quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Else Lasker-Schüler

Resignação
Maternal e suave, abraça-me,
e mostra-me o reino do céu,
noite sonhadora;
E descansa minhas dores
Escondidas em teu regaço
sobre rosas e folhas prateadas
no profundo pó da terra.

Na luz e no brilho crepuscular
teus sonhos se pulverizam
no azul suntuoso das nuvens.
Preparo-me para a batalha do dia.
Anseio pela noite eterna
para esvair-me em silêncio no vermelho da tarde,
em teu braço salvador, morte.

 
ODILON REDON

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Lélia Coelho Frota

FINESTRA DA ENCLAUSURADA
Claridade cobalto
de mar que se adianta
em máquinas de alto
azul, pura faiança

Partida no minuto
daquela intimidade
festiva e cariciosa
em que a praia se alcança.
O melhor do mar
é ser azular
o melhor do mar
é não ser tangível:
resistir ao olhar
e manter-se incrível.
O melhor do mar
é ser impossível:
permitir presença
de corpo sensível
sem jamais deter-se,
transparente veste
sobre a pele clara.
O melhor do mar é fluir
em nível
desapercebido
de incursão qualquer
no fluido tecido
de aéreos pavilhões
— água estremecida
pelos reinos do
coral devaneio.
Pela definida
moldura, pelos quatro
limites que o seccionam
no quadrado aberto
da extática janela
na prisão diária
e abrem
pela sombra adentro
radioso alarme
de alegria, ia
o coração num til
refletindo o inteiro
triunfo da espuma
pulsando, fugindo
da fria pupila
do relógio seu
piscar burocrata seu
rotulado zelo.
Até que em ampla parábola
de um consolo universal
eis que mesmo o pensamento
em meio a azul se desmancha
e o olhar, apenas liberto,
se evade, pequena mancha,
lá, no perfeito horizonte
que justo agora dissolve
discreta, ligeira lancha.

[In Caprichoso Desacerto, in Poesia Reunida 1956-2006, Rio de Janeiro, Bem-Te-Vi, 2013, pp. 230-231].


ODILON REDON



segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Mariana Ianelli

EM MEMÓRIA DE HILDA HILST
Pediste luz
Mas o que realmente
Te terá trazido esse dia?
O enigma ecoa numa voz antiga.

Existência monástica a tua,
De atirar-se ao sumo do mínimo.
Convicção de teu corpo
De que pela mente melhor se caminha.

(Houve luz nesse dia?)
As paredes, cansadas de estar sempre hirtas, ruíram 
Se querias abrigo, que tuas mãos te cobrissem.
(Mas na luz o que viste?)

De súbito mais nada era teu.
A selvageria das horas 
Arrebatou os teus poucos requintes,
Livrou-te dos desperdícios.

Os ponteiros retrocediam.
De vidas perfeitas, que te restava?
Das plantas, seu látego, dos porcos, sua pocilga. 
Uma peste de rosas, antúrios e orquídeas.

In Fazer Silêncio, São Paulo, Iluminuras, 2005, p. 31


Hilda Hilst, por Jotta Pinheiro


domingo, 4 de agosto de 2013

João Luís Barreto Guimarães

Outro dia
Deixo agora que o dia me torne
um pouco mais dele. Saio
até à varanda e as chaminés dos telhados
devolvem de todas as vezes seu
pretérito fascínio.
Os dias vão mais pequenos. As 
árvores por vezes cantam é 
a música das manhãs que se espraia 
como um cheiro a fuel vindo das docas. Porque 
(sem querer) é
outro dia. Certo como fosse meu. A 
mais simples distracção tomará 
alma por 
lama.

In Poesia Reunida, Lisboa, Quetzal, 2011, p. 227

Wu Guanzhong

sábado, 3 de agosto de 2013

Archibald MacLeish

Haverá pouca coisa a esquecer
Haverá pouca coisa a esquecer:
O voo dos corvos,
Uma rua molhada,
O modo do vento soprar,
O nascer da lua, o por do Sol,
Três palavras que o mundo sabe,
Pouca coisa a esquecer.

Será bem fácil de esquecer.
A chuva pinga
Na argila rasa
E lava lábios,
Olhos e cérebro.
A chuva pinga na argila rasa.

