sábado, 7 de dezembro de 2013

Ingeborg Bachmann

UMA ESPÉCIE DE PERDA

Usámos a dois: estações do ano, livros e uma música.
As chaves, as taças de chá, o cesto do pão, lençóis de linho e uma
cama.
Um enxoval de palavras, de gestos, trazidos, utilizados,
gastos.
Cumprimos o regulamento de um prédio. Dissemos. Fizemos.
E estendemos sempre a mão.

Apaixonei-me por Invernos, por um septeto vienense e por
Verões.
Por mapas, por um ninho de montanha, uma praia e uma
cama.
Ritualizei datas, declarei promessas irrevogáveis,
idolatrei o indefinido e senti devoção perante um nada,

(- o jornal dobrado, a cinza fria, o papel com um aponta-
mento)
sem temores religiosos, pois a igreja era esta cama.

De olhar o mar nasceu a minha pintura inesgotável.
Da varanda podia saudar os povos, meus vizinhos.
Ao fogo da lareira, em segurança, o meu cabelo tinha a sua cor
mais intensa.
A campainha da porta era o alarme da minha alegria.

Não te perdi a ti,
perdi o mundo.

In O tempo aprazado  (Últimos Poemas 1957-1967) tradução de Judite Berkemeier e João Barrento, Lisboa, Assírio & Alvim, 1992.




sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Fiama Hasse Pais Brandão

DEZEMBRO 1985
O nevoeiro que atravesso em Dezembro
é um meio de me lançar nas metáforas.
É como ir através dos meus poemas antigos
que têm raros conflitos interiores.

Mas lembro-me nitidamente do terror
de Fedra. Tão abstracto, distante e clássico.

O NADA. SOBRETUDO NA FASE DE EXALTAÇÃO
Os ramos de árvores despidos que nos lembram
o nada. Sobretudo na fase de exaltação
do espírito. Com a cabeça encostada
aos vidros altos.

Simultaneamente procurar o centro
da irradiação. O Sol matinal com os seus hiatos
preenchidos por casas. Ameias onde se
invertem os vértices do horizonte.
Sol magnânimo

fixo sobre as árvores abençoadas sem
folhas. Infinitos pormenores visíveis e
espaços audíveis preenchem a hora exaltada.
Ponto profusamente cheio. Um fino
silêncio exterior

sinal do nada circundante. Graveto
junto de graveto cruzados para além do fim
da perspectiva. Um significado diverso
naquelas ameias em outros planos. O nada
sempre coeso. Uma respiração intangível
e sem sombras.

In Obra Breve Poesia Reunida, Lisboa, Assírio & Alvim, 2006, pp. 465-466.






quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Edna St. Vincent Millay

O AMOR NÃO É TUDO....
O amor não é tudo: não é comida nem bebida
Nem sonho, nem um teto para proteger sua cabeça da chuva;
Não é um mastro flutuante para os homens que se afundam
E boiam  e  afundam, boiam e afundam de novo;
O amor não pode encher de ar o pulmão ferido
Nem limpar o sangue ou colar o osso quebrado;
No entanto, neste momento em que te falo
Muitos homens estão perto da morte apenas por falta de amor.
Poderia ser que num momento difícil,
Presa à dor e implorando para ser libertada
Ou levada por uma necessidade superior à minha vontade,
Eu tivesse que vender teu amor por um pouco de paz,
Ou trocar a memória desta noite por comida.
Poderia ser. Mas acho que não o faria.

[In Rockland, Maine, 1892-Austerlitz, New York, 1950), Collected Poems, HarperCollins, New York, 1981]

Sobre Edna St. Vincent Millay


quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Antonio Gamoneda

A MEMÓRIA é mortal. Nalgumas tardes, 
Billie Holyday põe sua rosa enferma em meus ouvidos.
Nalgumas tardes me surpreendo
distante de mim, chorando. 

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UMA paixão fria endurece minhas lágrimas.
Pesam as pedras em meus olhos: alguém
me destrói ou me ama. 

In Esta luz, Poesía Reunida (1947-2004), Barcelona, Círculo de Lectores, S.A./ Galaxia Gutenberg, 2010, pp. 422-423. 



terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Weydson Barros Leal

Divitiae
No princípio era a festa,
depois do fim, o orgulho.

Com o tempo,
com o passar dos anos e dos retratos
de seus novos amores, a distância esqueceu os reflexos
daquelas falsas bandeiras, e seu convés era mais nulo
do que o silêncio do morto,
mais devassável do que sua rouca escultura.

As velhas carências permitiam que a cidade fosse tomada
[por qualquer salteador,
e todos os nomes diziam que suas conquistas
foram ordenações de degredados.
Seu riso era apenas a solidão
que sob os olhos ela não conseguia povoar.

Como a luz que se dissolve na noite, seu orgulho deu lugar
a uma comiseração que também era sua pena,
e tudo, então, foi só a lembrança de uma antiga alegria,
ou algo que já não reflete a beleza que para sempre
será sua inverídica ressurreição.

