segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Juan Ramón Jiménez

VENDAVAL
Ó sino de França, choras 
pelas amadas de Espanha? 
Todas mortas... Todas vivas, 
enterradas em minh´alma.
Comigo estão todas, ai!
E eu, tão só entre tantas.
E como choras, com elas, 
por mim, ó sino de França.
Estala abril. As glicínias, 
como almas, se levantam 
para o céu; minhas tristezas 
se levantam como almas; 
minhas almas, todas olhos, 
azuis e negras... Ó sino, 
sino, sino, sino, chora 
pelas amadas de Espanha.
Ah, como olhavam; e como
beijavam, como falavam!
E seus olhos se fecharam, 
suas bocas já não falam, 
já não beijam; pois se voltam 
para outros, seus olhares, 
pois inflamam outros lábios 
e dizem outras palavras.

In Carlos Drummond de Andrade - Poesia Traduzida, São Paulo: Cosac Naify, 2011, p. 189


Hendrick van Anthonissen



domingo, 13 de outubro de 2013

W. H. Auden

ACALANTO
Pousa, amor, a cabeça sonolenta,
Humana sobre o meu braço inconstante;
A beleza das crianças pensativas 
Tempo e febres consomem lentamente 
E cabe à tumba mostrar quão efêmeras 
Essas mesmas crianças vêm a ser:
Mas que em meu braço, até que nasça o dia, 
Possa repousar a viva criatura,
Mortal e culpada, e, no entanto, para 
Mim a coisa mais bela de se ver.

Nem a alma nem o corpo têm amarras:
Para os amantes, quando eles se deitam 
No seu declive indulgente e encantado, 
Tomados da languidez costumeira,
Intensa é a visão que Vênus manda 
De uma simpatia sobrenatural,
De esperança e amor generalizado; 
Enquanto uma abstrata intuição desperta, 
No meio das geleiras e das pedras,
Do eremita o êxtase carnal.

Certeza e fidelidade se estiolam 
Quando bate meia-noite o relógio 
Como se fossem vibrações de um sino,
E lançam seu pedante palavrório,
Aos gritos, os delirantes em voga:
Os últimos centavos a pagar — 
Assim o prevê o baralho mofino —
Serão saldados; porém, desta noite,
Que não se perca nenhum pensamento, 
Nenhum suspiro, nenhum beijo ou olhar.

A beleza, a meia-noite e a visão morrem: 
Deixa os ventos do amanhecer, que sopram 
Suaves em tua sonhadora cabeça,
Exibirem um dia de tal forma
Propício que o olho e o coração o saúdem,
Satisfeitos com o mundo mortal;
Quer a secura meridiana te veja 
Nutrida pela força involuntária 
E permita-te ir a noite adversária 
Guardada pelo amor universal.
(J. M.J.)

Sobre W. H. AUDEN 

[In Poemas, Seleção de João Moura Jr., Tradução e Introdução: José Paulo Paes e João Moura Jr., São Paulo, Companhia das Letras, 1986, pp. 45-47]

                 Rio Villegas 

sábado, 12 de outubro de 2013

Mariana Ianelli

A FÁBULA DE SÉRAPHINE
Séraphine Louis tinha treze anos quando partiu de Arsy, onde pastoreava ovelhas, para trabalhar na casa da condessa de Beaumini, em Paris. Mas Paris não era lugar para Séraphine, ela voltou. Aos dezoito, foi empregada no convento Charité de la Providence, em Clermont. Passou ali vinte anos. Partiu novamente. Foi trabalhar nas casas dos burgueses de Senlis, na casa de Mme. Mong, na casa de M. Chambard. Até que, em 1906, Séraphine com quarenta e dois anos, a Virgem lhe apareceu na catedral Notre-Dame de Senlis.

“Séraphine, você deve pintar!”

Obediente e devota como era, Séraphine começou a pintar. Inventava suas misturas usando Ripolin comprado na drogaria da praça do mercado. Pintava à noite, no seu quarto feito atelier na rua Puits-Tiphaine. Os de Senlis se divertiam com a empregada que pintava quadros. Debochavam da mulher sem instrução, que dizia ter visto a Virgem e pintava salmodiando os cânticos das freiras de Clermont.

Em 1912 apareceu na pequena vila, vindo de Paris, Wilhelm Uhde, um aristocrata alemão. Procurava um retiro não muito longe da cidade das artes e em Senlis encontrou esse lugar. A catedral gótica da vila o seduzia com suas histórias de Deus e de reis. Nessa época, Uhde já colecionava obras de Picasso e enfrentava a desconfiança dos marchands para expor artistas ainda à sombra da história e do mercado, como Henri Rousseau e Marie Laurencin.

