segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Ana Luísa Amaral

ESCRITO À RÉGUA
O poema sustenta o universo 
Como um equilibrista
Muito breve

Ancorar o sentir 
em instrumento certo e 
objetivo:
um quilômetro agora de palavra, 
depois a solidão enumerada, 
e em frente:
o quase abismo

Sem guia modelar,
subir a pulso
os mil degraus do verso,
e não voltar
atrás:

Pela última vez, 
medir periferia do olhar: 
quarenta mil centímetros, 
o mesmo que dizer 
quarenta metros 
de uma escala exata

No fim,
lançar a régua contra o vento, 
lançá-la em direção 
à nuvem mais distante

E ter aos pés 
coisas que tinha antes: 
mandrágoras, dragões, 
ligeiríssimo grifo arrebatado,

uivante
sílaba  

In Vozes, São Paulo, Iluminuras, 2013, p. 57

O COLOSSO
GOYA




domingo, 6 de outubro de 2013

García Lorca

TRÊS RETRATOS COM SOMBRAS

VERLAINE
A canção,
que nunca direi,
adormeceu em meus lábios.
A canção 
que nunca direi.

Entre as madressilvas 
havia um vaga-lume, 
e a lua feria 
com um raio a água.

Então eu sonhei
com a canção
que nunca direi.
Canção cheia de lábios
e de álveos distantes.

Canção cheia de horas
perdidas na sombra.
Canção de estrela viva
sobre um perpétuo dia.

BACO
Verde rumor intacto.
A figueira me estende os braços.

Como uma pantera, sua sombra 
espreita a minha lírica sombra.

A lua conta os cachorros.
Equivoca-se e começa de novo.

Ontem, amanhã, negro e verde, 
rondas meu cerco de lauréis.

Quem como eu te quereria, 
se me mudasses o coração?

... E a figueira grita para mim e avança 
terrível e multiplicada.

JUAN RAMÓN JIMÉNEZ
No branco infinito,
neve, nardo e salina,
perdeu sua fantasia.

A cor branca anda 
sobre um mudo tapete 
de penas de pomba.

Sem olhos nem ademã 
imóvel sofre um sonho.
Mas treme por dentro.

No branco infinito, 
quão pura e longa ferida 
deixou sua fantasia!

No branco infinito.
Neve. Nardo. Salina.

In Canções (1921- 1924), In Obra Poética Completa, São Paulo, Martins Fontes, 1996, trad. Willian Angel de Mello, pp. 299-301



sábado, 5 de outubro de 2013

Murilo Mendes

Anti-Elegia N° 3
As magnolias avançam com um ímpeto inesperado 
São ombros nus é o luar o vidro de veneno 
Deve haver um homicídio uma pergunta à esfinge

Um ultimato ao sonho um arroubo do universo. 
À meia-noite em ponto bate o mar na varanda 
É impossível deixar de acontecer alguma coisa 
Há uma espera vã — raptaram as nebulosas.

Canção
Vejo as nuvens decotadas 
Ouço o murmúrio do mar 
Palpo a matéria de pedra 
Espero a amada voltar.

Desespero... espero em vão.
Este céu que não acaba 
E esta amargura que me faz viver,
Que vem soprando desde a eternidade.

Delírio Divino
O lirismo de Deus aumenta súbito 
Oscila o infinito nas bases 
Metafísica da física
Brota uma violeta nos anéis de Saturno 
Alguém desfolha um ciclone 
Os aeromoços corteses 
Penteiam a cabeleira das filhas do demônio 
Deus com fome 
Mata um homem e come.

In Os Quatro Elementos, Poesia Completa e Prosa, Ed. Nova Aguilar: Rio de Janeiro, 1994, pp. 380-381].


sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Hermann Hesse

CANTO DA MORTE DE ABEL
Morto jaz na relva Abel: 
fugiu seu irmão Caim.
Um pássaro aproxima-se, mergulha o bico no sangue, 
leva um susto e sai voando.

Foge o pássaro pelo mundo inteiro, 
molhado o voo, estridulante a voz, 
carpindo o seu lamento interminável: 
sobre o formoso Abel e a dor da sua morte, 
sobre o feio Caim e seu mortal pecado, 
sobre seus próprios dias juvenis.
Logo lhe atira Caim ao coração sua flecha: 
e logo há de levar disputa e guerra e morte 
a todas as cabanas e cidades, 
fará inimigos para assassiná-los, 
a eles e a si mesmo em desespero odiando, 
a eles e a si mesmo por todos os becos 
caçando torturado até à próxima Noite Universal, 
até de si por fim vomitar-se Caim.

