sexta-feira, 24 de maio de 2013

Giorgos Seféris

VIII
Mas que procuram elas, nossas almas, viajando assim 
Sobre pontes de barcos arruinados,
Empilhadas entre mulheres pálidas e crianças que choram,
A quem não distraem nem os peixes voadores 
Nem as estrelas assinaladas pelas pontas dos mastros;
Almas gastas pelos discos dos fonógrafos,
Ligadas sem o querer a inoperantes peregrinações,
Murmurando em línguas estrangeiras migalhas de pensamentos? 
Mas que procuram elas, nossas almas, viajando assim 
De porto em porto 
Sobre cascos apodrecidos?

Deslocando pedras lascadas, respirando 
O frescor dos pinheiros mais penosamente cada dia,
Nadando ora nas águas de um mar,
Ora nas de outro mar,
Sem contato,
Sem homens,
Num país que não é mais o nosso 
Nem tampouco o vosso.
Sabíamos que elas eram belas, as ilhas 
Nalguma parte perto do lugar onde vamos às cegas,
Um pouco mais baixo, um pouco mais alto,
A uma distância ínfima.

[In Mitologia, In Poemas, Rio de Janeiro: Ed. Opera Mundi, 1973, trad. Darcy Damasceno, p. 59]. 

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Maria Gabriela Llansol


Excerto de "Causa Amante"
5 — estou hoje intrigada por uma palavra: marfolho. 
Encontrei-a no tesouro vegetal da língua; 
e com o modo por que encontrei Alice na igreja de Santa Engrácia, e trouxe para casa a Proclamação de Lisboa, cidade que deve ser tomada, em meu entender, sem capitular;

em conluio com as ruínas, esta igreja é bem inquietante,
com a sua multidão em que não distingo um só conhe­cimento; não distingo os pés que, no entanto, se mo­vem lentamente; a terra, ela move-se. Procuro sempre Alice que tem as pálpebras descidas e que não provoca enganos, como os cegos de olhos abertos. Estava en­costada a um degrau de pedra, com o capuz batido pelo vento, e deve ter distinguido os meus passos,
ou a minha presença,
através de um dos seus sentidos ocultos que a encami­nham sempre para mim: — «Estará morta, ou ainda viva?» — perguntou-me: — «Quando voltamos para casa?» — «Hoje, o que me atrai é estar em Lisboa, andar por Lisboa na meia solidão em que podes sem­pre acompanhar-me.» — Pôs a mão no meu braço, e transpusemos a abertura como se tivéssemos os mesmos pés. O Tejo era diferente do da minha lembrança, muito mais rio preciso do que a imensidão que eu jul­gara.

6 —                       encontrei-me
Alexander Leal

numa faixa do rio, ao fim da noite; 
há tanto tempo que a olhava, à procura; 
a meu lado, estava um homem pequeno, cujos sinais correspondem exactamente aos de João da Cruz, visto através dos seus textos, e do modo de viver a sua vida; era evidente que, para mim, aquele homem era, sobre­tudo, enquanto bosque, sombra; e enquanto força,
corrente; disse-me que tinha um peso secreto sobre ele. Sem sequer o ouvir, dispus-me a pedir-lhe conselho, a que já sou menos rebelde; ele interrompeu a sua confi­dência, e antecipou-se à formulação da minha primeira pergunta: — ...não sei se poderás voltar a optar; ali está a água — disse —, a água do Tejo, com esse nome, e nenhum outro; atrás de nós está o casario de Lisboa, «casario subindo as colinas», submetido a essa expres­são, e a nenhuma outra; hoje, é este dia do século, an­tes do terramoto que há-de destruir Lisboa, e de ne­nhum outro; hoje, eu estou aqui a teu lado para que narres o nosso encontro, até à última pausa da palavra que te dirigi; já baixas a cabeça ao peso do trabalho, e à necessidade inexorável de contar. — Tento, então, fa­zer o que ele diz: precisar, no escuro, o nome da parte de Lisboa que se ergue atrás de mim, 
ver povoadas suas ruas íngremes; 
quando me encontrei a reaprender a escrever, 
ou a prosseguir o caminho de suspender estas emoções
por algumas horas, já era mais de meia-noite, e João da Cruz, sempre vivo em sua fala e movimentos, ainda não me abandonara. Falava-me da sua própria vida pessoal, de um drama que o atingira parecendo, ele, o inacessível; torcia e retorcia as mãos, e ora me olhava, e olhava o rio, ora olhava os contrafortes do castelo, que se apagava sobre nós.

