A CERIMÔNIA
Sagrei-os, aos meus filhos.
Fiz o que era esperado de mim,
mas a minha lembrança era do avesso,
para o futuro,
e estava toda nas rosas
que o tempo haveria de trazer,
em forma das guerras do meu país.
Dessas guerras me lembro,
mas nunca cheguei a ver a guerra
que a ambição e os sonhos lhes doaram.
Sagrei-os na minha mente,
antecipando o gesto de outra
que teria o meu nome.
Nesse dia, de manhã cedo,
era ainda escuro, e no quarto,
mesmo descerradas as cortinas,
quase não entrava a luz.
As aias ajudaram-me a vestir, e eu,
como sempre acontecia depois de acordar
e enquanto não chegavam as horas do dever,
lembrei-me do meu pai, do meu país,
dos seus campos muito verdes atravessados
por rebanhos, da chuva do meu país,
tão contínua como as minhas saudades.
Quando acabei as recordações
e o choro de silêncio,
chamei-os na minha mente.
A todos ofereci prendas.
Ao primeiro dei um cetro
enfeitado de papel e de palavras,
ao segundo, uma espada
de aço brilhante,
ao terceiro, o gosto pelo mundo,
e ao último, contei-lhe o caminho
de água verde e espuma alta
por onde eu tinha chegado;
mostrei-lhe o mar,
ao longo das muitas tardes
em que eu própria sonhava
com as margens que havia deixado
para trás.
Se pudesse sentar-me novamente
junto àquela janela,
a espada brilhante que dei a esse meu segundo filho
tê-la-ia transformado em arado,
ou em pequena lamparina,
porque, ao dar-lhe a espada,
dei-lhe também o resto de matar e de morrer.
Antes lhe tivesse dito vezes sem conta
como é belo o mundo
e poder falar dentro dele.
Ou antes lhe tivesse mostrado só o mar,
como fiz com esse filho
junto de quem me cansava
das saudades da minha terra.
Uma prenda, porém,
me é boa na memória:
a do papel e das palavras.
Dispensaria o cetro,
mas era ele que segurava palavras e papel.
Dessa prenda não me arrependo,
e quase me regozijo um pouco
por aquilo que fiz nessa manhã fria e escura
em que os chamei aos quatro
para junto da minha mente
e do meu coração.
Mas o que fizeram de mim,
naquele dia há tantos anos, quando, quase menina,
me ajudaram a subir para o bote
e depois para o navio
que me haveria de levar a uma terra
que eu não conhecia,
a uma língua que não era a minha língua?
Onde ficaram as minhas tardes
molhadas de chuva?
E a memória que de mim ficou,
porque não fala ela dos meus campos verdes
e das sombras dos rebanhos que os atravessavam?
Porque me nega essa memória
as rosas que, em futuro,
e ditas como guerra,
haveriam de dizimar tanta da minha gente?
Por que outra noite trocaram
o meu escuro?
[In Vozes, São Paulo, Iluminuras, 2013, pp. 90-92]
domingo, 16 de março de 2014
sábado, 15 de março de 2014
Luís Miguel Nava
O CORPO ESPACEJADO
Perdia-se-lhe o corpo no deserto, que dentro dele aos
poucos conquistava um espaço cada vez maior, novos
contornos, novas posições, e lhe envolvia os órgãos que,
isolados nas areias, adquiriam uma reverberação particular.
Ia-se de dia para dia espacejando. As várias partes de que
só por abstracção se chegava à noção de um todo come-
çavam a afastar-se umas das outras, de forma que entre
elas não tardou que espumejassem as marés e a própria
via-láctea principiasse a abrir caminho. A sua carne exer-
cia aliás uma enigmática atracção sobre as estrelas, que
em breve conseguiu assimilar, exibindo-as, aos olhos de
quem o não soubesse, como luminosas cicatrizes cujo
brilho, transmutado em sangue, lentamente se esvaía. Ele
mais não era, nessas ocasiões, do que um morrão, nas
cinzas do qual, quase imperceptível, se podia no entanto
detectar ainda a palpitação das vísceras, que a mais pe-
quena alteração na direcção do vento era capaz de pôr de
novo a funcionar. Resolveu então plastificar-se. Principiou
pelas extremidades, pelos dedos das mãos e pelos pés,
mas passado pouco tempo eram já os pulmões, os intes-
nos e o coração o que minuciosamente ele embrulhava
em celofane, contra o qual as ondas produziam um ruído
aterrador.
A NOITE
A noite veio de dentro, começou a surgir do interior
de cada um dos objectos e a envolvê-los no seu halo negro.
Não tardou que as trevas irradiassem das nossas próprias
entranhas, quase que assobiavam ao cruzar-nos os poros.
