quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Luiza Neto Jorge

RECANTO 16
Dulcíssimo, coração do corpo, expande-se desata-se
desintegra-se pelos calcanhares de minha mãe
cansada
olha-me nos ombros
afasta-se no índico

Movimento mais que uníssono: órgão sonoro
a ressoar numa revolução
número odorífero
número de oiro negro sinal da mão que se coça
debaixo da terra
a empurrar-nos

— Vestígio nosso?
— Nossa absorção, respondo eu.

Tenta abrir o jacto para beijar em voo
um passageiro tenta ordenar o transito com um beijo
nos dedos destruídos
mas consegue pouco:

uma luminosidade quase cesariana
na barriga do melhor amigo.

[In Poesia (1960-19879), 2a. edição, Lisboa, Assírio & Alvim, 2001, p. 198]
By Júlio Pomar

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Manuel Fernando Alves

CURSOS 3
O ser humano é um erro de se romper o papel
Um palavreado poético mas sem rima
Um ideal nobre em que a nobreza é mentira
Não há incrementos históricos de melhoramento
E o passado não é escola nem livro aberto
O passado é ter havido gente de má fé
O mesmo punhal derrama e junta todo sangue

3/8/2014

CURSOS 2
São mais bulidas as folhas através da ira
Em que o vento é o eterno retorno das promessas
Em que tudo que existe permanece como possibilidade
E toda ansiedade é a justiça ofegante
Coma cão abandonado a milhas
De regresso a casa
Reparando o crime com sua baba

3/8/2014

CURSOS 1
O pensamento mais puro o curso de água sem rio
O espaço entre um verso e outro
Onde as palavras respiram
Ou existir simplesmente dentro da tarde
Onde nada tem nome nem forma
Onde a aparição das palavras é o ângulo certo da luz
O pensamento mais puro

3/8/2014

METADES 20
Escrever sempre também cansa
E a passividade da assistência requer
Dos actores mais trabalho clínico de persuação
E a leitura a forma mais barata de adormecer
E o melhor sono nessa fronteira onde do palco
Se desce pelas pálpebras toda mentira escarrada

Toda cena depende da criação do ambiente
Uma cena não pode ser a isolação da imagem
Mas mais a actividade mental dos presentes
Disfarçada pela sua inércia de tentáculos
Pois não é pelos movimentos manuais do maestro
Que se pendura a orquestra do silêncio de quem escuta
Todo maestro é sempre o bobo da festa

[Inéditos publicados com permissão do autor.
Todos os direitos reservados]. 


segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Mariana Ianelli

CARTA LACRADA
Falo desses anos que percorro sem enigma
Porque é sob os gestos simples do tempo
Que se espraia o segredo.
Anos que eu lembro
Sem nem poder reparti-los contigo
Porque estamos no intervalo arredio
E para mim já não é lúcida a tua face revisitada.
Agora envio a expressão que faltou ao poema.
Todo tempo com a sua teimosia,
Com a sua viração, ou serenidade.
Será dessa vez a bravura da luta adiada,
Será a paixão murmurando que veio
Porque também o homem tem a sua parte louca.
Eu te consulto em imaginação.
Se não descubro os teus conselhos,
Recorda que eu não entendo signos...
Ou que a tua melhor razão não cobrirá o meu grito,
Eis a minha vida resguardada dos outros
E, porque resguardada, mendiga.
Tenho sim os meus acordes impecáveis,
Mas está com Deus ou com uma igual vibração
A dimensão ao mesmo tempo justa e difusa
Do concerto da vida.
Nós falhamos na conquista da flor,
Esbanjamos o abraço querido,
Pisamos a planta orvalhada.
Somos o ínfimo ou somos tanto,
Não cabemos no projeto venturo
Ou em acontecimentos.
Esse pouco desvario nos põe a correr pelo sangue.
É a força que não declaro,
Uma segunda existência palpitante
Em toda beatitude e nos corpos enfermos,
Porque eu acredito.
Ouve, ouve o estribilho —
Um amor penitente, um amor libertado,
Quando é tão desejável morrer,
Quando morrer é um perigo devassado.
No verso fugidio eu deponho meu passado,
Ali eu o acarinho, eu o adormeço nos braços.
Lembra por quantas vezes
Fracassamos e prosseguimos o nosso pacto,
A nossa marca grave de irmãos, o sangue conjugado,
Quantas foram as noites que tombei de pecado
Por atraiçoar a alegria,
Quantas outras repetiste que a tua resignação era exausta.
Nem há mais o apelo delicado,
Direito de reiniciar lentamente a busca do teu corpo,
Do teu olho particular esverdeando uma tímida sensualidade
Que era o sentido da tua inteligência.
Dessa vez será o desespero cerrado entre os dentes,
A jugular sobressalente, o muque rijo e latente,
Meu sexo intumescido de medo.
Tua palma rente na minha,
Entrávamos com primeiros lavores
No encantamento da vida,
E levávamos nada,
Nenhum juízo, nenhuma cintilação ainda.
Agora é o meu viço preservado,
Essa estreita presença de Deus ou de uma sinfonia parecida,
Que me faz rebentar num tufão
E marcar estas linhas embriagadas e mortas para ti.
Porque eu acredito.