Em Senlis, Uhde se instalou num apartamento na praça Lavarande. Todas as manhãs uma mulher que lhe haviam recomendado vinha fazer a faxina. Era Séraphine. A insignificante, insólita Séraphine. Quando Uhde viu pela primeira vez um de seus quadros, uma pequena natureza-morta com maçãs, não se conteve: “Cézanne ficaria feliz de ver essas maçãs”. Sob a vista sarcástica da gente da vila, Uhde encorajava Séraphine a pintar, comprava seus quadros, mostrava-os aos amigos parisienses.

Veio a Primeira Guerra, muitos debandaram de Senlis. Uhde, perseguido, despareceu. Mais de dez anos se passaram até o improvável acontecer. Desta vez, de Chantilly, Uhde vinha para uma exposição de pintura regional na prefeitura de Senlis. Percorrendo a grande sala, no meio de toda aquela arte provinciana, estacou diante de três telas: um ramo de lilás, uma cerejeira, uvas negras e brancas.

Lá estavam as cores da rosácea medieval, as flores semoventes de Séraphine, suas árvores estreladas, águas-vivas, borboletas-cauda-de-andorinha, peixes-mandarins. Três quadros, e lá a inteligência sensível, autodidata, que resolvia na pintura, com seu métier secreto, as questões de cor, equilíbrio e harmonia. Uhde pensou no Cântico de Salomão. Sentiu que badalavam juntos os sinos de Saint-Fraimbault, de Saint-Aignan, de Saint-Hilaire.

Nenhuma palavra sobre Séraphine na imprensa local que noticiava a exposição enquanto os jornais de Paris divulgavam a descoberta evocando a arte do Extremo Oriente. A velha empregada agora abandonava a faxina, pintava de três a quatro telas por semana, tinha de volta seu mecenas e colecionadores na Alemanha, em Londres, em Paris.

A bonança duraria pouco. Era o fim dos anos loucos na França. Começavam a irradiar os maus tempos da grande crise de 1929. Menos de dez anos depois explodia a Segunda Guerra. Uhde já não podia sustentar Séraphine, que, por sua vez, ia submergindo na loucura.

“Ideias de perseguição; alucinações auditivas; alucinações visuais”, assinalou o médico no documento de admissão de Séraphine no asilo de Clermont-de-l’Oise em fevereiro de 1932. Vieram os anos de miséria, alienação e nenhum quadro. A visionária que imaginava um cortejo iluminado no dia da sua morte foi enterrada numa vala comum no ano de 1942. Uhde viveria cinco anos mais.

Aquela pintura inspirada, magnificamente colorida, hoje pertence ao acervo de vários museus da França. Dizem que brilha como se ainda estivesse fresca. Essa pintura cuja técnica vem de uma mistura indecifrável. Algo que contém Ripolin, às vezes verniz, e o óleo santo da Notre-Dame da pequena vila de Senlis.

[Crônica publicada no dia 12/10/2013, na Revista Digital RUBEM]


Marianne Moore

POESIA
Também não gosto: há coisas mais importantes que toda essa baboseira.
Lendo-a, no entanto, com total desprezo,  a gente acaba descobrindo 
nela, afinal de contas, um lugar para o genuíno.
Mãos que agarram, olhos
que se dilatam, cabeleira que se eriça
quando preciso, são coisas importantes, não porque se

lhes pode impor pomposa interpretação mas por serem
úteis. Quando se tornam tão derivativas que ficam ininteligíveis, 
o mesmo se pode dizer de todos nós, pois 
não admiramos aquilo que 
somos incapazes de compreender: o morcego
 pendurado de ponta-cabeça ou em busca de algum

alimento, elefantes em marcha, um cavalo selvagem a se espojar, um lobo
infatigável embaixo
de uma árvore, o crítico impassível a crispar a pele como um cavalo mordido
por pulga, o fã do
beisebol, o estatístico — 
nem é válido
ter preconceito contra “documentos comerciais e
livros didáticos” *; todos esses fenômenos são importantes. Contudo, a gente deve
fazer uma
distinção: se um semipoeta os realça à força, o resultado não é poesia, 
nem, enquanto nossos poetas não forem “literalistas
da imaginação” ** — acima
da insolência e da trivialidade — e não apresentarem

para inspeção “jardins imaginários com sapos de verdade”, teremos acesso a 
ela. Até lá, se exigir, por um lado, 
a matéria-prima da poesia em 
toda a sua primariedade e 
aquilo que é, por outro lado,
genuíno, então você tem interesse por poesia.

