sábado, 22 de junho de 2013

Arthur Rimbaud

CONTO
Um Príncipe estava insatisfeito por nunca se haver aplica­do senão em aperfeiçoar as generosidades vulgares. Previa no amor revoluções surpreendentes, e supunha suas mulheres ca­pazes de algo melhor que essa complacência entremeada de céu e de luxúria. Quis ver a verdade, a hora do desejo e da satisfação essenciais. Fosse ou não uma aberração de piedade, assim o quis. Possuía pelo menos um poder humano bastante considerável.
Todas as mulheres que o haviam conhecido foram assasinadas. Que devastação no jardim da beleza! Sob o sabre, ainda o bendiziam. Não ordenou outras novas. — As mulheres reapare­ceram.
Matava a todos que o seguiam, após a caça ou as libações. — E todos o seguiam.
Divertia-se em degolar os animais de luxo. Mandou incendiar os palácios. Arrojava-se sobre as pessoas e as talhava em postas. — A multidão, as cúpulas douradas, os graciosos animais subsistiam.
Pode-se extasiar na destruição, rejuvenescer na crueldade! O povo não murmurou. Ninguém trouxe o concurso de seu parecer.
Uma noite galopava altivamente. Apareceu um Gênio, de uma beleza inefável, inadmissível mesmo. De sua fisionomia e de seu porte emanava a promessa de um amor múltiplo e comple­xo! de uma felicidade indizível, insuportável mesmo! O Príncipe e o Gênio se aniquilaram provavelmente na saúde essencial. Como não haveriam de morrer disso? E então morreram juntos.
Mas esse Príncipe expirou, em seu palácio, numa idade esperada. O Príncipe era o Gênio. O Gênio era o Príncipe.

Falta ao nosso desejo a música adequada.

In Prosa Poética, trad. Ivo Barroso, 2a. ed. rev., Rio de Janeiro, Ed. Topbooks, 2007,  p. 213

Sobre Arthur Rimbaud

GIORGIO DE CHIRICO

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Astrid Cabral

Canhestros, ambos se defendem 
do perigo da velha labareda. 
Sabem-se vulnerável lenha 
atrás das grenhas já grisalhas: 
espasmos de juventude soterrados 
na carne despojada de primavera.
Entrincheiram-se em bíblicos 
preceitos, no amor da família.
Mas ao discorrerem sobre os filhos 
sub-reptício lateja o pensamento 
de que eles poderiam ser outros 
de que a vida poderia ser outra 
e perplexos percebem os destinos 
que foram cumprindo à revelia 
ao livre-arbítrio de cabras-cegas. 
De comum, resta-lhes agora a dor 
da vida irreversível e única.
Dia avançado não há mais espaço 
para a aventura de outras trilhas. 
Num altar de sacrifício, o parcial 
suicídio: asas de sonho imoladas.
(Lição de Alice)

In De déu em déu -  poemas reunidos (1979-1994), Rio de Janeiro: Sette Letras, 1998, p. 246.


GUIDO RENI

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Dora Ferreira da Silva

A RAINER MARIA RILKE
Minha tua pele pálida 
e as pálpebras de entumecidas pétalas.
De castanhas em azuis, estas pupilas.
Amo as mulheres que adoraste,
Anjo inconstante, ou Criança 
alcançando-lhes o joelho:
Lou e Paula Modersohn e Clara 
Benvenuta ao piano 
a Princesa esbelta e sardenta 
e o estranho Pasha.

Instável pássaro do amor,
de polainas cinzentas, tão feias e aristocráticas.
Teu chapéu e bengala usei 
no vergel friorento de Muzot.

Entramos com o vento na grande sala hipóstila, 
ou encravado na Catedral o eterno ponteiro sou 
do Anjo do Meio-Dia. Perambulo por todos os jardins, 
corro atrás de epiléticos e saltimbancos de subúrbio, 
dou a rosa à mendiga enquanto adere ao meu rosto 
o pegajoso escárnio. E as escadas... subo-as todas. 
Entro no quarto rue Toulier e enlouqueço 
nos crisântemos sobre a mesa.
Teu passo anda em meus pés e não os esquivo.

Abismo, abismo de tua pupila azul!
Nela tudo vejo do que viste em Firenze, Rússia e
                                                              [Toledo,
debruço-me sobre a ponte e deixo cair o lenço: 
a Desconhecida assim o pediu...

