sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Luiza Neto Jorge

O POEMA ENSINA A CAIR
O poema ensina a cair
sobre os vários solos
desde perder o chão repentino sob os pés
como se perde os sentidos numa
queda de amor, ao encontro
do cabo onde a terra abate e
a fecunda ausência excede

até à queda vinda
da lenta volúpia de cair,
quando a face atinge o solo
numa curva delgada subtil
uma vénia a ninguém de especial
ou especialmente a nós uma homenagem
póstuma.

[In Poesia (1960-19879), 2a. edição, Lisboa, Assírio & Alvim, 2001, pp. 140-141]





quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Elizabeth Bishop

SAGACIDADE
“Espere. Vou pensar um minuto.”
E no mesmo minuto vemos
Eva e Newton, maçãs na mão,
Moisés, com a Tábua erguida,
Cofiando a cachola Sócrates
E muitos outros helenos,
Todos acudindo em corrida
À sua testa franzida.
Então você faz um trocadilho brilhante
Rimos e aplaudimos, ruidosas.
Assustados, vão embora os ajudantes.
E no espaço onde vagueiam as conversas ociosas
Surpreendemos — lá atrás, muito distante —
O nascimento radioso de uma estrela petulante.
- Tradução de Carmen L. Oliveira - 

[Fonte: Jornal Rascunho, edição 162, outubro de 2013].


quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Gérard de Nerval

A LOUISE D'OR... RAINHA
O velho pai tremendo abalava o universo,
Ísis, a mãe, então se ergueu sobre o seu leito,
Fez um gesto de ódio ao esposo contrafeito,
E ao verde olhar surgiu o antigo ardor imerso.

Disse ela: "Ei-lo que dorme, esse velho perverso,
Toda geada do mundo em sua boca achou preito.
Vigiai o seu pé, arriai o olho imperfeito,
Esse é o deus dos vulcões e o rei do inverno adverso!"

"A águia agora passou: Napoleão me impele;
Por ele, eu me vesti com as roupas de Cibele,
É Hermes meu esposo e meu irmão Osíris..."

A deusa já fugira em sua concha dourada;
O mar nos reenviava a sua forma adorada,
E brilhavam os céus por sob o manto de íris!

[In Alexei Bueno, Cinco Séculos de Poesia, Rio de Janeiro, Ed. Record Ltda., 2012, p. 103]






terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Adélia Prado

NEM UM VERSO EM DEZEMBRO
Não quero nunca desejar a morte,
a não ser por santidade,
como a chamou Francisco: ‘irmã’.
É quase 25 e nem um verso.
Movo as pernas sem conter meus quadris,
como deveria ter feito a vida toda,
pra conquistar o mundo.
Borboletinhas pardas, ciscos, seixos, gravetos,
água de sabão escapando do muro, duram ofertados
enquanto percorro o bairro,
a menina me olha do alpendre ladrilhado
e nem um verso.
Eu primo na minha obra porque é tudo que tenho.
Na casa de três cômodos, de terreirinho escorrido,
a vida é ruim, a alma Fica gemendo: ô vida.
Desguio dali uma ideia de suicídio
que paira sobre o telhado junto com a antena do rádio,
mas a ideia volta, e nem um verso.
Preciso me confessar ao homem de Deus:
cometi gula, ansiei pelo detalhe das fraquezas alheias
e mesmo tendo marido explorei meu corpo.
Nem um verso em dezembro, eu que para isso nasci e vim ao
[mundo.
Minha alma quer copular.
Os magos passam de jato,
a estrela se esconde,
chove torrencialmente no Brasil.

In Coração Disparado
[Poesia Reunida, São Paulo: Siciliano, 2001, p. 159]


Encontro de Folias de Reis
Helena Maria Boaretto Paula Vasconcelos

Ana Luísa Amaral

ESPADAS E ALGUNS MURMÚRIOS
As poucas vezes que te permito a entrada são vezes de fascínio e penitência. Abrir-te a porta, a alegria dorida da chegada, no mesmo instante arrepender-me do meu gesto, da minha cordialidade. O resto dessas vezes é quando chega a pergunta inevitável: o porquê de te ter permitido. Afasto-a, se consigo, mas quando não consigo, os ventos que a limitam não são zéfiros. A pergunta forma-se a partir de tornados a tomar-me, e o que me custa mais (mais repetido) é sempre a mesma cara, o mesmo olhar por fora - o ficado por ver: rompido, amachucado, milionésimas partes de mim mesma. As poucas vezes que te permito são vezes frágeis, são vezes de papel.

É todavia nessas alturas que mais me crio um espaço. Deixo-te entrar juntamente com música no corpo e nos ouvidos, olhando sem olhar coisas sem tempo. Milionésimas partes de ti que trago sempre hibernadas, acordo-as nessa altura. Junto-as com um cuidado de ourives, um cuidado de mãe coleccionando memórias. E só depois que posso permitir-te: quando o teu riso inteiro, o corpo inteiro, algum pequeno pormenor de braço ou fala passa a fazer sentido por estar na totalidade. Milionésimas partes reunidas todas na partitura.

[Excerto de Ara, Porto, Sextante Editora, 2013, p. 17].



segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Hilda Hilst

Honra-me com teus nadas.
Traduz me passo
De maneira que eu nunca me perceba.
Confunde estas linhas que te escrevo
Como se um brejeiro escoliasta
Resolvesse
Brincar a morte de seu próprio texto.
Dá-me pobreza e fealdade e medo.
E desterro de todas as respostas
Que dariam luz
A meu eterno entendimento cego.
Dá-me tristes joelhos.
Para que eu possa fincá-los num mínimo de terra
E ali permanecer o teu mais esquecido prisioneiro.
Dá-me mudez. E andar desordenado. Nenhum cão.
Tu sabes que amo os animais
Por isso me sentiria aliviado. E de ti, Sem Nome
Não desejo alívio. Apenas estreiteza e fardo.
Talvez assim te encantes de tão farta nudez.
Talvez assim me ames: desnudo até o osso
Igual a um morto.

[In Cascos & carícias & outras crônicas, São Paulo, Globo, 2013, pp. 266-267]. 



domingo, 15 de dezembro de 2013

Marina Tsvétaïeva

Nós - as crianças, somos os reis 
do mundo das visões nocturnas.
Caem sobre nós as alongadas sombras 
brilham as lanternas por detrás das janelas,
escurece o tecto do salão, 
os espelhos absorvem o seu rasto... 
Não há tempo a perder! 
Alguém sai do canto.

Debruçamo-nos os dois por cima do piano negro
e o medo chega-se a nós, 
embrulhados num xaile da mamã

nem respiramos, pálidos de terror.
Vamos lá ver o que se passa 
por baixo da cortina das trevas inimigas. 
Os rostos deles fundiram-se no escuro, 
-de novo saímos vencedores!

Somos os elos de uma mágica cadeia
e no fragor da batalha jamais desfalecemos.
Aproxima-se o combate derradeiro,

e com ele há-de perecer o reino das trevas. 
Os adultos inspiram-nos desprezo,
pela rotina adormecida dos seus dias...
Nós sabemos, sabemos muita coisa
do muito que eles não sabem.

[Marina Tsvétaïeva in E Cantou como Canta a Tempestade]


Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...