotidiano.
Por isso não entendo que a chames
irmã, como à água, à lua,
a tudo o que é vivo e floresce,
a tudo o que é vivo e mata para viver ainda,
como o animal mais terno,
o mais empedernido.
Teu Cântico do Sol é uma oração tão bela
quanto a outra, que se insere
entre as mais belas.
E fala de uma forma tão perfeita
de amar — Ah, se o soubeste! —
sem esperança da mais leve recompensa.
Mas esse renascer de que me falas
para uma vida eterna?
São eternos os campos, as espécies?
Ou todos, se renascem de si mesmos,
conhecem essa estranha sensação
do não-ser, até que vem de novo
a primavera?
Tenho medo de mim, do que não sei,
do que me confiaram certa vez
e por incúria esqueci.
Obedeço a uma lei que desconheço,
e vim, tão sem escolha,
que nem sei a que vim.
XX
Chamo-te santo, santo,
mas não sei do que falo:
da renúncia à riqueza deste mundo?
da tua entrega a teu irmão
sem pedir nada em troca?
do teu desnudamento necessário?
ou da fidelidade a teu destino
de
amar, amar, entre os mais nobres?
Olhavas com atenção a mínima planta,
atendias aos bichos,
que te amavam
de forma obscura, nunca ameaçadora.
Opunhas tua força e rebeldia
passiva ao jugo do mais forte,
e amavas conhecendo o não-amor,
a injúria, a incompreensão, a glória,
que outra
não sei maior que de enfrentar
a dureza da pedra,
a dureza daquele
que não quer ver. XXI
Tua maior lição:
essa humildade
de perdoar sem conta,
esquecendo até mesmo a chaga aberta
em cada mão,
no canto sem suplício levantado
na eterna louvação do que é criado
a cada dia,
cada nova estação.
Se se pudesse ao menos aprender
essa alegria de ser, tão desprovida
de medo ou de paixão,
que até mesmo a Indesejada, a incompreensível
e fatal se incorporasse
ao ofício de viver!
criando um novo espaço para o amor,
onde nada se exclui, nem mesmo a aceitação
do absurdo, a submissão àquilo que me escapa.
[Marly de Oliveira, Aliança, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1978, pp. 41-43].
terça-feira, 9 de abril de 2013
Maria do Rosário Pedreira
Vieste como um barco carregado de vento, abrindo
feridas de espuma pelas ondas. Chegaste tão depressa
que nem pude aguardar-te ou prevenir-me; e só ficaste
o tempo de iludires a arquitectura fria do estaleiro
onde hoje me sentei a perguntar como foi que partiste,
se partiste,
que dentro de mim se acanham as certezas e
tu vais sempre ardendo, embora como um lume
de cera, lento e brando, que já não derrama calor.
Tenho os olhos azuis de tanto os ter lançado ao mar
o dia inteiro, como os pescadores fazem com as redes;
e não existe no mundo cegueira pior do que a minha:
o fio do horizonte começou ainda agora a oscilar,
exausto de me ver entre as mulheres que se passeiam
no cais como se transportassem no corpo o vaivém
dos barcos. Dizem-me os seus passos
que vale a pena esperar, porque as ondas acabam
sempre por quebrar-se junto das margens. Mas eu sei
que o meu mar está cercado de litorais, que é tarde
para quase tudo. Por isso, vou para casa
e aguardo os sonhos, pontuais como a noite.
feridas de espuma pelas ondas. Chegaste tão depressa
que nem pude aguardar-te ou prevenir-me; e só ficaste
o tempo de iludires a arquitectura fria do estaleiro
onde hoje me sentei a perguntar como foi que partiste,
se partiste,
que dentro de mim se acanham as certezas e
tu vais sempre ardendo, embora como um lume
de cera, lento e brando, que já não derrama calor.
Tenho os olhos azuis de tanto os ter lançado ao mar
o dia inteiro, como os pescadores fazem com as redes;
e não existe no mundo cegueira pior do que a minha:
o fio do horizonte começou ainda agora a oscilar,
exausto de me ver entre as mulheres que se passeiam
no cais como se transportassem no corpo o vaivém
dos barcos. Dizem-me os seus passos
que vale a pena esperar, porque as ondas acabam
sempre por quebrar-se junto das margens. Mas eu sei
que o meu mar está cercado de litorais, que é tarde
para quase tudo. Por isso, vou para casa
e aguardo os sonhos, pontuais como a noite.
In O Canto do Vento nos Ciprestes (Gótica ed., 2001), in
Poesia Reunida (Quetzal, 2012)
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| Anita Malfati |
segunda-feira, 8 de abril de 2013
José Saramago
Apesar da obscuridade
cinzenta da antemanhã, via-se que os pássaros, não as amáveis criaturas aladas
que já não tardarão muito tempo a soltar ao sol os seus cantos, mas as brutas
aves de rapina, essas carnívoras que viajam de patíbulo em patíbulo, tinham começado
o seu trabalho de limpeza pública nas partes expostas dos enforcados, as caras,
os olhos, as mãos, os pés, a meia perna que a túnica não alcançava cobrir. Duas
corujas, alarmadas pelo ruído das patas do jumento, alçaram voo dos ombros do
escravo, num ténue rumor de seda só perceptível por ouvidos experientes.
Introduziram-se em voo raso por uma viela estreita, ao lado do palácio, e
desapareceram. Caim tocou o jumento com os calcanhares, atravessou a praça,
pensando se também agora iria encontrar o velho com as duas cabras atadas por
um baraço, e, pela primeira vez, perguntou-se quem seria a impertinente
personagem, Talvez fosse o senhor, muito capaz disso é ele, com aquele gosto de
aparecer de repente em qualquer parte, murmurou. Não queria pensar em lilith.
Quando na sua desolada cama de porteiro despertou de um sono sobressaltado,
constantemente interrompido, um súbito impulso quase o tinha levado a entrar no
quarto para uma última palavra de despedida, para um último beijo, e quem sabe
o que poderia suceder mais. Ainda estava a tempo. No palácio dormem, só lilith
de certeza estará desperta, ninguém daria pela rápida incursão, ou talvez as
duas escravas que lhe haviam entreaberto as portas do paraíso à chegada, e
elas diriam, sorrindo, Que bem te entendemos, abel. Depois de virar a próxima
esquina deixaria de ver o palácio. O velho das ovelhas não estava ali, o
senhor, se era ele, dava-lhe carta branca, mas nem um mapa de estradas, nem um
passaporte, nem recomendações de hotéis e restaurantes, uma viagem como as que
se faziam antigamente, à ventura, ou, como já então se dizia, ao deus-dará.
Caim tocou outra vez o jumento e em pouco tempo encontrou-se em campo aberto. A
cidade tomara-se numa mancha parda que, aos poucos, pela distância que ia aumentando,
apesar do passo medido do asno, parecia afundar-se no chão. A paisagem era
seca, árida, sem um fio de água à vista. Diante desta desolação era inevitável
que caim recordasse a dura caminhada feita depois de o senhor o ter expulsado
do fatídico vale onde o pobre abel para sempre ficara. In CAIM, São Paulo, Companhia das Letras, 2009, pp. 74-75.
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Fernando Paixão
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