Esta manhã trouxe-nos a morte.
Sou viva em ti e morta e novamente viva, 
morro em teu leito com tuas feridas, 
tua angústia refletida em meus olhos azuis.

Nesta manhã de inverno desfaço-me contigo, 
para que do nada crie-nos Deus.
(Talhamar, 1982)

[In Poesia Reunida, Rio de Janeiro, Ed. Topbooks, 1999, pp. 260-261]


quarta-feira, 19 de junho de 2013

André Luiz Pinto

Pior se Deus apressasse um beijo,
                     viesse aqui como lembrança. Pior
se viesse do fundo uma outra verdade 
submersa. Porém todos, como nós, abafam 
os casos. Se fossem diferentes e no
lugar de arriscar, preferissem o pior, mó de uma nova
estrebaria, veio para rugas, greves,
congelamentos, autoramas.
Ainda, se reinventasse um dia de sol.
Deveria supor, não a mim, nem ao poema,
mas ao desejo tácito e fiel.
Ao menos um castigo; de pano
de fundo, uma guerra de troia, meninas
choram, sete e oito anos. Ainda, por ciúme,
seria pouco, muito pouco querido para nos atrapalhar,
ferir-nos a memória, a calmaria da face.
Não poderia ser assim. Não deveria ser por menos,
senhoras tricotam mentiras de abonada
gente. Quem é joio,
quem é judas, por que te beijou, preciso saber. Naquele
lugar distante e faminto, naquela marionete
de pensamentos vãos, ainda persiste. Eis que primeiro
falece, nada não há, aquilo de que
tanto falei, por quem tanto pedi, finalmente - não chego.

Primeiro de Abril (2004)

In: Roteiro da Poesia Brasileira - anos 90, seleção e prefácio Paulo Ferraz, São Paulo: Global, 2011, p. 180-181.

O poeta André Luiz Pinto nasceu no Rio de Janeiro, em 1975.  Com três livros publicados — Flor à Margem (1999); Um Brinco de Cetim/Un Pendiente de Satén (2003);  Primeiro de Abril (2004), ISTO (2005) e Ao léu (2007).    

William Dyce
       

terça-feira, 18 de junho de 2013

Adriana Lisboa

Excerto do romance "HANÓI"
Ele entrou no mercado asiático, acenou para Alex e pegou um cesto de plástico que encheu com itens pequenos. O critério era um só: que levasse bastan­te tempo para passar no caixa. Por cima, colocou um pé de alface, feito um buquê.
Ela disse oi e passou o código de barras de uma lata de milho no leitor.
Escuta, não sei se te interessa, ele disse. Mas vou entregar o meu apartamento em breve, e náo vou ficar com nada do que tem lá dentro. Vou colocar um anúncio oferecendo no meu prédio, mas estava aqui fazendo compras e me ocorreu que poderia falar com você. Quem sabe alguma coisa tem utilidade.
Achei que você ia ficar uns tempos fora da cidade e depois voltava, ela disse, passando no lei­tor o código de barras de um pacote de macarrão sabor espinafre, made in Taiwan.
Ah, não. Eu não vou voltar.
Alex fez um breve silêncio, depois confir­mou, você disse que não vai ficar com nada do que tem no seu apartamento?
Isso.
Eu na verdade estava era precisando de um computador.
David parou, pensou, o laptop era um bem móvel que não deixaria de ter utilidade, mas que diabos.
Não vou levar meu laptop. Ele não está novo em folha, mas funciona bem. Pode ficar com ele, se quiser.
Ela parou de somar os itens da cesta e olhou-o nos olhos, com curiosidade.
Vamos fazer o seguinte, David falou. Eu vou em casa e já volto com o laptop. Se você gostar, é seu.
Estou precisando de panelas, ela acres­centou, enquanto ele pegava suas duas sacolas de compras.
Meia hora mais tarde, David estava de vol­ta com o laptop debaixo do braço e três panelas encaixadas uma dentro da outra, empunhadas pe­los cabos.
Trung, que arrumava bananas num cesto, olhou para ele como quem tentasse ler as entreli­nhas das suas rugas de expressão. Quem sabe veria o que havia para se ver. Talvez houvesse um desa­pego artificial e ansioso em David. Tome, leve o laptop, leve as panelas — quem sabe todo o com­portamento dele fosse comparável ao de um mau palhaço de circo. Até para ser ridículo é necessário certo grau de seriedade.
Antes de sair de casa David apagou os seus arquivos, por nenhum motivo além do fato de que náo teriam utilidade para Alex. Não havia segre­dos de Estado ali.
Pelo sim, pelo não, resolveu deixar sua mú­sica. Renomeou a pasta: ouça isto Alex.
Talvez no futuro próximo ele pudesse lhe perguntar se tinha chegado a ouvir, e nesse caso se tinha gostado, e nesse caso do que tinha gostado mais. Pensava nela naquele momento como uma pessoa do tipo Nina Simone. Tinha quase certeza de que Alex gostaria de ouvi-la cantando “Feeling Good”.
Lembrou-se mais uma vez daquele doente, o do diagnóstico errado.
Se novos exames revelassem que na verda­de ele não estava doente, David pensou, talvez fos­se uma troca válida. Tudo o que ele tinha em troca de tudo de que precisava. E um diagnóstico errado no meio do caminho, só para que aprendesse a di­ferença entre as duas coisas.
Como que para lhe dizer que aquela não era uma possibilidade, uma pontada funda na ca­beça quase o fez perder o equilíbrio.
Alex não viu. Trung sim. Ele levantou o rosto das bananas e seu olhar topou por um ins­tante com o olhar de David.
Depois Trung retomou seu trabalho, como alguém talvez um tanto constrangido por ter visto o que acabara de ver. O mau palhaço contando uma piada sem graça, os rostos impas­síveis da platéia. O mau palhaço prestes a perder o emprego.
Alex pegou as panelas, revirou uma e de­pois outra.
David apanhou uma caneta largada por ali e uma nota fiscal que alguém tinha deixado para trás. Escreveu seu telefone no verso. Já tinha nota­do que estava perdendo aos poucos essa habilidade tão simples, a escrita — e isso era esperado —, mas por enquanto sua caligrafia ainda era legível.
Se você e o seu patrão quiserem passar para dar uma olhada no resto, ele disse, entregando o pedaço de papel a Alex.
Ela ainda exclamou obrigada pelo compu­tador e pelas panelas! antes que ele saísse para a rua e para a chuva que voltava a cair.

