quarta-feira, 7 de maio de 2014

Eloy Sánchez Rosillo

O VIAJANTE
Às vezes me pergunto o que teria sido de mim
sem as recordações que tão diligentemente guardo:
aquele beco que cheirava a madeira e fruta
num bairro úmido de Paris,
as árvores dormindo ao sol
numa antiga praça de Florença,
o órgão que vibrava na catedral de Orvieto
num amanhecer distante,
o barulho da chuva na janela
de um quarto no qual sofri,
os olhos escuros que me miraram
num crepúsculo de nem sei mais onde...

Quando a urgência dos trabalhos cotidianos
traspassa meus ossos e me impede
de respirar com amor os espessos odores,
frios, sem luz, como de hábito,
fecho os olhos, retorno lentamente
às terras que percorri em outro tempo,
aos lugares em que o olvido não impôs seu silêncio.
Acaricio os dias passados,
as horas que brilham na distância
como cidades reclinadas à beira da noite.

E penso com tristeza como era bonito andar tantos
[caminhos,
mas você  sabe que só posso pisá-los
com o pobre suporte da memória. 




terça-feira, 6 de maio de 2014

Nathan Alterman

LUA
Mesmo as imagens familiares têm um instante de nascimento.
Céus sem pássaros
são estranhos e fechados.
A noite fica à janela, ao luar,
e a cidade está mergulhada nas lágrimas dos grilos.

E ao ver que um caminho espera ainda um passante
e a lua
em cima da baioneta do cipreste,
dizes: meu Deus, tudo isso ainda existe?
Pode-se ainda, em voz baixa, perguntar como estão passando?

A água das poças olha-nos e reflete-nos.
A árvore descansa
com seus brincos vermelhos.
Nunca, meu Deus, arrancarão de mim
o sofrimento dos teus grandes brinquedos.

[Trad. Cecília Meireles]

[In Antologia da Literatura Hebraica Moderna, Rio de Janeiro, Biblos, 1969, pp. 42-43].

SOBRE NATHAN ALTERMAN

Pintura: Valevskaya Valentina Mihaylovna



segunda-feira, 5 de maio de 2014

Marianne Moore

O ARGONAUTA
   Para a autoridade com esperanças
que o mercenário é que concebe?
   O escritor seduzido pela
   fama do chá das cinco e pelo
conforto do trabalhador? Para eles não é que
   a fêmea do argonauta
   faz fina concha de vidro.

   Oferecendo o perecedouro
suvenir de esperança, o exterior
   de branco fosco e a superfície
   interna de bordas macias
acetinada como o oceano, a fazedora
   vigilante dela toma
   conta dia e noite; quase

   não come antes de chocar os ovos.
Em seus oito braços sepultada
   oito vezes, porque é num certo
   sentido uma espécie de polvo,
a carga de vidro velino-ovino embalada
   está oculta, não moída;
tal como Hércules, unhado

   por caranguejo leal à hidra,
teve êxito por tenacidade,
   os ovos intensivamente
   vigiados que saem da
concha a libertam ao ganharem liberdade —
   deixando o vespeiro de eivas
   de branco no branco e as dobras

   jônicas estreitas de quitão
iguais àquelas linhas na crina
   de um cavalo do Pártenon,
   em torno às quais os braços se
feriram, como se soubessem que a única
   fortaleza em cuja força
   se confia é o amor.

[In Poemas, seleção João Moura Jr.; tradução e posfácio José Antonio Arantes. São Paulo, Companhia das Letras, 1991, pp. 113-115].


domingo, 4 de maio de 2014

Hanna Senesh

COLHEMOS FLORES
Colhemos flores nos campos, nas montanhas,
Inspiramos o renovado ar da primavera.
O sol nos banhou com o calor de seus raios
Em nossa pátria, um lar que prospera.
Vamos ao encontro de nossos irmãos no exílio
Através do frio que o rigoroso inverno produz.
O coração trazendo a promessa da primavera.
Os lábios entoando uma canção de luz.
[Início de março, 1944].

MONTANHAS CELESTES...
Montanhas celestes para sempre banhadas em calma
Com calma me contagiaram.
Senhor! Permita que leve impressa na alma
O que as montanhas me inspiraram.
[Biela-Voda (Eslováquia), 1938].

NAS FOGUEIRAS DA GUERRA
Nas fogueiras da guerra, no incêndio, na queimada,
Dias tensos que o sangue sente bem,
Aqui estou com a minha pequena lanterna,
Procurando, procurando alguém.

As chamas do incêndio abafam minha luz,
O fogo me ofusca e não consigo ver;
Como olhar, observar, saber, intuir,
Quando na minha frente ele estiver?