Foge o pássaro: do seu bico ensanguentado 
um lamento de morte faz-se ouvir cobrindo o mundo
[inteiro.
Caim o escuta, o morto Abel o escuta,
mil o escutam sob o toldo celeste,
dez mil e mais não o escutam, porém,
sobre a morte de Abel não querem saber nada,

nada sobre Caim e o peso em seu coração,
nada do sangue a jorrar de tantas feridas, 
nada da guerra que estava aí ainda ontem 
e da qual sabem agora lendo romances.
Para esses todos, alegres e satisfeitos, 
fortes e brutos,
Caim e Abel, tristeza e morte, não existem:
louvam a guerra como um tempo formidável.

E quando passa voando o pássaro lamentoso
dizem que é agourento e pessimista,
sentem-se fortes e invictos,
e apedrejam o pássaro
até fazê-lo calar e sumir,
ou tocam música para não mais o ouvirem
porque a voz triste dele os incomoda.

O pássaro com suas pequeninas
gotas de sangue no bico, voa de um a outro lugar
e o seu pranto por Abel não pára de ressoar.

In Andares, Antologia Poética, tr. Geir Campos, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1976, p. 157-158.

Bartolomeo Manfredi


quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Marina Tsvétaïeva


38. DE TSVÉTAÏEVA PARA RILKE
Saint-Gilles-sur-Vie, 2 de agosto de 1926

(...)
Quando um de nós sonha em conjunto — é quando nos encontramos.
Rainer, se eu quiser ir até junto de ti, é devido também ao meu novo eu, que só conseguiu nascer contigo, em ti. E, por isso, Rainer («Rainer»: o leitmotiv da minha carta), não me queiras, sou eu a má, quero dormir contigo — adormecer e dormir contigo. Esta expressão popular, como é verdadeira, profunda, sem equívocos, como diz bem aquilo que diz. Simplesmente dormir. Nada mais. Ou seja: aconchegar a minha cabeça no teu ombro, passar o braço pelo teu ombro direito — nada mais. Ou seja: saber, no sonho mais profundo, que és tu. E ainda: como bate o teu coração. E — beijar o teu coração.
Às vezes digo a mim própria: deves explorar o acaso de seres ainda (pelo menos!) um corpo. Qualquer dia ficarei sem braços. E ainda: o que vai parecer uma confissão: vangloriar-se das suas dores! Quem poderá falar dos seus sofrimentos sem ficar entusiasmado, fe­liz?!) — Não é necessário que tenha o ar duma confissão: os corpos aborrecem-se de mim. Adivinham qualquer coisa e não acreditam em mim (não acreditam no meu) ainda que eu faça o que toda a gente faz. De forma demasiado... desinteressada, talvez demasiado... benevolente. Demasiado confiante, também. São as pessoas de antigamente (os selvagens), ignorantes de usos e leis, que são confiantes. Os de agora não têm confiança! São coisas que já não têm lugar no amor, o amor não entende e não sente nada a não ser a si próprio, de forma muito localizada e pontual, e isso, eu não consigo contrariar. E — a grande compaixão, quem sabe donde virá, a bondade infinita e — a mentira.
Sempre me senti mais velha. Os jogos infantis demasiado sérios, eu não o bastante.
Sempre entendi a boca como um mundo: abóbada celeste, ca­verna, garganta, abismo. Sempre traduzi o corpo em alma (desincar­nado!), e de tal maneira magnificado o amor «físico» — para poder amá-lo — que dele, de repente, não restava mais nada. Ao abismar-me nele, afundava-o. Ao afundar-me nele, afastava-o. E de tudo não ficava mais nada senão eu: uma alma (é o meu nome, daí a admiração perante o meu dia!)
O amor odeia o poeta. O amor não quer ser magnificado (sen­do por si bastante magnífico!), toma-se por um absoluto, o único. E não confia em nós. Sabe, no mais profundo de si próprio, que não é magnífico (daí a sua tirania!), sabe que toda a magnificência é — alma, e onde a alma começa, o corpo acaba. Puro ciúme, Rainer, o mais puro. Como o da alma perante o corpo. Mas eu sou sempre ciu­menta do corpo: gratificado por louvores tais! O pequeno episódio de Paolo e Francesca. — Pobre Dante! — Quem hoje pensa ainda em Dante ou em Beatriz? É da comédia humana que eu sou cimenta. A alma não é nunca amada como o corpo, ou melhor: louva­da. Ama-se o corpo de todos esses milhares de almas. Quem alguma vez se fez condenar por uma alma? E haverá alguém que quisesse — impossível: amar uma alma até à condenação — isso é já ser um anjo. Nós somos frustrados pela totalidade do inferno: (... demasia­do puro — provoca um vento de desdém!)
Por que é que eu te falo nisto? Pela inquietação talvez, de que não vejas em mim nada a não ser uma apaixonada comum (paixão — servidão). «Amo-te e quero dormir contigo», um tal concisão não permite a amizade. Mas digo-o doutra maneira, quase em esta­do de sonolência, firme no meu sono. E a coisa não me soa como paixão. Se me apertasses contra ti, apertarias os lugares mais desertos. Tudo o que não dorme jamais quereria encontrar o seu sono nos teus braços. Até ao fundo da alma (da garganta) — assim seria o meu beijo. (Não um incêndio: um abismo.)