A chuva mansa lavará tudo:
O voo dos corvos,
O modo do vento soprar,
O nascer da lua, o pôr do Sol.
Lavará tudo, até chegar
Aos duros ossos desnudados,
E os ossos, os ossos esquecem.

Chartres
Pedras, o que me espanta
Não é que tenhais resistido
Por tanto tempo a tanto vento e a neve tanta:
Pois não tinham vos construído
Para arrostar nesta colina
O inverno e o vento desabrido?

Meu espanto é que suportais
Sem vos gastardes, nossos olhos,
Nossos olhos mortais.

Archibald MacLeish (Glencoe, 7 de maio de 1892 – Boston, 20 de abril de 1982), foi um poeta modernista e escritor norteamericano. Por três vezes recebeu o Prêmio Pulitzer.

In Bandeira, M.  Poemas Traduzidos, Rio de Janeiro: José Olímpio, 1976, pp. 89-90.

Caspar David Friedrich



sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Emily Dickinson

NÃO ERA A MORTE, POIS EU ESTAVA DE PÉ
E todos os Mortos estão deitados —
Não era a Noite, pois todos os Sinos,
De Língua ao vento, tocavam ao Meio-Dia.
Não era a Geada, pois na minha Carne
Sentia Sirocos – rastejarem —
Nem Fogo — pois só por si os meus pés de Mármore
Podiam manter frio um Presbitério —
E contudo sabia a tudo isso ao mesmo tempo;
As Figuras que eu vi,
Preparadas para o Funeral,
Faziam-me lembrar a minha –
Como se me tivessem cortado a vida
E feito à medida de moldura,
E eu não pudesse respirar sem chave,
E foi um pouco como a Meia-Noite —
Quando todos os relógios — pararam —
E o Espaço olha à volta —
Ou Terríveis geadas — nas primeiras manhãs de Outono,
Revogam o Palpitante Solo —
Mas foi sobretudo com o Caos — frio — Sem-Fim —
Sem Ensejo nem Mastro —
Nem mesmo Novas de Terra —
A justificar — o Desespero.

oooOOOooo

Florescer — é Resultar — quem encontra uma flor
E a olha descuidadamente
Mal pode imaginar
O pequeno Pormenor

Que ajudou ao Incidente

Brilhante e complicado,
E depois oferecido, tal Borboleta,
Ao Meridiano —

Encher o Botão — opor-se ao Verme —

Obter o que de Orvalho tem direito —
Regular o Calor — escapar ao Vento —
Evitar a abelha que anda à espreita,

Não decepcionar a Grande Natureza

Que A espera nesse Dia —
Ser Flor é uma profunda
Responsabilidade —

oooOOOooo


Eu sou Ninguém! E tu quem és?

Também tu és — Ninguém?
Então somos dois? Não digas nada!
Haviam de apregoar — sabes!

Como é aborrecido — ser — Alguém!

Como é público — qual rã —
Dizer-se o nome — o interminável Junho —
A um Charco admirador!

"LEITURAS, poemas do inglês”, Relógio d´Água, 1993, tradução de João Ferreira Duarte.  

ALICE SOARES


quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Isabel Mendes Ferreira

__________________________é agora que vejo a realidade. em suspenso. como se fazem milagres? em cortes de viés ou com dores de parto? pergunta com resposta na ponta do sonho que nos olha obliquamente. pensar mata. repensar é vestir a corda bamba do futuro com a plasticina do sangue vivo. sei nada. estou cega de saber da expansão do silêncio. ergo a voz imaterial. trepadeira de água. não espero. a confiança é uma partitura rasgada.

ooOOoo

dos cínicos e dos falsos competentes é que reza a história_______________________________sagrada profana torrencial poderosa violenta frágil festiva submissa retórica exaltada falsa invejavelmente impecável a história dos anjos e demónios que nos batem à porta para ser coração e entram adagas e se fazem sudários. flores de um mal que disfarçam bem o péssimo que são. dos cínicos e dos falsos cantores é que reza o presente. em altar de sombras e pontos de fuga. renda dormideira e tecedora de grinaldas mortas. são estes os insaciáveis anjos mortíferos que nos abraçam as costas com punhos de fogo. e sempre caminheiros sobreviventes sobre a nossa morte.

© Isabel Mendes Ferreira

RENOIR

Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...