RESPOSTA A DRUMMOND
É sempre no meu sempre aquele nunca
é sempre nesse nunca aquele agora
é sempre nesse agora aquele nada
No mesmo nada encontro sempre tudo
mesmo se o mundo é nada sempre assim
mesmo se assim tudo me desperta
e eu me desperto a adormecer no fim
de cada dia de trabalho errado
em cada hora de um amor mal feito
e digo mesmo se este mundo vale
a expectativa de querer ser sempre
aquela esp’rança onde o bem e o mal
se aliam sempre para quem conserva
o sonho ou a fúria de não estar sonhando
Mas novamente dói a dor no peito
e dói no corpo o que nos vai passando
mágoas ou risos ou o grito dado
e logo atirado para um vale escuro
onde não oiçamos a revolta infinda
de vivermos os dias nesta escura selva
a que nem Dante chamou talvez de vida
a que chamamos coisa e porém amamos
Sempre este querer de violência tanta
e esta crença de que o canto estale
e o dia venha porque nós lutamos
para além das forças que supomos nossas
para além dos sonhos que já não esperamos
para além do verso e do corpo gasto
Sempre este homem que se vai cansando
sempre estes ossos em que equilibramos
esta carne frágil este dia vasto
esta vida feita no que é morte nela
este amor sujeito ao que é sempre efémero
este ódio ao mundo que é amor eterno
[In Depois de Dezembro. Lisboa, Licorne, 2010].
Sobre António Carlos Cortez
terça-feira, 15 de abril de 2014
segunda-feira, 14 de abril de 2014
Ailton Volpato
ARBÓREO
A árvore e os seus ramos
espalhados sobre o lago -
era vivo o músico morto
ou estava no erro a peça
última de sua obra, como
boia singrando cerrada
por ondas (in)ventadas?
arbóreo fora o peito do mundo,
selvagem como a voz dos ventos
arrombando as janelas da infância -
a árvore que via, quixoteana memória,
montava a cavalo com a lança desembainhada
riscando o trajeto em seus trejeitos:
eram caminhos sobre espantos,
raízes atravessadas nos olhos;
ninhos eras órgãos engendrando vida,
ensaiando voos
litania clássica - ainda me arrependo -
e a videira me estende seus sarmentos.
(Inédito. Proibida a reprodução)
A árvore e os seus ramos
espalhados sobre o lago -
era vivo o músico morto
ou estava no erro a peça
última de sua obra, como
boia singrando cerrada
por ondas (in)ventadas?
arbóreo fora o peito do mundo,
selvagem como a voz dos ventos
arrombando as janelas da infância -
a árvore que via, quixoteana memória,
montava a cavalo com a lança desembainhada
riscando o trajeto em seus trejeitos:
eram caminhos sobre espantos,
raízes atravessadas nos olhos;
ninhos eras órgãos engendrando vida,
ensaiando voos
litania clássica - ainda me arrependo -
e a videira me estende seus sarmentos.
(Inédito. Proibida a reprodução)
domingo, 13 de abril de 2014
Weydson Barros Leal
GERAZ
O encanto é seu espelho. O doce espelho
que guarda do outro lado a mão que o toca,
mas não permite o ganho de contê-lo.
Pois é estranho como num só dia
nascem a alegria e o sofrimento,
e a pétala do bem também é o mal
que se resfria ao toque do metal.
A vida é este encontro mas também
é afastamento: o pão que agora é doce,
amanhã é o amargo do centeio,
e a tal proximidade desse espelho
faz crescer a vontade que faz mal...
A sede deste encanto não sacia,
pois feito o pão do amor também é sal.
[In A Quarta Cruz, Rio de Janeiro: Topbooks, 2009, p. 45]
O encanto é seu espelho. O doce espelho
que guarda do outro lado a mão que o toca,
mas não permite o ganho de contê-lo.
Pois é estranho como num só dia
nascem a alegria e o sofrimento,
e a pétala do bem também é o mal
que se resfria ao toque do metal.
A vida é este encontro mas também
é afastamento: o pão que agora é doce,
amanhã é o amargo do centeio,
e a tal proximidade desse espelho
faz crescer a vontade que faz mal...
A sede deste encanto não sacia,
pois feito o pão do amor também é sal.
[In A Quarta Cruz, Rio de Janeiro: Topbooks, 2009, p. 45]
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| Marsden Hartley |
sábado, 12 de abril de 2014
Murilo Mendes
SEGUNDA MEDITAÇÃO
Ó Deus abandonado
Tu te consolas na tua solitária justiça,
Tu te consolas
Dos que não te amam nem te reconhecem,
Dos que coroam de flores a estátua do Tempo
E te voltam a face e os pés.
