segunda-feira, 23 de junho de 2014

Emily Dickinson

Foi como um Furacão aberto ao meio
Que mais e mais se aproximando 
Estreitasse o seu Círculo de fúria 
Até que uma Aflição

Pôs-se fria a brincar com o arremate
De uma Bainha imaginária -
E algo partiu-se - e às cegas tu caíste -
E acordaste afinal -

Foi como se um Duende com uma Escala
Todas as Horas conferisse -
Até que o teu Segundo sem remédio
Foi aos seus Pés cair -

E nem mais os teus Nervos te acudiam -
Tua razão abandonou-te -
E Deus então - lembrou-se - aí o Demo
Te soltou - e se foi -

Como se o frio dos Porões deixando
Para cumprir tua Sentença
Do conforto da Dúvida saísses
Para a Forca - e o Além -

E quando um Véu te costurava os olhos
Viesse alguém bradar - “Já chega!”
Que Tortura maior então seria -
Perecer - ou viver?

[In A branca voz da solidão, tradução de José Lira, São Paulo: Iluminuras, 2011, p. 223].



domingo, 22 de junho de 2014

Stefan Zweig

O MUNDO QUE EU VI - Excerto
Pessoas dessa espécie, tão rara, foram de grande vantagem para um principiante; mas ainda me faltava receber o ensinamento decisivo, o ensinamento que deveria servir para a vida inteira e que me foi dado, como um presente, pelo acaso. Em casa de Verhaeren travamos discussões com um historiador da arte, que declarou haver terminado a época da grande plástica e da pintura. Protestei energicamente. Perguntei se ainda não existia Rodin, que como plástico não era menor do que os grandes do passado. Principiei a enumerar as suas obras e, como sempre quando alguém combate uma opinião, tornei-me quase colérico. Verhaeren sorria consigo mesmo. Por fim disse: « Quem gosta tanto de Rodin deveria conhecê-lo pessoalmente. Amanhã irei ao seu atelier. Se quiseres, poderás ir comigo ».

Está claro que eu haveria de querer. Não pude dormir de alegria. Mas em casa de Rodin fiquei sem poder falar. Nem pude dirigir-lhe a palavra e fiquei entre as estátuas corno uma delas. Parece que esse meu embaraço agradou a Rodin, pois à despedida o bom velho me perguntou se eu queria ver o seu verdadeiro atelier, em Meudon, e convidou-me mesmo para almoçar. Eu tivera o primeiro ensinamento, a saber, que os grandes homens são sempre os mais bondosos.

O segundo foi que eles quase sempre são em sua vida os mais simples. Em casa desse homem, cuja fama enchia o mundo, cujas obras estavam presentes, linha por linha, à nossa geração, a comida era tão simples como em casa dum camponês de condição média: uma carne substancial e boa, algumas azeitonas, frutas em abundância e, além disso, um saboroso vinho nacional. Isso deu-me mais ânimo, por fim eu já falava com desembaraço, como se esse velho e sua esposa fossem meus íntimos desde muitos anos.

Após a refeição fomos ao atelier. Era uma grande sala em que estavam as mais importantes de suas obras em gesso; entre elas viam-se também centenas de preciosos pequenos estudos — uma mão, um braço, uma crina de cavalo, uma orelha de mulher, a maior parte delas apenas em gesso; ainda hoje conservo perfeitamente a lembrança de alguns desses esboços feitos apenas para exercício, e poderia falar durante horas sobre a hora que passei naquele atelier. Por fim, o mestre me levou para junto dum pedestal sobre o qual estava a sua última obra, coberta com panos úmidos, uma estátua de mulher. Com suas mãos pesadas e enrugadas, de camponês, retirou os panos e recuou. Sem querer soltei um «admirável! » e imediatamente me envergonhei dessa banalidade. Mas com a serena objetividade, em que não poderia encontrar-se uma partícula de vaidade, contemplando sua obra, murmurou ele: « De fato ». Depois hesitou. « Apenas ali na espádua... um momento! » Sacou do casaco, vestiu a blusa branca, pegou uma espátula e com um movimento magistral alisou a pele macia da espádua daquela mulher, .que parecia estar viva e respirar. Novamente recuou. « E agora aqui », murmurou ele. Outra vez, com um diminuto pormenor, fora aumentado o efeito. Depois não falou mais. Avançou e recuou, olhou a estátua num espelho, murmurou e proferiu sons ininteligiveis, modificou, corrigiu. Seus olhos, que à mesa se mostravam afáveis e distraídos, nesse momento tremiam sob a influência de luzes estranhas, parecia que ele se tornara mais alto e mais moço. Trabalhou, trabalhou, trabalhou com toda a diligência e força de seu corpo vigoroso e pesado; toda vez que energicamente avançava ou recuava, o assoalho estalava. Mas ele não ouvia os estalos. Não notava que atrás dele estava, sem dizer palavra, um jovem embevecido, ditoso por poder ver um mestre daqueles em seu trabalho. Ele se esquecera inteiramente de mim. Para ele eu não estava ali. Para ele ali só estava a estátua, a obra e, por trás dela, invisivelmente, a visão da perfeição absoluta.