Dê um sinal, Senhor, uma marca em sua fronte,
Para que no fogo, queimada e no sangue também,
Eu reconheça o brilho puro e eterno,
Como o tenho buscado: alguém.
[11 de outubro de 1940].

ÀS MÃES DA DIÁSPORA
Um dia e mais outro, uma semana ou duas,
Um ano ou década - esperar
Uma carta, uma linha ou até uma letra chegar.

Incontáveis as noites
Passadas sob os açoites
De imagens sonhadas com pavor.
Esconder num vasto mar
De sangue, de pesar,
Uma lágrima.
Que podemos responder deveras?
Um olhar, uma palavra apenas:
Mãe!
[18 de maio de 1942]. 

SEMENTE
Uma semente caiu, plantou-se, um amarelado grão,
Não entre as rochas, nem sobre a calçada, no chão.
Acolha-o - com sua camada de pó escuro,
Proteja-o do sol quente, do inverno duro,
Semente de vida encerrada em casca.
Segredo eterno, grânulo, gota, lasca,
Esperando sua deixa, na terra apertada ele vigia,
Por um sinal de primavera, raio de luz, sol, dia.
[24 de dezembro de 1942].

UM— DOIS — TRÊS
Um —Dois—Três... oito de extensão,
Dois passos é a largura da minha cela na prisão...
A vida paira sobre mim como uma interrogação.

Um—Dois—Três... mais uma semana, talvez,
Ou quem sabe eu ainda esteja aqui no fim do mês,
Mas sinto que a morte se aproxima com rapidez.

Eu podia ter feito vinte e três anos em julho.

O que é mais precioso, apostar decidi.
Dados foram lançados.
Perdi.
[Budapeste, 20 de junho de 1944].

A DANÇA DOS MINUTOS
A luz das lanternas empalidece na rua,
No céus, como brasa, as estrelas seguem queimando.
No meu coração uma nova esperança se acentua,
Pelo caminho da vida continuo vagando.
Ao meu redor, numa fila oculta ao olhar,
Surgem os momentos, numa roda a dançar
Um clamor e um êxtase vindos do além;
Eu os observo com um pouco de susto,
E. curiosa, por fim lhes pergunto,
O que, dentro de si, escondem tão bem?

Uns são a imagem da pura alegria,
Outros manifestam amargura sombria.
Um, carinhoso, só mostra afeições,
O outro se gaba de quebrar corações.

Todos se vão, outros logo aparecem,
São todos distintos, porém se parecem,
E esta animada cadeia continua,
Até o dia em que desapareça a lua.
Eles vêm sem cumprimentar,
E se vão sem se importar,
Flutuam sempre em silêncio absoluto,
Rumo ao infinito dissoluto.
[Fevereiro de 1937].

Sobre Hanna Senesh

[In Diários, Poesias, Cartas, Organização e Tradução do Hebraico, Inglês e Espanhol de Frida Milgrom, Tordesilhas, São Paulo, 2011].



sábado, 3 de maio de 2014

Katherine Mansfield

DIÁRIO
24 de dezembro de 1915
     Sentar-se em frente a um fogo de lenha, mãos cruzadas no colo, olhos fechados. Imaginar-se vendo, além das pálpebras, toda a beleza dançante do dia. Sentir na garganta o calor, como eu imaginava sentir a mancha amarela, quando Bogey segurava sob o queixo um botão-de-ouro, quando a respiração é tão gostosa que se tem medo até de respirar, é como sentir no peito o adejar de uma borboleta. Provar o calor do sol que se derreteu na boca; sentir ainda a branca fragrância maleável que se estende sobre os campos de junquilhos e o odor selvagem e saboroso do alecrim que cresce em pequenos tufos entre as tochas vermelhas próximas da beira-mar.
     A lua está surgindo, mas o dia relutante se prolonga entre o mar e o céu. O mar está salpicado de um tom rosa, da cor das cerejas ainda não maduras, e no céu há uma luz amarela flutuante, como as asas dos canários. Muito resistentes e firmes são os troncos das palmeiras. Emergindo de seu topo, os rijos buquês verdes parecem cortar o ar da tarde e entre eles as árvores de goma azuis, altas e esguias, com folhas em formato de foice e ramos pendentes meio azuis, meio violetas. A luz está justamente acima da montanha atrás da aldeia. Os cães sabem que ela está lá; já começam a latir. Os pescadores gritam e assobiam uns para os outros, enquanto recolhem os barcos. Alguns jovens cantam à meia-voz lá embaixo, na praia, e há som de choro de criança, criancinhas com as faces queimadas e com areia entre os dedos, sendo levadas para casa, para a cama.
     Estou cansada, alegremente cansada. Você acha que as margaridas se sentem alegremente cansadas, quando se recolhem para a noite e o orvalho desce sobre elas?

