S. Martinho de Anta, 28 de setembro de 1965.
UM POEMA
Um poema, poeta!
É o que a vida te pede.
A fome diligente
Colhe
E recolhe
Os frutos e a semente
Doutros frutos.
Junta à fecundidade
Da natureza
Os frutos da beleza...
Versos grados e doces
Na festa do pomar!
Versos, como se fosses
Mais um ramo, a vergar.
Coimbra, 5 de Novembro de 1965.
CAUDAL
Ergo a voz no silêncio hostil do mundo,
Como um galo que canta a horas mortas.
Nem me posso calar,
Nem posso amortecer
A força que faz dela um desafio.
A fonte brota, e tem logo ao nascer
O ímpeto dum rio.
E o rio não tem foz dentro de mim.
Some-se às vezes, não sei como e onde,
Mas reaparece.
E retoma de novo o curso desabrido,
Mais largo, mais barrento
E violento,
E sem que eu lhe descubra o íntimo sentido.
Monforte do Alentejo, 30 de Novembro de 1965-
SERÃO
Lento, o poema
Vai ardendo e abrindo
Na fogueira.
E ponho-me a cantá-lo,
Sonolento:
Lume alentejano
De lenha de azinho;
Calor do calor...
O sol da charneca,
Depois de ser tronco,
Depois de ser rama,
Depois de cortado,
Depois de secar
À própria torreira,
Ainda a brilhar
No céu da lareira!
[In Diário X, In Poesia Completa, Vol. II, Lisboa, Dom Quixote, 2007, p. 308-309]
terça-feira, 1 de julho de 2014
segunda-feira, 30 de junho de 2014
Edmond Jabès
E Yukel fala:
Busco-te.
O mundo onde te busco é um mundo sem árvores.
Nada além de ruas
vazias,
ruas nuas.
O mundo onde te busco é mundo aberto a outros mundos sem nome,
ruas nuas.
O mundo onde te busco é mundo aberto a outros mundos sem nome,
um mundo onde não
estás, é aí que te busco.
Há teus passos,
teus passos que
sigo e espero.
Segui o lento
caminhar de teus passos sem sombra
sem saber quem eu
era,
sem saber para
onde ia.
Um dia lá
estarás.
Aqui, ou em outro
lugar,
um dia como todos
os outros.
Talvez, amanhã.
Tenho seguido,
para chegar a ti, outros caminhos amargos
onde o sal quebra
o sal.
Tenho seguido,
para chegar a ti, outras horas, outras orlas.
A noite é uma mão
para quem segue a noite
À noite, caem
todos os caminhos.
Era necessária
essa noite em que peguei tua mão, quando estávamos sozinhos.
Era necessária
essa noite como era necessário esse caminho.
No mundo onde te busco és a grama e o degelo.
És o grito
perdido em que me extravio.
Mas és também,
ali onde nada vela, o esquecimento feito de cinzas de espelho.
sábado, 28 de junho de 2014
Gregório Duvivier
a baía de guanabara é uma sopa de óleo
diesel detritos ferramentas sal de lágrimas
e a saudade dos que já partiram — quando
atingimos seu vórtice devemos jogar cinzas
anéis e outros restos mortais de uma pessoa
a ser engolida pelos deuses subaquáticos
pois para isso cariocas fomos feitos — para
salgar esse imenso caldo que nos banha.
[In Ligue os pontos poemas de amor e big bang, Companhia das Letras, São Paulo, 2013, p. 35].
SOBRE GREGÓRIO DUVIVIER
diesel detritos ferramentas sal de lágrimas
e a saudade dos que já partiram — quando
atingimos seu vórtice devemos jogar cinzas
anéis e outros restos mortais de uma pessoa
a ser engolida pelos deuses subaquáticos
pois para isso cariocas fomos feitos — para
salgar esse imenso caldo que nos banha.
[In Ligue os pontos poemas de amor e big bang, Companhia das Letras, São Paulo, 2013, p. 35].
SOBRE GREGÓRIO DUVIVIER
sexta-feira, 27 de junho de 2014
Mário Faustino
DIVISAMOS ASSIM O ADOLESCENTE
Divisamos assim o adolescente,
A rir, desnudo, em praias impolutas.
Amado por um fauno sem presente
E sem passado, eternas prostitutas
Velavam por seu sono. Assim, pendente
O rosto sobre um ombro, pelas grutas
Do tempo o contemplamos, refulgente
Segredo de uma concha sem volutas.
Infância e madureza o cortejavam,
Velhice vigilante o protegia.
E loucos e ladrões acalentavam
Seu sono suave, até que um deus fendia
O céu, buscando arrebatá-lo, enquanto
Durasse ainda aquele breve encanto.
[In O HOMEM E SUA HORA E OUTROS POEMAS, São Paulo: Companhia de Bolso, 2009, p. 141].
