segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Adriana Lisboa

LUGAR
A ermida corpo, sim, caiada
e rústica. Mas também a ferida aberta
da mente, esta nação sem chefe,
este lugar que habito (me habita?)
sem habite-se ou alvará.
Que não me habilita, ademais, ao corpo —
que não se casa a ele nem
nele se cala. Este descampado (ermo
sem fundo) onde não há ermida ou
alpendre: tudo é deserto
e as vozes dos deuses
se confundem nas sarças.

JERUSALÉM
Já bastava o duplo clichê quando
desembarcaram no campo de batalha:
o para sempre do prelúdio,
o não era bem isso do posfácio.
Mas ainda mais ingênuo foi ter suposto que
a substância do amor, se ele por acaso
acaba (sim, ele por acaso acaba),
não oxida: apenas evapora no ar
como um anjo morto por assepsia.
Que ela não azeda,
não estraga nem fede nem mofa,
não se arrasta nesse purgatório de
partilha, promissórias, honorários,
até que a morte definitiva os repare
(ou o tempo ou o cansaço)
e assim destacados, desenredados
duas vezes da substância do
— como é mesmo o nome?
(eles dividiram as suas vestes e as sortearam)
possam seguir
como os estranhos que são,
Jerusalém enfim libertada.

NESTA FESTA COM HORA PARA ACABAR
para Adriana Lunardi
Tapamos os ouvidos quando começa
o extravagante baticum,
mas nos escutamos com clareza
através de uma mesa de bar ou café,
nubladas como este Rio de Janeiro
à sombra dos guarda-chuvas.
Temos fracassado em muita coisa,
e buscado amparo não tanto
na esperança quanto na curiosidade:
abrir a fresta da cortina
para uma alvorada estrangeira,
abrir a boca apesar do bafo
desse medo indigesto,
exercitar a inadequação, sabendo-nos
ridículas como missas em latim.
Quando acabar a festa, seguiremos a pé
para casa, brincando de percutir
o mundo roto com os nossos sapatos
ainda mais. Terá sido como a canção
que sua mãe queria (a minha também):
E bandos de nuvens que passam ligeiras
— pra onde elas vão, ah, eu não sei,
não sei.

OS ANJOS
Onde estão os anjos bonitos,
os anjos de Wim Wenders,
com asas e sobretudos? E se
eles estiverem olhando agora,
não apenas para mim — e para
este pensamento de mãos
trêmulas: a você perdôo tudo —
mas também para o homem prestes
a ser decapitado e para o homem
prestes a decapitá-lo e para
a mulher com o rosto corroído
pelo ácido e o irmão que jogou
ácido em seu rosto: anjos
de Wim Wenders, por favor
digam onde, onde
essa beleza em câmara lenta
que tanto os comoveu, o mundo no reflexo
dos pára-brisas, o mundo tal como visto
em branco e preto
do céu sobre Berlim?


[Fonte: Jornal Rascunho,edição 164, Dezembro de 2013]

by Remédios

domingo, 5 de janeiro de 2014

Adélia Prado

PONTUAÇÃO
Pus um ponto final no poema
e comecei a lambê-lo a ponto de devorá-lo.
Pensamentos estranhos me tomaram:
numa bandeja de prata
uma comida de areia,
um livro com meu nome
sem uma palavra minha.
O medo pode explodir-nos,
é com zelo de quem leva sua cruz
que o carregamos.
Por isso, Deus, Vossa justiça é Jesus,
o Cordeiro que abandonastes.
Assim, quem ao menos se atreve
a levantar os olhos para Vós?
O capim cresce à revelia de mim,
não há esforço no cosmos,
tudo segue a si mesmo,
como eu agora fazendo o que sei fazer
desde que vim ao mundo.
Sou inocente,
pois nem este grito é meu.

[In MISERERE, São Paulo, Record, p. 63]





sábado, 4 de janeiro de 2014

Renata Pallottini

ROMÂNICO II
Sozinho na grande abadia 
o santo seco e exato 
como uma pedra no alto 
do monte que ali havia.
Pedra que alguém depois tomou 
na sua mão curiosa e cálida 
dizendo: que esta pedra fale.
E ano após ano, num diálogo, 
foi recortando e destruindo
o que era a mais e não era santo, 
o que não era paixão e sangue.
Até que deixou o osso da pedra, 
o corpo seco que ali já havia, 
o santo, com seus olhos de pranto, 
com sua cara camadas de lágrimas, 
sozinho e seco na grande abadia
a chorar por mim, 
por tudo o que há, 
por tudo o que houver, pelo que não se diz, 
a chorar por nós, pelo que Deus não sabe, 
por aquilo que Deus não choraria.
Pela blasfêmia e pela igreja,
pelo frio e pela covardia,
pelas mãos trêmulas de quem o busca
e pelos que jamais o buscariam.
A chorar como chorou há muito
quando ainda era pedra a sua cara triste 
e sobre a pedra a ira de Deus 
chovia.
[In Obra Poética,  São Paulo, Editora Hucitec, 1995, p. 161]


sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Adélia Prado

Esta é uma tarde do mês de abril, diferente de seu arquétipo. Chuvoso, parece agosto e sua névoa poei­renta. Ganhei um vaso de monsenhores plantados em seis cores. É quase insuportável a administração do real, a realidade é horrorosa, como disse a Alba. Bem horrorosa, no sentido de formidável também. Pode-se dizer desastre formidável, expliquei isto ao meu pai e a ilustração para ele foi como se tivesse lido a Barsa. Quero parar no miolo desta flor com seu cheiro, à janela de nossa casa, com minha mãe viva, infeliz por eu não gostar de sapatos e não falar ‘você’, já com os peitinhos aflorando. Como doeu para ela tanto excesso. O mais lancinante de sua bo­ca para mim foi: ‘ô trem ordinário’, seu olhar fosforescente. Nunca soube como me trespassou, era um xingo, ele mesmo ordinário, como não amola, vai dormir, vai tomar banho. Foi o tom, a vibração inusitada que me expulsou do amor. Senti-o como os bichos que pressentem catástrofes. Não correra à sua ordem de recolher a roupa do varal e ela enlouqueceu de raiva, estranha como se hoje eu chamasse ‘mulher’ a uma menina de cinco anos. Estou falando de minha mãe? Sou capaz de tantas coisas horríveis. Deus sabe de quem falo e me protege para que eu não diga, me perdoa, me poupa enquanto me castiga. A coragem de ficar alegre depois desta lembrança é agora minha única via de santidade. Sei que Abel me ama, algumas pessoas também têm amor por mim, mas qual mulher me ama? Só uma, uma só, a que entrega o filho a meus cuidados, sabendo que posso esquecê-lo no táxi, deixá-lo com sede e tomar de sua boca três quartos de sua comida. Que­ria ser um soprano do mais extenso fôlego, num tea­tro adequado pra cantar. Descobri, em dias como hoje, de fôlego difícil e desconforto pré-cordial, sou levada a desejos de cantar, cantar muito sem medir volume. Quando o faço, melhoro. Saio-me. O corpo me limita, a pele, a casa, o quarto, a roupa, os ócu­los, o sofrimento de dona Luizinha que não entende eu não comparecer às suas bodas de ouro. É ilusão voar de asa-delta, estamos todos retidos e em culpa, o maior de todos os limites. Só uma coisa não casti­ga, a nudez verdadeira, a que não se vende, porque ninguém compra a desolação, a terra arrasada de nossa impotência. É dramático só termos pelos na cabeça e nos lugares recônditos. Nada posso contra isso. Até o carteiro manda em mim, ‘assina aqui, dona, senão o pacote fica retido no correio’. Sou uma retida. Voo muito nos sonhos. Como fluir e escapar à ferrugem? Dona Luizinha trouxe pessoalmente o convite, escrito a mão, ela e seo Manoel. Falaram do tempo, da horta, da barulheira do bar de mulhe­res ao lado da casa deles, da hérnia dele, da osteoporose dela.  Do ho­mem das cavernas a esta constatação, meu espírito está preso à carne. Voo muito em sonhos. Creio na ressurreição dos mortos, aceito e confesso o absurdo que me salva.

[In Quero minha mãe, Rio de Janeiro, Ed. Record, 2005, pp. 35-37].

John Singer Sargent

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Mariana Ianelli

CONDOR
Noite plena
Ele paira sobre o futuro 
E não lhe pesa um século 
Mais do que um instante.

Sangue do sangue 
De cordeiros e lobos,
Ele, paciente como a terra 
Que ama a vida unânime 
E torná-la seu corpo.

Em outros tempos 
Sonhavam em suas asas 
Homens no topo da montanha. 
Na pedra rasgaram seu voo,
No préstito das honras.

Extinto das alturas, malvisto 
Ladrão dos que já não sonham, 
Ainda se abre em cruz
O dramaturgo. 

[In Dicionário Amoroso da Língua Portuguesa, Rio de Janeiro, Casa da Palavra Produção Editorial, 2009, p. 27]



quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Maria do Sameiro Barroso

POEMA PARA O PRIMEIRO DIA
Nasço com as luzes mais altas, acesas no penúltimo
degrau das sombras, o corpo envolto ainda
nos braços da minha laranjeira,
derrubada na escuridão tempestuosa
da última noite de Natal.
Dela sobram pássaros, laranjas, folhas,
o vento, a chuva intensa,
e a raiz parcialmente apodrecida que a fez tombar
febrilmente sobre a minha face.
A ela me acolho, à sua seiva, ao seu fulgor,
às toalhas de chuva,
e aos muros que irromperam, há muito,
para amparar as sombras
e a face fracturada destes dias.
Os seus troncos envolvem-me suavemente
nas noites, dilatadas entre a água, o incenso,
a talha barroca e a narrativa azul do ouro
e dos presépios.
Na chama das imagens fracturadas, nasço,
escutando o rodopiar das aves moribundas,
anjos furtivos adejando,
entre laranjas, música, trompetes de chuva,
escrevendo labirintos, longas espirais,
nas horas mágicas, luminosas
de um poema para o primeiro dia.

Braga, 1 de Janeiro de 2014
Maria do Sameiro Barroso

[todos os direitos reservados.
publicado no Facebook]



João Luís Barreto Guimarães

Sol de janeiro
Nunca tanto como hoje reparei com atenção
na
luz do sol de janeiro. Forte
mas delicada. Furtiva
mas
demorada. Não arde nem faz tremer.
Não é densa nem clara. A
luz
do sol em janeiro:
assim é o nosso amor
oculto pela tinta dos dias apenas
espreita uma aberta
(uma distracção das nuvens)
para luzir e irromper
(nunca antes como hoje precisei
tanto que o vento lhe
desse oportunidade).
O nosso amor é janeiro:
mesmo se o julgo esquecido
sei que
vem sempre lá.

[In Poesia Reunida, Lisboa, Quetzal, 2011, p. 212]


Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...