__________________________________________

* Diário de Tolstói: “Jamais serei capaz de compreender onde fica a fronteira entre prosa e poesia. Essa questão é discutida em manuais de estilo, mas não alcanço a resposta. Poesia é verso; prosa não é verso. Ou então poesia é tudo exceto documentos comerciais e livros didáticos".
** Literalistas da imaginação.  Yeats, Ideas of good and evil (A. H. Bullen, 1903), p. 182. “A limitação de sua visão derivava da própria intensidade de sua visão; era um realista da imaginação demasiado literal, assim como outros o são da natureza; e, como estava convencido de que as figuras vistas pelos olhos da mente, quando a inspiração as exaltava, eram ‘existências eternas’, símbolos das essências divinas, repudiava toda graça de estilo que pudesse obscurecer suas ca­racterísticas.”

[In Poemas, seleção João Moura Jr.; tradução e posfácio José Antonio Arantes. São Paulo, Companhia das Letras, 1991, pp. 168-169].


RENOIR




sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Emily Dickinson

Um certo Viés de luz,
Tardes Invernais —
Que oprime, como o Peso 
De Sons de Catedrais —

Dá-nos Dor Celestial 
Não vemos cicatriz,
Mas diferença interior,
Onde os Sentidos, são —

Ninguém lhe ensina — Nada 
Seu Lacre, o Desespero — 
Aflição imperial 
Que nos envia o Ar —

Vem, e a Paisagem escuta-o 
Fica expectante — a sombra 
Parte, e é como a Distância 
Perante a visão da Morte —

In Cem Poemas, trad. Ana Luísa Amaral, Lisboa, Ed. Relógio D´Água, 2010, p. 177. 

MONET

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Jorge Luis Borges

Eclesiastes, 1,9
Se passo a mão de leve sobre a fronte, 
se afago as lombadas desses livros, 
se o Livro das Noites reconheço, 
se giro a terceira fechadura, 
se me demoro no umbral incerto, 
se uma dor incrível me atordoa, 
se recordo a Máquina do Tempo, 
se recordo o tapete do unicórnio, 
se mudo a posição enquanto durmo, 
se a memória me devolve um verso, 
repito o ritual inumeráveis 
vezes em meu assinalado rumo.
Não posso executar um ato novo, 
teço e torno a tecer a mesma fábula, 
repito um repetido decassílabo, 
torno a dizer o que outros me disseram, 
as mesmas coisas sinto, sempre à mesma 
hora do dia ou da abstrata noite.
Noite após noite o mesmo pesadelo, 
noite após noite o austero labirinto.
Sou o cansaço de um espelho imóvel 
ou o pó de um museu.
Somente algo indesejado espero,
só espero esse dom, ouro da sombra, 
essa virgem, a morte. (O castelhano 
permite esta metáfora.)

Poesia Borges, Companhia das Letras, 2009, p. 310-311

Kyung Hoon Min

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Astrid Cabral

XXXVII
Ó Zenóbia, augusta rainha, 
pergunto pelas caravanas 
dos mercadores de tâmaras 
seus lerdos tardos camelos 
cargas de almíscar e sedas 
entre montanhosas corcovas. 
(Embalde caçar na areia 
os traços desses rastros)
O Zenóbia, augusta rainha, 
pergunto pelos exércitos 
de aguerridos soldados 
seus lépidos cavalos bravos 
sustentando justas lutas 
contra o império romano.
(A poeira apagou as pegadas 
e manchas de muito sangue)
O Zenóbia, augusta rainha, 
não mais correm as moedas 
que um dia cunhaste em 
atitude de sã rebeldia.
Neste deserto de Palmira 
tão eixo e coração da Síria 
até a necrópole está vazia.
Nas nobres torres funerárias 
e hipogeus desertos sequer 
os ossos testemunhos de gente. 
Ó Zenóbia, augusta rainha, 
os ovos que auguram a vida 
em tantos baixos-relevos 
jamais romperão das cascas.
Agora tudo o que em teu chão 
pulsa e corre são as negras 
veias de petróleo irrigando 
remotos aglomerados de homens 
onde carros mecânicos correm 
em vez de camelos e cavalos.
O sangue contudo escorre 
em outros corpos e guerras brutas 
e novo comércio ora se faz 
com moedas recém-cunhadas.
O Zenóbia, augusta rainha, 
atores novos em cenário insólito 
bisamos a velha História.

In Torna-Viagem, In De déu em déu -  poemas reunidos (1979-1994), Rio de Janeiro: Sette Letras, 1998, p. 127-128.

Zenobia
 Harriet Hosmer

Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...