sábado, 19 de outubro de 2013

Manuel António Pina

O medo
Ninguém me roubará algumas coisas, 
nem acerca de elas saberei transigir; 
um pequeno morto morre eternamente 
em qualquer sítio de tudo isto.

É a sua morte que eu vivo eternamente 
quem quer que eu seja e ele seja.
As minhas palavras voltam eternamente a essa morte 
como, imóvel, ao coração de um fruto.

Serei capaz
de não ter medo de nada, 
nem de algumas palavras juntas?

In Nenhum Sítio, In Todas as Palavras Poesia reunida, 3a. ed, Porto, Assírio & Alvim, 2013, p. 107. 

AGHA

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Stéphane Mallarmé

BRISA MARINHA
Triste carne, ai de mim! Já li os livros todos.
Fugir! Longe fugir! As aves sinto a modos 
De ser ébrias de espuma entre o mistério e os céus! 
Nada, nem os jardins espelhados nos meus 
Olhos, o coração retém quase afogado,
Ó noites! nem da lâmpada a ausente claridade 
No branco do papel que o vazio rejeita 
E nem a jovem mãe que ao peito o filho aleita. 
Hei-de partir! Veleiro a mastrear, tu, larga 
As amarras, demanda outra exótica plaga!
Um Tédio, desolado por esperanças cruéis,
Crê ainda nos lenços molhados dos adeus!
E talvez que esses mastros atraindo os presságios 
Sejam dos que o tufão verga sobre os naufrágios 
Perdidos, já sem mastros, em estéreis ilhéus...
Mas os marujos cantam, ouve, coração meu!

SANTA
À janela onde se recolhe 
O sândalo velho e já gasto 
Da viola que muito outrora 
Brilhara, com mandolina ou flauta,

Está a Santa pálida, que mostra 
O livro velho desfolhado 
Do Magnificat, outrora esparso, 
na prece vesperal:

A essa vidraça de custódia 
Que rasa uma harpa formada 
Pelo Anjo em seu noturno voo 
Para a falange delicada

Do dedo que, sem o velho sândalo 
Nem o velho livro, ela estende 
Sobre a instrumental plumagem, 
Na música só do silêncio.

Sobre Stéphane Mallarmé

In Sthéphane Mallarmé - Poemas lidos por Fernando Pessoa, tradução e prefácio José Augusto Seabra, Lisboa, Assírio & Alvim, 1998, pp. 56-57.


MATISSE

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Zulmira Ribeiro Tavares

O ARQUITETO E A BAILARINA
Como um compasso 
as pernas de aço abertas

Primeiro uma perna no chão 
a outra perna na barra

Depois a troca das duas 
pontas da sapatilha

Com os pés em ponta ela faz
aquilo que ele lhe ensina

O compasso nas mãos que o seguram 
se abre e desenha um círculo

No umbigo ele a beija com a língua 
como ajusta um parafuso

Sem exasperar a pressão 
insiste e abre caminho

Avança seguro e cego — 
na reta o ponto de fuga

Depois com mãos que arquejam 
desenha a planta do mundo.

[In Vesúvio, São Paulo: Companhia das Letras, 2011, pp. 66-67]. 


quarta-feira, 16 de outubro de 2013

T. S. Eliot

IV
Eis os que pretendiam edificar o Templo,
E os que desejariam edificado ele não fosse.
Nos tempos de Neemias, o Profeta,
Quando exceção alguma à regra se fazia.
No palácio de Susa, no mês de Nissan,
Ele o Rei Artaxerxes fez regalo de seu vinho
E aflito se mostrou pela cidade derruída, Jerusalém;
E o Rei deixou então que ele partisse 
Para que fosse a cidade enfim reconstruída.
E assim ele seguiu, com uns poucos, rumo a Jerusalém,
E lá, ao cruzar a fonte do dragão, sob a porta da fossa,
Sob a porta da fonte, junto ao açude do rei, divisou 
Jerusalém que devastada se prostrava, consumida pelo fogo; 
Nenhum lugar havia que uma besta ali trilhasse.
A sua vista os inimigos se alinhavam em desafio,
E à sombra rastejavam os espiões e oportunistas
Quando ele e os seus principiaram a soerguer o muro. 
Assim edificaram eles como devem edificar os homens.
A espada numa das mãos, na outra o aço do ofício.

In Coros de "A Rocha", Poesia, T. S. Eliot, Tradução, apresentação, introdução e notas de Ivan Junqueira, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006, pp. 192-193.



terça-feira, 15 de outubro de 2013

Maria Lúcia Dal Farra

V
BÍBLICAS DE SANTA TERESA D’ÁVILA

I
Era uma vez uma mulher 
que foi tocada pelo amor celeste.
O Senhor fez nela o seu piano
— a maneira íntima de deitar as mãos sobre o humano. 

Que forte sopro é este que se infunde em mim?

Com sua vara
Ele arranca água deste ermo 
sulcado em marfim.
Com o polegar no sol 
põe-me dentro da luz — 
sou solista da sua voz.

E porque leio os sinais
na clave bem temperada do corpo,
solfejo freneticamente as esferas.

Ah oratório dos meus pecados!
II
Procuro nas trevas tua voz 
enquanto lanças sobre mim a espada. 
Fustigas no meu corpo tempestades más 
— não reconheço nelas teu espírito.

