segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Paulo Plínio Abreu

1. O BARCO E O MITO
Barco de madeira construído no ar para a viagem do mito.
Nau feita de vento
e força de um pensar antigo.
Tua quilha tem o sabor do sal das águas fundas
e de um peixe que atravessou a garganta de um morto.

Na tua vela tracei o emblema da rota
que um dia imaginei olhando a Grande Ursa
nos caminhos da noite. Nau sem porto,
as águas te seduzem e contigo me arrastam.
Barco feito de mito,
construído no espaço
com a matéria das nuvens.
Nau feita com o bico de uma ave
e um desejo de fuga.
Nau que a ti mesma te armaste
do nada que podemos.
Nave do nada feita e quase ave
desfeita em vôo puro e quase mito.

2. ODE NA PRAIA DO LEME
A noite é tua prostituta do Leme.
E com ele dissolves a pobreza dos homens
no mito de tua carne.
O vento vem do mar e dos navios que passam
carregados de vento e sal para as Antilhas.
A morte vem das ilhas
trazida pelo vento desta noite
nesta praia deserta.
A noite é tua, nela está o emblema
da tua posse esquiva, e os seres se incorporam
ao casco dos navios
e sem partirem vão‐se para sempre.

3. POEMA
Diante de tua beleza as coisas se apagaram.
És o golfo onde escondi meu barco doente
e a cripta onde deporei meus mortos.
Ave e orvalho, mulher e cornamusa.
Somos irmãos no mito
e eis que te refaço
com a seiva de meu ser.
De ti recolho este secreto espanto,
este secreto mel.
Em ti refaço a viagem não feita, o riso não rido e o amor não amado.
És a beleza mesma adiada no tempo
e nos outros a necessidade de sua perfeição.

4. MADRUGADAS DE UM ESTRANHO ENCANTO
Madrugadas de um estranho encanto
que me comoveis
como o vento e o sossego
das tardes de um sempre
e das noites que nunca
descobri no puro ou impuro canto.
A luz escarlate
baixava como um inseto
na varanda perdida.
Um pássaro morto caía de súbito entre plantas
de um antanho desejo
que o orvalho molhava
e era espanto mesmo
no corpo da noite
despovoada e fria
com as agonias
de um frustrado espasmo.

5. ELEGIA
Por que de estranhas terras eu te acompanho lua solitária
E durmo ouvindo os teus passos de anjo pela noite
Quando os velhos desejos desaparecidos voltam à flor das ondas
E a noite do exílio levanta as suas árvores de sonho,
De um tempo imemorial eu acompanho as tuas viagens,
Tu que vestes os mortos com o que cai do coração dos vivos
Eu te acompanho pelo céu escuro
Sentindo como tua a vertigem da morte que anuncias.
Tu que de um tempo longo ergues teus olhos sobre o tempo
E apenas náufragos aportam a esse país estranho em que tu vives.
Ouço tua voz cair no mar da madrugada
Para que o céu se deite sobre ti como um sepulcro
E as estrelas brilhem nesta noite escura como incêndios.

6. O COMEDOR DE FOGO
Veio do comedor de fogo e de seus milagres a esperança impossível.
Do comedor de fogo e de seus milagres à porta de sua tenda
Onde dormiam os cães numa nuvem de moscas.
Veio do comedor de fogo a esperança dos mundos impossíveis.
Veio dessa lembrança hoje apagada pelo tempo o sombrio desejo de evasão.
Veio do comedor de fogo a visão da vida aberta como um grande circo
E o convite irreal para a distância onde se esconde a morte.
Até o amor se perdeu nessa lembrança de um estranho comedor de fogo
E toda a infância confundiu-se com os milagres desse saltimbanco
E de seus cães doentes à porta de sua tenda.

7. O POLICHINELLO
O seu segredo era como o dos outros.
Seus olhos eram de vidro azul
e na boca vermelha
o riso da ironia.
O humor profundo, amargo e doloroso
vinha de sua boca;
o riso da sabedoria
e do desespero
gritava da sua boca aberta em sangue.
O riso do polichinelo
vinha do coração ausente, era uma advertência.
Era apenas o riso
e falava de um mundo
maior que sua alma.

