sexta-feira, 12 de julho de 2013

Paulo José Miranda

A natureza das coisas
Todas as viagens são negócios 
e os hotéis reservam-nos o direito 
de não encontrarmos diferenças.
Como os amantes da mulher de outro, 
mantêm-se os gestos familiares 
no servir das bebidas

e nas vestes que se usa.
A volta havia mar 
e isso, sim, 
diferia da cidade

de onde se vinha, 
com um rio e um oceano.
No interior dos viajantes 
habitavam versos, 
frases que mentiram acerca de um sentimento

que o seu país não tem, 
acerca da linguagem, 
do existente desprezo pelo rigor, 
de uma identidade encontrada 
além ou aquém do que se é.

Era o início ou o fim 
do Mediterrâneo,
uma ilha onde o mundo 
já vivera tudo e partiu, 
e ninguém esperaria o contrário, 
ninguém esperaria ficar 
para o sempre de uma vida 
no corpo da amante.
Não é a natureza humana,

é a natureza das coisas, 
o absoluto com que se compreende 
o passado e os gestos, 
como os que ruborescem o rosto 
onde a mulher deseja.
E também há noite,

no hotel e em redor dele.
Tudo como o que havia 
e o que já houvera, 
tudo, sem que se pudesse

invocar o nada,
por mais evidências que as horas 
se esforcem por mostrar.
O marido, fatigado e bêbado, 
recolhe ao quarto.
Ao acaso abriu um livro

que nunca vira, 
que nunca iria ler, 
como uma mulher bela
com quem um homem se cruza na rua, 
para nunca mais senão possibilidades 
O outro viajante entreter-lhe-á

a mulher, a vida.
Entreter-lhe-á 
o próprio inexistente nada, 
como uma visita ao forte da ilha 
ou a falta de rigor na linguagem.

(O Tabaco de Deus, Edições Cotovia: Lisboa, 2002, pp. 27-29)


quinta-feira, 11 de julho de 2013

Isabel Mendes Ferreira

acordo atravessado ao lado de ninguém sem saber o dia o que é o jantar e digo bom dia ao estranho que se corta a fazer a barba dedilho um até já e não há água oxigenada, falta-me a raquel o urso as fraldas o cheiro do talco o passeio na areia o carro com estrelitas de choco­late o choro da noite, e choro, porque é tudo novo. tudo frio. deitei fora a aliança, estou só. visto-me a correr, tenho uma reunião, trago o coração à vista, invisto num piano. Mozart fica bem no meu peito lacrimoso, vou a enterrar, escrevo um verso sem sentido, sentido, penso na geometria absurda dos meus telhados infantis, saudades do vento, sou arquitecto de um abismo que não domino, solteiro de novo. e não sei o que faço sábado à tarde. estou perdido, lanço-me ao rio. é a ana a paula a helena, estou magro aos pedaços aos saltos, devoro os jornais, descasco laranjas, amargo-me. pronto, ele aí está. um divórcio delgado preso por fitas de cetim, tu ficas com os móveis eu levo os discos tu guardas o sorriso eu aparo o corpo, levo a carne, deixo-te o verbo, liberto-te de nós. prendi a sombra.
perdi o passado, sou um fogo sem lume. e ardo. despojada.

In As Lágrimas Estão Todas Na Garganta do Mar, Lisboa: Arcádia, 2010, pp. 322.




Paula Rego

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Antonio Gamoneda

CONSISTÊNCIA de fogo
rodeada de pranto.

O que primeiro se ama
são os olhos: incidem
sua luz na existência
reunida olhando-se.

Mas a luz
é causa mortal. Ferido
de transparência, meu
coração se oculta na beleza.

ooo000ooo

EXISTIAM tuas mãos.

Um dia o mundo ficou em silêncio;
as árvores, acima, eram profundas e majestosas,
e nós sentimos sob nossa pele
o movimento da terra.

Tuas mãos foram suaves nas minhas
E eu senti a gravidade e a luz
E que vivias em meu coração.

Tudo era verdade sob as árvores,
tudo era verdade. Eu compreendia
todas as coisas como se compreende
um fruto com a boca, uma luz com os olhos.

ooo000ooo

BUSCO tua pele inconfessável, tua pele ungida pela tristeza das serpentes; distingo teus assuntos invisíveis, o rastro frio do coração.

Havia visto tua fita ensanguentada, teu choro entre cristais e não tua chaga amarela,

mas meu sonho vive embaixo de tuas pálpebras.

Tradução: Thiago Ponce de Moraes





terça-feira, 9 de julho de 2013

Astrid Cabral

THE HOLLOW MEN
A Lélia Coelho Frota

Não queriam a vida.
Bastava-lhes a imagem. 
Alérgicos a horizontes 
não chegavam à janela.
Só miravam a paisagem 
por entre câmaras e lentes 
cumprindo programas 
de turísticas viagens.
Nem poentes nem montes 
nem sorrisos nem olhares 
confiavam à memória. 
Queriam fotos nos álbuns 
e carrosséis de slides.
À noite, cegos, não viam 
o rastro do dia nos rostos 
em torno e, lábios de pedra, 
não riscavam a faísca 
do diálogo nem o fogo 
generoso do convívio. 
Preferiam o amor da novela. 
Dissolvidos em poltronas 
em frente à tela acesa 
acordados dormiam 
despidos de si mesmos.

