quinta-feira, 6 de junho de 2013

Marize Castro

se me distancio, perco-me 
em mar aberto, acerto-me

furtiva, saúdo a morte

para me tornar oásis 
falta -me sorte

entre espectros, sou alegria 
a loucura é minha bússola

única guia

se me aproximo, atinjo-me 
asas me faltam, mas voar 
é meu agasalho

— meu mais crível lastro

In Habitar teu Nome, Natal (RN): Una, 2011, p. 26



quarta-feira, 5 de junho de 2013

Antonio Carlos Secchin

Margem
A Alberto Pucheu

Vou andando para a beira desse porto, 
entre cheiros de cigarro e de sardinha 
e um desejo líquido de partir.
Meu olhar desliza no horizonte, querendo saber 
a que distância um nome deixa de doer.
Seu nome, marcado em minha boca 
como a polpa de uma pera.
O navio enorme avisa que vai embora.
Escrevo a palavra salto, 
e paro no sal, e não chego ao alto.
A noite está boiando
num óleo grosso de silêncio e luz.
Molho os pés, penso em seu nome: gozo 
de um poço tapado. Insônia de musgos 
na beira das águas redondas.
Me vejo na ponta do cais,
cacos de luz
abrindo a cara do mar.
Destroços de palavras, pedaços de seu nome,
sílabas que batem contra os cascos.
Estou parado na beira de um porto,
azul e morte no oco do mar. 

In Todos os ventos, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2002, pp. 89-90



terça-feira, 4 de junho de 2013

Margaret Atwood

CANÇÃO DO BARCO
Há empurrões e tumulto, 
coletes salva-vidas de menos: 
isso é óbvio;

então, por que não passar os últimos momentos 
praticando nossa modesta arte 
como sempre fizemos,

criando um lago de conforto possivelmente falso 
em meio à tragédia?
Há algo a ser dito em favor disso.

Imaginem-nos, então, na orquestra do navio.
Todos permanecemos em nossos lugares, tocando 
notas breves e dedilhando e marcando o tempo

com nossos instrumentos cotidianos 
enquanto os gritos e as botas correm pesados.
Alguns pularam; seus casacos de pele e seu desespero

puxam-nos para baixo. Mãos crispadas se projetam em meio
[ao gelo.
O que estamos tocando? E uma valsa?
Há comoção demais

para que os outros possam distinguir com clareza,
ou então estão longe demais —

um alegre foxtrote, um velho hino meloso?
O que quer que seja, somos nós com os violinos
enquanto as luzes se esvaem e o grande navio afunda
e a água se fecha sobre ele. 

In A Porta, trad. Adriana Lisboa,  Rio de Janeiro: Rocco, 2013, pp. 109-110



segunda-feira, 3 de junho de 2013

Mariana Ianelli

PALABRA DE DANIEL
Mariana Ianelli - Gran poeta brasileña contemporánea

Si te poseo,
Poseo lo inefable:
El arte de estar
Por encima de mi cuerpo legendario.

Tu mensaje, apocalipsis.
Tu nombre, aquel que arde.

En búsqueda de lo extraordinario,
Si no te encuentro,
En cada cosa vivencio a tu falta,
En una gota de mirra, en una zona de sombra.

Te veo demasiado cerca,
Te siento aquí, medular.
Soy el triste ganador de mis días
Aunque sin desearlo;
Yo apenas te deseo
Y no esta lucha sin adversario.

Tu respiración, vendaval.
Tu centella de odio, catástrofe.

No hay tiempo que me fortalezca
Sin antes haberme derrumbado.
Para ti, mientras tanto, el tiempo
Es materia a la que das vida y muerte.
Si te poseo, poseo lo inenarrable:
El arte de hacer de mi palabra tu morada.

(Traducción: Martín Palacio Gamboa - Poemas publicados en “Los trazos de Pandora”, 2010)



Lélia Coelho Frota

CANÇONETA LEVETA
Não procures tecer de crivos 
metafísicos nosso amor.
Ele é lúdico. E não carece 
de teu floreio sem calor.

E nem sugere, mais vossa dama, 
alexandrinos como desculpa: 
só teu perfil, incisivo e breve, 
já destruíra a se alguma, culpa.

Eu não espero nem desespero. 
Para te amar, fiarei um escrínio 
de mais amar, que me dissolvesse 
pelas agruras do teu fascínio.

Tênue é a vida, rude o juízo 
que determina minha passagem — 
enternecer-me com teus indícios 
enquanto habitas outra paisagem.

[In Iminente Cristal, in Poesia Reunida 1956-2006, Rio de Janeiro, Bem-Te-Vi, 2013, p.184].



domingo, 2 de junho de 2013

Dora Ferreira da Silva

Agora
Agora que no vagar dos pensamentos
chamo-te - pai - da estação da infância
como se pudesses voltar no rápido só para me embalar,
fecho os olhos dentro de tuas pálpebras.
És minha invenção de amor. Olhos melancólicos
os teus. Eu contigo em degredo.

Difícil tocar a face desse segredo cada vez mais longe
e partir e também ficar, embora encontrada a chave
[da porta mais secreta.
Se eu pudesse dizer: seja a paisagem de seda azul
e o último sol fortíssimo do ocaso
- eu liberta enfim de tuas pupilas.
Um rio passaria desenhado pela mão mais fina. Passa uma
[pluma apenas uma
no rio acordado.


Sobre a autora

  


sábado, 1 de junho de 2013

García Lorca

SE MINHAS MÃOS PUDESSEM DESFOLHAR
10 DE NOVEMBRO DE 1919
(Granada)

Eu pronuncio teu nome 
nas noites escuras, 
quando vêm os astros 
beber na lua 
e dormem nas ramagens 
das frondes ocultas.
E eu me sinto oco 
de paixão e de música.
Louco relógio que canta 
mortas horas antigas.

Eu pronuncio teu nome, 
nesta noite escura, 
e teu nome me soa 
mais distante que nunca.
Mais distante que todas as estrelas 
e mais dolente que a mansa chuva.

Amar-te-ei como então 
alguma vez? Que culpa 
tem meu coração?
Se a névoa se esfuma, 
que outra paixão me espera?
Será tranquila e pura?

Se meus dedos pudessem 
desfolhar a lua!!

Livro de Poemas (1921), In Obra Poética Completa, Martins Fontes, São Paulo, 1996, trad. Willian Angel de Mello, p. 47


Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...