segunda-feira, 16 de junho de 2014

Maria do Rosário Pedreira

Quando eu morrer; não digas a ninguém que foi por ti.
Cobre o meu corpo frio com um desses lençóis
que alagámos de beijos quando eram outras horas
nos relógios do mundo e não havia ainda quem soubesse
de nós; e leva-o depois para junto do mar, onde possa
ser apenas mais um poema — como esses que eu escrevia
assim que a madrugada se encostava aos vidros e eu
tinha medo de me deitar só com a tua sombra. Deixa

que nos meus braços pousem então as aves (que, como eu,
trazem entre as penas a saudade de um verão carregado
de paixões). E planta à minha volta uma fiada de rosas
brancas que chamem pelas abelhas, e um cordão de árvores
que perfurem a noite — porque a morte deve ser clara
como o sal na bainha das ondas, e a cegueira sempre
me assustou (e eu já ceguei de amor, mas não contes
a ninguém que foi por ti). Quando eu morrer, deixa-me

a ver o mar do alto de um rochedo e não chores, nem
toques com os teus lábios a minha boca fria. E promete-me
que rasgas os meus versos em pedaços tão pequenos
como pequenos foram sempre os meus ódios; e que depois
os lanças na solidão de um arquipélago e partes sem olhar
para trás nenhuma vez: se alguém os vir de longe brilhando
na poeira, cuidará que são flores que o vento despiu, estrelas
que se escaparam das trevas, pingos de luz, lágrimas de sol,
ou penas de um anjo que perdeu as asas por amor.

[In O canto do vento nos ciprestes, São Paulo, Escrituras, 2008, p. 43]





domingo, 15 de junho de 2014

David Mourão-Ferreira

E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos    E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites      não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos

[In Matura Idade]

Sobre David Mourão-Ferreira

Foto by Lucio Piacentini


sábado, 14 de junho de 2014

Glória de Sant'Anna

PARALELO
Dentro da água eu sou exacta.

Minhas mãos buscam ( não como defuntas mãos
segurando por acaso translúcidas algas)
mas abandonadas.

Entre a areia lúcida do fundo
e a claridade caíndo predestinada,
meu corpo não é morto
mas se deslassa.

A mesma transparente identidade
brota de mim e da água,
e deslizam indiferentes a nós
pequenos peixes de prata.

A tranquila vaga que me sustém
e onde o meu rosto quieto se alaga,
é tão nítida e simples como eu
que resvalo sem rumo na límpida estrada.

Sem vestido ou lembrança
onde o conhecimento se desfaça,
meu cabelo se alonga
e prossigo descalça.

As nuvens que me perseguem
são de água
e se desdobrarão
no vento que as desata.

[In Amaranto, Coimbra, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1988, p. 64]





quinta-feira, 12 de junho de 2014

Boris Pasternak

Ah, se eu antes soubera desta sina,
Quando me preparava para a estreia,
Que há morte nestas linhas, – assassinas!,
como um golpe de sangue na traqueia.
Os folguedos desta busca de avessos
Eu deixaria, inúteis, de uma vez
Já tão remoto o esforço do começo,
Tão temeroso o primeiro interesse.
Mas a velhice é Roma. Não lhe peça
Que venha com estórias de ninar.
Ela exige do ator mais que uma peça,
Uma entrega total, um naufragar.
Quando o verso é um ditado do mais íntimo,
Ele imola um escravo em cena aberta.
E aqui termina a arte, o pano fecha,
Ao respirar da terra e do destino.
(1932)

[Tradução de Boris Schnaiderman e Haroldo de Campos]


terça-feira, 10 de junho de 2014

Luís Miguel Nava

SEM OUTRO INTUITO
Atirávamos pedras
à água para o silêncio vir à tona.
O mundo, que os sentidos tonificam,
surgia-nos então todo enterrado
na nossa própria carne, envolto
por vezes em ferozes transparências
que as pedras acirravam
sem outro intuito além do de extraírem
às águas o silêncio que as unia.

[In Poesia Completa: 1979-1994, Lisboa: Publicações D. Quixote, 2002].


segunda-feira, 9 de junho de 2014

Rogério Luz

POEMAS SELECIONADOS
FRANCIS BACON
Está todo ser vivo
tingido pelo fim. Uma pintura
vermelha no tecido
de momentos obscuros
envolve esta ferida que não cura.

MINOTAURO
Perdeu-se o Minotauro
no próprio labirinto. Agora erra
divino e sanguinário
pelos muros de Creta
na fúria sem caminhos desta Terra.

MNEMOSINE
O que passou perdura
em algum tempo, lugar ou sentimento
ou morreu à procura
de mais esquecimento
do que permite a humana desventura?
na fúria sem caminhos desta Terra.

AGOSTINHO
Jamais cidade alguma
extinguirá, sedentária, tua fome:
as cidades (as duas,
a de deus e a dos homens)
pouso não te darão, pois não tens nome.

CONRAD
l.
O limite de sombra.

Obrigado a abrigar
o inimigo mortal dentro do peito
na luta desigual o destino antevês
de um ser que ser mortal o fez perfeito.

II.
Água parada, o rio
move o dorso do ar rumo ao obscuro
abismo sem destino.
A treva não tem rumo
e o próprio sangue flui sob este luto.

[In Suplemento Literário de Minas Gerais, Belo Horizonte, Imprensa Oficial do Estado de Minas Gerais, edição 1.353, p. 15]

Rogerio Luz (Rio de Janeiro, 1936), poeta, artista plástico e ensaísta, com trabalhos publicados nas áreas de estética, psicanálise e crítica de arte, foi professor universitário na UFPb, UFF, UFRJ e UERJ. Publicou, além de poemas em revistas e coletâneas, os seguintes livros de poesia: Diverso entre contrários (Rio: Contra Capa, 2004), Correio Sentimental (S.Paulo: Giz Editorial, 2006) e Escritas (Goiânia: Editora UFG, 2011).


domingo, 8 de junho de 2014

Weydson Barros Leal

A HERANÇA
Nada resta a este inventário - feitas
as contas depois da viagem - além  
das perdas do esquecimento ou
o surdo motivo de uma lembrança.

Afinal, um testamento é só o calendário
onde a cada dia podes contar teus bens
e lembrar que o relógio é a moenda
por onde a vida passa e tudo isso acaba.

Por isso eu te guardo, e lembro, e canto,
como a herança que, se fosse declarada,
seria entregue ao mundo como a chama
que acende a vida e jamais se apaga.

POEMA DO AMOR MELHOR
Amo a imperfeição das sebes,
as dúvidas do tempo no
relógio da chuva,
as instâncias do fogo ao respirar
a própria luta,
o talho da semente
ao explodir em planta, em fruta.
O amor não caminha sempre reto,
sem mácula, imune,
o amor também é o fardo
de sua incompletude,
é a incoerência de algo
que lhe custe.
O amor é o entendimento
do imprevisto, do louco, do absurdo,
é o corpo que não cabe
mais na roupa, no seu molde,
em seu ajuste,
mas quando tudo está perdido
é o amor a esperança que nutre.
O amor às vezes
se desnuda
sob a dor que ausenta e pune
na distância do abraço
quando um nó confunde o laço.
O amor resiste sendo carne, flecha, alvo,
pois em seu íntimo organismo vive
a força intraduzível,
a definição
do mais difícil.
Vencer um rio imenso,
um deserto ou a mais alta
cordilheira,
não é nada diante desse fogo
que sabe a vida inteira
a certeza do outro.

(Inéditos)

Photo by Renato Santicchia‎


Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...