8. VIAGEM AO SOBRENATURAL
Mundo pressentido e oculto
na palavra anjo à porta de Tobias,
na viagem não realizada mas da qual se trouxe
um pássaro que não pertence a nenhuma fauna
e um peixe de fogo;
na palavra mãe onde há o mistério
do cotidiano incompreendido;
na palavra mosca onde se faz presente
o desespero da escolha entre o mal e o deserto;
na palavra rosa,
corpo e essência do efêmero.
Na imagem vista no espelho,
a boca e os olhos na voragem do tempo
oferecem o amor, puro e inacessível.
A voz presa no disco da vitrola
é apenas o outro lado eterno.

9. SONETO
Antes pudesse o Aquário refletir-se
nas águas do teu pranto, o teu olhar semita
conduzir-me como nos céus o vento
arrebata uma estrela e anuncia
morte, desolação, naufrágio, amor.
Mas preso no sargaço escuro
de um póstumo canto, ajunto fragmentos
de mim, de minha infância, e o gosto
de uma majestosa e angélica beleza.
A salvação não quero, antes perder-me
e achar-me como hoje repartido
em fragmentos de amor na púrpura da tarde,
reconhecido em múltiplos cantares,
ou nas ardências de um postremo dia.

10. POEMA PRIMITIVO
Não esculpirei meu sonho sobre as nuvens
pois que elas se perdem nos ermos do céu
e um dia voltam para molhar a terra.
Nem sequer o amianto me parece seguro
para guardar desse fogo a ânsia mais veemente
ou o delírio mais casto.
A poeira se esvai
e os que passarem a levarão consigo
embaixo dos sapatos
como os mortos a receberão sobre os olhos.
Na pele de um deus
não estará seguro
pois breve é o respeito dos homens
e o amor das mulheres.
Talvez na asa direita de um pássaro
ou no seu bico agreste.
No fundo mesmo do mar não estará seguro
pois que os ventos poderão arrebatá-lo
para atrelar sua força à cauda dos veleiros.
E assim não haverá lugar
onde escondê-lo.
Sonho que esculpirei então no tempo
que não é dos homens
e que morre e renasce a cada instante
no peito donde brota
a chama deste amor tão puro.

11. POEMA SOBRE A MORTE
Ela virá dos mares.
Sentiremos o mistério dessa atração irresistível.
Sentiremos o frio em que desabrochará essa flor maravilhosa
Que perdida no inverno era o destino informe e desconhecido.
Ela virá dos mares como as perdidas aventuras
E será o convite fatal.

12. ODE À MINHA ALEGRIA
De ti que poderei fazer se me dominas
como a viagem ao viajante
e os ventos do mar aos pássaros que voam?
De um território vens, profundo e largo,
em ti caminham vozes
que outras vozes acordam, em ti caminham dores
há muito apaziguadas.
Em ti passam corcéis de fogo
que sobre a pele deixam a marca do silêncio,
em ti flutuam sonhos.
De onde vens, para onde vais quando me tocas
com a ponta dos teus dedos?

Fonte: Revista Polichinello

Paulo Plínio Abreu (1921-1959). Nasceu e faleceu em Belém do Pará. Fez parte da geração de Mario Faustino, Benedito Nunes, Max Martins. Tradutor de Rilke e T.S.Eliot. Dono de uma escritura singular. Paulo Plínio desapareceu sem deixar vestígios. Foi publicado (postumamente) em 1978 pela Universidade Federal do Pará.    


Istvan Sandorfi





domingo, 12 de janeiro de 2014

Al Berto

OFÍCIO DE AMAR
já não necessito de ti
tenho a companhia nocturna dos animais e a peste
tenho o grão doente das cidades erguidas no princípio doutras
[galáxias, e
[o remorso

um dia pressenti a música estelar das pedras, abandonei-me ao silêncio
é lentíssimo este amor progredindo com o bater do coração
não, não preciso mais de mim
possuo a doença dos espaços incomensuráveis
e os secretos poços dos nómadas

ascendo ao conhecimento pleno do meu deserto
deixei de estar disponível, perdoa-me
se cultivo regularmente a saudade de meu próprio corpo


[In O Medo, Lisboa: Assírio & Alvim, 1998]


Henri Cartier-Bresson

sábado, 11 de janeiro de 2014

Matilde Espinosa

PORTAS FECHADAS
Os soldados choram de noite  antes de morrer.
Salvatore Quasimodo

As sombras repetem-se
e chegam trémulas
ao pé das cidades.
Ninguém quer abrir as portas
com medo da epidemia.

