sábado, 8 de fevereiro de 2014

Astrid Cabral

DOMINGO EM MILWAUKEE
Cristas de igrejas contra o azul 
culpam-me de ter perdido a missa.
A beira-lago, o museu lembra 
um iate grego extraviado.
De seu convés se descortina 
o salão d’água onde dançam 
velas bêbadas de brisa.

Embarco para o país da arte: 
no exílio o girassol de Miró 
instaura a primavera eterna 
a corola coroa triunfante.
Rigaut Benoit, Hyppolyte, os Obin 
exportam a alma do Haiti.
Um pintor de vanguarda concebe 
bebês boiando no bojo de modernas 
maternas telas televisivas.

O que contemplar? 
Perco-me entre os labirintos do homem 
e a escondida face do divino 
transparecendo na pele do mar.

O sol desfalece e a neblina 
que desce porfia por engolir 
as áureas relíquias do dia.

[In Rês Desgarrada, In De déu em déu -  poemas reunidos (1979-1994), Rio de Janeiro: Sette Letras, 1998, p. 348].

By  Ryan Radke

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Else Lasker-Schüler

FARAÓ E JOSÉ*
Faraó repudia as suas mulheres, frescas
Como flores, cheirando aos jardins de Amon.

Sua cabeça real descansa sobre o meu ombro,
De onde emana cheiro de espigas.

Faraó é feito de ouro.
Os seus olhos vão e vêm
Como revérberos nas ondas do Nilo.

Mas o seu coração está no meu sangue;
Dez lobos vieram ao meu bebedouro.

Faraó pensa sempre
Nos meus irmãos
Que me lançaram num poço.

No sono, os seus braços são colunas
E ameaçam!

Mas o seu coração sonhador
Ressoa no fundo de mim.

Por isso os meus lábios inventam
Grandes bolos doces
No trigo da nossa manhã.
* Gênesis, 41.

[In Baladas Hebraicas, tradução e apresentação de João Barrento, Lisboa: Assírio & Alvim, 2002, p. 63].



quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Hilda Hilst

MULA DE DEUS
I
Para fazer sorrir O MAIS FORMOSO
Alta, dourada, me pensei.
Não esta pardacim, o pêlo fosco.
Pois há de rir-se de mim O PRECISO

Para fazer sorrir O MAIS FORMOSO
Lavei com a língua os cascos
E as feridas. Sanguinolenta e viva
Esta do dorso
A cada dia se abre carmesim.

Se me vires, SENHOR, perdoa ainda
É raro, em sendo mula, ter a chaga
E ao mesmo tempo
Aparência de limpa partitura
E perfume e frescor de terra arada.

II

Há nojosos olhares sobre mim
Um rei que passa
E cidadãos do reino, príncipes do efêmero.
Agora é só de dor o flanco trêmulo
Há nojosos olhares. Rústicos senhores.

Açoites, fardos, vozes, alvoroço.
E há de mim um sentir delicioso.
Um tempo onde fui ave, um outro
Onde fui tenra e haste.

Há alguém que foi luz e escureceu
E dementado foi humano e cálido.
Há alguém que foi pai.E era meu.

III

Escrituras de pena (diria mais, de pêlos)
De infinita tristura, encerrada em si mesma.
Quem há de ouvir umas canções de mula?

Até das pedras lhes ouço a desventura.
Até dos porcos lhes ouço o cantochão
E por que não de ti, poeta-mula?

E ornejos de outras mulas se juntaram aos meus.
Escoiceando os ares, espumando de gozo
Assustando mercado e mercadores

Alegrou-se de mim o coração.

IV

Um dia fui o asno de Apuléius.
Depois fui Lucius, Lucas, fui Roxana.
Fui mãe e meretriz e na Betânia
Toquei o intocado e vi Jeshua
(Ele tocou-me o ombro aquele Jeshua pálido).

Um tempo fui ninguém: sussurro, hálito.
Alguém passou, diziam? Ninguém, ninguém.

Agora sou escombros de um alguém.
Só caminhada e estio. Carrego fardos

Aves, patos, esses que vão morrer.
Iguais a mim também.

V

Ditoso amor de mula, Te ouvir murmurando
Ó Amoroso! Ditoso amor de mim!
Poder amar a Ti com este corpo nojoso
Este de mim, pulsante de outras vidas
Mas tão triste e batido, tão crespo.
De espessura e de feridas.

Ditoso amor de mim! Tão pressuroso
De amar! (E de deitar-se ao pé
De tuas alturas). Corpo acanhado de mula.

Este de mim, mas tão festivo e doce.
Neste Agora
Porque banhado de ti, ó FORMOSURA.

VI

Tu que me vês
Guarda de mim o olhar.
Guarda-me o flanco.
Há de custar tão pouco
Guardar o nada
E seus resíduos ocos.

Orelhas, ventas
O passo apressado sob o jugo
Casco, subidas
Isso é tudo de mim
Mas é tão pouco...

Tu que me vês
Guarda de mim, apenas
Minha demasiada coitadez.

VII

Que eu morra junto ao rio.
O caudaloso frescor das águas claras
Sobre o pelo e as chagas.

Que eu morra olhando os céus:
Mula que sou, esse impossível
Posso pedir a Deus. E entendendo nada
Como os homens da Terra.
Como as mulas de Deus.

VIII

Palha
Trapos
Uma só vez o musgo das fontes
O indizível casqueando o nada.

Essa sou eu.