Causa Amante, Lisboa: Relógio D´Água, 1996, pp. 11-113.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Lélia Coelho Frota


TALVEZ PENÉLOPE
Ah o amor da Grécia o branco 
imaculado amor das ilhas 
que pervagam no mar violeta
 numa eterna tapeçaria 
a desfazer-se, a refazer-se —
                                             espumas
peixes, sargaços, conchas, abismos,
                                            Ulisses!
Onde viajas, encantado, retido, 
ó esperado desaparecido?

Ó nunca visto, ó viajante rijo
do mar guerreiro, de ondas em riste, onde
teu rosto ignorado persiste?

Na nostálgica superfície 
ecoa um nome, e o edifício 
das águas reboa, desaba 
pelas angras do esquecimento.

Que sereia te seduziu 
para assim me deixares, só, 
na mesa vazia, entre conchas 
murmurejantes?

Ou serei eu a sereia
que se põe entre nós de permeio
e desfaço a a tua chegada 
quando de longe, na amurada 
 vês o meu vestido vermelho 
que a brancura da praia incendeia?

Serei eu quem de ti se afasta 
e que a trama das ondas desata 
quando a meus pés resvala, súplice, 
a marola da tua fragata?

[In Alma & Pétalas, in Poesia Reunida 1956-2006, Rio de Janeiro, Bem-Te-Vi, 2013, pp. 418-419]


terça-feira, 21 de maio de 2013

Maria Teresa Horta

EXERCÍCIO
Não retomo nos teus
braços
o calor da tua boca

nem retomo do silêncio
as palavras que se
escoam

Mas se na tua distância
existe um entendimento
na minha lenta cedência
existe um rasto de medo

In Candelabro, 1964


O Beijador - Picasso

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Paulo Mendes Campos

No princípio do amor
No princípio do amor, outro amor que nos precede
adivinha no espaço o nosso gesto.
No princípio do amor, o fim do amor.
Folhagens irisadas pela chuva,
varandas traspassadas de luz, poentes de ametista,
palmeiras estruturadas para um tempo além de nosso tempo,
pássaros
fatídicos na tarde assassinada, ofuscação deliciosa
no lago - no princípio do amor
já é amor. E pode ser setembro
com o sol estampado na bruma fulva. Monótona
é a praça com o clarim sanguíneo do meio-dia.

No princípio do amor, o humano se esconde,
bloqueado na terra das canções, astro acuado
em galáxias que se destroçam. E tudo
é nada: nasce a flor e morre o medo
que mascara a nossa face. Navios
pegam fogo defronte da cidade obtusa,
precedida de um tempo que não é o nosso tempo.
No princípio do amor, sem nome ainda, o amor
busca os lábios da magnólia, o coração violáceo
da hortênsia, a virgindade da relva.
É, foi, será princípio de amor. A mulher
abre a janela do parque enevoado, globos irreais,
umidade, doçura,
enquanto o homem - criatura ossuda, estranha -
ri no fundo de torrentes profundas
e deixa de ir subitamente, fitando nada.
Isto se passa em salas nuas,
em submersas paisagens viúvas, argélias
tórridas, fiords friíssimos, desfiladeiros
escalvados, parapeitos de promontórios
suicidas, vilarejos corroídos de ferrugem,
cidades laminadas, trens subterrâneos,
apartamentos de veludo e marfim, províncias
procuradas pela peste, cordilheiras tempestuosas,
planícies mordidas pela monotonia do chumbo, babilônias
em pó, brasílias
de vidro, aviões infelizes em um céu
de rosas arrancadas, submarinos ressentidos
em sua desolação redundante, nas altas torres
do mundo isto se passa; e isto existe
dentro de criaturas inermes, anestesiadas
em anfiteatros cirúrgicos, ancoradas em angras
dementes, pulsando através de alvéolos artificiais,
criaturas agonizando em neblina parda,
parindo mágoa, morte, amor.
E isto se passa como um cavalo em pânico.
E isto se passa até no coração opulento
de mulheres gordas,
de criaturas meio comidas pelo saibro,
no coração de criaturas confrangidas entre o rochedo
e o musgo, no coração de
Heloísa, Diana, Maria,
Pedra, mulher de Pedro,
Consuelo, Marlene, Beatriz.