O sangue desce das montanhas
e interna-se nos hospitais.
Nos quartéis choram os cavalos
e não querem ouvir falar da guerra,
têm más recordações,
pensam nas pradarias
e nas suas companheiras de amor.
Os cavalos são ternos
e olham com dor para os torturados.

De noite ouvem os gemidos
e seus cascos batem
para espantar os mortos.

Assim é agora a epidemia do sangue.
Sobre os ombros dos vinte anos
a morte cruel caminha e é estrondo,
chama ou cinza arrastada pelo vento.

[In Um País que sonha - Cem anos de poesia colombiana, prólogo e selecção de Lauren Mendinueta, tradução de Nuno Júdice, Lisboa, Assírio & Alvim, 2012].

Sobre Matilde Espinosa



sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Luís Henrique Pellanda

CAVEIRA DE ANJO
Sigo ligeiro, a cabeça baixa, uma missão a cumprir ali na esquina. Desatento, mal a percebo num dos bancos da Pracinha do Amor, tão quieta debaixo de duas cobertas. Impossível separá-las, a mulher de suas mantas azuis. Faz calor, é outubro, e ela deve estar doente. Em meio a tanta lã, tudo o que vejo é um rosto chupado e dois olhos verdes na cara da morte.

Eu a conheço. Pelo jeito acordou agora, no fim da tarde. Traz no colo uma caixa de sapatos fechada. Minha passagem a assusta, ela desperta e, sem hesitar, me chama ei, a voz bem preservada, ei, cara, numa impostação autoritária, chata, vem cá, vem. Não vou, mas paro, não parar seria muita falta de respeito, só que não me aproximo e ficamos assim, duas estátuas desconfiadas a sete, oito passos uma da outra, rígidas, até que uma delas enfim se cansa e espicha um tentáculo, um braço nu tatuado à caneta, a palma da mão estendida escapando das cobertas.

— Cinco reais, mestre.

— Cinco reais pra quê?

A mulher me responde com um gesto de enfado, pousa os dedos sobre a caixa, a foto de um par de tênis caros. Ignoro o tesouro guardado lá dentro, mas me surpreende a beleza daquela mão bem desenhada, de ossos longos e majestáticos. Pena a pele tão seca, queimada de cigarros, a tristeza das unhas feridas acariciando o papelão da tampa, brilhoso. Ela gosta de suspenses e, sim, eu gosto dela, tem um sorriso também bonito, a dentição branca e sólida, um muro de pedras vivas.

— Pra ver o que tem na caixa. Cinco reais.

Acho graça. Ela sabe mesmo vender um mistério, tem a manha, e admito que já ganhou meu coração, mas obrigado, nada feito, não pago para ver o que não pedi e nem sei o que seja, me desculpe. Encerro as negociações e me preparo para sair de cena, retomar o bom caminho da panificadora Fênix, a missão original interrompida. Só que ela, vendedora corajosa, não abandona um freguês, comercia com franqueza.

— Seja educado, mestre, me deixe explicar.

Perfeito. É necessário ser educado, concordo e me envergonho, perdão, me rendo ao argumento da elegância. Possuo a ridícula vaidade dos padres confessores, sou um ótimo ouvinte, mas peço que, por favor, se explique logo, o que foi, estou com certa pressa, esclareço, preciso trabalhar — só não conto a ela que é mentira minha, que tenho amigos em casa, e que estão todos lá agora mesmo, reunidos ao redor da mesa posta, à espera de pães, queijos e cuques de goiabada, a água no fogo, o leite fervido e as crianças brincando no terraço, suas roupas sujas de giz de cera, tinta guache, suco de uva.

— Por acaso, mestre, te cobrei pra saber o que tenho na caixa?

Respondo que não, realmente, e ela volta a sorrir, vencedora; afinal, pra saber é de grátis, meu irmão, ver é que vai te custar cinco reais, a informação é cortesia.

É, gosto dela, não nego, e por isso rimos juntos, nos associamos na hora extrema da gargalhada, embora no fundo me intrigue e desagrade vê-la tocar novamente o papelão da caixa com isso que agora já considero uma espécie mal disfarçada de amor, um tique passional, indicador de não sei quantas fragilidades da alma. Não, ainda não nos acertamos, não confiamos um no outro.

Apesar disso, ela volta a me chamar para perto, quer dinheiro e quer logo, e eu continuo imóvel, não chego junto, não apenas o seu cheiro é forte demais, como também suspeito de algum trote, uma armadilha sentimental. Não há ninguém por perto, eu sei, investigo o espaço à nossa volta, está vazio e silencioso; é sábado, ora, e é feriado, há sol, e somos os dois únicos animais visíveis naquela praça, até as andorinhas parecem ter se desintegrado na luz limpa da primavera. Mas não me sinto à vontade.

