terça-feira, 7 de maio de 2013

Campos de Carvalho

Fragmento de "A Chuva Imóvel"

Mas se pensam que me entrego de mãos atadas estão enganados, nem atadas nem desatadas, e mesmo que me atassem como uma múmia eu não me entregaria, nem que me pusessem de cabeça para baixo ou do avesso, as entranhas à mostra, as minhas entranhas, onde está o meu pensamento, o Pensamento: nem assim me entregaria. Que para isso sou eu e não Ele, mesmo que sejam milhões de Eles, e vim para dar o meu testemunho e estou dando-o, a quem não importa desde que o dê a mim mesmo, eu o sobrevivente dentro de mim, à minha consciência ou mesmo à minha inconsciência, ou mesmo a Ele ou a Eles e à sua corja, assim tranquilos me roubando o que ainda resta da minha consciência, tranquilos e ferozes como deuses, no seu anonimato e na sua covardia, eles sim os covardes, manipulando e fazendo manipular toda uma hecatombe para acabar com um simples homem, como fazem com os ratos, todo o peso do céu para acabar com os ratos: a corja.

Podem me virar do avesso que não me viro, sou eu mesmo do avesso como do direito, e mesmo que me esquartejem e espalhem os pedaços continuarei sendo eu mesmo, como um caleidoscópio é um caleidoscópio e não um simples jogo de espelho, um caleidoscópio  até que o matem por ter sido mais que um simples joguete, mais capaz de beleza do que quem o fez ou desfez.      

In A Chuva Imóvel, In Obra Reunida, Rio de Janeiro: José Olympio Ed., 2008, 5a. ed., p. 296.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Laís Correa de Araújo

August Macke
OFÍCIO 1
Curvar a espinha
sobre o papel

tentar preencher
o branco

com a clara do ovo
de Colombo

ESCRITA
A mosca pousada
no branco
- alheia
efêmera e feia.

Regurgito.

NO GOVERNO
"A seara é grande
mas os lavradores são poucos"

Os gafanhotos são muitos.

OFÍCIO 2
Ainda não descobri
a caneta ideal - o perfeito
encaixe nos dedos - seu fluxo
pênis pensamento
orgasmo e escrita

Ainda não descobri
a palavra ideal
- a menos que ideal
seja a palavra.

NU FRONTAL
Não há nada
mais bonito
e explícito
que um manuscrito.

AUTO DE FÉ
Quando a letra
voltar ao pó...
serei catecúmeno
- em alva -
para o batismo
da realidade:
abjurar a poesia.

(Pé de página)

 In INVENTÁRIO 1951/2002, Belo Horizonte: Editora UFMG, 2004, p. 35

domingo, 5 de maio de 2013

Mário Faustino

PRELÚDIO
He was a poet, sure a lover too...
Keats, “I Stood Tiptoe”

O que eu sou, quero dizer a mim mesmo
para que venha a sabê-lo pouco a pouco.
Sejam minhas palavras não um canto
impossível agora mas retrato
que socorra e console enquanto espero
e receba o que não posso mais conter.
Pudesse eu celebrá-las, as rosas e as estrelas
cantar a noite o silêncio a morte a música...
porém, porque não amo, o mundo me repele
e vivo aprisionado atrás das pálpebras
à espera condenado, à angústia, ao sono, ao tédio.
Talvez a infância, que é minha... mas nem isso,
que toda coisa ou ser, até lembrança
só se deixa cantar quando se sabe amada. Se não amo,
só me resta esperar, navegando em meu sangue.
Agora, não vos direi paisagens, porém sonhos
jamais saudades, mas desejo e esperança
e da beleza só pressentimento. E falarei da amada
hoje miragem, mas amanhã visita
que trará tudo e encontrará somente
amor e enfim um canto — de alegria.

[1949]

In O HOMEM E SUA HORA E OUTROS POEMAS, São Paulo: Companhia de Bolso, 2009, p. 199.

Françoise Nielly

sábado, 4 de maio de 2013

Manuel António Pina

Luz de estrelas sobre o Rohne
Van Gogh
Matéria de estrelas

Porque é tudo para sempre, mesmo a efémera morte,
encontrar-nos-emos eternamente
e nunca mais nos veremos.
O impossível volta a ser impossível. Para sempre.

Impossível é cada manhã aberta,
um deus sonha consigo através de nós.
Às vezes quase posso tocá-lo, ao deus,
surpreendê-lo no seu sono, também ele real e efémero.

Matéria, alma do nada,
os mortos ouvem a tua música sólida
pela primeira vez, como uma respiração de estrelas.
A sua intranqüilidade transforma-se em si mesma, música.