[In De déu em déu -  poemas reunidos (1979-1994), Rio de Janeiro: Sette Letras, 1998, p. 278]


PABLO PICASSO

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Ruy Espinheira Filho

APOLO
Não nos surgiste como aos argonautas
quando
fizeste tremer a ilha
sob teus passos
e então te ergueste estendendo nas nuvens
os cabelos de ouro.
Mas senti que estavas
por todo o dia
acompanhando-nos na visita
às formas magníficas
que há milênios foram erguidas
nas alturas
em teu louvor.

Obrigado.
Embora não tenhamos te ofertado presentes,
como Midas, rei da Frigia,
que te enviou seu trono real,
ou Giges, da Lidia,
antepassado de Creso,
que te saudou com crateras de ouro
e incontáveis ex-votos
de ouro e prata,
nunca mais seremos os mesmos,
pois que respiramos a fímbria a brisa
tocada pelo hálito de teus solenes ciprestes
de folhas verdes
pedras
e unção.



domingo, 7 de julho de 2013

Herberto Helder

Tríptico

I
Transforma-se o amador na coisa amada com seu
feroz sorriso, os dentes,
as mãos que relampejam no escuro. Traz ruído
e silêncio. Traz o barulho das ondas frias
e das ardentes pedras que tem dentro de si.
E cobre esse ruído rudimentar com o assombrado

silêncio da sua última vida.
O amador transforma-se de instante para instante,
e sente-se o espírito imortal do amor
criando a carne em extremas atmosferas, acima
de todas as coisas mortas.

Transforma-se o amador. Corre pelas formas dentro.
E a coisa amada é uma baía estanque.
É o espaço de um castiçal,
a coluna vertebral e o espírito
das mulheres sentadas.
Transforma-se em noite extintora.
Porque o amador é tudo, e a coisa amada
é uma cortina
onde o vento do amador bate no alto da janela
aberta. O amador entra
por todas as janelas abertas. Ele bate, bate, bate.
O amador é um martelo que esmaga.
Que transforma a coisa amada.

Ele entra pelos ouvidos, e depois a mulher
que escuta
fica com aquele grito para sempre na cabeça
a arder como o primeiro dia do verão. Ela ouve
e vai-se transformando, enquanto dorme, naquele grito
do amador.
Depois acorda, e vai, e dá-se ao amador,
dá-lhe o grito dele.
E o amador e a coisa amada são um único grito
anterior de amor.

E gritam e batem. Ele bate-lhe com o seu espírito
de amador. E ela é batida, e bate-lhe
com o seu espírito de amada.
Então o mundo transforma-se neste ruído áspero
do amor. Enquanto em cima
o silêncio do amador e da amada alimentam
o imprevisto silêncio do mundo
e do amor.

(in Ofício Cantante)


Vincent Van Gogh



sábado, 6 de julho de 2013

Antonio Carlos Villaça

Fui para Belo Horizonte de avião. 
Viagem tranquila por fora e tão agitada por dentro. 
Quem era eu, exatamente? 
Que destino seria o meu? 
Que me esperava, lá e depois? 
Valeria a pena viver?
Qual a significação real e última da vida humana? 
Que é que eu devia ser? 
Que é que eu seria? 
Que é que era? 
Não era nada. Tinha vinte e cinco anos. 
Não era nada. Nada. Nada. 
Um intelectual sem obra, um vazio, 
um incapaz de criar, 
um artista sem destino, 
perplexidade.
O avião sobrevoa as meigas serras. 
São meigas de longe. 
De perto, são ásperas. 
Eu olhava com olhinhos compridos 
o mundo lá embaixo, os verdes, 
matizes tão estranhos e diversos, 
os rios, a vida terrestre, o doce reino da terra, 
(...)

 Em mim, os ventos contraditórios 
semeavam a melancolia do exílio, 
e eu suspirava com saudades 
de um eu imaginário. 
Pensava em mim, meu destino, 
a curva de minha vida, 
a estranha parábola, 
que se ia tecendo devagarinho, 
sem que eu pudesse 
ou soubesse alterar- lhe o curso. 
Mas... em que direção, precisamente?
Voávamos para a cidade de Belo Horizonte, 
aeroporto de Pampulha. 
E eu, para onde voava eu, 
dentro da nave, do peixe alado 
a romper o céu, 
a cortar o fofo tecido das nuvens?
“A garupa da vaca era palustre e bela"... 
Palustre e bela. 
Bonito: a surpresa de unir bela e palustre. 
O inesperado: palustre e bela. 
Uma garupa de vaca. 
Você quer a vida medíocre? 
Vida medíocre, vida medíocre. 
Você quer a mediocridade? 
Você quer ser medíocre? 
Não quero a vida medíocre. 
Eu odeio os hábitos medíocres. 
Eu odeio conversa medíocre. 
Não quero a vida medíocre. 
Quero outra coisa, quero partir. 