[In A Quarta Cruz, Rio de Janeiro: Topbooks, 2009, pp. 60-61]

Sobre Weydson Barros Leal

Stephen Chaplin



segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Jorge de Sena

CARTA A MEUS FILHOS SOBRE OS FUZILAMENTOS DE GOYA
Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso.
É possível, porque tudo é possível, que ele seja
aquele que eu desejo para vós. Um simples mundo,
onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém
de nada haver que não seja simples e natural.
Um mundo em que tudo seja permitido
conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer,
o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós.
E é possível que não seja isto, nem seja sequer isto
o que vos interesse para viver. Tudo é possível,
ainda quando lutemos, como devemos lutar,
por quanto nos pareça a liberdade e a justiça,
ou mais que qualquer delas uma fiel dedicação à honra de estar vivo
Um dia sabereis que mais que a humanidade
não tem conta o número dos que pensaram assim,
amaram o seu semelhante no que ele tinha de único,
de insólito, de livre, de diferente,e foram sacrificados, torturados,
[espancados,
e entregues hipocritamente à secular justiça,
para que os liquidasse «com suma piedade e sem efusão de sangue.»
Por serem fiéis a um deus, a um pensamento,
a uma pátria, uma esperança, ou muito apenas
à fome irrespondível que lhes roía as entranhas,
foram estripados, esfolados, queimados, gaseados,
e os seus corpos amontoados tão anonimamente quanto
[haviam vivido,
ou suas cinzas dispersas para que delas não restasse memória.
Às vezes, por serem de uma raça, outras
por serem de uma classe, expiaram todos
os erros que não tinham cometido ou não tinham consciência
de haver cometido. Mas também aconteceu
e acontece que não foram mortos.
Houve sempre infinitas maneiras de prevalecer,
aniquilando mansamente, delicadamente,
por ínvios caminhos quais se diz que são ínvios os de Deus.
Estes fuzilamentos, este heroísmo, este horror,
foi uma coisa, entre mil, acontecida em Espanha
há mais de um século e que por violenta e injusta
ofendeu o coração de um pintor chamado Goya,
que tinha um coração muito grande, cheio de fúria
e de amor. Mas isto nada é, meus filhos.
Apenas um episódio, um episódio breve,
nesta cadeia de que sois um elo (ou não sereis)
de ferro e de suor e sangue e algum sémen
a caminho do mundo que vos sonho.
Acreditai que nenhum mundo que nada nem ninguém
vale mais que uma vida ou a alegria de tê-la.
É isto o que mais importa - essa alegria.
Acreditai que a dignidade em que hão-de falar-vos tanto
não é senão essa alegria que vem
de estar-se vivo e sabendo que nenhuma vez
alguém está menos vivo ou sofre ou morre
para que um só de vós resista um pouco mais
à morte que é de todos e virá.
Que tudo isto sabereis serenamente,
sem culpas a ninguém, sem terror, sem ambição,
e sobretudo sem desapego ou indiferença,
ardentemente espero. Tanto sangue,
tanta dor, tanta angústia, um dia -
mesmo que o tédio de um mundo feliz vos persiga -
não hão-de ser em vão. Confesso que
muitas vezes, pensando no horror de tantos séculos
de opressão e crueldade, hesito por momentos
e uma amargura me submerge inconsolável.
Serão ou não em vão? Mas, mesmo que o não sejam,
quem ressuscita esses milhões, quem restitui
não só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado?
Nenhum Juízo Final, meus filhos, pode dar-lhes
aquele instante que não viveram, aquele objecto
que não fruiram, aquele gesto
de amor, que fariam «amanhã».
E, por isso, o mesmo mundo que criemos
nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa
que não é nossa, que nos é cedida
para a guardamos respeitosamente
em memória do sangue que nos corre nas veias,
da nossa carne que foi outra, do amor que
outros não amaram porque lho roubaram.

Lisboa, 25/6/1959

[JORGE DE SENA, in Metamorfoses]

Sobre Jorge de Sena

Copiado de barcosflores.blogspot.com.br
In memoriam Amélia Pais

Os fuzilamentos de 3 de Maio de 1808
(Goya)

domingo, 1 de dezembro de 2013

Antonio Gamoneda

Lancei no abismo o osso da misericórdia; não é necessário quando a dor faz parte da serenidade, mas a lucidez trabalha em mim como um álcool enlouquecido.

Sei que as unhas crescem na morte. Ninguém

desce ao coração. Despojamo-nos de nós mesmos ao 
expulsar a falsidade, desolamo-nos e

ninguém vem. Não

há sombras nem agonia. Bem:

não haja mais que luz. Assim é

a última embriaguez: partes iguais

de vertigem e esquecimento.

[In Oração Fria, Antologia. Sel., trad., introd. e posf. de João Moita, Lisboa, Assírio & Alvim, 2013, p. 221].

Ben Nicholson


Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...