quarta-feira, 23 de abril de 2014

Dora Ferreira da Silva

PERSÉFONE
A Lua testemunhou teu rapto, quando
colhias violetas e anémonas. Para onde foste,
arrancada à campina pelo sombrio Amante?
Nem tu sabias do tenebroso percurso sob a Terra,
antes tão doce, nem da dança para sempre traçada
e nela teu passo aprisionado, coroada por Hades
com grinalda de romãs pesadas. Kóre Perséfone, rainha,
não dos vivos e da campina em flor, mas das sombras frias.

HADES
Da profunda cisterna da Noite
tuas pupilas perseguiam estrelas frias.
Sombras em torno de ti rondavam. Só lágrimas
e a antiga alegria, pena, a mais severa.
Tudo perdido fora do círculo de deuses
jubilosos. Tuas mãos pediam o fardo cálido,
pressentido na campina e a flor do único sorriso
que te movera além da treva. E ousaste!
Contra leis e deuses. Tocara-te Amor
e tremias sob a Lua sublevada. Flores
perfumaram teu reino. Embora tristonha em seu trono,
Perséfone era o bem que te faltava.

[In Hídrias, São Paulo, Odysseus, 2004, pp. 54- 55].


Patricia Ariel

terça-feira, 22 de abril de 2014

Yves Bonnefoy

O ESPELHO CURVO
Olha-os lá, naquela encruzilhada;
Parecem hesitar depois retomam
A estrada. À frente deles o menino corre,
A braçadas colheram para os poucos vasos
Pelo campo essas flores que nem nome têm.

E o anjo está lá em cima, a observá-los
E envolto pelo vento de suas cores.
Tem um dos braços nu no pano rubro,
Parece que segura um espelho, e que a terra
Se reflete na água dessa outra margem.

E que designa agora, com o dedo
Que aponta nessa imagem um lugar?
Será outra casa ou será outro mundo,
Será mesmo uma porta, em meio à luz

Aqui mesclada às coisas e aos signos?

[In Yves Bonnefoy, Obra Poética, Tradução e org. Mário Laranjeira, São Paulo, Iluminuras, 1998, 235-237]


domingo, 20 de abril de 2014

Bruno Cattoni

PRIMEIRO TREINO PARA O VOO INFINITO
Quebrou-se um jarro dentro de meu corpo
A terra fugiu pelos poros
A alma desfolhada ficou imponderável
Como um choro de agonia na madrugada

Esta é minha história
A qual sorte nenhuma ousou se interpor
Esta é a história que fiz
Com mãos, óticas e asas

A carne encontra-se em máxima vitalidade
Amanhã esta mesma se derreterá velozmente
Na vargem das almas que existem — ora, por que não?
E apesar de as negarmos nesta poética chupação de mangas

Esta é a única história que me cabia
A mais recente medida que não valia
Nada ou pouco antes que eu a mensurasse
Esta é a história de uma ação total

Montador de um presépio portentoso
          de mastros, velas e destinos
Aquele que viveu em minhas entranhas
Vejo-o a mijar, mijar e mijar
E vai subindo o nível da urina de ouro...

Esta é uma história no fim
Faltando rodapés, corolários, o glossário
Ainda devo deixar de explicar porque vivi anos diários
E abandonei dias seculares
          ao sabor dos umbrais inabitados
(Conspirações e inconfidências de um caçador de meninas gerais (1992))

[In Roteiro da Poesia Brasileira - anos 80, seleção e prefácio Ricardo Vieira Lima, São Paulo: Global, 2010, p. 132].




sábado, 19 de abril de 2014

Porfírio Al Brandão

u m   p a n o   i m e r s o   n a   a g o n i a 

afastem de mim o ouro azedo das árvores
estou farto
este cão negro persegue-me
e gastei toda a clorofila em sonhos de segunda categoria

[corvos em debandada]

ouço agora a purulência de intempéries constrangidas
os cotovelos livres na angústia
o mamilo de ferro na tábua
por passatempo esvaziar as pombas vezes sem conta
recortar a cidade o céu o mundo

o amor é uma transferência invectivada
mesmo que tardia – a esferográfica sabe disso – lesse
o condenado
cristalizando-se na redacção
onde aflorar ou desnudar é estranheza

a substância que delego em mim
corrosiva a fases de beber fisionomias
sem a nitidez do sexo
difere no tempo pelo grau de apodrecimento

o esqueleto apodera-se do absurdo
como de carne se tratasse – é a fome
dum espírito descarnado