[In HANÓI, Rio de Janeiro:Alfaguara, 2013, pp. 107-110]

Sobre Adriana Lisboa



segunda-feira, 17 de junho de 2013

Pedro Gonzaga

para além dos bancos de areia prateada
para além dos bancos de areia prateada 
cobertos por um capim rasteiro e triste 
está o mar da república oriental 
feito de gelo e tardes desertas 
saudoso de seus generais e caudilhos 
amnesiado dos corpos 
que ali entraram no verão 
à espera de um sol que fosse mais 
que a mera decoração dos souvenirs 
e das caixas de alfajor da zona franca

dentro do carro ouvimos o vento - 
éolo perdido no fim do mundo 
batendo nos vidros com a insistência 
anacrônica de um caixeiro viajante

apertamos nossas mãos 
e eu vejo a mancha de sangue 
entre tuas coxas
alastrando-se muito devagar

mais um mês que estamos juntos, 
no rádio uma velha canção
promete em inglês sulista 
os encantos do amor eterno

olhamos ao mesmo tempo através do vidro 
pequenas gotas de maresia cintilam 
como pedras não lapidadas, 
um sorriso se forma em teus lábios 
a visão de súbito se me liquefaz

e então um locutor (talvez eu mesmo) 
diz entre soturno e zombeteiro: 
señor, não se chega impunemente ao trigésimo quinto inverno

In A última temporada, Porto Alegre: Ed. Ardotempo, pp. 35-36

Sobre Pedro Gonzaga

Barbara Kelley



domingo, 16 de junho de 2013

Marize Castro

na primavera, deitada em sua cama, olhava seus pequenos 
companheiros brincando pela janela aberta

no verão, também de cama, ela ouvia os relatos:
“nosso terreno selvagem está salvo”

na sua ausência, muitas batalhas foram travadas 
e perdidas

seus soldados, cansados, eram por ela abençoados
com a benção lida em Um Jardim de Poemas Infantis

muitos anos depois, dança descalça 
e ruma para as hastes da floresta

toca a noite e o dia, e canta:
“até que morte nos separe”

oráculo do seu tempo 
não mais com fome 
não mais sedenta

iluminada

com lisos fios brancos no cabelo 
sob céus imóveis 
ela valsa

seu Madrigal é seiva em meu coração


In Habitar teu Nome, Natal (RN): Una, 2011, p. 53

Pablo Palazuelo

Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...