Je ne plaide pas ma cause, je plaide la cause du plus absolu des baisers."
________________________________

Tu andas sempre em viagem, não vives em lugar certo, e encon­tras russos que não são eu. Ouve-me, uma vez por todas: na Raineria, só eu represento a Rússia.
Rainer, no fundo, quem és tu? Não és alemão — ainda que se­jas a Alemanha inteira! Não és da Boêmia — ainda que tenhas nas­cido lá (N.B.! nascido num país que ainda não existia) não és austríaco, porque a Áustria era e tu — passas a ser! Isto não é magní­fico? Tu — sem país. «O maior poeta checoslovaco», escrevem os jornais parisienses. Eis-te portanto eslovaco, finalmente, Rainer. O que não deixa de ser engraçado.
Rainer, a noite cai, e eu amo-te. Um comboio uiva. Os comboios são lobos, os lobos são a Rússia. Não é um comboio — é a Rússia inteira que uiva perto de ti. Não te zangues comigo, e zangado ou não, esta noite dormirei contigo. Uma falha na escuridão, porque há estrelas, e eu fecho a janela. (Quando penso em ti e em mim, penso numa janela, não numa cama.) Com os olhos grandes, abertos, por que lá fora, está mais escuro que cá dentro. A cama é um barco, partimos em viagem.

... E um dia nunca mais se viu.
O pequeno barco sem velas,
Cansado dos malditos oceanos 
Vogando no país das estrelas —
Tinha ganho o paraíso...
(Canção infantil de Lausanne)

Não precisas de responder — a não ser ao beijo.
M.

P.-S. A propósito de ter razão (de estar no seu direito): «A natu­reza também é não natural» (Goethe), deve ser isso o que tu querias dizer (natureza: direito) Os déserts lieux são uma prenda de Boris de que te faço presente.

In Rilke / Pasternak / Tsvétaïeva Correspondência a Três, trad. do francês Armando Silva Carvalho, Lisboa, Assírio & Alvim, 2006, pp. 268-271

Saint-Gilles-sur-Vie

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Rainer Maria Rilke

Apolo Prematuro
Como por vezes dos ramos sem flor
se entremostra a manhã tal que pareça
já primavera: nada em sua cabeça
impede que sintamos o esplendor

quase letal de todos os poemas
no seu olhar sem sombras ou centelhas,
a fronte ainda fria para emblemas,
pois só depois, do arco das sobrancelhas,

virá o jardim de rosas que se apruma,
as pétalas soltando-se, uma a uma,
a cair sobre a boca, que, tremente,

cintila já, mas sem uso, silente,
bebendo algo com o seu sorriso,
como à espera de um canto ainda impreciso.

In Augusto de Campos, Coisas e Anjos de Rilke, São Paulo: Perspectiva, 2013, p. 93.




terça-feira, 1 de outubro de 2013

Antonio Gamoneda

RELAÇÃO DO PROSTÍBULO
Vi a solicitude das anciãs
e as suas agulhas; as trevas
e a humildade de suas medalhas.

Era quinta-feira órfã, quinta-feira apenas.
Não havia ninguém no espelho. Vi
cânulas e, por trás do crepúsculo,
as galinhas na eternidade.

Deus cansou-se da tristeza
e não quis existir. Aquela tarde
foi a única tarde da minha vida.

In Oração Fria, Sel., trad, intr. e posf. de João Moita, Lisboa, Assírio & Alvim, 2013, p. 163



HENRI MATISSE


Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...