sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Horácio Costa

TIRE TUDO DA PAISAGEM
a Milos Sovak, in memoriam

Tire tudo da paisagem,
o serpenteante rio de águas cristalinas,
a neve ocasional, os rebanhos
de branquíssimas ovelhas
que se escondem detrás
das bétulas e das coníferas,
tire as porteiras que dividem
os campos de aveia e de centeio,
tire as velhas casas de pedra
da paisagem,
tire os bulbos de narciso,
os bulbos de lírio, de íris,
os telhados, as chaminés, os pedregulhos,
pouco a pouco tire tudo da paisagem:
a irritante torre medieval,
a capela tardo-gótica,
os retábulos de têmpera sobre madeira,
as rimas, as baladas líricas,
a cozinha típica, os sapatos:
descalce a paisagem,
veja-a sem subterfúgios,
nua, reduzida, descalça.
Ainda assim, nota bem,
algo permanece
entre aquela paisagem
e a de agora:
o pio dos corvos,
o agouro dos corvos,
aquele martelar de gritos negros,
sobrevive, voa entre
a paisagem de ontem
e a que lês, queridíssimo
leitor. Não há como
tirar os corvos
deste poema.

VINTE ANOS DEPOIS
Vinte Anos Depois é um romance de Alexandre Dumas
duas décadas não são nada
é a média de vida do homem primitivo ....do escravo romano
é a idade de um cão muito muito velho
é a média de glória de um artista maior
o tempo sem celulite de uma cortesã
o lapso de procriação depois do casamento
quatro ou cinco mandatos políticos....o auge de um Império
vinte anos levou a Constantino reformar Bizâncio
vinte anos fizeram a fortuna de Frick Morgan e Du Pont
vinte anos entre a apresentação no Templo e a crucificação
vinte anos é a matéria dos memorialistas
vinte anos e o povo se cansa da Revolução
vinte anos depois Odette está casada e Mareei morto
a roda o computador pessoal a moda das perucas brancas se
.......popularizam em não mais de vinte anos
Quéfren e Miquerinos construíram suas pirâmides em vinte
.......curtos anos
vinte anos depois o cadáver está frio olvidadíssimo
vinte anos de exercício e o êxtase desce ao asceta
nada nada são duas décadas vinte vezes nada
a ponte nova entre aqui e ali está congestionada hoje
a então chamada ponte do futuro já não serve mais
agora quando estás nela também estás aqui
tinhas o cabelo solto tinhas a rédea solta
soltas tinhas as palavras
há vinte anos
entre aqui e ali

Sobre HORÁCIO COSTA

Copiado do blog de Ricardo Domeneck 


POR CAROLINA KRIEGER

.

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Eloy Sánchez Rosillo

LOUVOR DA NOITE

A luz os separava. Não podiam
firmar os olhos na dor que a manhã
lançava ao mundo, na terna desordem das coisas.
À sonolência, o dia ensinava as normas da claridade,
os difíceis caminhos sob o sol. 

Desperdiçavam tempo em trabalhos  estranhos,
tarefas que não lhes diziam respeito,
deixadas, de chofre,  em suas mãos.

E séculos de silêncio transcorreram-se, infindáveis
épocas de sede, grandes espaços de flores mortas.
Mas a triste respiração da cidade cansada
contava-lhes sobre o recomeço do anoitecer.
Olhos pousados nas longínquas cúpulas. Pressentiam
no rumo escuro de suas árvores
as aves em busca de abrigo,
seu humilde refúgio de verdor apagado.

Esqueciam, então, a longa separação,
rompiam os grilhões da luz
e se reencontravam no exato limite da sombra.
Porque a noite os enlaçava, impelia-os suavemente
ao leito em que os corpos ritualizam  os ritos da imediatez,
ao reino da inocência e do verdadeiro.


11 de junho de 1976

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Antonio Lazzuli

DIDÁTICA PARA LIDAR COM VAZIOS
Ela foi embora e todo desafio agora é lidar com o vazio.
É preciso uma didática imediata ou eu não me responsabilizo
Pelos meus atos. Há quem o diga flexível. Então manusear
Suas linhas até chegar aos elementos de Paul Klee.
‘a margarida, ao peixe, e tudo parece estar voando e
Como não está? Mas não aqui, onde até o chantilly
Do café me provoca nostalgia. Tenho certeza que foi
premeditado aquele casaco na cama com seu cheiro.
Há quem o diga fértil, então é a ele se entregar
Até começarem as mudanças na pele. O vazio é tátil.
Ou eu não me responsabilizo pelos meus atos.
Me jogo pela janela que fica a três metros do chão.
Ou me transformo num osso e me ofereço pro cão.
E há ainda quem o diga azul. Aí é pregá-lo no teto.
Tentar acertar as águias que vão passando.
As lembranças são pedrinhas no estilingue.
E em casos de intrusas nuvens cinzas, levantar
O braço, pegar um raio com a mão
Com a certeza estomacal de que não,
Não o descerá ao já debilzinho coração.
Quem me fará ver nos chinelos rosados
Esquecidos menos que touros esperando lanças
Definitivas? Ou navios de sangue, lentos,
misturando-se ao mar: dizem do vazio também isto.