Passou-se um quarto de hora, meia hora; já não sei quanto tempo se passou. Os grandes momentos estão sempre fora do tempo. Rodin estava tão absorto, tão engolfado em seu trabalho que nem um trovão o teria distraído dele. Seus movimentos iam-se tornando cada vez mais violentos, quase coléricos; ele fora tomado de uma espécie de exaltação ou de ebriedade, trabalhava cada vez mais depressa. Depois as mãos se tornaram hesitantes. Pareciam haver reconhecido que nada mais lhes restava fazer. Ele recuou uma, duas, três vezes, sem modificar nada mais. Depois murmurou algumas palavras, colocou os panos em torno da estátua tão carinhosamente como alguém põe um chale sobre os ombros da mulher amada. Respirou profundamente e aliviado. Seu corpo pareceu tornar-se de novo mais pesado. O fogo extinguira-se. Deu-se então o que eu ignorava, deu-se o grande ensinamento. Rodin despiu a blusa, vestiu o casaco e já ia sair. Nessa hora de extrema concentração esquecera-se inteiramente de mim. Já não sabia que um jovem, que ele próprio levara ao atelier para lhe mostrar suas obras, estivera ali atrás dele, com a respiração opressa, imóvel como as estátuas.

Encaminhou-se para a porta; no momento em que ia fechá-la deu comigo e fitou-me quase zangado: quem era esse jovem desconhecido que havia entrado às escondidas no seu atelier? Mas imediatamente se lembrou de tudo e quase envergonhado se dirigiu para mim: « Desculpe-me », disse ele, mas eu não o deixei continuar a falar e peguei agradecido a sua mão e tive vontade de beijá-la. Eu acabara de ver revelado o eterno segredo de toda grande arte, verdadeiramente de toda produção de valor nesse mundo: concentração, reunião de todas as forças, de todos os sentidos, empolgamento do artista todo. Eu aprendera alguma coisa para o resto de minha vida.

[In O mundo que eu vi (minhas memórias), Tradução de Odilon Gallotti, Rio de Janeiro, Guanabara, 1944, pp. 138-140].

sábado, 21 de junho de 2014

Yehuda Amichai

DE TODOS OS VAZIOS...
De todos os vazios entre os tempos,
de todas as distâncias entre as filas de soldados,
das brechas do tapume,
das portas que fechamos mal,
das mãos que não juntamos bem,
do vazio entre os nossos corpos que não apertamos
um contra o outro —
nasce uma extensão vasta que se desdobra,
uma planície, um deserto,
por onde nossa alma irá sem esperança, depois da morte.

A MORTE DE MEU PAI
Meu pai, de repente, de todos os aposentos
partiu para suas estranhas lonjuras.

Ele partiu para chamar seu Deus
para que nos viesse ajudar agora.

E Deus já chegou, como um operário, servente
e pendurou seu casaco num prego da lua.

Mas nosso pai, que foi buscá-lo,
Deus o guardará para sempre consigo.

TUA VIDA E TUA MORTE, MEU PAI
Tua vida e tua morte, meu pai,
estão pousadas nos meus ombros.
Minha mulher nos trará
água.

Vem e bebamos, meu pai,
às minhas flores, às idéias,
pois tu me esperavas
e já não sou mais esperado agora.

Tua boca entreaberta, meu pai,
cantava e eu não ouvi.
A árvore do pátio era profeta
e eu não o soube.

Só teu passo, meu pai,
continua a caminhar no meu sangue.
Outrora foste o meu acompanhante.
Sou eu que te acompanho agora.

(Tradução: Cecília Meireles)

[In Antologia da Literatura Hebraica Moderna, Rio de Janeiro, Biblos, 1969, pp. 84-85]





Yehuda Amichai, nascido na Alemanha em 1924 e educado em Israel. Participou da Guerra da Independência e estudou a Língua Hebraica. Publicou três coleções poéticas que lhe valeram o prêmio Shlonski. Faleceu em Jerusalém no ano 2000.