Tu te consolas no teu próprio equilíbrio
Insondável ao olhar e ao espírito do homem.
Tu te consolas na geração incessante do teu Verbo
E no amor em espiral do teu Espírito.
Tu te consolas sem auxílio da natureza,
Sem o ritmo e o vaivém das asas dos arcanjos,
Tu te consolas sem consolo
No infinito íntimo que revelaste ao homem
E que ele resistente rejeita.
Ó Deus absurdo e nu
Tu te consolas no teu próprio conhecimento
E na qualidade de seres em ti mesmo eterno.
Ó Deus ácido
Tu te consolas dos criminosos,
Dos homens que romperam a tua e a sua lei.
Tu te consolas da morte
Que o homem quis conhecer e provocou,
Tu te consolas dos massacres e misérias que consentes
Mas a tua face não regista a angústia
Porque és anterior e posterior a todo sofrimento.
Ó Deus
Tu te consolas da crucifixão e morte do teu Filho unigênito
Porque podes gerá-lo eternamente e agora
Conhecendo que pela sua morte ele matou a morte.
Na tua plenitude e perfeição
Tu te consolas do desvio da tua raça terrestre.
O homem se transformará no teu conhecimento
Mesmo árido,
Mesmo em parcela e enigma,
Captando assim o infinito íntimo
Que um dia lhe deste em testamento.
[In Poesia Completa e Prosa, Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994, pp. 772-773].
Ó Deus abandonado
Tu te consolas na tua solitária justiça,
Tu te consolas
Dos que não te amam nem te reconhecem,
Dos que coroam de flores a estátua do Tempo
E te voltam a face e os pés.
Tu te consolas no teu próprio equilíbrio
Insondável ao olhar e ao espírito do homem.
Tu te consolas na geração incessante do teu Verbo
E no amor em espiral do teu Espírito.
Tu te consolas sem auxílio da natureza,
Sem o ritmo e o vaivém das asas dos arcanjos,
Tu te consolas sem consolo
No infinito íntimo que revelaste ao homem
E que ele resistente rejeita.
Ó Deus absurdo e nu
Tu te consolas no teu próprio conhecimento
E na qualidade de seres em ti mesmo eterno.
Ó Deus ácido
Tu te consolas dos criminosos,
Dos homens que romperam a tua e a sua lei.
Tu te consolas da morte
Que o homem quis conhecer e provocou,
Tu te consolas dos massacres e misérias que consentes
Mas a tua face não regista a angústia
Porque és anterior e posterior a todo sofrimento.
Ó Deus
Tu te consolas da crucifixão e morte do teu Filho unigênito
Porque podes gerá-lo eternamente e agora
Conhecendo que pela sua morte ele matou a morte.
Na tua plenitude e perfeição
Tu te consolas do desvio da tua raça terrestre.
O homem se transformará no teu conhecimento
Mesmo árido,
Mesmo em parcela e enigma,
Captando assim o infinito íntimo
Que um dia lhe deste em testamento.
[In Poesia Completa e Prosa, Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994, pp. 772-773].
sexta-feira, 11 de abril de 2014
Antonio Gamoneda
CANÇÃO DO SOLITÁRIO
Harmonioso é o voo dos pássaros. Nos prados cristalinos dos cervos, os verdes bosques se encontram ao crepúsculo em torno às cabanas silenciosas.
A escuridão torna mais tênue o murmúrio das águas. Úmidas sombras surgem
e, melodiosas no vento, também surgem as flores do verão.
Anoitece na cabeça do homem pensativo e uma chama de bondade arde no seu coração.
Serenidade da ceia: o pão e o vinho são abençoados pelas mãos de Deus
e, silenciosamente, teu irmão, com seus olhos noturnos, descansa dos caminhos espinhosos.
Ah viver no azul e no espírito da noite.
Nos quartos, o silêncio cerca de ternura a sombra dos antepassados,
os martírios avermelhados, o lamento de uma estirpe
que, piedosa, se extingue com o seu último descendente.
No umbral de pedra o enfermo desperta das negras horas da loucura
e lhe cercam o fresco azul, o luminoso declinar do outono,
o sossego da casa e as lendas do bosque.
Esta é a medida e o preceito, assim são os caminhos lunares
daqueles que fogem à proximidade da morte.
[In Esta luz, Poesía Reunida (1947-2004), Barcelona, Círculo de Lectores, S.A./ Galaxia Gutenberg, 2010, pp. 571-572].
