sábado, 13 de setembro de 2014

Keats

VENDO OS MÁRMORES DE ELGIN
PELA PRIMEIRA VEZ
Meu espírito é frágil; ser mortal
Pesa-me como sono indesejado,
E cada abismo ou penhasco escarpado
Lá, de deus, fala que terei final
Como águia enferma a contemplar o céu.
Porém é um fausto luxo o lacrimar,
Que eu, os nevados ventos a guardar,
Nâo os tenha ao abrir do amanhecer.
Essas obscuras glórias do pensar
O coração envolvem em grande arfar;
Tal obra é bela dor estonteante
Que mescla a grandeur grega com o rude
Varrer do velhoTempo — alvor avante
Um sol — a sombra dessa magnitude.

[In Grandes Poetas da Língua Inglesa do século XIX, Organização e tradução de José Lino Grünewald, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1988, p. 57].






quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Konstantínos Kaváfis

EPITÁFIO DE ANTÍOCO, REI DE COMAGENA
Depois que voltou, tristíssima, de seu funeral,
a irmã daquele que viveu sóbria e afavelmente,
Antíoco, rei muito erudito de Comagena,
queria para ele um epitáfio.
E o sofista Calistrato de Éfeso que se instalava
frequentemente no pequeno estado de Comagena,
e que pela casa real
prazerosamente e repetidas vezes foi recebido como hóspede
redigiu-o, com a indicação dos artesãos sírios,
e enviou-o à velha senhora.

"Do benfeitor rei Antíoco
que se celebre dignamente, ó comagenenses, a glória.
Foi de nosso país um governante prudente.
Foi justo, sábio, valente.
Foi, além disso, o que há de melhor, helênico -
atributo mais honroso não possui a humanidade:
entre os deuses é que se encontram mais elevados".

[Poemas de K. Kaváfis, São Paulo, Ed. Odysseus, 2006, trad. de Ísis Borges da Fonseca, p. 279]. 

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Ronald Polito

ENCANTAMENTO
Nem teus passos.
Nem teu peso.
Ou o hálito
como novelo. Ou
a pele feito correnteza.
E um roçar de braços.
Com a prumada do peito.
E já o rosto inteiro.
Não. Nenhuma palavra.

MAS
talvez o que
pudesse acontecer ao
menos uma vez
seria o
desmonte do horizonte
como que um adiante não
mais distante
ou algum ensejo sem desejo
e
suspensa a moenda
a contração do atropelo
o rendimento do bloqueio
somente o presente se erguesse
(como se ergue uma parede)
já então com alívio
sem perspectiva alguma

NO VERDADEIRO CAMINHO
Voar sem trilhos.
Apalpar através dos véus, dos vidros.
Prender-se à superfície do mundo
desprovido de dedos, dentes, cabelos.
Andar até não conseguir chegar.
Construir um abrigo em labirinto.
Insistir no método difícil da ignorância.

UM DEUS
dê-me um minuto
um cajado
um rosto
rotinas para retinas já
então fustigadas
uma cama um dorso
dê-me uma foice
o último terremoto
um touro
o protonauta de neverland
dê-me um sopro

[In Revista Cult, n. 194, ano 17, setembro 2014, p. 13]

SOBRE RONALD POLITO

Photo by JOHN CAVACAS

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Antonio Tabucchi

EXCERTO DE TRISTANO MORRE
A propósito de elefantes, de todos os rituais fúnebres que as criaturas deste mundo excogitaram, sempre admirei o dos elefantes, que têm uma estranha forma de morrer, sabia? Quando um elefante sente que chegou a sua hora afasta-se da manada, mas não o faz sozinho, escolhe um companheiro que vá com ele, e partem. Avançam pela savana, muitas vezes trotando, depende da urgência do moribundo... e caminham, caminham, podem fazer quilômetros e quilômetros, até o moribundo decidir que é ali que ele quer morrer, então dá algumas voltas e traça um círculo, porque sabe que chegou a hora de morrer, leva a morte dentro de si, mas tem de colocá-la no espaço, como se se tratasse de um encontro, como se quisesse olhar a morte de frente, fora dele, e lhe dissesse bom-dia, senhora morte, cheguei... trata-se de um círculo imaginário,naturalmente, mas precisa dele para geografizar a morte, por assim dizer... e só ele pode entrar naquele círculo, porque a morte é um assunto privado, muito privado, e ninguém pode entrar lá senão quem está morrendo... nesse ponto pede ao companheiro que o deixe, adeus e muito obrigado, e o outro regressa à manada... Li Pascal quando era novo, e gostava, nesse tempo, especialmente pelo seu jansenismo, tudo aquilo era ou branco ou preto, tudo muito reconhecível, você há de perceber que naquele momento a vida era em preto e branco, lá na serra, escolhas precisas tinham que ser feitas, ou com uns ou com outros, ou preto ou branco, até a vida se encarregar de introduzir o claro-escuro... Seja como for, sempre gostei daquela definição de Pascal, uma esfera cujo centro está em toda parte e a circunferência em lado nenhum, lembra-me os elefantes... E de certa maneira isto tem a ver com aquilo de que o encarreguei... como lhe disse há pouco, você vai precisar de paciência, porque a minha hora ainda está para chegar, mas foi por isso que você acedeu de imediato a vir trotar comigo, para acompanhar o moribundo... Só eu conheço o meu círculo, sei quando há de chegar o momento, é certo que quem nos escolhe é a hora, mas também é certo que se tem de concordar que ela nos escolha, a decisão é dela, mas no fundo também tem de ser nossa, como se fosse nossa a escolha e nos limitássemos a capitular frente a ela... Por enquanto vamos trotando juntos, aparentemente seguimos em frente, embora na realidade estejamos recuando, porque eu sou um elefante que o chamou para recuar, mas recuo para chegar ao meu círculo, que fica à minha frente.Você entretanto ouve e escreve, quando chegar a hora da despedida eu digo.

