sábado, 14 de dezembro de 2013

Keats

VISITANDO A CRIPTA DE BURNS
A cidade, o cemitério e o sol poente,
As nuvens, as árvores, as curvas colinas semelham,
Embora belas, frias - estranhas - um sonho,
Que há muito sonhei, e à ele retorno.
O breve pálido verão triunfou
Sobre o calafrio do inverno, por uma hora de esplendor;
Cálidas qual safiras, jamais cintilam as estrelas.
Tudo é fria Beleza; e nunca finda a dor.
Pois quem pode apreciar, sábio como Minos,
A Verdadeira beleza, livre do matiz mortal
Que a imaginação e o orgulho doentios
Te abateram? Burns! Com honra
Muito te venerei. Grande alma, oculta
Tua face; peco contra teus céus nativos.

ESCRITO NA CABANA ONDE BURNS NASCEU
Este corpo mortal de mil dias
Abarca agora, Ó Burns, um espaço em teu quarto,
Onde sozinho sonhaste mirando os louros a brotar,
Feliz, sem pensar em teu dia derradeiro!
Meu pulso aquece com tua própria cerveja,
Minha cabeça leve brinda uma grande alma,
Meus olhos divagam sem vislumbrar,
A Imaginação se esvai ébria em seu intento;
Mas consigo bater meus pés sobre teu chão,
Mas posso abrir uma janela para entrever
O prado sobre o qual pisaste e pisaste, -
Mas posso pensar em ti até que cesse o pensamento, -
Mas posso tragar uma caneca de cerveja em teu nome, -
Oh, sorri em meio à treva, pois isto é fama!

[In Nas invisíveis asas da poesia, tradução Alberto Marsicano e John Milton, São Paulo, Iluminuras, 1998, pp. 55-57]. 

Sobre John Keats

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Paul Auster

Ébrio, o branco guarda sua força,
Quando dormes, ébrio de sol, qual semente
Que perde o alento
Sob o solo. Sonhar no cio
Todo o calor
Que infesta o equilíbrio
De uma mão, que germina
O milagre do seco...
Em cada ponto que deixaste
Os lobos enlouquecem
Com as folhas que não falam.
Morrer. Acolher fulvos lobos
Que arranham as portas: uivos
Na folha — ou dormes, e o sol
Jamais verá seu fim.
É verde onde respiram sementes negras.

[Fonte: Todos os poemas, Tradução e prefácio de Caetano W. Galindo, São Paulo, Companhia das Letras, 2004, p. 43].

Sobre Paul Auster

Jennifer Smith Greene

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Luís Filipe Castro Mendes

DIÁLOGOS DE POETAS
Quando eram os dois estudantes em Oxford disse uma vez Auden a Spender:
«a arte é o que resulta de uma persistente humilhação»;
e ficou deitado no quarto a fumar,
enquanto ouvia os passos envergonhados do outro
a afastar-se pelo corredor fora. A arte
pode durar no sangue, mas nada conta
face aos tumultos, ao insaciável e brutal conhecimento.
Assim ficaremos, sós e divididos,
a respirar no silêncio dos quartos
a perdida invenção da juventude
— até encontrarmos noutros frios corredores
a música voraz do esquecimento.

PAISAGEM SUBURBANA
Pequenas árvores torcidas
sob a chuva; o verde pouco;
e casas onde o céu não tem como findar.

Se esta paisagem fosse só
amor ausente, vidro fosco,
miséria sem halo
(como o real que sobra da canção),
contrafeitos à chuva e transviados
saberíamos perder o coração.

POÉTICA MÍNIMA
Considera o peso de uma alma,
o cheiro a pó-de-arroz
atrás de tanta chama,

a seda amarrotada,
o cetim que não brilha,
a boneca no fundo
da quinquilharia.

Nada pesa no limbo
que há dentro da memória:
considera na alma
o avesso da História.