Por que me abandonaste, ó Senhor, 
se debaixo da tua vindima 
mitiguei tua sede, 
se pelos campos afora 
me abri ao teu agrado?

Apóia em mim tua face 
transborda em mim tua carne 
e
acima do céu ou do inferno 
dá-me o prazer eterno, amém!
III
E o Senhor criou a mulher!
Deu-lhe crina de fogo ondulante 
regiões da mais delicada força 
uivos arrebatados na treva 
coisas de incontida beleza.

Sou um sacrário prenhe de palpitações do espírito 
onde o cálice se reserva para o festim.
E (clara) uma luva está sempre prestes 
a ascender em mim a pomba que enaltece.

Voo de guerra que atravessa as plagas 
do desde baixo até a mais profunda ascese, 
exército urdido na solidão 
para o clarim do dia primevo!

É quando a espada rasga o corpo 
é quando (pelos dons do Senhor) 
me reverto em seu espelho.
Imagem e semelhança.
IV
És tu que tens na mão a minha parte!

Que se alevante então 
a montanha encoberta 
e que os incensos inundem de cheiros 
a entrada das cavernas mais secretas!

Meu peito é o horto da paixão, 
oliveiras no aguardo do vento forte!
Honra esta casa
 — esta lareira — 
sobe a escarpa 
atiça o vulcão!

Dos teus olhos só vem o que é reto!
Por isso te peço:
desce sobre mim o raio piedoso.

Senta-te à mesa, dá-me o teu fruto, 
indica-me (desde a direita) quais as delícias. 
Devolve do teu arbusto a minha seiva!
E dentro da tua mais excelsa indulgência 
faz de mim tua serva — e serventia tua!
V
O Senhor partiu para seu monte 
e as regiões se quedaram desabitadas 
como a solidão mais antiga!

O tempo ruiu-se sobre a manhã...
Nenhuma aragem fina
vem deitar sua mirra sobre este leito de morte!

Onde os cardos para o meu diadema?

[In Livro de Auras, São Paulo, Iluminuras, 1994, pp. 73-77].


O ÊXTASE DE SANTA TERESA - BERNINI
igreja de Santa Maria della Vittoria -  Roma.





segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Juan Ramón Jiménez

VENDAVAL
Ó sino de França, choras 
pelas amadas de Espanha? 
Todas mortas... Todas vivas, 
enterradas em minh´alma.
Comigo estão todas, ai!
E eu, tão só entre tantas.
E como choras, com elas, 
por mim, ó sino de França.
Estala abril. As glicínias, 
como almas, se levantam 
para o céu; minhas tristezas 
se levantam como almas; 
minhas almas, todas olhos, 
azuis e negras... Ó sino, 
sino, sino, sino, chora 
pelas amadas de Espanha.
Ah, como olhavam; e como
beijavam, como falavam!
E seus olhos se fecharam, 
suas bocas já não falam, 
já não beijam; pois se voltam 
para outros, seus olhares, 
pois inflamam outros lábios 
e dizem outras palavras.

In Carlos Drummond de Andrade - Poesia Traduzida, São Paulo: Cosac Naify, 2011, p. 189


Hendrick van Anthonissen



domingo, 13 de outubro de 2013

W. H. Auden

ACALANTO
Pousa, amor, a cabeça sonolenta,
Humana sobre o meu braço inconstante;
A beleza das crianças pensativas 
Tempo e febres consomem lentamente 
E cabe à tumba mostrar quão efêmeras 
Essas mesmas crianças vêm a ser:
Mas que em meu braço, até que nasça o dia, 
Possa repousar a viva criatura,
Mortal e culpada, e, no entanto, para 
Mim a coisa mais bela de se ver.

Nem a alma nem o corpo têm amarras:
Para os amantes, quando eles se deitam 
No seu declive indulgente e encantado, 
Tomados da languidez costumeira,
Intensa é a visão que Vênus manda 
De uma simpatia sobrenatural,
De esperança e amor generalizado; 
Enquanto uma abstrata intuição desperta, 
No meio das geleiras e das pedras,
Do eremita o êxtase carnal.

Certeza e fidelidade se estiolam 
Quando bate meia-noite o relógio 
Como se fossem vibrações de um sino,
E lançam seu pedante palavrório,
Aos gritos, os delirantes em voga:
Os últimos centavos a pagar — 
Assim o prevê o baralho mofino —
Serão saldados; porém, desta noite,
Que não se perca nenhum pensamento, 
Nenhum suspiro, nenhum beijo ou olhar.

A beleza, a meia-noite e a visão morrem: 
Deixa os ventos do amanhecer, que sopram 
Suaves em tua sonhadora cabeça,
Exibirem um dia de tal forma
Propício que o olho e o coração o saúdem,
Satisfeitos com o mundo mortal;
Quer a secura meridiana te veja 
Nutrida pela força involuntária 
E permita-te ir a noite adversária 
Guardada pelo amor universal.
(J. M.J.)

Sobre W. H. AUDEN 

[In Poemas, Seleção de João Moura Jr., Tradução e Introdução: José Paulo Paes e João Moura Jr., São Paulo, Companhia das Letras, 1986, pp. 45-47]

                 Rio Villegas 

Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...