segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Rose Ausländer

Ainda estás aqui
Atira tua angústia
no ar

Num átimo
teu tempo passa
num átimo
o céu cresce
sob o gramado
caem teus sonhos
nenhures

Ainda
recende o cravo
canta o tordo
ainda tens o direito de amar
ofertar palavras
ainda estás aqui

Sê o que és
Oferece o que tens

Réptil
O tempo um réptil
me devorou

Não digerida eu fico
em seu corpo comprido
meio morta meio viva

Isso eu sonhei
quando dividi o cárcere
com José

Os dias magros jazem em
meu estômago

José está morto

Seu trigo armazenado
derrama-se
no Mar Morto

Os forasteiros
Trens trazem os forasteiros
que desembarcam
e olham atordoados
Nos seus olhos nadam
angustiados peixes
Eles portam narizes estranhos
tristes lábios

Ninguém veio apanhá-los.
Eles esperam pelo crepúsculo
que não faz qualquer diferença
então têm permissão
para visitar seus parentes
na Via-Láctea
nos vales da lua

Um toca gaita -
melodias incomuns.
Uma outra escala
mora no instrumento
uma inaudível seqüência
de solidões.

Fonte: Revista Piaui, Edição 37, Outubro de 2009.

Sobre Rose Ausländer

By Sebastião Salgado

domingo, 10 de novembro de 2013

Adélia Prado

A SAGRADA FACE
A dentadura encravou-se? Rezai,
prometei abstinências por um ano
para que a prótese malfeita se despregue da boca.
Ó Deus, como éreis bom,
rosas, dentes postiços,
touceiras de coqueirinho,
a profusão dos milagres.
Casimiro de Abreu, que não era santo,
mas que estava nos livros,
também ele dizia, como Jó,
como meu pai e minha mãe diziam:
“um Ser que nós não vemos
é maior que o mar que nós tememos...”
Que faço agora que Vos descubro em silêncio,
mas, dentro de mim, em meus ossos,
vertiginosa doçura?
Os dentistas fazem as próteses, não Vós,
a terra é quem gera as rosas.
Desde a juventude pedi, quero ver Teu Rosto,
mostra-me Tua Face.
Então é este o esplendor,
este deserto ardente, claro,
de tão claro sem caminhos!
Esta doçura nova me empobrece,
nascer sem pai, sem mãe,
objeto de um amor em mim mesma gerado.
Flor não é Deus, terra não é, eu não sou.
Pobre e desvalida entrego-me ao que seja
esta força de perdão e descanso, paciência infinita.
Quase posso dizer, eu amo.

In O Pelicano, Rio de Janeiro, Ed. Guanabara, 1987, p. 43.

JÔ TURQUEZZA


sábado, 9 de novembro de 2013

Ingeborg Bachmann

Em casa deito-me no chão e espero, eu ofego e me afogo, me afogo cada vez mais; é mais grave do que algumas sístoles adicionais, eu não quero morrer antes que Malina chegue, olho para o despertador, os minutos não passam e, no entanto, tenho a impressão de que minha vida está passando. Não sei como cheguei ao banheiro, ponho as mãos embaixo da torneira de água fria, a água corre pelos braços até o cotovelo, esfrego os braços e os pés e as pernas com um pano gelado, na direção do coração, os minutos não passam, mas agora Malina deve chegar, e então Malina chega, imediatamente estou menos tensa, finalmente, meu Deus, por que você chegou tão tarde?!

