quinta-feira, 13 de junho de 2013

Laís Correa de Araújo

Teatro de mímica

Nas fricções da íngreme subida 
em formação de combate 
há que pousar também a pomba 
encimando a cena no telhado 
de vidro em ogival declinação 
o gesto que antigo se repete 
recobra o jogo de milhões outrora 
hoje sempre em ganhos e perdas 
lança fora colcha e lençol 
cenário decomposto agora posto 
em entrega e aplicação 
a domicílio sem taxa de adesão 
cobrada em circunvoltas 
ida e vinda à segunda fonte 
onde o silêncio jorra em ais 
e inunda úmido a dupla solidão.

In INVENTÁRIO 1951/2002, Belo Horizonte: Editora UFMG, 2004, p. 206


Miró

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Maria Carpi

11
A minha insuficiência ainda 
não ardeu de todo. Ainda 
está verde em sua lenha. 
Atravessou a lucidez,

há de atravessar a visagem. 
Queimou todas as setas, 
há de queimar a desorientação. 
Misturou-se à claridade,

há de pastar as sombras. 
Cicatrizou a beleza, 
há de pôr brasa à anomalia. 
Apagou-se em sua vagem,

há de frutificar a desolação.
A minha insuficiência ainda 
não crepitou o extravio.
Ainda não deu lume à fúria.

O grão se ergue para servir.

In O Herói Desvalido, Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2006, p. 83 

Maria Carpi é uma escritora gaúcha, nascida em 1939, na cidade de Guaporé. Formada em Direito, advogou durante 15 anos no interior do Rio Grande do Sul e integrou o Magistério Estadual. Lecionou na Faculdade de Direito na Pontifícia Universidade Católica (PUC) e ingressou, por concurso público, na Defensoria Pública, tendo optado pela área dos direitos da infância. Publicou seis livros, entre os quais,  "As Sombras da Vinha" e "O Herói Desvalido".

Jules Breton

terça-feira, 11 de junho de 2013

Manuel António Pina

Como se desenha uma casa
Primeiro abre-se a porta
por dentro sobre a tela imatura onde previamente 
se escreveram palavras antigas: o cão, o jardim impresente, 
a mãe para sempre morta.

Anoiteceu, apagamos a luz e, depois, 
como uma foto que se guarda na carteira,
 iluminam-se no quintal as flores da macieira
e, no papel de parede, agitam-se as recordações.

Protege-te delas, das recordações,
dos seus ócios, das suas conspirações;
usa cores morosas, tons mais-que-perfeitos:
o rosa para as lágrimas, o azul para os sonhos desfeitos.

Uma casa é as ruínas de uma casa,
uma coisa ameaçadora à espera de uma palavra;
desenha-a como quem embala um remorso,
com algum grau de abstracção e sem um plano rigoroso.

In Como se desenha uma casa, In Todas as Palavras Poesia reunida, 3a. ed, Porto, Assírio & Alvim, 2013, p. 347. 


segunda-feira, 10 de junho de 2013

Maria Lúcia Dal Farra

Inventário de alegrias
Enlaçados um no outro
diante da mesa farta
mãe, pai, irmãs, sobrinhos —
somos distintos sorrisos
dum rosto só filiados:
porque nos amamos e estamos juntos
porque temos fome
e de tudo partilhamos.
 
Atrás
o relógio de parede mostra
(pelo avançado da hora) 
que o dia é de domingo.
Também
na travessa à vista 
a leitoa se quer generosa: 
aniversário de alguém.
 
A foto esqueceu a cor 
os sobrinhos estão moços 
e entre mamãe e nós
 
denso silêncio lacunar.

— Há quanto tempo éramos outros?

In Livro de Auras, São Paulo, Iluminuras, 1994, p. 109

Lasar Segall 

domingo, 9 de junho de 2013

Murilo Mendes

VELÁZQUEZ
Andaluz e castelhano,
Resume a tensão espanhola.
Entre precisão e força 
Ordena sua paleta.

Eis a pintura.
Eis a matéria do homem a duas dimensões. 
Pintando, Velázquez orienta 
A rígida consciência de Espanha:
Orgullo castelhano de estrutura,
Ligado à língua e ao solo.

Velázquez sabe: pintar é elucidar o espaço
Aberto ou restrito
Pela marcha do pincel consciente.
Velázquez sabe: a cor delimita a forma.
Situando a cor, seu pincel a define:
Suprime a fluidez, a suavidade,
Qualquer elemento opaco ou impreciso.

Suporte da verdade plástica 
É o próprio grupo dos nobres:
Entre o rei e o niño de Vallecas 
A continuidade da matéria enxuta.
A marcha do pincel voluntário
Constrói o homem na grandeza circunscrita:
Sua dimensão é a cor, a forma definida.

Eis o que o distingue dos outros:
Seu DUENDE não é visível 
Como o de Goya, de El Greco.

Entre o minucioso «fantástico» de Flandres 
E o gosto superlativo italiano
A linha castigada e enxuta de Velázquez
Demarca os precisos limites
Onde Espanha se reconhece autônoma.

In Tempo Espanhol, Poesia Completa e Prosa, Ed. Nova Aguilar: Rio de Janeiro, 1994, pp. 599-600

Autorretrato, 1640.
Real Academia de Bellas Artes de San Carlos de Valencia - Valência, Espanha.

sábado, 8 de junho de 2013

Ruy Cinatti

NAVIOS DO VENTO
Fechei a minha janela 
ao vento que vem do largo, 
que entra pela voz do rio 
e declina pela cidade, 
silvando pelos telhados 
que lhe servem de desvio.
No rio sobem navios 
que apitam de quando em quando. 
Oh, mudo pranto fechado 
que se ouve no meu quarto!
Mas o vento força a porta, 
sublinha-se pelas frinchas 
com denodado desígnio 
que me fere de malícia.
Abro a janela, fecho-a 
e recebo-o em minha casa 
com honras de visitante, 
pé atrás, outro adiante, 
como se fosse esperado.
Oh, pranto desenganado!
Não converso, não me espanto 
com o que o vento sussurra 
quando entra de improviso.
O que se ouve no meu quarto 
é um anjo apavorado 
que me pretende assustar 
com uma voz d'além túmulo 
ouvida algures além-mar.
Oh, lamento recordado 
de uma criança a chorar!
Eu vejo cavalos brancos
galopando sobre as nuvens 
as crinas ao ar soltando, 
halo de espuma e salsugem. 
O vento que me percorre 
rodopia sem cessar, 
enche-me o quarto todo 
de furtivos sentimentos 
difíceis de controlar.
Oh, mudo pranto fechado 
a sete chaves pelo vento!

27/2/75

[In 56 Poemas, Lisboa: Relógio D´Água, 1992, pp. 64-65].






sexta-feira, 7 de junho de 2013

Jorge de Lima

O SONO ANTECEDENTE
Parai tudo que me impede de dormir: 
esses guindastes dentro da noite, 
esse vento violento, o último pensamento desses suicidas.
Parai tudo o que me impede de dormir:
esses fantasmas interiores que me abrem as pálpebras,
esse bate-bate de meu coração,
esse ressonar das coisas desertas e mudas.

Parai tudo que me impede de voltar ao sono iluminado 
que Deus me deu 
antes de me criar.

[In Antologia Poética, Rio de Janeiro: Ed. Sabiá, 1969, p. 81]



A.Kuinj

Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...