PAUL KLEE

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Silvia Eugenia Castillero

LUTO
 Rio abaixo esta escuridão
me traspassa o coração,
afunda sua garra metálica.
Afiadas suas facas
congela qualquer tentativa
de luz, qualquer anuncio
de bálsamos.Girassóis,
vitrinas rivais,
redemoinhos de água sem luz
me acossam, me escudam,
covardes os negros
minhas mãos abandonam.
Paralisados os passos, a lua
de costas balanceia algo
inalcançável. Rio abaixo me
afundo sem ver meu reflexo,
Só sinto o trafegar
da negrura
sobre meu desejo.
Um ronco tocar minhas células
– atadas, amordaçadas –
até que grito. E
com toques agudos
descomprimo meus nervos:
é quando te abandono.

RACHADURA
Rasga-se uma superfície, mas ninguém sabe,
o cume está na própria textura  e não há quem o advirta.
No sumidouro há milímetros expandindo-se
inutilmente, agitam-se as formas espaciais no
reflexo da rachadura, em sua vertedura, em seu derramar-se todo
no vazio. Aí estão as pegadas buscadas, nessa inecessária
corrente de miligramas que vão se incrustando de migalha em migalha.
Impera daí o precipício, esquece o barranco, a escarpa;
nas imundices está a catástrofe, o despenhadeiro inicia em sua desfase,
na monstruosa engrenagem da matéria. Aí está você.

[Tradução: Prof. José Pires Cardoso].

SOBRE SILVIA EUGENIA CASTILLERO

Jaya Suberg

domingo, 12 de outubro de 2014

Alejandra Pizarnik

ANÉIS DE CINZAS

A Cristina Campo

São as minhas vozes a cantar,
para que eles não cantem,
os  amordaçados na cinzenta aurora,
vestidos como pássaro desolados na chuva.

Há, na espera,
um rumor lilás a quebrar-se.
E,  quando chega o dia,
uma rebentação do sol em pequenos sóis negros.
E quando é noite, sempre,
uma tribo de palavras mutiladas
busca asilo em minha garganta,
para que eles não cantem,
os funestos, os donos do silêncio.

[Tradução do espanhol - Alejandro Carvajal]


sábado, 11 de outubro de 2014

Cláudia Roquette Pinto

O DIA INTEIRO

O dia inteiro perseguindo uma ideia:
vagalumes tontos contra a teia
das especulações, e nenhuma
floração, nem ao menos
um botão incipiente
no recorte da janela
empresta foco ao hipotético jardim.
Longe daqui, de mim
(mais para dentro)
desço no poço de silêncio
que em gerúndio vara madrugadas
ora branco (como lábios de espanto)
ora negro (como cego, como
medo atado à garganta)
segura apenas por um fio, frágil e físsil,
ínfimo ao infinito,
mínimo onde o superlativo esbarra
e é tudo de que disponho
até dispensar o sonho de um chão provável
até que meus pés se cravem
no rosto desta última flor.



DE MÃOS POSTAS

De mãos postas o louva-a-deus ora,
monge de primeira hora,
longe do coro das cigarras
enquanto a tarde esbarra
na noite e, ombro a ombro,
lutam o claro e a sombra
até que, pesada, vence
a escuridão.
O lago, mais que um vago
parêntese aberto na mata
é a nata de um pensamento
que, lento e lento, se formula
na superfície nula da mente
(inversamente ao que se deu
naquele primeiro dia
quando o rosto do homem abria
em precipício, sobre deus).



POR QUE VOCÊ ME ABANDONA

                        à poesia

Por que você me abandona
no vértice da vertigem
quando a chuva cai (um Magritte)
sobre rosas que desistiram?
Por que novamente me perco
entre hortênsias, no aclive,
mais altas que homens, mais vivas
que o Exército de Terracota?
Sem você eu caminho no plano,
tudo escorre
— há um silêncio aturdido
uma cota do que morre
por dentro daquilo que brota.
Sem a sua luz, o que me resta?
Palmilhar às cegas
um quarto de veludo
onde o espelho, mudo, assiste
à fuga do que reflete.



A SERRA

A serra elétrica das cigarras parou.
Tão de repente que o dia,
que ela partia em dois,
num estalo deitou ao chão suas metades.
Ficou só esta poça de silêncio,
indiferente,
e um tremor de alfinetes ardendo
dentro da caixa
de onde se abre o quem.