Certa vez, em um navio, eu estava sentada no bar com um grupo de passageiros que iam para a América, alguns eu já conhecia. Então um deles começou a queimar as costas da mão com um cigarro aceso. Ele foi o único a rir, não sabíamos se também deveríamos rir. Na maioria das vezes não se sabe por que as pessoas fazem mal a si mesmas, elas não o dizem a ninguém, ou então dizem algo bem diferente, para que não se descubra o verdadeiro motivo. Em um apartamento em Berlim encontrei certa vez um homem que bebia um copo de vodca atrás do outro mas nunca ficava bêbado; horas depois continuava conversando comigo incrivelmente sóbrio e, quando ninguém estava prestando atenção, ele me perguntou se podia me rever, pois queria me rever de qualquer jeito, e meu silêncio foi tão inequívoco que era o mesmo que um consentimento. Depois falou-se sobre a situação mundial, e alguém pôs um disco no toca-discos, L'Ascenseur a l'échafaud. Quando os acordes soavam baixinho e a conversa havia chegado ao telefone vermelho entre Washington e Moscou, o homem me perguntou, no tom mais natural possível, como pouco antes, quando perguntara se eu não ficaria melhor vestida de veludo, ele preferia me ver em veludo: A senhora já matou alguém? Respondi no tom mais natural possível: Não, claro que não, e o senhor? O homem disse: Eu sim, eu sou um assassino. Por um momento eu não disse nada, ele me olhou docemente e acrescentou: A senhora pode acreditar! E de fato acreditei, pois deveria ser verdade; ele foi o terceiro assassino com quem estive sentada em uma mesa, mas o primeiro e o único a confessá-lo. As duas outras vezes foi em noitadas em Viena, e fiquei sabendo depois a caminho de casa. Vez por outra quis anotar algo sobre essas três noites, separadas por muitos anos, e em uma folha avulsa escrevi, como tentativas: Três assassinos. Mas aí não fui adiante, pois só queria anotar algo sobre esses três para chamar a atenção sobre um quarto, pois a história de meus três assassinos não dá uma história; não tornei a ver nenhum deles, hoje eles estão vivendo em algum lugar, jantando com outras pessoas, fazendo mal a si mesmos. Um deles não está mais preso em Steinhof, o outro está na América com o nome trocado, o último bebe, para ficar cada vez mais sóbrio, e não está mais em Berlim. Do quarto não posso falar, não me lembro dele, eu esqueço, não me lembro...

(Mas corri contra o arame farpado eletrificado.) Lembro-me desse detalhe insignificante. Uma vez joguei fora minha comida, dia após dia, mesmo o chá, às escondidas; devo ter sabido por quê.

[Excerto de "Malina", tradução de Ruth Röhl, São Paulo, Ed. Siciliano, 1993, pp. 226-227]

Sobre Ingeborg Bachmann







sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Isabel Mendes Ferreira

 curvo-me aos teus pés em dois tempos narrantes e submeto-me à permanência telúrica das tuas pedras como um coração circular e sem estratégia. ergo-me deste chão como de um ventre sibilino onde tudo é raiz e o pouco não se demora. são terços de urze punhos de xisto quente rosário da memória fonte de todas as rondas e de todas as estevas. sou mais deste seio imenso que das estradas ou margens. é um pulo e uma garganta em chama uma lua que esmaga o diabo e faz do ar um pronome brilhante. regresso-te como se ao rio faltasse esta foz_____________________onde me corporizo em pedra solar. como tu terra sempre renascente. a caminho do maior heterónimo do silêncio. curvo-me à beira de ti para melhor me ser mais perto e maior. errante e peregrina de toda a linguagem.

Inédito. Proibida a reprodução
© Isabel Mendes Ferreira  

Profeta Oséias, obra  do Aleijadinho,
em Congonhas do Campo - MG - Brasil
                                                                     
  

Tahar Ben Jelloun

Sou um menino que zomba da inocência

Fui nutrido com o leite da esfinge
e cedo carreguei uma aranha no fígado em voz baixa

Gerei a cidade das trevas humilhadas
e voltado para mim mesmo
serpente sem cabeça, fiel ao sol

Provoquei o astro obsceno do mestre e do Imã
e o maculei de sangue no pátio dos milagres
o astro das areias que se apagou pela manhã
e me deparei com o Livro ao contrário

Tomei o trem para fomentar as turvações na água
estagnada
do sono ancestral
sacudi os carvalhos
e vi a morte rir escondido diante do espetáculo das cabeças
que caíam
Minha voz rompida parava no esboço desesperado da ausência 
palavra anulada
quando nossas mães nos carregavam nas costas 
nos campos 
e até o cemitério
nossas mães resignadas procuravam em nós a infância

Nus em nossa solidão 
fazíamos buracos no asfalto
até o dia em que o tempo parou na ponta do nosso despertar.

In Poetas do Mundo - As cicatrizes do Atlas, seleção, tradução e introdução de Cláudia Falluh Balduino Ferreira, Brasília, Ed. UNB, 2003, pp. 44-45. 


quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Edwin Morgan

O DIVISOR
Continuo pensando em você - o que é ridículo. 
Estes anos entre nós como um mar.
E a dignidade que veio com o tempo 
impediria meu lápis sobre o papel.
O som estava ligado; você pediu pelos Stones; 
conseguiu, conseguiu café fresco, conversa.
As cortinas cerradas guardavam uma noite selvagem. 
Continuo pensando nos seus olhos, suas mãos.
Não há razão para isto, nenhuma.
Você diria que não posso ser o que não sou, 
mesmo que eu não possa ser o que sou.
Onde isso nos leva? O que podemos fazer?
O silêncio após Jagger foi como uma capa 
que eu teria jogado sobre você - havia apenas 
o vento, e o relógio batia enquanto você bebia, 
agarrando a caneca verde entre as mãos.
Não olhe para cima assim de repente!
Como é duro não olhar você.
Chegamos ao ponto de não falar 
e não se preocupar, e aquilo 
foi quase feliz. Então, mais tarde,
quando você deitou sobre o cotovelo no carpete 
não senti nada além de uma punhalada 
de dor me dizendo o que era, 
e não posso dizer para você, nem uma palavra.