In Nenhum Sítio, In Todas as Palavras Poesia reunida, 3a. ed, Porto, Assírio & Alvim, 2013, p. 125


Sobre o Autor


sexta-feira, 3 de maio de 2013

Ruy Belo

PEREGRINO E HÓSPEDE SOBRE A TERRA
Meu único país é sempre onde estou bem
    é onde pago o bem com sofrimento
    é onde num momento tudo tenho
    O meu país agora são os mesmos campos verdes
    que no outono vi tristes e desolados
    e onde nem me pedem passaporte
    pois neles nasci e morro a cada instante
    que a paz não é palavra para mim
    O malmequer a erva o pessegueiro em flor
    asseguram o mínimo de dor indispensável
    a quem na felicidade que tivesse
    veria uma reforma e um insulto
    A vida recomeça e o sol brilha
    a tudo isto chamam primavera
    mas nada disto cabe numa só palavra
    abstracta quando tudo é tão concreto e vário
    O meu país são todos os amigos
    que conquisto e que perco a cada instante
    Os meus amigos são os mais recentes
    os dos demais países os que mal conheço e
    tenho de abandonar porque me vou embora
    porque eu nunca estou bem aonde estou
    nem mesmo estou sequer aonde estou
    Eu não sou muito grande nasci numa aldeia
    mas o país que tinha já de si pequeno
    fizeram-no pequeno para mim
    os donos das pessoas e das terras
    os vendilhões das almas no templo do mundo
    Sou donde estou e só sou português
    por ter em portugal olhado a luz pela primeira vez

[In Transporte no Tempo, 1973]

Sobre o Autor



quinta-feira, 2 de maio de 2013

García Lorca


1910
(Intermezzo)

Aqueles olhos meus de mil e novecentos e dez
não viram enterrar os mortos,
nem a feira de cinza do que chora pela madrugada,
nem o coração que treme arrincoado como um cavalinho de mar.

Aqueles olhos meus de mil e novecentos e dez 
viram a branca parede onde as meninas urinavam, 
o focinho do touro, a seta venenosa 
e uma lua incompreensível que iluminava pelos cantos 
os pedaços de limão seco sob o preto duro das garrafas.

Aqueles olhos meus no pescoço da égua,
no seio traspassado de Santa Rosa dormindo 
nos telhados do amor, com gemidos e mãos frescas, 
num jardim onde os gatos devoravam as rãs.

Desvão onde o pó velho congrega estátuas e musgos, 
caixas que guardam silêncio de caranguejos devorados 
no lugar onde o sonho tropeçava em sua realidade.
Ali meus pequenos olhos.

Não me perguntem nada. Já vi que as coisas 
quando buscam seu curso encontram seu vazio.
Há uma dor de vácuos pelo ar sem gente 
e em meus olhos criaturas vestidas, sem nudez!

Nova Iorque, agosto de 1929

Federico Garcia Lorca, Romanceiro Gitano e outros Poemas, trad. Oscar Mendes, Rio de Janeiro: José Aguilar Editora, 1974, p. 94.



quarta-feira, 1 de maio de 2013

Lélia Coelho Frota

EM SINAL DE TE ABRAÇAR
Onze anos no jardim da morte e é como se fosse 
o teu dia de aniversário
tão próximo apareces, de olhos líquidos, dados.
Ervilhas-de-cheiro e uma luz muito clara 
sobre o mármore do teu retrato.
Cartas guardadas agenciam a entrega rápida do passado
onde instantâneo ris, 
no sofá ladeado de cisnes.

Já não tenho o teu endereço
a não ser pela mala dos sonhos.
Há graúnas bicando os grãos da vida,
romã. O que acontece
na paisagem à prova de som, sem gravidade,
suspensa dos filamentos da saudade.

Súbito e são lágrimas, a fratura exposta
da tua falta.
Depressa, depressa demais é que se desprendem os pássaros
do teu rosto.

Dia de Todos os Mortos:
flutuas
pela nave espacial da lembrança.
Nem os acordes do grande órgão de Thomaskirche
iluminado como um transatlântico          
conseguem me levar à tua estrela.
Dali mandas mensagens
convites para o cottage verde
onde fechas devagar os olhos de ocarina.
Acorda
deste lado do espelho
trinca o cristal da ausência,
corpo de ar!
Sobem vazios
os elevadores da morte.

Por esses, e por outros motivos,
recorro à ladainha do teu rosto
que repito que repito
inconscientemente dentro dos anos
me desviando da tua memória frontal
insuportável
até o nosso encontro,
corolário de uma eternidade lógica,
no primeiro círculo do Purgatório,
nos subúrbios do Paraíso.

Em trânsito
para a devastadora claridade
flash fulgurante dos nossos corpos e almas
enfim revelados e contidos fora do espaço e do tempo.

[In Menino Deitado em Alfa, in Poesia Reunida 1956-2006, Rio de Janeiro, Bem-Te-Vi, 2013, pp. 388-389].

John Martin

Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...