[In Modos de Música, In Poesia Reunida, Rio de Janeiro, Topbooks, 2001, pp. 289-291]

Sobre Luís Filipe Castro Mendes

Joseph Mallord William Turner

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Jorge Luis Borges

O DESERTO
Antes de adentrarem o deserto 
os soldados beberam longamente da água do poço. 
Hiérocles entornou sobre a terra 
a água de seu cântaro e disse:
“Se havemos de entrar no deserto, 
já estou no deserto.
Se a sede vai me abrasar, 
que me abrase já”.
Esta é uma parábola.
Antes de me abismarem no inferno
os lictores do deus concederam que eu olhasse uma rosa. 
Essa rosa é agora meu tormento 
no obscuro reino.
Um homem foi deixado pela mulher.
Resolveram fingir um último encontro.
O homem disse:
“Se devo entrar na solidão, 
já estou só.
Se a sede vai me abrasar, 
que me abrase já”.
Esta é outra parábola.
Ninguém na terra
tem a coragem de ser aquele homem.

[In Poesia Borges, Companhia das Letras, 2009, p. 349]

Renato Casaro

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Ana Luísa Amaral

O TEMPO DAS ESTRELAS
Um compasso de espera
tão longo e musical
por estrelas destas
a tocar-me o rosto
E aprender a aceitá-las,
e eu ser um céu imenso
onde elas se pudessem passear,
encontrar uma casa,
um pequeno silêncio
de folhas,
de poeiras e cometas
Na desordem mais cósmica
das coisas,
organizar inteiro:
o coração
Porque, a tocar-me o rosto,
o tempo das estrelas
será sempre,
mesmo que tombem astros,
ou outras dimensões se lancem
em vazio,
ou raízes de luz se precipitem
no nada mais atônito
Terá valido tudo
a desordem do sol, terá valido tudo
este lugar incandescente
e azul
Porque, a tocar-me o rosto,
agora,
e em silêncio tão terreno:
paraíso de fogo:
estas estrelas
Transportadas em luz
nas tuas mãos —

[In Imagias, Lisboa, Gótica, 2001]



segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Stéphane Mallarmé

APARIÇÃO
A lua estava triste. Arcanjos sonhadores
Em pranto, o arco nas mãos, no sossego das flores
Aéreas, vinham tirar de evanescentes violas
Alvos ais resvalando entre o azul das corolas.
— Era o dia feliz do teu primeiro beijo.
Para me torturar, meu sonho, meu desejo
Embriagavam-se bem do perfume de queixa
Que mesmo sem remorso e sem motivo deixa,
No coração que o colhe, a colheita de um sonho.

Eu ia à toa, o olhar no chão velho e tristonho,
Quando, trazendo nos cabelos um sol lindo,
Na alameda e na tarde aparecesse rindo.
E eu julguei ver, com seu chapéu de luz, a fada
Que nos meus sonhos bons de criança mimada
Sempre deixou nevar dentre as mãos mal fechadas
Punhados celestiais de estrelas perfumadas.

(Trad. de Guilherme de Almeida)

In Obras Primas da Poesia Universal, São Paulo, Livraria Martins Editora, seleção e notas de Sérgio Millet, 1963, p. 89). 

Marc Chagall


domingo, 8 de dezembro de 2013

Marianne Moore

PROPRIEDADE
é palavra conforme
aquele acorde
que a ave emitiu
e Brahms ouviu,
executado à base da garganta;
é o miúdo pica-pau penugento
que sobe a árvore em espirais —
qual mercúrio, mais e mais;

um canto breve
de pardal que é
no mais pequeno
um grão de feno —
reticência afinada com o rigor
da força na fonte. Propriedade
é o Solfegietto de Bach —
e gaita-de-boca e baixo.

Espinhas em
abetos, em
negro arvoredo
junto ao penedo
à beira-mar batido pelas ondas —
têm-na; e um halo de lua e a firmeza
alegre de Bach, só que em tom
menor. É um entendimento
gato-e-coruja-
aos-dois-lambuja.
Vem, vem. É o dito
dado por dito;
não graciosa desdita. É resistência
humilde, como a da espiga da cauda-
de-raposa. Brahms e Bach, não;
Bach e Brahms. Ter gratidão

antes a Bach
por tudo, bah!
Peço perdão;
pois ambos são
involuntários amores-perfeitos
isentos de auto-exame; enegrecidos
porque assim nasceram.

[In Poemas, seleção João Moura Jr.; tradução e posfácio José Antonio Arantes. São Paulo, Companhia das Letras, 1991, pp. 125-127].


Barbara Kelley


Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...