terça-feira, 8 de abril de 2014

Fiama Hasse Pais Brandão

O PODADOR
Devagar a tesoura poda o arbusto
tornando-o de realidade em desejo
da forma. O que me atrai, a flor,
a folha de fuligem, os troncos curvos
para os pardais escuros e ocultos.

Devagar os ramos caem e os que o
podador despreza vão entrar na gé-
nese da nova terra. É inevitável
que tudo isto me crie nostalgia.
Não há um estalido simples, corte só,

nem morte só, a morte daqueles
ramos estendidos pelo gradeamento
a viver naturalmente entretanto.
O podador escolhe assim a aparên-
cia da obra que devagar executa,

na ordem e no capricho da folhagem
para sempre jovem e ágil.

Carcavelos, 1985

[In Obra Breve Poesia Reunida, Lisboa, Assírio & Alvim, 2006, pp. 463].


segunda-feira, 7 de abril de 2014

Maria Lúcia Dal Farra

A MÃO
Como é raso o entendimento da vida:
planícies com disciplinados desníveis
em organizados degraus
(poucos, aliás);
um ou outro pequeno grupo
à espera de milagres;
céu de cenário indicando bem-estar
— e (todavia)

eu,
no meu instrumento de tortura
que me penetra de alto a baixo,
cetro soberano
a suspender a outra versão de mim
(cabelos que destampam o rosto fácil)
e a grande mão que estendo

(de benevolência)
para as esperanças frugais.

Pareço por acaso
comodamente instalada na minha
temperança?

[In Alumbramentos, São Paulo, Iluminuras, 2011, p. 74].

SALVADOR DALI


domingo, 6 de abril de 2014

Paulo Plínio Abreu

ELEGIA EM 1941
Ouço o teu canto estranha amada das regiões perdidas.
Teus cabelos desfeitos têm o encanto dos sonhos
Eu um dia te vi brilhar como as estrelas do fundo da infância
Hoje eu te sigo os olhos pelos mares e vejo os arco-iris
Estranha amada que um dia cantou no tempo desaparecido
As estrelas nasciam e doente eu bebia a água fria das grutas.
Um dia eu te ouvi.
Teu canto é puro e se mistura com o rumor do mar e nos convida
Teu canto é triste como os navios da morte.
Tua voz é grande como as boias que nos habitaram
Teus olhos são como as estrelas.
Estranha amada. Ouço o teu canto e sinto-me perdido.
Para onde me levarás na grande noite triste quando depois dos grandes
sonhos a lua desaparecer no céu?

[In Poesia, Belém, Universidade Federal do Pará, Belém, 2008, p. 63]



sexta-feira, 4 de abril de 2014

Else Lasker-Schüler

MINHA CANÇÃO, MEU SILÊNCIO
Meu coração é um tempo triste,
Num tique-taque emudecido.

Minha mãe tinha asas douradas,
Que não encontravam mundo.

Ouçam, ela se pôs a minha procura,
Com seus dedos de luz e pés de sonho errante.

E o tempo bom que brisa azul
Sempre aquece meu sono

Nas noites,
Cujos dias usam a coroa de minha mãe.

Bebo da lua o vinho tranquilo,
Quando a noite cai só.

Minhas canções tinham do verão os azuis
E voltavam sombrias para casa.

De meu lábio vocês debochavam,
Mas ainda falam com ele.

Sim, tentei segurar suas mãos,
Pois meu amor é uma criança e quer brincar.

O primeiro, tomei-o de vocês,
E também o segundo, beijei-o,

Mas meus olhares se voltam para trás
Na direção de minha alma.

Tornei-me pobre
De seus favores mendicantes.

Ignorava o estar doente,
E agora estou doente de vocês,

E nada é mais furtivo que a doença,
Que da vida quebra os pés,

Rouba a luz ao caminho da cova

E difama a morte.

Meu olho
É o cume do tempo,

Seu brilho beija
As barras de Deus.

E ainda vou dizer mais,
Antes que entre nós escureça.

Se, entre todos, você for o mais jovem,
Saberá do que em mim é o mais antigo.

Os mundos todos brincarão
De agora em diante em tua alma.

E a noite vai se queixar
Ao dia.

Sou o hieróglifo
Sob toda criação.

E saí a vocês,
Em causa da saudade por causa do humano.

Arranquei de meus olhos os evos do olhar,
De meus lábios, a luz vitoriosa —

Pense num prisioneiro mais difícil,
Num mago mais malvado: eis-me aqui.

Meus braços, na querença de se erguer,
Tombam...


[Tradução de Mauricio Mendonça Cardozo, In Belas Infiéis, Revista do Programa de Pós-Graduação em Estudos da Tradução da Universidade Nacional de Brasília,  v. 1, n. 1, p. 203-209, 2012]. 

