sábado, 14 de setembro de 2013

Antonio Gamoneda

Proponho a minha cabeça atormentada
pela sede e pela sepultura. Eu queria
expelir um som de alegria;
mas soo a matéria desolada.

Justifico-me na dor. Não há nada;
não encontro nos meus ossos a cobardia.
Em meu canto inverte-se a agonia;
é um caso de luz incorporada.

Proponho a minha cabeça para se houver
necessidade de suportar um raio.
Não falo apenas por mim. Digo, juro

que a beleza é necessária. Morra
o que deve morrer; o que calo.
Não toques, Deus, meu coração impuro.

In Oração Fria, Antologia. Sel., trad., introd. e posf. de João Moita, Lisboa, Assírio & Alvim, 2013, p. 39


Sir Edward Burne-Jones




sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Walt Whitman

CANÇÃO PELO TEMPO DE LILÁS
Cantai para mim, agora, a alegria do tempo de lilás (voltando à
[memória),
Escolhei para mim, ó língua e lábios, em nome da natureza, souvenirs
[do princípio de verão, 
Juntai os sinais bem-vindos (como as crianças com ágatas ou conchas
[penduradas
Colocai em abril ou em maio, as pererecas coaxando nos açudes, o
[ar elástico,
Abelhas, borboletas, o pardal com notas simples,
O azulão e a andorinha que se arremessam, sem esquecer o buraco-
[alto cintilando suas asas douradas, 
A tranquila névoa solar, a fumaça que sobe, o vapor,
O tremeluzir das águas com os peixes dentro delas, o azul celeste
[acima,
Tudo o que é aprazível e brilhante, os riachos correndo,
As florestas de carvalho silvestre, os cintilantes dias de fevereiro e
[a fabricação de açúcar,
O pisco de peito ruivo no lugar em que dança, com olhos brilhantes
[e peito marrom, 
Com um chamado musical claro na alvorada e, novamente, no
[crepúsculo,
Ou esvoaçando entre as árvores do pomar de macieiras, construindo
[o ninho de seu par,
A neve derretida de março, o salgueiro emitindo seus brotos amarelos
[esverdeados,
Pois o tempo da primavera é aqui! O verão é aqui! E o que é isso
[em si mesmo e de si? 
Tu, alma, presa — a inquietação de ir atrás de algo que não sei; 
Vem! não nos atrasemos mais por aqui, que possamos subir e ir
[embora!
Ó se alguém pudesse apenas voar como um pássaro! 
Ó escapar, para navegar como em um navio!
Deslizar contigo, ó alma, sobre tudo, em tudo, como um navio
[sobre as águas;
Reunindo esses sinais, os prelúdios, o céu azul, a relva, as gotas de
[orvalho matinal,
O perfume de lilás, os arbustos com folhas verde-escuras em forma
[de coração,
Violetas, os pequenos botões delicados e pálidos chamados inocência, 
Exemplos e tipos não por si mesmos, mas para a sua atmosfera, 
Para agraciar o arbusto que amo — para cantar com os pássaros, 
Uma canção pela alegria do tempo de lilases, voltando à memória.

In Folhas da Relva, trad. Luciano Alves Meira, São Paulo, Martin Claret, 2006, pp. 372-373.



quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Herberto Helder

Porque ela vai morrer

Porque ela vai morrer.
Cai no sono a água fria, e ferve, no sono de cal a água 
fria:  ah, a brusca temperatura, a insensatez 
das imagens.
O pêlo negro das mães escorrega na sua cara 
de criança voltada.
Só ela tão longamente se voltaria
dormindo,
criança
que se desdobra. Dêem um nome à memória, uma 
arrumação sonora que se escreva 
e ofusque — um nome 
para morrer.
Porque a criança atravessa tudo e já toca no centro de si própria.

In Do Mundo, In Ofício Cantante, Lisboa: Assírio & Alvim, p. 491

Hyatt Moore

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Elizabeth Bishop

PARIS, SETE DA MANHÃ
Viajo a cada um dos relógios do apartamento:
histriões, alguns ponteiros indicam uma direção,
alguns a outras, a partir de seus ignorantes rostos.
O tempo é uma Etoile;  as horas divergem tanto
que os dias são travessias ao redor dos subúrbios,
círculos ao redor de estrelas, círculos que se sobrepõem.
A pequena escala demi-ton dos climas do inverno
é uma asa de pombo aberta.
O inverno vive sob a asa de um pombo, de um pombo morto e com
[as plumas viscosas.