Divisamos assim o adolescente,
A rir, desnudo, em praias impolutas.
Amado por um fauno sem presente
E sem passado, eternas prostitutas
Velavam por seu sono. Assim, pendente
O rosto sobre um ombro, pelas grutas
Do tempo o contemplamos, refulgente
Segredo de uma concha sem volutas.
Infância e madureza o cortejavam,
Velhice vigilante o protegia.
E loucos e ladrões acalentavam
Seu sono suave, até que um deus fendia
O céu, buscando arrebatá-lo, enquanto
Durasse ainda aquele breve encanto.
[In O HOMEM E SUA HORA E OUTROS POEMAS, São Paulo: Companhia de Bolso, 2009, p. 141].
quinta-feira, 26 de junho de 2014
Adriana Lisboa
DENSIDADE
No meio do caminho tinha uma pedra porosa. Dava para ver seus grãos. Chegando mais perto, raios finíssimos de sol atravessavam a pedra. Mais perto ainda, um turbilhão, um pequeno redemoinho (uma galáxia minúscula) se movia lá dentro, no leve corpo da pedra.
A pedra, no meio do caminho, era permeável: se chovesse, ficava encharcada. O vento a enchia de poeira, pólen e cadáveres de insetos. O calor do meio-dia a deixava com sono e sede. A neblina que às vezes baixava no fim da tarde invadia a pedra, no seu corpo as nuvens trafegavam sem pressa. Os sons passavam por ela e iam se extinguir em algum lugar desconhecido. Na pequena galáxia dentro da pedra havia pequenos planetas orbitando em torno de sóis de diamante.
No meio do caminho tinha uma pedra porosa. Dava para ver seus grãos. Chegando mais perto, raios finíssimos de sol atravessavam a pedra. Mais perto ainda, um turbilhão, um pequeno redemoinho (uma galáxia minúscula) se movia lá dentro, no leve corpo da pedra.
A pedra, no meio do caminho, era permeável: se chovesse, ficava encharcada. O vento a enchia de poeira, pólen e cadáveres de insetos. O calor do meio-dia a deixava com sono e sede. A neblina que às vezes baixava no fim da tarde invadia a pedra, no seu corpo as nuvens trafegavam sem pressa. Os sons passavam por ela e iam se extinguir em algum lugar desconhecido. Na pequena galáxia dentro da pedra havia pequenos planetas orbitando em torno de sóis de diamante.
[Caligrafias, Rio de Janeiro: Rocco, 2004, p. 79]
quarta-feira, 25 de junho de 2014
Astrid Cabral
XXXIII
Pelas ruas de Alepo
(atrás de mesquitas
esculpidas no ouro
de régios crepúsculos)
procuro os hititas.
Se muitos debandaram
pela extensa Anatólia
ou tombaram aos entreveros
contra inimigas hordas
outros se amoitaram
— traidores ou sábios? —
em brandas trincheiras
de sexos alheios ao clã:
séculos vogando veias
de rubrescuros rios
à luz deste Ramadã
quando os transeuntes
óbvios com que cruzo
são todos: resumo vivo
de história saltando
os fundos precipícios
do tempo e da memória.
Pelas ruas de Alepo
(atrás de mesquitas
esculpidas no ouro
de régios crepúsculos)
procuro os hititas.
Se muitos debandaram
pela extensa Anatólia
ou tombaram aos entreveros
contra inimigas hordas
outros se amoitaram
— traidores ou sábios? —
em brandas trincheiras
de sexos alheios ao clã:
séculos vogando veias
de rubrescuros rios
à luz deste Ramadã
quando os transeuntes
óbvios com que cruzo
são todos: resumo vivo
de história saltando
os fundos precipícios
do tempo e da memória.
[In Torna-Viagem, In De déu em déu - poemas reunidos (1979-1994), Rio de Janeiro: Sette Letras, 1998, p. 123].
terça-feira, 24 de junho de 2014
Herberto Helder
AOS AMIGOS
Amo devagar os amigos que são tristes com cinco dedos de cada lado.
Os amigos que enlouquecem e estão sentados, fechando os olhos,
com os livros atrás a arder para toda a eternidade.
Não os chamo, e eles voltam-se profundamente
dentro do fogo.
— Temos um talento doloroso e obscuro.
Construímos um lugar de silêncio.
De paixão.
Amo devagar os amigos que são tristes com cinco dedos de cada lado.
Os amigos que enlouquecem e estão sentados, fechando os olhos,
com os livros atrás a arder para toda a eternidade.
Não os chamo, e eles voltam-se profundamente
dentro do fogo.
— Temos um talento doloroso e obscuro.
Construímos um lugar de silêncio.
De paixão.
[In Ou o Poema Contínuo, São Paulo: A Girafa Editora, 2006, p. 125]
By Daniel Tjongari - 2014
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Fernando Paixão
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