sexta-feira, 7 de março de 2014

Luís Filipe Castro Mendes

TRÊS POEMAS DE VIAGEM
1.
Um museu abandonado
Tantos gestos de amor que se perderam
repousam nestes quadros, nestes gessos:
só uma dobra escusa da pintura
sugere o que de dentro foi regresso.
Tantos gestos de amor, tanta invenção:
como a morte perdida foi momento
de breve encontro, engano, sedução
de quanto em nós de pedra se fez vento.
Tantos gestos de amor que não perduram
foram nas árvores seiva interrompida
e no desenho oculto da pintura
são a raiz e o chão da nossa vida.
Mas ao vento, lá fora, duram árvores
nas folhas já de seiva renascida.

[In Outras Canções, In Poesia Reunida, Rio de Janeiro, Topbooks, 2001, p. 352]





quinta-feira, 6 de março de 2014

Antonio Gamoneda

A luz ferve debaixo das minhas pálpebras.

De um rouxinol absorto na cinza, das suas negras
entranhas musicais, surge uma tempestade. Desce o
pranto às antigas celas, observo chicotes vivos

e o olhar imóvel das bestas, a sua agulha fria no meu
coração.

Tudo é presságio. A luz é a medula da sombra: os
insectos vão morrer nas bugias do amanhecer. Assim

ardem em mim os significados.

[In Oração Fria, Antologia. Sel., trad., introd. e posf. de João Moita, Lisboa, Assírio & Alvim, 2013, p. 217].

By Sergey Andriyaka


quarta-feira, 5 de março de 2014

Edmond Jabès

SEMPRE ESSA IMAGEM
Sempre essa imagem
da mão e da fronte,
do escrito rendido
ao pensamento.

Tal a ave no ninho,
minha cabeça está em minha mão.
Restaria a árvore a celebrar,
se o deserto não fosse toda parte.

Imortais para a morte.
A areia é nossa parte
insensata de herança.

Possa essa mão
onde o espírito se recolheu,
ser plena de sementes.
Amanhã é um outro termo.

Sabíeis que nossas unhas
outrora foram lágrimas?
Arranhamos os muros com nossos prantos
endurecidos como nossos corações-infantes.

Não pode haver salvamento
quando o sangue afogou o mundo.
Dispomos apenas de nossos braços
para alcançar, a nado, a morte.

(Para além dos mares, acima das cristas,
minúsculo planeta não identificado,
mãos unidas, redondas mãos plenas,
escapadas ao pesar.)


Quando a memória nos for rendida,
o amor saberá enfim sua idade?

Felicidade de um velho segredo partilhado.
Ao universo se agarra ainda
a esperança do primeiro vocábulo;
à mão, a página amarrotada.

Há somente tempo para o despertar.

[In DESEJO DE UM COMEÇO, ANGÚSTIA DE UM SÓ FIM, A MEMÓRIA E A MÃO - UM OLHAR, São Paulo, Lumme Editor, trad. Armanda Mendes Casal & Eclair Antonio Almeida Filho, 2013, pp. 78-83].

By Fran Viegas


terça-feira, 4 de março de 2014

Mariana Ianelli

Nada foi feito que revivesse a coisa morta,
Mas no rosto do amante solitário
Uma tarde despontou dentre milhares
E quis do homem o seu prazer intenso
De sonhar o mesmo vulto sobre a cama,
O mesmo vínculo que se estabeleceu
Para ser rompido como os que o antecederam
E os que viriam raramente depois dele.
Cindiu a indiferença dos anos e voltou
Com sua fome, seu poder ambíguo de encantar
Pela eternidade do instante que floresce
Apenas quando a melancolia de tê-lo perdido
Também volta, agora com toda a sua beleza visionária.
Uma tarde cuja manhã já se esqueceu
No traço de tantas iguais que vêm e passam
Como para só cumprir o ato necessário;
Uma tarde cuja noite se tornou algum resíduo amortalhado.
Estava ilhada, suspensa no fluxo do tempo,
Era a relíquia do amante e era o seu trauma.

[In Passagens, São Paulo: Iluminuras, 2003, p. 81]

Berthe Morisot 

 Manet à l'île de Wight

segunda-feira, 3 de março de 2014

Giacomo Leopardi

FRAGMENTO DO GREGO, DE SIMÔNIDES
Todo o mundano evento
De Jove está nas mãos, de Jove, ó filho,
Que, por seu próprio intento,
Tudo traz já contado.
Mas de um lugar passado
Nosso cego pensar se alegra e apura,
Se bem que o humano rito,
Como prepara o céu nossa ventura,
De dia em dia dura.
Nutre a nós todos a bela esperança
De semblante bendito
Onde cada um se cansa:
Um busca a aurora mansa,
Um outro a idosa meta;
E nada em terra segue
Que nos anos a vir extraordinários
Com Pluto e os deuses vários
A mente não prometa.
Eis que antes que a esperança ao porto chegue
Um traz de velho a face 
Outro por doença o turvo Letes traga;
Este o ríspido Marte, aquele a vaga
Do pélago arrebata,- outro desfaz-se
De árduos cuidados, o outro, um nó atando
Ao pescoço, dentro do chão se encerra.
Assim de muitos ais
Aos míseros mortais
Bando vário e feroz dissolve e aterra.
Antes certo eu diria
Que um sábio, livre do vulgar error,
Sofrer não quereria
Nem poria na dor
E no seu próprio mal tamanho amor.