Olhe para baixo, no pátio. Todas as casas
estão construídas assim, com urnas ornamentais
no cimo das mansardas onde os pombos
passeiam. É como introspecção
o olhar para o interior, ou como retrospecção,
uma estrela dentro de um retângulo, uma recordação:
este quadrado vazio poderia ter estado lá.
— Os fortes de neve da infância, erigidos em invernos mais
[brilhantes,
poderiam ter assumido esta proporção e converter-se em casas;
os poderosos fortes de neve de quatro ou cinco andares,
se resistissem à primavera como os de areia às marés,
seus muros, sua forma, não se teriam dissolvido e morto,
mas somente teriam um se sobreposto ao outro, tornados pedras,
agora acinzentados e amarelecidos como são as pedras.

Aonde as munições, as bolas de canhão em pilhas,
com seus corações de gelo como estilhaços de estrelas?
Este céu não é um pombo-correio-guerreiro
que sabe safar-se da intersecçâo de intermináveis círculos.
É um céu morto, ou o céu do qual caiu um pombo morto.
Suas cinzas, ou plumas, estão guardadas nestas urnas.
Quando se fundiria a estrela, ou teria ela sido capturada
pela sequência de quadrados e quadrados, de círculos e círculos?
E os relógios, saberão? Estará a estrela lá embaixo,
a ponto de despencar sobre a neve?


Bishop, Elizabeth. Poemas. tr. e intr. de Horácio Costa, São Paulo, Companhia das Letras, 1990, pp. 51-53 


terça-feira, 10 de setembro de 2013

Adonis

CELEBRAÇÃO DE BEIRUTE, 1982.
O tempo avança,
na mão um cajado de ossos de corpos.

A lâmina da insônia
marca o pescoço da noite.

Crânios – uns servem sangue
outros se embriagam e deliram.

O fogo se suja?
o vento se infla?

Fumaça é nuvens.
Nuvens tem forma de cabeças.

Letras caídas
são impressas dispersas no chão
- pedaços de corpos.

Hoje o horizonte recomendou a seu filho
o vento que não saísse.

Como não se cansam as pedras do caminho?

Nem mesmo o sol consegue
iluminar este corpo que sangra sombra.

Dias cobertos de pó
tem feições de velhos.

Mariposas queimam
Subindo a escada do sono.

A cinza, princesa,
toma assento e recebe as honras.

O míssil, rei,
arrasta a cauda
sobre os corpos dos súditos.

O sol está prestes a dizer
à luz: ofusca meus olhos.

Será a vida um erro
que a matança corrige?

Onde está a cova aberta para acolher as lágrimas?
E o buraco que acolherá a alma?

A coisa elimina a coisa.

Não terá outro seio
este céu?

Esta rosa, de onde lhe vem tanta obstinação?
Está sempre lendo seu amor.

O dia tem medo do dia
e a noite se esconde da noite.

Agradeço
ao pó que se mistura com a fumaça e a abranda,
ao intervalo entre uma bomba e outra,
ao piso que sempre aguenta meus passos,
agradeço às pedras que ensinam a paciência.

Apagou-se a luz.
Vou acender a estrela dos meus sonhos.

Leva-me, amor,
e me mantém trancado.


ADONIS [poemas], São Paulo, Companhia das Letras, 2012, seleção e tradução do árabe Michel Sleiman, pp. 175-178.



CELEBRAÇÃO DA INFÂNCIA
Lembro a loucura
apoiando-se, pela primeira vez, no travesseiro do juízo:
eu falando com meu corpo.

Meu corpo era um pesamento
que eu escrevia em vermelho:
o vermelho era o mais belo assento do sol
e todas as outras cores rezavam
em cima de um tapete vermelho.

A noite era outro lampião.

Em cada galho havia um braço:
carta carregada pelo espaço
confirmada pelo corpo do vento.

O sol insistia, nesses tempos,
se vestia de bruma
em nossos encontros:
era reprimenda da luz?

Ah meus dias idos...
caminhavam sonâmbulos
e eu apoiado em seus ombros.

O amor e o sonho são parênteses
onde interponho o meu corpo
e nisso conheço o mundo.

Muitas vezes
vi o vento voar com pés de erva
vi o caminho dançar com pés de vento.

Meus desejos são rosas
manchadas por meus dias.

Cedo me feri
cedo soube
que as feridas me criaram.

Não paro de andar atrás da criança
que não para de andar dentro de mim.
Agora ela para no topo de uma escada de luz
à procura de um canto para descansar
e de novo ler o rosto da noite.

Se a lua fosse uma casa
meus pés recusavam cruzar sua soleira:
eu seria tomado pela poeira
que me traz o vento das estações.

Caminho
ponho uma mão no ar
e a outra nas tranças que imagino.