Henry Fuselli


quinta-feira, 3 de abril de 2014

Cláudio Willer

CENAS DA VIDA URBANA
VI
Tua ausência é um líquido azulado que escorre pelas cavernas da imaginação. Um povo de gigantes sustenta os polos da memória, o cogumelo das nuvens prepara-se para a autodevoração, sístoles e diástoles ressoam pelos labirintos da vida. Catedrais começam a rolar pela encosta, e a cegueira dos pulmões nos leva a nada. Sem memória nos emaranhamos em fios de decadência.

Uma sinfonia sutil, soando a partir do meu pé esquerdo, leva-me à levitação. Nomear teu nome é romper o equilíbrio da balança: miríades de horticultores, enlouquecidos, passariam a dedicar-se à predação.

A consagração era prevista: chegará a hora das colisões. Meu infinito pessoal recolhe as imagens da mão do cadáver; pouca coisa nos resta: alguns espiões, um retângulo, a hesitação sem fronteiras. É preciso sair, o quanto antes, das campânulas que circundam o abismo.

Dias circulares (1976)

[In: Roteiro da Poesia Brasileira - anos 60, seleção e prefácio Pedro Lyra, São Paulo: Global, 2011, p. 106].

Sobre Cláudio Willer



quarta-feira, 2 de abril de 2014

Murilo Mendes

A GRANDE CEIA
Eu quero dar uma grande ceia aos deserdados — aos tímidos — aos desconsolados — aos oprimidos — aos humildes — aos doentes incuráveis de amor — às prostitutas que olham pela rótula, sem coragem de chamar os clientes.

Eu quero dar uma grande ceia aos que enxergam demais — aos desesperados com esperança — aos rebelados contra Deus, mais próximos a mim do que os indiferentes.

Eu quero dar uma grande ceia aos poetas que não sabem se exprimir — aos amantes reciprocamente saciados — aos covardes que não podem se matar.

Eu quero dar uma grande ceia aos desertores da lei humana — aos que apenas conseguem destruir — aos que receberam o inferno por herança.

Servi-vos de mim, derrotados. Eu vos considerarei a cada um como uma parte dispersada de mim mesmo. Presidirei vossas angústias e miséria:. Retalhai-me, dividi meu coração em pedaços; então se terá cumprido um claro mistério de Deus.

[In Poesia Completa e Prosa, Nova Aguilar: Rio de Janeiro, 1994, p. 762].


Andre Derain



terça-feira, 1 de abril de 2014

Philip Larkin

OS VELHOS IMBECIS
Que pensam eles que aconteceu, os velhos imbecis,
Para os tornar nisto? Acaso lhes parece
Que é mais adulto quando a boca descai e te babas,
E te mijas outra vez, e não recordas
Quem veio esta manhã? Ou que, se pudessem escolher,
Fariam recuar as coisas a quando dançavam toda a noite,
Ou se casaram, ou assentaram praça num Setembro qualquer?
Ou imaginarão que realmente nada se alterou,
E que sempre se comportaram como se fossem aleijados ou inábeis,
Ou ficaram sentados dias a fio de fraco sonhar contínuo
Vendo a luz mudar? Se não o fazem (e não podem), é estranho:
Porque não gritam?

Ao morrer, desfazes-te: os bocados de que eras feito
Apressam-se a separar-se para sempre
Sem ninguém ver. É apenas esquecimento, é verdade:
Sabiamo-lo antes, mas então caminhava-se ainda para o fim,
E todo o tempo era afundado num esforço único
Para fazer desabrochar a flor de mil pétalas
De estar aqui. À próxima não podes fingir
Que haverá algo mais. E são estes os primeiros sinais:
Não saber como, não ouvir quem, perdida
A capacidade de escolha. Pelo aspecto sabe-se que estão acabados:
Cabelos cinza, mãos sapudas, cara enrugada de ameixa seca -
Como conseguem ignorá-lo?

Talvez ser velho seja ter quartos iluminados
Dentro da tua cabeça, e gente neles, representando.
Gente que conheces, mas não sabes nomear: cada um aparece
Como uma profunda perda recuperada, vindo de portas conhecidas,
Pousando um candeeiro, sorrindo de uma escada, tirando
Um livro conhecido das estantes; ou por vezes apenas
Só os quartos, cadeiras e um lume acesso.
O arbusto soprado na janela, ou a pálida
Amizade do sol na parede de algum solitário
Fim de tarde de verão depois da chuva. É aí que eles vivem:
Não aqui e agora, mas onde tudo outrora aconteceu.
É por isso que eles mostram

Um ar de ausência confusa, esforçando-se por estar lá
Já estando aqui. Porque os quartos afastam-se, deixando
Um frio inqualificável, o desgaste constante
De retomar a respiração, e eles curvados sob
A montanha da extinção, os velhos imbecis, sem nunca perceberem
Quão próxima está. Deve ser isto que os mantém calados:
O cume que se avista onde quer que vamos
Para eles é um pequeno monte. Não saberão nunca
O que os arrasta para trás, e como irá acabar? Nem de noite?
Nem quando os estranhos vêm? Nunca, durante
Toda esta odiosa infância invertida? Bom,
Havemos de descobrir.


[Tradução: Paulo José Miranda]
Laura Walker

Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...