— Diga logo o que é.

Ela esconde os dentes e deixa cair as sobrancelhas grossas. Troca a máscara alegre por outra, de uma seriedade farsesca, dramática. Está sendo teatral, mas tem talento, nasceu para a coisa. Sussurra, gravemente:

— É a caveira de um anjo.

Não me mexo, não respiro, nada digo. Ela vê que me atingiu, e repete a primeira fala.

— Cinco reais, mestre.

Ela esteve grávida no início deste ano, bem lembro. Passou o primeiro semestre gemendo sob as marquises da Ébano, recusava qualquer ajuda, fugia da assistência social. Depois de ficar um tempo sumida, voltou ao velho posto, sozinha e sem barriga. E a recordação daquela gravidez evaporada me derruba.

— Não, obrigado, não me interessa.

Tento lhe dar as costas, envergonhado, mas ela se ergue do banco, se livra das mantas azuis, uma lufada de calor azedo me alcança, ei, ela faz menção de me perseguir, é dez centímetros mais alta que eu, vinte anos mais nova, está de sutiã, minissaia e nada mais, os pés descalços, tão magra, a caixa de sapatos debaixo do braço, ei, cara, peraí. Paro novamente, com medo de que me agarre, ou me abrace, ou me engula. Ela sossega, desfaz o bote, desiste da ameaça de contato corporal, mas volta à carga, e ouço a ordem de uma rainha:

— Então me dê uma grana aí, cara.

Obedeço. Tiro a carteira do bolso da jaqueta e separo cinco reais. Nos aproximamos finalmente, ela apanha a nota, guarda a garça no bolso da saia, e de relance vejo, na pele de sua barriga, uma longa lista de prenomes masculinos rabiscados à esferográfica vermelha: Daniel, Gabriel, Rafael, Miguel, Emanuel, Misael. Dezenas de nomes de menino escritos de ponta-cabeça.

Ela agora está radiante, tornou-se uma criança calorosa, estranhamente satisfeita comigo, foi bom negociar com você, paizinho. Diz isso e já me lembra da proposta inicial: pelos cinco reais que paguei, ainda detenho o direito de ver a caveira do anjo, não estou a fim? Me oferece a caixa, quase a encosta no meu peito e, assim de perto, posso ouvir algo rolando lá dentro, no escuro, e me arrepio, e penso nos meus ossos se partindo, e em cambalhotas de bebês.

Recuso a oferta, valeu, não preciso ver nada, não. Eu agradeço, ela me agradece e volta a rir, amigável, desarmada, abraçada à sua valiosa caixinha inviolada. Afetuosa, me garante que, a partir de agora, estarei eternamente protegido: comprei muitos créditos com o seu anjinho.

Gostaria mesmo de acreditar. Mas eu sei que não. Continuarei devendo, para sempre.

In Suplemento Literário de Pernambuco

Sobre Luís Henrique Pellanda


Berit Sculpture





quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Paulo José Miranda

POEMA PARA ANTÓNIO CABRITA 
E SUA FILHA MAIS NOVA
Não é que se não saiba nada
Sabe-se tudo o que se inventa
E até um pouco mais do que se imagina
Uma só teoria levanta milhares de quilos do chão
Faz crescer o feijão muito mais rápido que a chuva
E apazigua momentaneamente o nosso medo de andar na vida
Sustenta assim as nossas horas dia a dia
Porque um milheiral é um país para as bocas
Um verso uma linha ao contrário
Que não fecha só abre feridas não cerze nada
Um pincel rasga o mundo no meio de um muro
Uma só equação canta por um infinito de números
E o assobio que se dá a uma rapariga ilumina a noite dela
Sim não é que se não saiba nada
Mas pudéssemos nós ver a verdade
Entrelaçar as linhas e curvas do universo e de uma vida humana
Do mesmo modo que fazemos com o cadarço dos sapatos

© Paulo José Miranda - Todos os direitos reservados
Publicado originalmente no Facebook.