                  De Corola (2001)



SÍTIO

O morro está pegando fogo.
O ar incômodo, grosso,
faz do menor movimento um esforço,
como andar sob outra atmosfera,
entre panos úmidos, mudos,
num caldo sujo de claras em neve.
Os carros, no viaduto,
engatam sua centopéia:
olhos acesos, suor de diesel,
ruído motor, desespero surdo.
O sol devia estar se pondo, agora
― mas como confirmar sua trajetória
debaixo desta cúpula de pó,
este céu invertido?
Olhar o mar não traz nenhum consolo
(se ele é um cachorro imenso, trêmulo,
vomitando uma espuma de bile,
e vem acabar de morrer na nossa porta).
Uma penugem antagonista
deitou nas folhas dos crisântemos
e vai escurecendo, dia-a-dia,
os olhos das margaridas,
o coração das rosas.
De madrugada,
muda na caixa refrigerada,
a carga de agulhas cai queimando
tímpanos, pálpebras:
O menino brincando na varanda.
Dizem que ele não percebeu.
De outro modo poderia ainda
ter virado o rosto: "Pai!
acho que um bicho me mordeu!" assim
que a bala varou sua cabeça?



EM SARAJEVO

Na primeira foto ela ri,
selvagem,
e se mistura às amigas.
Um ano mais tarde,
posa com as mãos no colo,
coluna reta,
os pés cruzados pra trás.
Por dentro do uniforme pressente
uma mulher, a passos largos,
galgando as ruas de grandes cidades
— quem sabe no exterior.
Quando a vi, ali, distraída,
na escada do ônibus escolar,
nada me preparou para suas pernas abertas,
no meio a flor dilacerada
repetindo, entre as coxas,
o buraco da bala no peito:
um dois pontos insólito.



POEMA DE ANIVERSÁRIO

Sozinha — esplendidamente —
com a fotografia do engano
emoldurada em branco na parede
— paisagem a ser visitada todo santo dia;
com a lantejoula de prata
e a bolsa de madrepérola
pendendo, em plena tolice, do cabide
(filigranas para o adorno
dessa mulher-de-ninguém)
ela acorda entre os lençóis doloridos
por várias ausências, superpostas,
enquanto no sonho
o quase-toque das bocas
que o gongo do telefone
vem, habilmente, cortar.
Intrépida, exposta
ao vento e ao sol a pele
que, antes, o metal do penhor recobria.
Sozinha do lado de fora
(por dentro a própria mão sustenta,
ainda trêmulo,
o coração partido).

(Margem de Maobra, 2005)

Fonte: algumapoesia.com.br

SOBRE CLÁUDIA ROQUETTE PINTO

website da autora

Magritte


sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Caio Cardoso Tardelli

CAMINHAREI, UM DIA
Caminharei, um dia, entre as essências,
Tão repleto das celestes essências,
Que julgarei-me em perpétuo silêncio,
Na propagação do meu próprio silêncio.

15/04/2014

APARIÇÕES
… E foi em certa noite desolada,
Quando a paz vai ulular outra estrada,
Que mais do que o teu vulto observei...
Não era o mundo, as regiões do ouro,
Que me pulsavam em sorvedouro...
Talvez... talvez vi o que jamais saberei.

Como em uma amorosa ilusão,
Senti súcubo pegando-me pela mão...
E tudo era dor, vertiginosamente
Rodopiando em torno a mim mesmo...
A felicidade passava a esmo,
Sombra de minha sombra, cegamente.

E os livros, dispersos na estante,
Pulsavam, como lúbrica bacante,
Os seus próprios abismos no mundo...
E além, marchando atrás da janela,
A vagarosa, incessante caravela
Do meu derradeiro segundo...

A lua cantava canções funéreas
Para o seu poente... e as etéreas,
As estrelas, os portais do infinito,
Somente essas brilhavam, sonhando
Sob o longo lamento brando
Do mais remoto sonho desdito.

E o sol... o sol na claridade inferna
Queimou-me o olhar nessa noite eterna...
Desta terra o primeiro verso
Rebentou em meus perturbados ouvidos.
Aguçava-me todos os sentidos
A harmonia inicial do universo.

E tudo, como em um pesadelo,
Dormiu sob o auroral selo,
Como a mais serena noite comum...
Mas, fantasma de mim mesmo, sei, trago
Esse eterno lamentar aziago
Da universal transfiguração ao Um!

12/05/2014

SERENIDADE
Vai sereno, vai sereno, através do mundo,
Como se pouco ou nada na terra houvesse...
Se sofreres, faz dessa espiritual messe
O sublime fecundar de teu sonho fundo...

Vai sereno... sê um astro ao alto, fecundo,
Ou um abismo horrente de milenar prece...
Vai como se o universo em mãos tivesse...
Vai sereno, vai sereno, através do mundo.

Passa pelo tempo como o sol pelo céu!
Vai assim, acima do rude, vão escarcéu,
À beleza de uma ilusão em ardentia...

E, no entanto, apesar da sofrida pena,
Crê que a dor é das quimeras a mais plena,
A que dos astros guia-nos para a alegria...

16/12/2013

[Publicados com licença do autor]

SOBRE CARDOSO TARDELLI





Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...