Olhar - anel primeiro do planeta Saturno.
Olhar, aprender, desviver.
Além da janela só é visível a escuridão.
Olhar - galgo prematuro da alvorada.
No princípio do amor, olhar
a escuridão; depois, os galgos prematuros da alvorada.
No princípio do amor, morte de amor antes da morte.
Amor. A morte. Amar-te a morte.
Sexos que se contemplam perturbados. No princípio do amor
o infinito se encontra.

No princípio do amor a criatura se veste
de cores mais vivas, blusas
preciosas, íntimas peças escarlates,
linhos sutis, sedas nupciais, transparências plásticas,
véus do azul deserto, pistilos de opalina,
corolas de nylon, gineceus rendados,
estames de prata, pecíolos de ouro, flor,
é flor,
é flor que se contempla contemplada.

Isto se passa de janeiro a dezembro
como os navios iluminados.

No princípio do amor
o corpo da mulher é fruto sumarento,
como a polpa do figo, fruto,
fruto em sua nudez sumarenta, essencial, pois
tudo no mundo é uma nudez expectante
como o corpo da mulher no princípio do amor.

Fruto na sombra: mas é noite.
Noite por dentro e por fora do fruto.
Nas laranjas de ouro.

Nos seios crespos de Eliana
Nas vinhas que se embriagam de esperar.
Ramagens despenteadas, recôncavos expectantes,
cinzeladas umbelas, estigmas altivos,
é noite,
é flor, é fruto.

Mas nos seios dourados de Eliana
amanheceu.

[In Melhores Poemas - Paulo Mendes Campos, São Paulo: Global Ed., 2000, 3a. ed, pp. 101-103]

Sobre Paulo Mendes Campos

domingo, 19 de maio de 2013

Adélia Prado

LÍNGUAS
Meu coração
é a pele esticada de um tambor. 
Como tentação a dor percute nele, 
travestida de dor, pra que eu desista, 
duvide de que tenho um pai.
Vem tudo em forma de carne, 
grandes mantas de carne palpitante, 
recobrindo ossos, frustrações, desejos 
sobre os quais tenho culpa e devo purgar-me 
até que eu mesma seja apenas ossos.
Um sujo me salvará, 
quando pegar minha cuia 
e comer à vista dele 
sem sentir ânsia de vômito.
As sombras dos satélites 
conspurcaram as estrelas.
Que faço para escrever de novo 
‘louvado sejas pelo capim verde’ 
ou até mesmo o gemido 
‘meu coração nem em sonhos repousa’.
Vou perguntar até que interpolado 
e ininteligível tudo se ordene 
como oração em línguas 
e em forma de um cansaço me abençoes.

In A DURAÇÃO DO DIA, São Paulo: Record, 2010, p. 96.


Amadeo de Souza Cardoso

sábado, 18 de maio de 2013

João Luís Barreto Guimarães

Os lugares na cama
Adormecemos juntos acordamos
apartados
disputamos o lençol como quem puxa a razão para si:
a quantos beijos estamos hoje de distância?
De manhã a voz é lenta chega
a chegar atrasada (a
cama feita a correr não
vá a empregada encontrar caída
entre lençóis
a palavra proibida). Se
os braços devem cair ao
longo da fadiga de um corpo
que seja ao longo do teu
(tu não me olhes assim
com o ruído dos olhos:
os beijos desarrumados depois
de os utilizares)
por favor fica a meu lado. Quero
que sejas tu o
parente mais chegado.

In Poesia Reunida, Lisboa, Quetzal, 2011, p. 191.

Uma emergência de outono
As cores da maçã assada aberta
pelo fim do verão antecipam no palato
uma emergência de outono.
Convida a ficar por casa
esta maçã que feri e salpiquei pelo torso
com cézannes de canela.
Sob a epiderme tisnada (cor
amarelo-pecado) é
perene o seu sabor. Vê só
como jazem nuas
suas vestes pelo prato
(qual roupa de rapariga desbragada
pelo chão).

[In Poesia Reunida, Lisboa, Quetzal, 2011, p. 294]

Blog do autor


Paul Cézanne

Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...