[In Tristano morre, Rio de Janeiro: Rocco, 2007, pp. 8-9]

By SEBASTIÃO SALGADO

domingo, 7 de setembro de 2014

Mariana Ianelli

HISTÓRIA DE UM CORAÇÃO REABILITADO
Um dia a casa desaba, é a gota ácida de uma desilusão pequena a que faltava para o oco da imensa desilusão de tudo, é uma vontade de descriar o mundo, de enxotar as palavras que fazem contar histórias, é a solução final de desprezar essas histórias, de matar por esquecimento, pouco a pouco, e, pouco a pouco, as coisas vão ficando menos graves, menos sólidas, as palavras muito frágeis, apagadas, sem memória, mas, mesmo com toda a vontade, com todo aquele imenso oco, ainda assim não é tão fácil, produzir cacos e restos também requer muito trabalho, todo um esforço de força bruta aplicada, todo um labor de fogo, e quanto mais a casa desaba, quanto mais cacos e restos, mais a vontade se energiza, é como drenar o calor das coisas numa explosão magnífica, é um louco glorioso o mentor desse desperdício, criador de escombros, fautor de uma noite infinita, coração desarvorado, um coração em seu limbo, até que um dia, um dia alguém olha a roseira seca no meio de um monte de mato e resolve que ela vai rebrotar, porque, agora sim, está disposto a cuidar de um jardim, mais que disposto, tentado, desafiado a ver se quando rebrota uma rosa vem a vontade de um jasmim, e se é só rebentar o cheiro doce que elas também vêm, as abelhas, essas que andam desaparecidas, as abelhas, as libélulas e as borboletas suicidas de Vinicius, e ver se depois disso tudo a vontade rebenta também, vira corpo de afeto, prazer de cuidar, de dizer e se ouvir dizendo palavras mal despertas, de finas, finíssimas raízes, palavras que um dia se dão ao excesso de estar vivas – lágrimas da aurora, moradas, amor, primícias.

Fonte: vidabreve.com/

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Jorge de Lima

32
No profundo das coisas materiais,
há um roteiro de dança mais severo
que o bailado do vento entre enforcados,
principalmente quando as feiras findam,
e os derradeiros bêbedos proferem
palavras agoniadas, (os sapientes!)
uns cochilos de cova, uns salmos miados;
é o roteiro da cana. Ei-la que os sua
e os adormece com (entre os suores)
os suores de seiva mais vinagres;
pois a cana são gomos, mesmo bares
com ruídos de língua, tragos fundos,
e uma só folha como espada verde
cobrindo pazes, ventres e barricas
e alambiques, bochechas e garrafas.

Falo de canaviais que com seus bêbedos
são canículas sobre os poentos morros;
falo de canas, falo de seus homens,
seus dançarinos, dançam, dançam
e acometem os bois; desconjuntados
diluem-se nas águas, águas lentas,
e escondem-se nos lodos esfiapados.
Todavia, as polícias entram n’água
com punhais de caianas e golpeiam
(dançarinos!) os peitos encharcados.

E todavia acorrem escafandros
tão fofos como bolhas, câmaras lentas,
algodões de botica, bojos de óleo,
e empolam-se nas bicas de oxigênio
cobertos por placentas maternais.

Surgem as mães ciumentas, cuidadosas,
pés ante pés bailando, triplicadas,
acariciando os seus embriões borrachos.
E todavia acorrem as rameiras
que aparecem lavadas de pecados,
e soerguendo as saias encarnadas
mostram dançando peixes devassados.
E todavia acorrem guarda-chuvas
enfunando defuntos embriagados,
vêm revestidos de bagaços brancos
das canas ósseas dos canaviais.
Todavia há soluços nas moendas:
é o roteiro da cana e seu delírio,
e umas visões de bichos e demônios;
é o motivo da cana pelo mundo.
Ó demências, ó mortes, ó bailados!

33
Tu queres ilha: despe-te das coisas,
das excrescências, tira de teus olhos >
as vidraças e os véus, sapatos de
teus pés, e roupas, calos, botões e
também as faces que se colam à
tua, e os braços alheios que te abraçam
e os pés que querem ir por ti, e as moças
que querem te esposar, e os ais (não ouças!)
que querem te carpir, e os cantos que
querem te consolar, e tantos guias
que querem te perder, e as ventanias
que não dormem, que batem alta noite,
tristes, em tua porta, se ressonas
pois nem o vento, nada te abandona.

[In Invenção de Orfeu, São Paulo: Cosac Naify, 2013, pp. 77-79]

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Ana Luísa Amaral

ENCENAÇÕES E QUASE VOOS

Uma luz construída
ilumina
esses santos,
cada um sem o halo,
mas pombo circundante
na cabeça

São quatro santos no cimo
da igreja,
e cada um dos pombos escolheu
a face mais marcada,
os caracóis de pedra
que fossem mais macios

Talvez não sejam santos,
mas apóstolos, tão de barroco,
e o seu gosto a vestir:
um excesso de desvio
quase pecado

Apóstolos ou santos,
os pombos circundantes na cabeça
são halos delicados
que, julgando-se em céu,
vêem quase metade da cidade,
a meio: o rio e os telhados
de casas

Fingindo-se de mão a abençoar,
são adereço de um teatro
inteiro:
caos encenado
ou um perfil egípcio

E os caracóis solenes e sombrios
convidam ao pecado
e convocam-me aqui: noite de verão,
a liquidez do olhar:

Eu não poder,
em pedra,

abrir as asas

Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...