sábado, 15 de junho de 2013

Emily Dickinson

Após a dor imensa, a sensação formal —
Os Nervos sentam-se solenes, como Túmulos —
O Coração tenso pergunta foi Ele, a suportar,
E Ontem, ou há Séculos?

Os Pés giram, mecânicos —
Fora de Chão, ou Ar, ou Nada —
Caminho de Madeira 
Plantado ao acaso,
Contentamento em Quartzo, como pedra —

Esta é a Hora de Chumbo —
Quando sobrevivida, recordada,
Como o Enregelado lembra a Neve —
Primeiro — o Frio — o Estupor a seguir — depois o abandono  —

[In Cem Poemas, trad. Ana Luísa Amaral, Lisboa, Ed. Relógio D´Água, 2010, p. 27]

Fragonard - A leitora

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Renata Pallottini

POEMA
Sei  bem o que fazer 
mas me parece cedo.

Partir com um navio pelo mar roxo e verde 
correr dentro do bojo do navio, esse peixe, 
curtir a pele dos meus dias com muitas tempestades 
e um dia — doce dia — desembarcar num cais.

Sei bem o que fazer 
quando desembarcada.

Buscar por qualquer meio chegar a uma cidade 
depois, por uma estrada, ir até um grande vale, 
e ali olhando a terra e os homens com suas barbas 
esquecer o que fui, beber café, e largar-me.

Sei bem o que fazer 
não me surpreende nada.

Encontrar as pessoas que são novas e velhas 
e comer um punhado de cerejas com elas.
Tomar cerveja ao sol, pensar no avô e no resto 
quando a cidade era suave — quase campo — 
e os delicados lírios floriam na primavera...

Sei bem o que fazer: 
visitar essa terra...

Amar o amor moreno que se desdobra e arde, 
afagar uns cabelos escuros e pesados, 
dormir no fim da rua no desvão de uma casa 
tendo ao meu lado um corpo forte que eu abrace 
e que se agarre a mim com força, que me beije 
como eu tenho beijado as palavras e as frases...

Sei bem o que fazer; 
mas me parece tarde...

[In: Obra Poética, São Paulo, Editora Hucitec, 1995, p. 149]

Modigliani

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Laís Correa de Araújo

Teatro de mímica

Nas fricções da íngreme subida 
em formação de combate 
há que pousar também a pomba 
encimando a cena no telhado 
de vidro em ogival declinação 
o gesto que antigo se repete 
recobra o jogo de milhões outrora 
hoje sempre em ganhos e perdas 
lança fora colcha e lençol 
cenário decomposto agora posto 
em entrega e aplicação 
a domicílio sem taxa de adesão 
cobrada em circunvoltas 
ida e vinda à segunda fonte 
onde o silêncio jorra em ais 
e inunda úmido a dupla solidão.

In INVENTÁRIO 1951/2002, Belo Horizonte: Editora UFMG, 2004, p. 206


Miró

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Maria Carpi

11
A minha insuficiência ainda 
não ardeu de todo. Ainda 
está verde em sua lenha. 
Atravessou a lucidez,

há de atravessar a visagem. 
Queimou todas as setas, 
há de queimar a desorientação. 
Misturou-se à claridade,

há de pastar as sombras. 
Cicatrizou a beleza, 
há de pôr brasa à anomalia. 
Apagou-se em sua vagem,

há de frutificar a desolação.
A minha insuficiência ainda 
não crepitou o extravio.
Ainda não deu lume à fúria.

O grão se ergue para servir.

In O Herói Desvalido, Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2006, p. 83 

Maria Carpi é uma escritora gaúcha, nascida em 1939, na cidade de Guaporé. Formada em Direito, advogou durante 15 anos no interior do Rio Grande do Sul e integrou o Magistério Estadual. Lecionou na Faculdade de Direito na Pontifícia Universidade Católica (PUC) e ingressou, por concurso público, na Defensoria Pública, tendo optado pela área dos direitos da infância. Publicou seis livros, entre os quais,  "As Sombras da Vinha" e "O Herói Desvalido".

Jules Breton

terça-feira, 11 de junho de 2013

Manuel António Pina

Como se desenha uma casa
Primeiro abre-se a porta
por dentro sobre a tela imatura onde previamente 
se escreveram palavras antigas: o cão, o jardim impresente, 
a mãe para sempre morta.

Anoiteceu, apagamos a luz e, depois, 
como uma foto que se guarda na carteira,
 iluminam-se no quintal as flores da macieira
e, no papel de parede, agitam-se as recordações.

Protege-te delas, das recordações,
dos seus ócios, das suas conspirações;
usa cores morosas, tons mais-que-perfeitos:
o rosa para as lágrimas, o azul para os sonhos desfeitos.

Uma casa é as ruínas de uma casa,
uma coisa ameaçadora à espera de uma palavra;
desenha-a como quem embala um remorso,
com algum grau de abstracção e sem um plano rigoroso.

In Como se desenha uma casa, In Todas as Palavras Poesia reunida, 3a. ed, Porto, Assírio & Alvim, 2013, p. 347. 


segunda-feira, 10 de junho de 2013

Maria Lúcia Dal Farra

Inventário de alegrias
Enlaçados um no outro
diante da mesa farta
mãe, pai, irmãs, sobrinhos —
somos distintos sorrisos
dum rosto só filiados:
porque nos amamos e estamos juntos
porque temos fome
e de tudo partilhamos.
 
Atrás
o relógio de parede mostra
(pelo avançado da hora) 
que o dia é de domingo.
Também
na travessa à vista 
a leitoa se quer generosa: 
aniversário de alguém.
 
A foto esqueceu a cor 
os sobrinhos estão moços 
e entre mamãe e nós
 
denso silêncio lacunar.

— Há quanto tempo éramos outros?

In Livro de Auras, São Paulo, Iluminuras, 1994, p. 109

Lasar Segall 

domingo, 9 de junho de 2013

Murilo Mendes

VELÁZQUEZ
Andaluz e castelhano,
Resume a tensão espanhola.
Entre precisão e força 
Ordena sua paleta.

Eis a pintura.
Eis a matéria do homem a duas dimensões. 
Pintando, Velázquez orienta 
A rígida consciência de Espanha:
Orgullo castelhano de estrutura,
Ligado à língua e ao solo.

Velázquez sabe: pintar é elucidar o espaço
Aberto ou restrito
Pela marcha do pincel consciente.
Velázquez sabe: a cor delimita a forma.
Situando a cor, seu pincel a define:
Suprime a fluidez, a suavidade,
Qualquer elemento opaco ou impreciso.

Suporte da verdade plástica 
É o próprio grupo dos nobres:
Entre o rei e o niño de Vallecas 
A continuidade da matéria enxuta.
A marcha do pincel voluntário
Constrói o homem na grandeza circunscrita:
Sua dimensão é a cor, a forma definida.

Eis o que o distingue dos outros:
Seu DUENDE não é visível 
Como o de Goya, de El Greco.

Entre o minucioso «fantástico» de Flandres 
E o gosto superlativo italiano
A linha castigada e enxuta de Velázquez
Demarca os precisos limites
Onde Espanha se reconhece autônoma.

In Tempo Espanhol, Poesia Completa e Prosa, Ed. Nova Aguilar: Rio de Janeiro, 1994, pp. 599-600

Autorretrato, 1640.
Real Academia de Bellas Artes de San Carlos de Valencia - Valência, Espanha.

Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...