Poeta e mula.
(Aunque pueda parecer
Que del poeta es locura).


quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Cristina Campo

VERÃO INDIANO
Outubro, flor do meu perigo — 
primavera derramada pelos rios.

Ora me é indiferente até à morte
— o acero tem o voo quebrado, os fogos trazem tanto fumo 
ora o terror de existir me afronta
radioso, como o astro vermelho.

Tudo é já sabido, a maré prevista 
e porém tudo se obscurece e aclara 
com fresca desesperação, com extraordinária 
firmeza...

A luz entre duas chuvadas, sobre a ponta 
do rio que me trespassa entre corpo 
e alma, é uma luz da noite
— a noite que não verei — 
clara nas selvas.


[Cristina Campo, O Passo do Adeus, Tradução José Tolentino Mendonça, Lisboa, Assírio & Alvim, 2002, p. 63]. 



By Federico Gerosa


terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Giorgos Seféris

Strátis marinheiro entre os agapantos
Não há asfódelos nem violetas nem jacintos aqui;
como falar então aos mortos?
Os mortos só conhecem a linguagem das flores;
por isso calam
viajam e calam, padecem e calam
na terra dos sonhos na terra dos sonhos.

Se eu me puser a cantar, gritarei
e se gritar
os agapantos me imporão silêncio
erguendo a mãozinha azul de menino da Arábia
ou seus passos de ganso no ar.

É difícil, oneroso; não me bastam os vivos;
primeiro porque não falam e depois
porque eu preciso interrogar os mortos
para poder seguir.
Não há outra maneira; mal me vem o sono
os companheiros rompem os cordéis de prata
e o odre dos ventos se esvazia.
Eu o encho, esvazia-se; eu o encho, esvazia-se;
acordo
como peixe dourado a nadar entre as intermitências
do relâmpago,
e o vento, o dilúvio, os cadáveres humanos
e os agapantos cravados como setas
do destino na terra sequiosa
sacudidos por gestos espasmódicos,
dir-se-ia levados numa velha carroça,
a rolar por ínvios caminhos, pavimentos
decrépitos
os agapantos, asfódelos dos negros:
como hei de aprender tal religião?

A primeira coisa que Deus fez foi o amor
depois veio o sangue
e a sede de sangue implantada
pelo sêmen do corpo, como sal.
A primeira coisa que Deus fez foi a longa viagem;
e a casa à espera
e o fumo azulado
e o velho cão
aguardando, para expirar, tão-só a volta do seu dono.
Mas é preciso que os mortos me esclareçam
e os agapantos os deixam taciturnos,
como o fundo do mar ou a água do copo.
Os companheiros permanecem nos palácios de Circe;
Elpenor meu caro! o meu tolo, o meu pobre Elpenor!
Eh! não o vedes ali?
("Socorro!")
De Psará a negra serrania.

Transvaal, 14 de janeiro de 42

[Poemas Giorgos Seféris,  sel., trad. e notas de José Paulo Paes, São Paulo: Nova Alexandria, 1995, pp. 121-122]. 


segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Paul Celan

PRISÃO DA PALAVRA
Olho redondo entre as barras.

Pálpebra de animal cintilante
rema para cima,
libera um olhar.

Íris, nadadora, sem sonhos e triste:
o céu, cinza-coração, deve estar próximo.

Inclinada, no bico de ferro,
a limalha fumegante.
No sentido da luz
adivinhas a alma.

(Se eu fosse como tu. Se fosses como eu.
Não estaríamos
sob um mesmo alísio?
Somos estranhos.)

Os ladrilhos. Por cima,
uma junto à outra, as duas
poças cinza-coração:
dois
bocados de silêncio.

[In CRISTAL, trad. Cláudia Cavalcanti, São Paulo, Iluminuras, 2011, p. 71]

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Antonio Gamoneda

Amo o meu corpo; as suas vértebras fendidas
por ferros viventes, as suas cartilagens
queimadas, o meu coração ligeiramente húmido
e os meus cabelos enlouquecidos
nas tuas mãos.
Amo também
o meu sangue atravessado por gemidos.

Amo a calcificação e a melancolia
arterial e a paixão do fígado
fervendo no passado e as escamas
das minhas pálpebras frias.

Amo o estame celular, as fezes
brancas no final, o orifício
da infelicidade, as medulas
da tristeza, os anéis
da velhice e a influência
da treva intestinal.
Amo os círculos
gordos da dor e as raízes
dos tumores lívidos.

Amo este corpo velho e a substância
da sua miséria clínica.
O esquecimento
dissolve a matéria pensante
diante dos grandes vidros da mentira.

tudo está dirimido.

Não há causa em mim. Em mim não há
mais que cansaço e
um extravio antigo:
ir
da inexistência
à inexistência.
É
um sonho.
Um sonho vazio.
Mas acontece.
Eu amo tudo quanto cri
vivente em mim.
Amei as grandes mãos
da minha mãe e
aquele metal antigo
dos seus olhos e aquele
cansaço cheio de luz
e de frio.

Desprezo
a eternidade.
Vivi
e não sei porquê.
Agora
hei-de amar a minha própria morte
e não sei morrer.

Que equívoco.

[In Canção Errônea, In Esta luz, Poesía Reunida (1947-2004), Barcelona, Círculo de Lectores, S.A./ Galaxia Gutenberg, 2010, pp. 277-281]. 

AMADEO DE SOUZA CARDOSO

Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...