[In Alexei Bueno, Cinco século de Poesia, São Paulo, Record, 2013, p. 57]




domingo, 2 de março de 2014

Maria Gabriela Llansol

EXCERTO DE "CAUSA AMANTE"
VI —
Úrsula encontrou à entrada da porta uma mulher com uma cana na mão. Suspeitou que ela teria meia-idade, pois não lhe via o rosto coberto por um chapéu descido; observou-lhe as mãos queimadas, de quem frequentes vezes trabalha, e adormece ao sol.
vim a este país para reconhecer o que escrevo, e por onde andou Ana de Penalosa; faço à mulher a primeira pergunta, a que a mesma pergunta deve suceder-se, por não obter resposta; eu não me sinto a viver ao mesmo diapasão que este país, nem nesta região extensa com terras em que crescem sobreiros ou azinheiras, e onde podem pastar porcos; mas devo continuar a perguntar à mulher, único ser falante que encontrei nestes montes, o que ela ouviu dizer sobre Ana de Penalosa; nada me revela por meio de gestos, e o rosto quase caído sobre o peito, não se levanta; usa chapéu para armar a cabeça.

se a mulher fosse Ana de Penalosa, eu contar-lhe-ia até que ponto as beguinas perturbadas a esperam; sento-me à sua frente como só existisse a luz directa iluminando-nos; desço as pálpebras ao elevar o pensamento para a parede de cal; antes de voltar a mover-me pela palavra, reparo que a minha língua nem coincide com este país, nem com a sua linguagem; mas a mão de Ana de Penalosa, quando ela ma estende, coincide com a minha; trocamos o lugar e, na invocação que dirigimos uma à outra, fico a saber quem é a mulher, e quem eu não sou ainda.

continuo a não encontrar Ana de Penalosa que me deixou quase sozinha neste país que infunde temor; muitas das beguinas tornaram-se aves migratórias e eu, para recolher a experiência da transformação vegetal que sofreu o rei, não fui das que partiu com elas; quando subi ao mirante da casa que deve orientar-me, vi o último bando de aves pousado nas figueiras e nas alfarrobeiras, com as amendoeiras dispersas ao meio; quando se aquietaram nas diferentes árvores para passar a noite, escutei o som deste crepúsculo que se estendia pelas azinhagas próximas; como sucede quando alguém que eu amo está para partir, eu sentia-me já no deserto. Fosse de noite, ou já claro, o calor e a imobilidade eram os mesmos; tive receio de que dom arbusto, se naquele jardim estivesse plantado, morresse na terra, ou vogasse à deriva do que, sem mutação, estava a passar-se; o adeus das aves, e o seu regresso, davam um certo sentido àqueles campos em que a escrita cultivada pelas beguinas se tornara seca e atonal.

não quis ficar fora do círculo das beguinas, neste país onde só cresciam belezas excluídas. Tive o pensamento cruel de preparar armadilhas às aves que se dispunham a partir; mas lembrei-me da alegria de Eleanora, Margarida, Eulália, Alice, Marta, Clara Serena, da própria rapariga que temia a impostura da língua.

De manhã, sem ter dormido, reparei, perto de mim, no vulto enraizado de dom arbusto e deitei-lhe água, que tirei do poço; no espaço, ainda agitado pelo voo, as aves migratórias tinham deixado cair grandes ovos que, sem quebrar-se, pousaram na terra, e se transformaram nesta paisagem em que tinha vivido Comuns.

no regresso, ensinou-me a romper o silêncio, ou a falar nele; a ausência de Ana de Penalosa fez-me ver até que ponto uma paisagem se pronuncia sobre outra paisagem; só a névoa do Brabante me levaria a contar  como os arbustos desse país litoral ardem.

não consigo chegar a compreender a natureza das alterações da percepção de Sebastião, o dom, mergulhado no solo, ou na névoa; mas ele, dom arbusto, já se adaptou a esta visão singular das folhas que tinha encontrado no jardim de Psyché.

[In Causa Amante, Lisboa: Relógio D´Água, 1994, pp. 151-153]

N.B.: Pela dificuldade de reprodução, não se respeita aqui a disposição gráfica original do texto.
John W. Waterhouse



sábado, 1 de março de 2014

Jacques Prévert

LAMENTO DE VINCENT
A Paul Éluard

Em Arles onde corre o Ródano
Na atroz luz do meio-dia
Um homem de fósforo e sangue
Solta um grito obsessivo
Como uma mulher que pare o filho
E o lençol fica todo vermelho
E o homem sai de casa gritando
Perseguido pelo sol
Pelo sol amarelo estridente
No bordel próximo do Ródano
O homem chega como se rei mago
Trazendo um absurdo presente
Tem o olhar azul e calmo
O verdadeiro olhar lúcido e louco
Dos que dão tudo à vida
Tudo e não têm ciúmes
E ele mostra à pobre mocinha
Sua orelha deitada no pano
E ela chora sem nada compreender
Sonhando com tristes presságios
E olha para ela sem ousar pegar
A terrível e terna concha
Em que os gritos do amor morto
E as vozes inumanas da arte
Se misturam com os murmúrios do mar
E vão morrer no assoalho
No quarto em que o edredom vermelho
De um vermelho súbito chocante
Mistura esse vermelho tão vermelho
Ao sangue ainda mais vermelho
De Vincent já meio-morto
E qual imagem piedosa
Da miséria e do amor
A mocinha nua sozinha sem idade
Olha o pobre Vincent
Fulminado pela sua própria tempestade
Que cai pelo chão
Em cima do mais belo quadro seu
E a tempestade se vai acalmada indiferente
Rolando diante dele os grandes barris de sangue
A fulgurante tempestade do gênio de Vincent
E Vincent fica ali dormindo sonhando rugindo
E o sol em cima do bordel
Como uma laranja louca num deserto sem nome
O sol sobre Arles
Rugindo gira em torno de si.

[In Poemas, Jacques Prévert, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, p. 111]

Sobre Jacques Prévert

L´anglois Bridge at Arles
Van Gogh


Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...