1916
22 de janeiro — O que é, realmente, que desejo escrever? Eu me pergunto: sou agora menos escritora do que costumava ser? A necessidade de escrever é agora menos urgente? Ainda me parece natural buscar essa forma de expressão? A linguagem a terá preenchido? Eu pretendo algo mais que relatar, relembrar, encorajar-me?
     Há ocasiões em que esses pensamentos me deixam meio assustada e quase me convencem. Eu digo: “Você está agora tão satisfeita consigo mesma, por estar ativa, por estar viva, por viver, por aspirar a um sentido maior para a vida e a um sentimento de amor mais profundo, que aquela outra coisa se foi de você.”
     Mas não, no fundo não estou convencida, pois no fundo jamais meu desejo foi tão ardente. Apenas a forma que eu escolheria mudou por completo. Não me preocupa mais a mesma aparência das coisas. As pessoas que viveram, ou que eu desejava trazer para minhas histórias, não me interessam mais. Os enredos de minhas histórias me deixam inteiramente desinteressada. Admitindo que essas pessoas existam e todas as diferenças, complexidade e resoluções sejam verdadeiras para elas — por que iria eu escrever sobre elas? Não estão próximas de mim. Todos os fios falsos que me prendiam a elas estão cortados por completo.
     Agora, agora quero escrever as recordações de meu país natal até que o estoque se acabe. Não apenas por ser uma “dívida sagrada” que saldo com meu país, por termos nascido lá, meu irmão e eu, mas também porque em meus pensamentos caminhamos os dois por todos aqueles lugares relembrados. Nunca me sinto longe deles. Desejo ardentemente recriá-los ao escrever.
     Ah, as pessoas — as pessoas que amamos, lá — sobre elas também eu quero escrever. Outra “dívida de amor”. Por um momento eu quero fazer nosso país desconhecido saltar aos olhos do Velho Mundo. Ele deve ser misterioso, como se flutuasse. Deve tirar o fôlego. Deve ser “uma daquelas ilhas”. Vou contar tudo, até mesmo como a cesta de lavanderia guinchava e chiava. Mas tudo deve ser contado com um senso de mistério, uma luminosidade, um arrebol, porque você, meu pequeno sol, se pôs. Você perpassou a ofuscante orla do mundo. Agora eu devo fazer a minha parte.
     Depois, quero escrever poesia. Sempre estremeço ante a poesia. A amendoeira, os pássaros, o bosquezinho onde você está, as flores que você não vê, a janela aberta sobre a qual eu me debruço e sonho que você está encostado em meu ombro, as vezes em que sua fotografia parece triste. Mas quero escrever, sobretudo eu quero escrever uma espécie de longa elegia para você. Talvez não em poesia. Nem em prosa, talvez. Quase com certeza num tipo de prosa especial.

[...]
 .
17 de fevereiro — Estou triste, hoje. Talvez seja o velho vento lúgubre. Pensar em você, em espírito, não é o bastante neste momento. Quero você ao meu lado. Preciso me lançar a fundo no meu livro. Então, ficarei feliz. Perder-me, perder-me para encontrar você, querido. Ah, quero que este livro seja escrito. Preciso fazê-lo. Ele deve ser encadernado, empacotado e mandado para a Nova Zelândia. Sinto isso, de todo o coração. Assim será feito.

[Excerto de Diário & Cartas, Tradução de Julieta Cupertino, Revan, Rio de Janeiro, 1996, pp. 60-62]

Sobre Katherine Mansfield





sexta-feira, 2 de maio de 2014

Hélia Correia

EXCERTO DE "A CASA ETERNA"

   «Suba, tome sentido nos degraus», recomenda a mulher e toma a dianteira. Alterou-se-lhe a voz que era fraca, hesitante e agora empurra autoritariamente as vibrações do ar.
    Esta casa que eu tanto imaginara, querendo ver levantados os cheiros, as paredes, circula no entanto como um redemoinho de pós e de bolores em tomo das chinelas de Perpétua. O que quer que existiu aqui está já desfeito. Não houve tempo para que a podridão tratasse dos lugares a seu modo, um por um, conforme os usos, conforme as horas que lhes foram dedicadas. É um corredor velho e sem memória. Está reduzido à sua própria sombra. «Olhe se põe um pé em falso, olhe o soalho», diz a mulher, mas não me guia os passos. As suas chinelitas de fazenda parecem saltitar, tomam-se leves e como que doiradas naquela escuridão, brilham e apagam-se à maneira dos insectos. A madeira ressoa cavamente, está feita um algodão, fofa, sem consistência. E os passos flutuam numa fascinação de pesadelo.
    O que há por trás das portas? vou dizendo. Nada, coisas, responde. Bicharada. Há com certeza luz, vidraças por abrir. A caseira rirá, terá essa luxúria de me pôr aos tacteios, de me fazer talvez torcer um tornozelo, limpa que traz a superfície de consciência. «Bem avisei, não quis tomar cautela...» Terminando-se assim esta intrusão em acabrunhamento, em vergonha dorida. «Uma estranha, dirá, depois, na padaria, chegar ali como uma estranha, a querer ver tudo.» E encolherá os ombros, indignada.