Seriam umas duas ou três da tarde e nós sentíamo-las
crescendo a toda a nossa volta. Qualquer que fosse a pers-
pectiva, as trevas bifurcavam-na: daí a sensação de que,
apesar de a noite também se desprender das coisas, havia
nela algo de essencialmente humano, visceral. Como ins-
tantes exteriores que procurassem integrar-se na trama
do tempo, sucediam-se os relâmpagos: era a luz da tarde,
num estertor, a emergir intermitentemente à superfície das
coisas. Foi nessa altura que a visão se começou a fazer
pelas raízes. As imagens eram sugadas a partir do que
dentro de cada objecto ainda não se indiferenciara da luz
e, após complicadíssimos processos, imprimiam-se nos
olhos. Unidos aos relâmpagos, rompíamos então a custo
a treva nasalada.
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| Christine Fogg Horton |
quinta-feira, 13 de março de 2014
Wislawa Szymborska
ALGUNS GOSTAM DE POESIA
Alguns -
ou seja nem todos.
Nem mesmo a maioria de todos, mas a minoria.
Sem contar a escola onde é obrigatório
e os próprios poetas
seriam talvez uns dois em mil.
Gostam -
mas também se gosta de canja de galinha,
gosta-se de galanteios e da cor azul,
gosta-se de um xale velho,
gosta-se de fazer o que se tem vontade
gosta-se de afagar um cão.
De poesia -
mas o que é isso, poesia.
Muita resposta vaga
já foi dada a essa pergunta.
Pois eu não sei e não sei e me agarro a isso
como a uma tábua de salvação.
Alguns -
ou seja nem todos.
Nem mesmo a maioria de todos, mas a minoria.
Sem contar a escola onde é obrigatório
e os próprios poetas
seriam talvez uns dois em mil.
Gostam -
mas também se gosta de canja de galinha,
gosta-se de galanteios e da cor azul,
gosta-se de um xale velho,
gosta-se de fazer o que se tem vontade
gosta-se de afagar um cão.
De poesia -
mas o que é isso, poesia.
Muita resposta vaga
já foi dada a essa pergunta.
Pois eu não sei e não sei e me agarro a isso
como a uma tábua de salvação.
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| Josef Marian Chelmonski |
quarta-feira, 12 de março de 2014
Antonio Gamoneda
Sinto o crepúsculo em minhas mãos. Surge através de um loureiro doente. Eu não quero pensar e não quero ser amado, nem ser feliz nem lembrar.
Eu só quero sentir esta luz em minhas mãos
e ignorar todos os rostos e deixar que as canções não pesem em meu coração.
e que os pássaros passem diante de meus olhos e eu não perceba quando sumirem.
Há
buracos e sombras nas paredes brancas e logo haverá mais buracos e sombras e, finalmente, não haverá paredes brancas.
É a velhice. Ela flui em minhas veias como água perpassada por gemidos.
Cessarão todas as perguntas. Um sol tardio pesa sobre as minhas mãos imóveis e minha quietude a ele se une suavemente, como uma substância única, o pensamento e seu desaparecimento.
É a agonia e a serenidade.
Talvez eu seja invisível e solitário sem sabê-lo. De qualquer modo,
a única sabedoria é o esquecimento.
[In Esta luz, Poesía Reunida (1947-2004), Barcelona, Círculo de Lectores, S.A./ Galaxia Gutenberg, 2010]
Eu só quero sentir esta luz em minhas mãos
e ignorar todos os rostos e deixar que as canções não pesem em meu coração.
e que os pássaros passem diante de meus olhos e eu não perceba quando sumirem.
Há
buracos e sombras nas paredes brancas e logo haverá mais buracos e sombras e, finalmente, não haverá paredes brancas.
É a velhice. Ela flui em minhas veias como água perpassada por gemidos.
Cessarão todas as perguntas. Um sol tardio pesa sobre as minhas mãos imóveis e minha quietude a ele se une suavemente, como uma substância única, o pensamento e seu desaparecimento.
É a agonia e a serenidade.
Talvez eu seja invisível e solitário sem sabê-lo. De qualquer modo,
a única sabedoria é o esquecimento.
