segunda-feira, 7 de julho de 2014

W. H. Auden

RIMBAUD
As noites, os arcos da ferrovia, o feio céu,
Não o sabiam sequer suas horríveis companhias;
A mentira retórica, qual chaminé, o
Queimava em criança: do frio nascera a poesia.

O álcool que o amigo fraco e lírico ofertara
Metodicamente os sentidos desregrou,
Pôs fim ao contra-senso ao qual se acostumara;
Até que de lira e fraqueza se afastou.

O verso era uma doença especial do ouvido;
A integridade não era o bastante; ali estava
O inferno da infância: devia tentar de novo.

Agora, cavalgando em África, sonhava
Com um outro eu, um filho, alguém bem-sucedido,
E sua verdade aceita pelos mentirosos.

Dezembro 1938

[In Poemas, Seleção de João Moura Jr., Tradução e Introdução: José Paulo Paes e João Moura Jr., São Paulo, Companhia das Letras, 1986, p. 73]

- Sobre este poema, leiam o interessante artigo de José Castello: Auden e o Imperfeito

By Ricardo Humberto

domingo, 6 de julho de 2014

Henrique de Lemos

PROCURA NO QUE SONHAS
Procura no que sonhas
apenas a frescura 
de um curso de água
descendo a montanha.

Não faças de barragem
o teu ser: da tua boca
jorrará sempre a mentira
de um suposto saber.

Do eterno, 
da pura visão selvagem,
do avanço intrépido para o que é,
só os bichos podem beber.


sábado, 5 de julho de 2014

Paul Celan

HAVIA TERRA neles, e
escavavam.

Escavavam, escavavam, e assim
o dia todo, a noite toda. E não louvavam a Deus
que, como ouviram, queria isso tudo,
que, como ouviram, sabia isso tudo.

Escavavam e não ouviram mais nada;
não se tornaram sábios, não inventaram uma canção,
não imaginaram linguagem alguma.
Escavavam.

Veio um silêncio, veio também uma tormenta,
vieram os mares todos.
Eu escavo, tu escavas, e o verme também escava,
e quem canta ali diz: eles escavam.

Oh alguém, oh nenhum, oh ninguém, oh tu:
Para onde foi, se não há lugar algum?
Oh, tu escavas e eu cavo, e eu me escavo rumo a ti,
e no dedo desperta-nos o anel.

[In CRISTAL, trad. Cláudia Cavalcanti, São Paulo, Iluminuras, 2011, p. 89]



sexta-feira, 4 de julho de 2014

Ingeborg Bachmann

MEIO-DIA, CEDO
Calma reverdece a tília na abertura do Verão,
muito distante das cidades cintila
o brilho baço da lua diurna. E já meio-dia,
na fonte já se agita o jacto,
sob os estilhaços já se ergue
a asa aviltada do pássaro mágico
e a mão deformada do lance da pedra
mergulha no trigo que desponta.

Onde o céu da Alemanha enegrece a terra,
o seu decapitado anjo procura um túmulo para o ódio
e oferece-te a taça do coração.

Uma mão cheia de dor perde-se para lá da colina.

Sete anos mais tarde
de novo te lembras,
junto à fonte, às portas da cidade,
não olhes muito no fundo,
que os olhos ficam toldados.

Sete anos mais tarde,
numa casa mortuária,
os carrascos de ontem bebem
a taça de ouro até ao fim.
Baixas os olhos de triste.

É já meio-dia, nas cinzas
contorce-se o ferro, no espinho
foi içada a bandeira e nos rochedos
do sonho ancestral fica a partir de agora
agrilhoada a águia.

Só a esperança se agacha cega na luz.

Solta-lhe as grilhetas, leva-a
pela encosta, põe-lhe
a mão sobre os olhos, para que
sombra nenhuma a queime!

Onde a terra da Alemanha enegrece o céu,
a nuvem procura palavras e enche a cratera de silêncio
antes que o Verão as oiça na sua chuva escassa.

O indizível passa, sussurrado, sobre esta terra:
é já meio-dia.