[In Cartas, desenhos de Alfredo Aquino, textos de  Ignácio de Loyola Brandão e Mariana Ianelli, São Paulo, Iluminuras, 2004, pp. 72-73]






domingo, 3 de agosto de 2014

Manuel António Pina

ÚLTIMO POEMA
Ó Noite que me guiaste,
ó noite amável mais do que a alvorada
S. JOÃO DA CRUZ
A dor acompanhar-me-á,
a dor de não ter escrito
o teu nome e de não ter sabido
as perguntas e as respostas; nos teus braços quem me receberá?

E fará tanto frio
que a eternidade
se consumará sem mim no quarto agora vazio
de exterioridade e de contemporaneidade.

Só terei as minhas palavras,
mas também elas são mortais
mesmo as mais banais e mais
próprias para falar de coisas acabadas.

Terei talvez morrido; nunca o saberei.
Nem não o saberei tão perto estarei,
o rosto reclinado no teu peito,
a minha vida um sonho teu, desfeito.

[In Nenhuma palavra e nenhuma lembrança,  In Todas as Palavras Poesia reunida, 3a. ed, Porto, Assírio & Alvim, 2013, p. 245]. 



sábado, 2 de agosto de 2014

Adélia Prado

RODANDO
Depois de muita e boa chuva, Célia voltava de Belo Horizonte para sua casa no interior do Estado. Era bom viajar de ônibus, vendo, parecia-lhe que pela primeira vez, o verde rebrotando com força. Ouviu um passageiro falando pra ninguém: que cheiro de mato! Sol farto e os moradores desses conjuntos habitacionais de caixa de papelão e zinco, que brotam como grama à margem das rodovias, aproveitavam pra esquentar o couro rodeados de criança e cachorro. Os deserdados desfilavam, a moça e seu namorado com bota de imitação de peão boiadeiro iam de mãos dadas, com certeza à casa de uma tia da moça, comunicar que pretendiam se casar. Uma avó gorda com seu neto também passou, ela de sombrinha, ele de calcinha comprida de tergal. Iam aonde? Célia fantasiou, ah, com certeza na casa de uma comadre da avó, uma amiga dela de juventude. O menino ia sentir demais a morte daquela avó que lhe pegava na mão de um jeito que nem sua mãe fazia. Desceram três moços de bermuda e camisa do Clube Atlético Mineiro, e um quarto com grande inscrição na camiseta: SÓ CRISTO SALVA! Camiseta e bermuda não favorecem a ninguém, ela pensou desgostosa com a feiura das roupas. Bermudas principalmente, teria que se ter menos de dez anos pra se usar aquela invenção horrorosa. Teve dó dos moços que só conheciam futebol e dupla sertaneja. Foi um pensamento soberbo, se arrependeu na hora. Tinha preconceitos, lembrou-se de que gostara muito de um jogo de futebol em Londrina, rodeada de palavrões e chup-chup com água de torneira e famílias inteiras se esturricando gozosamente entre pão com molho e adjetivos brutais, prodigiosamente colocados, lindos e surpreendentes como as melhores invenções da poesia. Concluiu sonolenta, o mundo está certo. Uma criança começou a chorar muito alto: quero ficar aqui não, quero sentar com meu pai, quero o meu pai. A mãe parecia muito agoniada e pelo tom do choro. Célia achou que ela abafava a boca da criança com uma fralda ou a apertava raivosa contra o peito, envergonhada de ter filha chorona. Suposições. Tudo estava muito bom naquele dia, não sofria com nada, nem ao menos quis ajudar a mãe, botar a