: limpo os ossos
sopro as vértebras fulgurantes no domínio soterrado

a pele empedrada exerce impensável bandeira no que digo
bêbado de esquecimento
um deserto solitário mas não diminuído
antes um terraço
coroa da penetração dos instantes neste meu sangue novo
joelhos de água nos vossos ouvidos

simule ou não o céu com ruínas das abóbadas coronárias
medindo as correias
e a publicidade cega doutros tecidos
há um cofre e um poço – um poço metido dentro dum cofre
em vez dum cofre mergulhado no poço – há raízes
escuridão húmida onde medram as entranhas
noutra dimensão

homogeneizar luz é veneno
anula círculos desavindos por motor natural da porosidade
ruídos da linha férrea nos diálogos
desprende inversões que levam a um aposentamento progressivo

antes o rugido longínquo das trevas que é meu pai
expandir os sentidos para além da estratificação dos pesadelos
ir à cópula do inimaginável ou fingir sentir o advir do devir
expressão da carne mastigada pelos vermes
auspiciosos inquilinos do matadouro

escrevo esperando a reverberação óssea das metáforas
a serem excretadas pela enigmática abstracção

escrevo como se recuperasse eu o vermelho do sangue
como se espumejassem renascidas as vísceras em palpitação
escrevo espacejando os órgãos transmutados
contando com cicatrizes na via-láctea
cinzas de folhas assassinadas

[âmago zoológico]

concreto o fosso intransponível da linguagem
contra o tronco ideológico do polvo
porque a alegoria é das feras despidas de sua verdadeira carne
esfomeadas por remendarem-se a si mesmas
com carnes de herbívoros e moluscos

procuro um hiato onde caiba sem adjectivos
onde possa alinhar minhas raízes vertebrais
configurar consciência no húmus que sou
com toda a aridez possível
e agrafos na língua

por vezes parece que tenho banhistas no palato
apesar da secura e da vulnerabilidade com que falo
faz-me lembrar as praias onde medi o tesão das ondas
esquecendo-me da vegetação do texto

mas também a areia apodrece como as palavras
à luz da candeia pela qual dançam as aparências

: o túmulo é um quarto para roubar ar
– escasso –
uma passagem onde se escorraça o passado

[retracção carburante]

aqui os espelhos são insuportáveis
impregnam a identidade
compelem à repulsa perante a duplicidade da plataforma
porque no rebordo do principal mecanismo
rir é doença

só os túneis resistem à realidade frigorífica
neles sacudo as membranas ilegíveis
filio-me ao obscurantismo doloroso da escrita

[borrasca]

vejo com as mucosas – um jeito intransmissível
de regar o torso dos contextos – o muco
traz luz quando pinga no que
nem ouso tocar

apesar de me assoar a um pano que tresanda a agonia
peço-vos
não tenham medo da carne musical
toda a palavra é
uma glândula na iminência dos sentidos

Fonte: website do autor

Audrey Phillips



sexta-feira, 18 de abril de 2014

Sophia de Mello Breyner Andresen

TÚMULO DE LORCA
Em ti choramos os outros mortos todos
Os que foram fuzilados em vigílias sem data
Os que se perdem sem nome na sombra das cadeias
Tão ignorados que nem sequer podemos
Perguntar por eles imaginar seu rosto
Choramos sem consolação aqueles que sucumbem
Entre os cornos da raiva sob o peso da força

Não podemos aceitar. O teu sangue não seca
Não repousamos em paz na tua morte
A hora da tua morte continua próxima e veemente
E a terra onde abriram a tua sepultura
E semelhante à ferida que não fecha

O teu sangue não encontrou nem foz nem saída
De Norte a Sul de Leste a Oeste
Estamos vivendo afogados no teu sangue
A lisa cal de cada muro branco
Escreve que tu foste assassinado

Não podemos aceitar. O processo não cessa
Pois nem tu foste poupado à patada da besta
A noite não pode beber nossa tristeza
E por mais que te escondam não ficas sepultado

[In Geografia, OBRA POÉTICA, Alfragide, Caminho, 2011, p. 461].


Parque Federico García Lorca
Granada



quinta-feira, 17 de abril de 2014

Mariana Ianelli

OS TEUS OLHOS
Que estejam vivos em algum lugar
Os teus olhos -

Não importa onde se demorem,
Que coisas afaguem, que outras molestem,
Importa que estejam vivos e curiosos
Esses olhos

E olhem para dentro alguma vez
E o que vejam
Seja alguma força de sequoia
Presa à terra desde o império
De outros tempos

E seja ainda uma fonte de pedra,
Sejam águas correntes e o privilégio
De uma calma repleta
(O regozijo da sombra
Passado o terror das guerras)

Que dessa multidão, desse rubor de sumo
E segredo de floresta
Se encham os teus olhos,
E só então se esfumem, e só então se fechem.

[In O AMOR E DEPOIS, São Paulo, Iluminuras, 2012, p. 43]



quarta-feira, 16 de abril de 2014

Vinicius de Moraes

SONETO DO GATO MORTO
Um gato vivo é qualquer coisa linda
Nada existe com mais serenidade
Mesmo parado ele caminha ainda
As selvas sinuosas da saudade

De ter sido feroz. À sua vinda
Altas correntes de eletricidade
Rompem do ar as lâminas em cinza
Numa silenciosa tempestade.

Por isso ele está sempre a rir de cada
Um de nós, e ao morrer perde o veludo
Fica torpe, ao avesso, opaco, torto

Acaba, é o antigato; porque nada
Nada parece mais com o fim de tudo
Que um gato morto.

[In Nova antologia poética. Org. por Antonio Cicero e Eucanaã Ferraz. Rio de Janeiro: Companhia das Letras, 2008].

Sobre Vinicius de Moraes


Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...