sexta-feira, 20 de junho de 2014

Rui Costa

PARQUE DA CIDADE
o cão é uma extensão da floresta,
foi posto ali para compensar o nosso desprezo
por mapas e satélites que nos indicam sempre
uma saída. já não podemos perder-nos na floresta
com celulares no bolso, e seria tão bom que pudéssemos
amar-nos também assim, com o frio da noite a roer-nos os
ossos e a fome a disputar a atenção das nossas bocas, desalojados
definitivamente do mundo.
deixámos em casa os produtos da tecnologia. levámos apenas os nossos
corpos, sabendo que há dez mil anos que não os sujeitamos aos necessários
upgrades. os teus pés não doíam nos meus sapatos, e a minha impaciência
entretinha-se com o teu pescoço.
quando a trilha escureceu eu comecei a acreditar.
dissolvia-se a memória das casas no último verde tocado
pelo sol. um inocente segundo passo separava-nos da dignidade
do assombro. em breve estaríamos perdidos, amarrados a um
labirinto maior que todos os nossos sonhos. morreríamos abraçados, lindos,
e todos os amantes da História teriam inveja de nós.
Mas eu esquecera-me que neste país algumas pessoas constroem
casas no meio de florestas públicas como a floresta da Tijuca.
Privilégios herdados, que são o fruto de histórias feitas
com armas menos ingénuas do que as nossas, meu amor.
E os dentes do cão que corria para nós pareceram-me grandes como
as estratégias dos homens que me vencem na política.
Quer dizer, tive medo.
Toda a minha concentração foi usada na criação de um
semblante calmo, de um corpo estável, e quando tu te escondeste
atrás de mim e me agarraste as costas, eu nem sequer tremia.
Conclusão: não nos perdemos na floresta, como eu queria, mas também
não fomos devorados pelo rottweiller de olhos brilhantes.
A vida tem destas coisas. Tem muitas coisas destas.
Regressámos pela mesma trilha ao centro da cidade, jantámos,
tomámos, café, e só não morremos abraçados para sempre
porque às 8 horas em ponto da noite de domingo um ónibus te levaria,
com excessos de ar condicionado, da (nossa) eterna cidade do Rio de Janeiro.

SOBRE RUI COSTA


quinta-feira, 19 de junho de 2014

Glória de Sant'Anna

POEMA
A água é funda, a água é funda.
Não tem destino que se pressinta.
(O que nos liga são nossas mágoas
e nossas iras.)

A água é grave, a água é grave.
Não há remorso que a dilacere.
(O que nos liga são nossa fome
e nossa espera.)

A água é pura, a água é pura.
Não há segredo que a deteriore.
(O que nos liga são nossas ilhas
e nossos mortos.) 

POEMA AGRESTE
Não sei por que buscas palavras longas
para as coisas breves que nos assombram.

Não sei por que teces teias enormes
para as incertezas que nos envolvem.

Não sei por que insistes. Não sei porque insistes
cm prender meus passos nesse limite.

[In Amaranto, Coimbra, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1988, pp. 110-111]



quarta-feira, 18 de junho de 2014

Rainer Maria Rilke

OS CADERNOS DE MALTE LAURIDS BRIGGE - EXCERTO

Às vezes passo diante de pequenas lojas na Rue de Seine, por exemplo. Negociantes de coisas velhas ou pequenos alfarrabistas ou vendedores de gravuras em cobre com vitrines abarrotadas. Jamais alguém entra em seus estabelecimentos; é manifesto que não fazem negócios. Quando olhamos para dentro, porém, eles estão sentados, estão sentados e leem sem preocupações; não se preocupam com o amanhã, não se inquietam com o sucesso, têm um cão, que fica sentado diante deles, bem-disposto, ou um gato que toma o silêncio ainda maior ao passar pelas fileiras de livros como se apagasse os nomes das lombadas.

Ah, se isso bastasse: às vezes, gostaria de comprar uma dessas vitrines repletas e me sentar atrás dela com um cão durante vinte anos.

É bom dizer em voz alta: “Não aconteceu nada”. Mais uma vez: “Não aconteceu nada”. Isso ajuda?

[In Os cadernos de Malte Laurids Brigge, tradução e notas de Renato Zwick, Porto Alegre, L&PM, 2010, pp. 33-37]. 


segunda-feira, 16 de junho de 2014

Marco Lucchesi

GALA PLACÍDIA
Ó Gala, nos teus olhos considero
os astros que se apagam, junto ao mar,
levados pelo vento, áspero e fero,
no dorso amanhecente do jaguar.
Imersa no segredo, enquanto espero,
nas pedras de um mosaico circular,
descansa teu semblante tão severo
e sonha com a glória de além-mar.
As Cidades, distantes e perdidas,
renascem no mistério que consome
as cidades submersas, esquecidas.
Ó Gala, não desistas de teu nome,
que o Cristo Pantocrator das ermidas
se abisma no infinito dessa fome.

[In Poemas Reunidos, São Paulo, Record, 2000, p. 55]



Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...