menina no colo, estas coisas em que era presta e mestra. Assistia ao mundo, rodava macio tudo, o ônibus, a vida, nem protagonista nem autora, era figurante, nem ao menos fazia o ponto naquele teatro perfeito, era só platéia. Aplaudia, gostando sinceramente de tudo. Contra céu azul e cheiro de mato verde Deus regia o planeta. Estava muito surpresa com a perfeita mecânica do mundo e muitíssimo agradecida por estar vivendo. Foi quando teve o pensamento de que tudo que nasce deve mesmo nascer sem empecilho, mesmo que os nascituros formem hordas e hordas de miseráveis e os governos não saibam mais o que fazer com os sem-teto, os sem-terra, os sem-dentes e as igrejas todas reunidas em concílio esgotem suas teologias sobre caridade discernida e não tenhamos mais tempo de atender à porta a multidão de pedintes. Ainda assim, a vida é maior, o direito de nascer e morar num caixote à beira da estrada. Porque um dia, e pode ser um único dia em sua vida, um deserdado daqueles sai de seu buraco à noite e se maravilha. Chama seu compadre de infortúnio: vem cá, homem, repara se já viu o céu mais estrelado e mais bonito que este! Para isto vale nascer.

[In Filandras, São Paulo, Record, 2001, pp. 119-121]

quinta-feira, 31 de julho de 2014

Daniel Faria

Deve ser o último tempo
A chuva definitiva sobre o último animal nos pastos
O cadáver onde a aranha decide o círculo.
Deve ser o último degrau na escada de Jacob
E último sonho nele
Deve ser-lhe a última dor no quadril.
Deve ser o mendigo à minha porta
E a casa posta à venda.
Devo ser o chão que me recebe
E a árvore que me planta.
Em silêncio e devagar no escuro
Deve ser a véspera. Devo ser o sal
Voltado para trás.
Ou a pergunta na hora de partir.


[Daniel Faria, Explicação das Árvores e de Outros Animais, 1998]

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Murilo Mendes

FLORES DE OURO PRETO
A Cecília Meireles

Vi a cidade barroca
Sem enfeites se levantar.
Nem flores eu pude ver,
Flores da vida fecunda,
Nesta áspera Ouro Preto,
Nesta árida Ouro Preto:
Nem veras flores eu vi
Nascidas da natureza,

Da natureza lavada
Pelo frio e o céu azul.
Tristes flores de Ouro Preto.
Só vi cravos-de-defunto,
Apagadas escabiosas,
Murchas perpétuas sem cheiro,
Só vi flores desbotadas
Nascidas de sete meses,
Só vi cravos-de-defunto,
Que se atam ao crucifixo,
Que se levam ao Senhor Morte
Vi flores de pedra azul...
Eu vi nos muros de canga
A simples folhagem rasa,
A avença úmida e humilde,
Brancos botões pequeninos
A custo se entreabrindo,
Mas não vi flores fecundas,
Não vi as flores da vida
Nascidas à luz do sol.
Eu vi a cidade árida,
Estéril, sem ouro, esquálida;
Eu vi a cidade nobre
Na sua patina fosca,
Desfolhando lá das grimpas
No seu regaço de pedra
Buquês de flores extintas.

Eu vi a cidade sóbria
Medida na eternidade,
Severa se confrontando
À cinza das ampulhetas,
Sem outro ornato apurado
Além da pedra do chão.
Eu vi a cidade barroca
Vivendo da luz do céu.

[Contemplação de Ouro Preto, In Poesia Completa e Prosa, Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994, pp. 470-471].





Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...