[In O tempo Aprazado, Seleção, tradução e introdução João Barrento e Judite Berkemeier, Lisboa, Assírio & Alvim, 1992, pp. 35-37]



quinta-feira, 3 de julho de 2014

Antonio Fernando de Franceschi

GEOGRAFIA
"...Touch me, touch the palm of your hand
to my body as I pass..."
— WALT WHITMANN
O leve arrepio de tuas mãos
me comanda suave
sigo-te pelos lugares de mim
que não conheço
amanheço-me vales
me percorro colinas
sou o campo em que te apraz
me transformares
ou senda perdida
num dorso de montanha

Me desvelo geografia
ao teu desejo
qual queiras
para colher-te em prados
ravinas
e na fina erva que me cobre o peito
te sentir os dentes
palmo a palmo cortando rente
sem pressa de me cegares
no olho da paixão

[In Caminho das Águas, São Paulo, Brasiliense, 1987, p. 29]

By Lynn Noelle Rushton 



quarta-feira, 2 de julho de 2014

Yves Bonnefoy

Ó chama
Que a consumir celebras,

Cinza
Que a dispersar recolhes.

Chama, sim, que apagas
Da mesa sacrificial do estio
A febre, os sobressaltos
Da mão crispada.
Chama, para que a pedra do céu claro
Fique lavada desta sombra, e seja
Um deus criança que brinque
Na acritude da seiva.
Sobre ti me debruço, colho, de joelhos,
Chama que vais,
A impaciência, o ardor, o luto, a solidão
Em tua fumaça
Sobre ti me debruço, aurora, e pego
Nas minhas mãos a tua face. Tempo lindo
Faz na cama deserta! Eu sacrifico
E és a ressurreição do que eu queimo.

Chama
Nosso quarto de outro ano, misterioso
Como uma proa de barca que passa.

Chama, esse vidro
Na mesa da cozinha abandonada,
Em V.
Entre os escombros.
Chama, de sala em sala,
O estuque,
Toda uma indiferença, iluminada.

Chama essa lâmpada
Onde faltava Deus
Acima do portal daquele estábulo.
Chama
A vinha do relâmpago, distante,
No pisoteamento dos bichos que sonham.
Chama essa pedra
Onde a faca do sonho lidou tanto.


[In Yves Bonnefoy, Obra Poética, Tradução e org. Mário Laranjeira, São Paulo, Iluminuras, 1998, 266-267]


terça-feira, 1 de julho de 2014

Miguel Torga

S. Martinho de Anta, 28 de setembro de 1965.

UM POEMA
Um poema, poeta!
É o que a vida te pede.
A fome diligente
Colhe
E recolhe
Os frutos e a semente
Doutros frutos.
Junta à fecundidade
Da natureza
Os frutos da beleza...
Versos grados e doces
Na festa do pomar!
Versos, como se fosses
Mais um ramo, a vergar.

Coimbra, 5 de Novembro de 1965.

CAUDAL
Ergo a voz no silêncio hostil do mundo,
Como um galo que canta a horas mortas.
Nem me posso calar,
Nem posso amortecer
A força que faz dela um desafio.
A fonte brota, e tem logo ao nascer
O ímpeto dum rio.
E o rio não tem foz dentro de mim.
Some-se às vezes, não sei como e onde,
Mas reaparece.
E retoma de novo o curso desabrido,
Mais largo, mais barrento
E violento,
E sem que eu lhe descubra o íntimo sentido.

Monforte do Alentejo, 30 de Novembro de 1965-

SERÃO
Lento, o poema
Vai ardendo e abrindo
Na fogueira.
E ponho-me a cantá-lo,
Sonolento:
Lume alentejano
De lenha de azinho;
Calor do calor...
O sol da charneca,
Depois de ser tronco,
Depois de ser rama,
Depois de cortado,
Depois de secar
À própria torreira,
Ainda a brilhar
No céu da lareira!

[In Diário X, In Poesia Completa, Vol. II, Lisboa, Dom Quixote, 2007, p. 308-309]

Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...