Eu tenho vontade de partir. 
Eu sempre tive uma vontade de partir... 
Como eu gosto de andar de avião!... 
A gente parte o tempo todo, no avião. 
Em viagem de avião, 
a gente só chega quando chega mesmo: 
antes de chegar não chega... 
De navio — não sei, nunca viajei de navio. 
1967 — agora, já viajei. — 
a gente deve chegar sempre uma hora, 
ou duas, depois que parte, 
a gente chega logo que parte. 
A gente não parte durante a viagem toda, 
porque navio é estável, segurinho. 
Avião voa. 
Avião é partida sempre. 
Avião é pássaro e pássaro parte, 
pássaro não fica, flutua. 
Meu destino flutua. 

Eu quero partir, sempre quero partir. 
Eu nunca chego. 
Vida medíocre. 
(...)
Mas o que é que é ser medíocre? 
É ficar. 
É chegar e não partir. 
Toda estabilidade é medíocre. 
Toda fixação é medíocre. 
Só a partida não é medíocre. 
Todo compromisso esvazia. 
Só a aventura é casta. 
Não quero a rotina. 
Só quero o voo. 
Vida medíocre,
vida medíocre. 
O homem é uma paixão inútil. 
(...)

 Nuvens. Nuvem é ? 
Ficar... O que é ficar? 
Imortalidade, até quando? 
Tudo é provisório. 
O homem é uma paixão inútil. 
A história de toda vida é a história de um malogro. 
Tenho vontade de partir, sempre. 
Eu sempre quis partir. 
Fuga, fuga, fuga. 
Avião. Evasão. Tensão. Pressão. 
 Vontade de partir. 
Não quero cintos. 
Perdi a chave, para sempre. 
Serei sempre um homem sem chave, 
sem chaves e sem cinto, 
voando nas brancas nuvens.

... “e não sejamos fúnebres e espessos, 
sejamos gaios, todavia leves"...

Partir, mesmo quando se chega. 
Eu perdi a chave. Agora, vou para o hotel. 
Eu gosto de hotel. 
Quanto mais desconhecido, melhor. 
Amo as cidades desconhecidas. 
Não sei de exercício melhor 
do que descobrir uma cidade. 
Onde é a casa de Emílio Moura? 
Vou espiar as paredes que guardam Emílio Moura. 
E seu espelho.
 Onde, a de Henriqueta Lisboa, 
a da face lívida? 
Caminho na noite. 
Escuto os ruídos da noite.
Ruas recolhidas. 
(...)

 Eu, caminhante, sem chave e sem fé. 
A chave ficou na portaria do hotel...
Os homens são felizes em suas casas? 
 Haverá apenas uma ilusão? 
Ó caminhante sombrio e só!
Sempre sentiste o efêmero de tudo. 
Nunca pousaste, nem repousaste em nada. 
Nunca tiveste sossego. 
Foste sempre um peregrino em perigo. 
Vê, são as casas dos homens: 
estão dormindo, ou jogando, ou discutindo, 
ou simplesmente conversando...
(...)

Estão na sala ou no quarto, 
lendo ou amando, 
ou contando o seu dinheiro sob a luz esquiva,
escassa, que parcamente escoa de uma lâmpada 
frágil de abajur. 
São os homens, teus semelhantes, teus irmãos.
 Estão em casa, estão parados na noite. 
Aí estão, os homens. 
Suas casas começam a apagar-se, 
mergulham aos poucos na treva, 
o silêncio desce e envolve 
as casas tranquilas dos homens. 
Eles vão dormir, fatigados, em suas camas. 

Os cérebros estão cheios de vida vivida, 
e enquanto os homens dormem 
deitados em seus leitos limpos, 
no escuro, 
abraçados às suas castas mulheres,
ou solitários, 
a vida borbulha neles, 
os micróbios caminham dentro deles, 
invadem, conquistam, desfiguram,
constroem neles a morte. 

É de noite que se constrói o reino da morte nos homens. 
De dia, os homens se defendem. 
Mas a noite é propícia à morte. 
Os homens felizes estão morrendo devagar, 
em suas camas, onde um dia morrerão de todo e de súbito, 
envoltos num silêncio mais espesso do que este, 
da noite. 
Adeus, mundo. 
Adeus, amor. 
Adeus, infância. 
Adeus, morte...

(In O Nariz do Morto, Rio de Janeiro, Ed. Rocco, 1975, 2a. ed., pp. 182-185)

Obs.: Texto original em prosa.
Georges Braque

Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...