A estrela é também uma pedrinha
no campo astral.

Só quem se misturou com o horizonte
pode abrir um caminho.

A lua, uma velha...
seu assento é a noite, seu cajado é a luz.

O que direi àquele meu corpo
que deixei entre as ruínas da casa onde nasci?
Não. Só poderão contar minha infância
as estrelas que cintilam em cima daquela casa
e pontilham com seus passos as direções da noite.

Minha infância ainda
nasce entre as mãos de uma luz
cujo nome desconheço e me dá nome.

Aquele rio.
Fazia dele um espelho
para perguntar-lhe sobre suas tristezas,
das tristezas fazia chuva
para imitar as nuvens.

Pequena aldeia tua infância
e apesar disto
não ultrapassarás suas fronteiras
por mais que te afaste a viagem.

Seus dias são lagos
suas lembranças corpos flutuantes.

Tu que caíste das alturas
nas montanhas do passado
como poderás subi-las
de novo?

Tempo: porta trancada
tento não consigo abri-la.
Meu encantamento está cansado
meus amuletos, dormentes.

Nasci numa aldeia
pequena, reclusa, como o útero
e ainda não saí dela.
Meu amor vai pelo oceano
não pelas praias.

Id. Ibid, pp. 179-183.







segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Murilo Mendes

Ideia Fortíssima
Uma ideia fortíssima entre todas menos uma 
Habita meu cérebro noite e dia,
A idéia de uma mulher, mais densa que uma forma.
Ideia que me acompanha 
De uma a outra lua,
De uma a outra caminhada, de uma a outra angústia,
Que me arranca do tempo e sobrevoa a história,
Que me separa de mim mesmo,
Que me corta em dois como o gládio divino.
Uma idéia que anula as paisagens exteriores,
Que me provoca terror e febre,
Que se antepõe à pirâmide de órfãos e miseráveis,
Uma idéia que verruma todos os poros do meu corpo 
E só não se torna o grande cáustico 
Porque é um alívio diante da ideia muito mais forte e violenta de
[Deus.

Companheira
Companheira, dou-te as sombras que me acompanham, 
Todas as sombras criadas pelos vivos.
Companheira, dou-te a alegria
Do que nada tem a esperar do esforço humano.
Dou-te a cantiga do asilado,
O suspiro do menino que olha em vão 
O velocípede do menino vizinho.
Dou-te a nostalgia de quem soltou papagaio 
Em épocas muito remotas.
Companheira,
Dou-te a tristeza do que nada achou na sua primeira comunhão. 
Dou-te o desconsolo do que está sendo destruído 
Pelos crimes que não cometeu,
Pelos crimes de outros em época distante.

Pastoral
Traze a sandália e o bordão para passearmos no campo sereno. 
Somos contemporâneos de raças extintas,
Viemos de torres golpeadas e de hóstias profanadas.
Até que desçamos para os rios invisíveis 
Convém dançar entre os humanos, comer o pão e o mel.
Os imortais nos aguardam nas esferas da música:
Muitos pássaros, muitas luas viajantes têm nostalgia de nós. 
Esquadrilhas de mitos são enviadas para nos protegerem. 
Hospedamos companheiros imprevistos,
O Máscara de Ferro, Nosferatu,
Ou então a Órfã do Castelo Negro.
As fontes esperam nosso sinal para murmurarem,
E os germes da peste se contêm ante a nossa benção.
Paz aos corpos insaciados de amor, aos membros genitais em delírio:

Suspendei de novo no azul a gaiola dos anjos,
Voltem de novo os lírios do vale em lugar dos fuzis.

In Metamorfoses, Poesia Completa e Prosa,  Rio de Janeiro, Ed. Nova Aguilar, 1994, pp. 316-317.


ISMAEL NERY

domingo, 8 de setembro de 2013

Emily Dickinson

Nunca me senti em Casa — Aqui —
E lá nos Belos Céus
Jamais me sentirei em Casa — eu sei — 
Não gosto do Paraíso —

Porque é Domingo — todo o tempo lá — 
E nunca — há Intervalo —
E o Éden é tão triste nas brilhantes 
Tardes de Quarta-feira —

Se Deus fosse em visita —
Ou fizesse uma Sesta —
De forma a não nos ver — mas dizem 
Que Ele é — um Telescópio

Que nos vigia Perene —
Eu fugiria D’Ele —
Do Espírito Santo — de Todos —
Mas há o dito «Dia do Juízo Final»!

In Cem Poemas, trad. Ana Luísa Amaral, Lisboa, Ed. Relógio D´Água, 2010, p. 71.



Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...