[In Esta luz, Poesía Reunida (1947-2004), Barcelona, Círculo de Lectores, S.A./ Galaxia Gutenberg, 2010]
segunda-feira, 10 de março de 2014
Fernando Sernadas
METADES 20
Escrever sempre também cansa
E a passividade da assistência requer
Dos actores mais trabalho clínico de persuasão
E a leitura a forma mais barata de adormecer
E o melhor sono nessa fronteira onde do palco
Se desce pelas pálpebras toda mentira escarrada
Toda cena depende da criação do ambiente
Uma cena não pode ser a isolação da imagem
Mas mais a actividade mental dos presentes
Disfarçada pela sua inércia de tentáculos
Pois não é pelos movimentos manuais do maestro
Que se pendura a orquestra do silêncio de quem escuta
Todo maestro é sempre o bobo da festa
Fernando Sernadas, 9/3/2014
© Fernando Sernadas, 2014
Todos os direitos reservados
Escrever sempre também cansa
E a passividade da assistência requer
Dos actores mais trabalho clínico de persuasão
E a leitura a forma mais barata de adormecer
E o melhor sono nessa fronteira onde do palco
Se desce pelas pálpebras toda mentira escarrada
Toda cena depende da criação do ambiente
Uma cena não pode ser a isolação da imagem
Mas mais a actividade mental dos presentes
Disfarçada pela sua inércia de tentáculos
Pois não é pelos movimentos manuais do maestro
Que se pendura a orquestra do silêncio de quem escuta
Todo maestro é sempre o bobo da festa
Fernando Sernadas, 9/3/2014
© Fernando Sernadas, 2014
Todos os direitos reservados
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| Miriam Schapino |
domingo, 9 de março de 2014
Ingeborg Bachmann
DESPRENDE-TE, CORAÇÃO
Desprende-te, coração, da árvore do tempo,
soltai-vos folhas, dos ramos esfriados,
outrora abraçados pelo sol,
soltai-vos como lágrimas de olhos largos de longes.
Esvoaça ainda a madeixa dias inteiros ao vento
na fronte tisnada do deus do campo,
sob a camisa aperta o punho
já a ferida aberta.
Por isso resiste, quando o dorso macio das nuvens voltar a curvar-se para ti,
não te iludas se o Himeto te encher
de novo os favos.
De pouco vale ao lavrador uma erva na seca,
de pouco um verão, face à nossa grande estirpe.
E que testemunha afinal o teu coração?
Entre ontem e amanhã balança,
silencioso e estranho
e o seu bater
é já a sua queda para fora do tempo.
[In O tempo aprazado (Últimos Poemas 1957-1967) tradução de Judite Berkemeier e João Barrento, Lisboa, Assírio & Alvim, 1992].
Desprende-te, coração, da árvore do tempo,
soltai-vos folhas, dos ramos esfriados,
outrora abraçados pelo sol,
soltai-vos como lágrimas de olhos largos de longes.
Esvoaça ainda a madeixa dias inteiros ao vento
na fronte tisnada do deus do campo,
sob a camisa aperta o punho
já a ferida aberta.
Por isso resiste, quando o dorso macio das nuvens voltar a curvar-se para ti,
não te iludas se o Himeto te encher
de novo os favos.
De pouco vale ao lavrador uma erva na seca,
de pouco um verão, face à nossa grande estirpe.
E que testemunha afinal o teu coração?
Entre ontem e amanhã balança,
silencioso e estranho
e o seu bater
é já a sua queda para fora do tempo.
[In O tempo aprazado (Últimos Poemas 1957-1967) tradução de Judite Berkemeier e João Barrento, Lisboa, Assírio & Alvim, 1992].
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| Laura Knight |
sábado, 8 de março de 2014
Paulo José Miranda
POEMA INÉDITO
Aos mestres e amigos António De Castro Caeiro e Mário Jorge Carvalho:
Caminhamos do fim ao fim
Porque não há princípio
Vamos do fim que nos deram
Ao fim que conseguimos
Entre estes dois nadas
Que mais que as nossas mãos são as nossas mães
Uma que nos expulsou
E uma outra que nos espera
Sempre se vai encontrando
Aqui e ali um ou outro remédio
Alguma coisa sem importância
Ou o que quer que seja para se fazer
9 de Outubro de 2011
©Paulo José Miranda
Todos os direitos reservados
Aos mestres e amigos António De Castro Caeiro e Mário Jorge Carvalho:
Caminhamos do fim ao fim
Porque não há princípio
Vamos do fim que nos deram
Ao fim que conseguimos
Entre estes dois nadas
Que mais que as nossas mãos são as nossas mães
Uma que nos expulsou
E uma outra que nos espera
Sempre se vai encontrando
Aqui e ali um ou outro remédio
Alguma coisa sem importância
Ou o que quer que seja para se fazer
9 de Outubro de 2011
©Paulo José Miranda
Todos os direitos reservados
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| Jacopo Pontormo |
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Fernando Paixão
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Callas na escala ascendente A Ziriguimel Inteira, tua voz é um cone, torre de catedral, coisa tátil, que se avista, mutáv...
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Não conheço nenhum romancista que não tenha o vício desaforado da leitura. Somos, por definição, bichos leitores. Roemos as palavras dos l...



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