[In Edwin Morgan - Poetas do Mundo, seleção, tradução e introdução de Virna Teixeira, Brasília, Ed. UNB, 2006, pp. 29-31]. 



quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Hilda Hilst

Galopando insana pela casa

S.O.S.! Help! Socorro! Aiuto! Ayuda! Aide!

Tô no poço, no bueiro, na cova ainda não, mas tô por perto, e tô olhando o meu retrato aqui na sala, eu aos 26 (todo mundo pergunta quando entra: quem é?) e ao contrário daquele de Dorian Gray o meu é lindo e mais pro “Dorian Gay”, e eu na carne, velhíssima, tris­tíssima, paupérrima, amarela... Comprem alguma coisa minha, meu dedo mindinho por exemplo, que tem uma “anomalia de distribuição de sulcos” segundo meu admirável professor de biologia, que me fazia decorar tudo aquilo de anélidas platelmintes nematelmintes artrópodas moluscas moluscoideias. Então comprem meu dedo mindinho, ou minha rodela, fui sempre casta nesta escatológica e escura fundura, ou comprem o meu abismo de ser e de ter sido, meu lado compassivo, o fervoroso de mim que foi perdido, minha boca aberta (ou comprem meus dentes, ao menos para sorrir amare­lo), comprem minhas frases (se as houver) na agonia visceral da despedida, e se eu nada disser comprem o silêncio do poeta, ou minha pele manchada, égua vermelhusca e manca galopando insana pela casa. Comprem minha mesa, minha terra, meu lápis, meu sovaco claro, meus poemas primeiros, meus versos derradeiros, ah sim, minha garganta preclara, meus rutilantes neurônios, minhas rugas magras, comprem comprem! Tô inteirinha à venda, negada!

Estamos todos à venda, os escritores, nesta terra de bolas ladrões eleições presidentes doutores, terra onde a palavra vale menos que um gato putrefato, onde um poema no jornal só serve para uma eventual escarrada, onde um livro só é lido se for de um pulha rábula, ou se for um guia pra tua melhor trepada.

Mas a verdade é que há este amanhecer, estes lilases orvalhados pela cara, este porre patético, eu e meu jovem e sóbrio amigo a quem chamo de Vivo, também ele um poeta, que para me arrancar desta noite de som­bras e de mitos, leu para mim, este seu poema, enquan­to eu maldizia a mim mesma e a Deus:

Deixa-me tatear teu hálito 
obscuro que estou 
de todos os sentidos.
Deixa-me (ao menos) concluir 
que essa ilusão de formas 
é apenas minha inconclusa 
maneira de ocultar-te.

Deixa-me (em sigilo) 
beirar a secura do teu corpo 
— o abismo de tocar-te.

P. S.: Dialogozinho esotérico à maneira da URV*: Depois disso ela morreu, é?
“Não sei ao certo. Mas alguém teve a liberdade de enterrá-la” (frase atribuída ao pai de James Joyce).
E “Gloomy Sunday” pra vocês também.

(domingo, 13 de março de 1994)

In Cascos & carícias & outras crônicas, São Paulo, Globo, 2013, pp. 202-203


“A Velha” – Giorgione, Veneza – Itália

Nota do blogueiro: 
* Ninguém tem obrigação de lembrar o que foi a  URV, né, Sra. Hilst? Pedimos socorro à Wikipédia: Unidade Real de Valor ou URV (sigla pela qual se popularizou) foi a parte escritural da atual moeda corrente do Brasil, cujo curso obrigatório se iniciou em 1º de março de 19941 . Foi um índice que procurou refletir a variação do poder aquisitivo da moeda, servindo apenas como unidade de conta e referência de valores. Teve curso juntamente com o Cruzeiro Real (CR$) até o dia 1º de julho de 1994, quando foi lançada a nova base monetária nacional, o Real (R$).
Instituída pela Medida Provisória nº 434 (posteriormente transformada na Lei nº 8.8882 ), foi parte fundamental do Plano Real, contribuindo positivamente para a mudança de moeda, para a estabilização monetária e econômica, sem medidas de choque como confiscos e congelamentos.

Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...