    «Pronto, aqui era o quarto», diz Perpétua e cola-se à ombreira para me deixar passar. Avisto a colcha de algodão adamascado, cor de romã, ainda arrepanhada, sob uma manta e os estilhaços do entulho. «Vê a perna da cama? É com os livros. Ou vinha tudo por aí abaixo.»
    A casa deve ter os seus recursos para se limpar de todas as presenças. Faz sentir que jamais alguém aqui entrou. O espírito dos anos lambeu-se e sacudiu-se como um bicho de pêlo. E tudo se tomou silencioso e vazio.

    «Não esteve aqui ninguém», penso em voz alta. Mas a mulher aceita a frase sem ouvir, põe-se de novo a chinelar à minha frente. Leva-me ao rés-do-chão, ao lado da cozinha, ao que fora talvez uma casa da lenha, um cubículo fresco, com janelo. «Aqui, trazia-a mais debaixo de olho.»
    Há como que um instinto narrativo na escala com que ordena esta visita, um faro que estabelece e isola os fulcros onde o que quer que fosse de ousado e misterioso veio a ter um lugar. Também aqui não restam vestígios da sobrinha, a não ser umas tachas que afixavam decerto cartazes nas paredes. «Tinha aí um divã, as roupas numa cesta. Queria era tomar banhos que eu sei lá.»
    Aos poucos reencontra o gosto pela fala. Aliviou o medo e eu prefiro parar de lhe fazer perguntas. Dá-me entrada na sala de jantar onde os aparadores descaem levemente porque o chão abateu. Na grande mesa de castanho, aberta, amontoam-se malgas amarelas, garrafões com a palha apodrecida. No lambril de azulejos há emendas absurdas, pastoras e moinhos cortam aqui e além aquilo que parece um antigo painel com cenas de tapada. Junto às duas janelas com banquinhos, alguém deu grandes chapadões de cal para alisar o esventramento da parede.
    Perpétua faz subir uma vidraça, debruça-se a cheirar as árvores, o terreiro, e isso fá-la cobrar alguma cor. «Sentava-se-me aqui, diz ela, a tarde inteira.» Não compreendo acerca de quem fala. O sol-poente pega-lhe ao cabelo um fogo quase negro, de carvão.
    Dos buracos do chão vem o bafo das velhas areias de uma adega onde durante muitos anos azedaram as espumas do vinho que fervia. Não sinto encantamento algum em tudo aquilo e é por isso que faço brutalmente a pergunta:
    — Acha que não passou de uma história de amor?
    A mulher vira a cara para mim, mas por acção do sol ou do que quer que seja, deixou completamente de me ver.
    — Assim — insisto ainda — como nestas novelas?
    Ela sacode os ombros, fatigada. Conduz-me, chinelando, para a saída, tomada de repente por uma pressa, um tique de ansiedade. Dir-se-ia que quer expulsar-me antes da noite. À porta, ri-se e encara-me por fim:
    — Aquilo foi o diabo. E o que foi.
    Fica a dizer-me adeus, hospitaleira, amável, tendo aos pés o cão fulvo que a chegada da noite agora arroxeou.

[In A Casa Eterna, Relógio D´Água, Lisboa, 1999, pp. 39-41]

Foto by Ralph Eugene Meatyard

By Ralph Eugene Meatyard


quinta-feira, 1 de maio de 2014

Maria do Sameiro Barroso

CANÇÃO DAS CEREJEIRAS EM MAIO
Antigamente, as luas rodavam de outra forma,
as
pombas traziam-me a luz, o seu hálito,
por entre plátanos, madressilva e taças cheias
de cerejas, música.

Era quando os rios desaguavam em Maio,
anunciando
os dióspiros, os touros aquáticos, os touros do sol.
No mar, também as velas me festejavam
na sombra, na luz.
No Oriente as cerejeiras confluíam, em seu lume
claro, deslumbrante,
as suas flores caindo de uma só vez.

Nas cordas do ser, os harpejos fluíam e o céu
desprendia-se, de uma só vez,
na finitude amena


dos seus ramos de esplendor.

[In Poemas da Noite incompleta, Ed. Escrituras: São Paulo, 2010, p. 197]. 

Foto: Mauj Alexandre


Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...