Harmonioso é o voo dos pássaros. Nos prados cristalinos dos cervos, os verdes bosques se encontram ao crepúsculo em torno às cabanas silenciosas.
A escuridão torna mais tênue o murmúrio das águas. Úmidas sombras surgem
e, melodiosas no vento, também surgem as flores do verão.
Anoitece na cabeça do homem pensativo e uma chama de bondade arde no seu coração.
Serenidade da ceia: o pão e o vinho são abençoados pelas mãos de Deus
e, silenciosamente, teu irmão, com seus olhos noturnos, descansa dos caminhos espinhosos.
Ah viver no azul e no espírito da noite.
Nos quartos, o silêncio cerca de ternura a sombra dos antepassados,
os martírios avermelhados, o lamento de uma estirpe
que, piedosa, se extingue com o seu último descendente.
No umbral de pedra o enfermo desperta das negras horas da loucura
e lhe cercam o fresco azul, o luminoso declinar do outono,
o sossego da casa e as lendas do bosque.
Esta é a medida e o preceito, assim são os caminhos lunares
daqueles que fogem à proximidade da morte.
[In Esta luz, Poesía Reunida (1947-2004), Barcelona, Círculo de Lectores, S.A./ Galaxia Gutenberg, 2010, pp. 571-572].
quinta-feira, 10 de abril de 2014
Emílio Moura
POEMA
DE que nos valerá todo esse esforço para recuperar
[de uma hora para outra a perdida serenidade ?
De que nos valerá todo esse esforço, se o mal não
está no gesto desesperado desses horizontes que
[se fecharam ?
Se ele não está nessas algemas inexoráveis que a
[mão do homem forjou para a mão do homem ?
De que nos valerá todo esse esforço, se o mal não
está no grito lancinante desses trens ininterruptos
que lá vão esmigalhando cabeças dentro da
[noite ?
De que nos valerá tudo isso, se o mal está mas é na
ausência da simplicidade que desertou, já faz
[tanto tempo, da face fria e desesperada da terra?
De que nos valerá tudo isso, se o mal está mas é na
[ressurreição de Caim ?
[In POESIA 1932-1948, Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1953, pp. 261-262]
DE que nos valerá todo esse esforço para recuperar
[de uma hora para outra a perdida serenidade ?
De que nos valerá todo esse esforço, se o mal não
está no gesto desesperado desses horizontes que
[se fecharam ?
Se ele não está nessas algemas inexoráveis que a
[mão do homem forjou para a mão do homem ?
De que nos valerá todo esse esforço, se o mal não
está no grito lancinante desses trens ininterruptos
que lá vão esmigalhando cabeças dentro da
[noite ?
De que nos valerá tudo isso, se o mal está mas é na
ausência da simplicidade que desertou, já faz
[tanto tempo, da face fria e desesperada da terra?
De que nos valerá tudo isso, se o mal está mas é na
[ressurreição de Caim ?
[In POESIA 1932-1948, Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1953, pp. 261-262]
quarta-feira, 9 de abril de 2014
José Paulo Paes
MUNDO NOVO
Como estás vendo, não valeu a pena tanto esforço:
a urgência na construção da Arca
o rigor na escolha dos sobreviventes
a monotonia da vida a bordo desde os primeiros dias
a carestia aceita com resmungos nos últimos dias
os olhos cansados de buscar um sol continuamente adiado.
E no entanto sabias de antemão que seria assim. Sabias que
a pomba iria trazer não um ramo de oliva mas de
espinheiro.
Sabias e não disseste nada a nós, teus tripulantes, que ora
vês lavrando com as mesmas enxadas de Caim e Abel
a terra mal enxuta do Dilúvio.
Aliás, se nos dissesses, nós não te acreditaríamos.
[In Prosas seguidas de Odes Mínimas, São Paulo:Companhia das Letras, 2010, p. 47]
Como estás vendo, não valeu a pena tanto esforço:
a urgência na construção da Arca
o rigor na escolha dos sobreviventes
a monotonia da vida a bordo desde os primeiros dias
a carestia aceita com resmungos nos últimos dias
os olhos cansados de buscar um sol continuamente adiado.
E no entanto sabias de antemão que seria assim. Sabias que
a pomba iria trazer não um ramo de oliva mas de
espinheiro.
Sabias e não disseste nada a nós, teus tripulantes, que ora
vês lavrando com as mesmas enxadas de Caim e Abel
a terra mal enxuta do Dilúvio.
Aliás, se nos dissesses, nós não te acreditaríamos.
[In Prosas seguidas de Odes Mínimas, São Paulo:Companhia das Letras, 2010, p. 47]
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Fernando Paixão
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