By Renee Kahn




quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Rosalía de Castro

Nasci quando as plantas nascem
no mês das flores nasci,
n’uma alvorada mansinha,
n’uma alvorada de abril.
Por isso me chamam Rosa,
mas a do triste sorrir,
com espinhos pra todos,
sem nenhum pra ti.
Desde que te quis, ingrato,
tudo acabou pra mim,
pois tu pra mim eras tudo,
minha glória e meu viver.
De quê, pois, te queixas, Mauro?
De quê, pois, te queixas, diz,
quando sabes qu’eu morreria
pra te contemplar feliz?
Duro cravo m’encravaste
com esse teu maldizer,
com esse teu pedir tolo
pois não sei o que queres de mim.
Dei-te quanto dar pude,
avarenta de ti,
o meu coração te mando 
c’uma chave pra abrir.
Nem eu tenho mais que te dar, 
nem tu mais que me pedir.

[In A Rosa dos claustros, Poesia galela selecionada,  Tradução e notas Andityas Soares de Moura, Belo Horizonte, Ed. Crisálida, 2004, p. 49]

Sobre Rosalía de Castro

Biografia Completa



terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Luiz Ruffato

Bom Jesus do Norte, 9h35min
Carlos acende um cigarro.
— Mãe, a senhora lembra daquela torta de biscoito-maria?
— Lembro...
— Depois que o Fernando morreu a senhora nunca mais fez...
— Desgostei...
— Mas, mãe, o Fernando não era seu único filho...
— Mas é ele que se lambuzava todo, de tanto que apre­ciava...
— A senhora ainda sabe a receita?
— Não sei...
— Quando a gente voltar, a senhora faz pra mim?
(uma vez papai bateu na porta da tulha porque quando casei com o adalberto a gente não tinha nem onde morar então pa­pai falou que emprestava a tulha pra gente se esconder da chuva e do sol e foi lá que nasceu o fernando no meio da pa­lha seca de noite eu ficava vigiando pra espantar os ratos os ratos podiam morder o coitadinho uma vez papai bateu na porta da tulha era de manhã cedinho o adalberto tinha aca­bado de sair pra roçar o pasto o papai falou naquele portu­guês esgrouvinhado filha vim aqui despedir de você que é a minha filha adorada que me compreende despedir? é eu vou embora nica não agüento mais a rabugice da sua mãe brigou com a mamãe de novo? é aquelas implicâncias dela vi o papai montar no cavalo os olhos vermelhos e sair a galope na di­reção de rodeiro comecei a chorar fui lá dentro de casa a ma­mãe estava calmamente assando um bolo mamãe o papai foi embora? e ela em italiano foi na rua fazer o armazém de tarde ele volta depois que os meninos comeram o angu-com-leite papai chegou apeou do cavalo cabeça baixa olhou pra mim envergonhado e entrou na sala arrastando a botina papai gos­tava muito de mim era severo não me deixou estudar você não vai precisar disso não nica pra lavourar tem que saber é lidar com enxada não com lápis mas era eu que contava e guardava o dinheiro dele era a mim que ele recorria quando estava triste ou tinha que tomar uma decisão importante o meu casamento foi o único em que ele soltou foguete)
— Sabe que eu lembro direitinho da vovó, mãe?
— Lembra?
— Como se fosse hoje.
— Mas você era tão criança quando ela morreu...
— Nem tanto, mãe... eu tinha uns dez, onze anos... Quando ela acordava, passava um tempão penteando os cabelos pra fazer um coque...
— Você lembra disso?
— E lembro também que ela só usava vestido preto. Era luto?
— Não sei... Até onde vejo, desde sempre ela só vestiu preto...
— Ela não falava nada em português, mãe?
— Nada, coitada... Nunca aprendeu... Nem uma pa­lavra...
— A senhora sabe italiano?
— Ih, já esqueci...
— Mas a senhora sabia?
— Em criança...
— Não lembra mais nada?
— Só a reza...
— A reza a senhora lembra?
— Lembro... O Dio, Padre Buono e misericordioso...
— Coitada da vovó... Do quê que ela morreu?
— Solidão.
— Solidão? Ninguém morre de solidão, mãe...
— Ela morreu. Depois que venderam o resto da fazen­da, ela ficou pulando de casa em casa. Até com a gente ela passou um ano... Mas não conseguia conversar com nin­guém. Ninguém mais sabia italiano. Os filhos não tinham paciência de puxar pela memória... Os netos remedavam ela... Passava tempos sem abrir a boca. Até que começou a secar, secar... Um dia acharam ela murchinha, de bruços, na cama...


[In Mamma, son tanto felice, São Paulo, Record, 2005, pp. 62-64]


Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...