sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Wally Salomão

SIC TRANSIT GLORIA MUNDI
para José Thomás Brum

Mundos que giram nem no sentido horário
Nem no sentido anti-horário.
Ó placas tectônicas do assoalho oceânico.

Cerca de dois mil, cento e quarenta e sete anos atrás
O capitão romano
Marcus Sestius
Pouco antes do naufrágio
Flagrou o mar em seu diário de bordo:
Liso como um espelho fenício.

Encapelado como na gravura de Hokusai.

Ó velho oceano cheio de tretas, velho oceano,
Quem com olhos de seca-pimenteira
Queimará toda tua água, a lisa e a encapelada?

O fogo, o fogo, o fogo.

“O relâmpago é o senhor dono de tudo”
(Assim Heráclito, o Obscuro, secretava e esparzia
                                                     o pó elemental das coisas.)

Quem queimará a tua água lisa e a tua água encapelada?

A chama — sereia desmiolada — de que se recordará?
Nem das cinzas, nem de si mesma, nem de nada.

Itacaré Eco Resort, janeiro 2002


[In Poesia Total, Rio de Janeiro: Companhia das Letras, 2014, p. 428]

HOSUKAI

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Affonso Romano de Sant´Anna

NA BOCA DO DESERTO
Estava indo, há muito, para o deserto
e não sabia.

Antes, ao revés, julgava caminhar
das pedras para o bosque
lugar de onde o mel e o vinho jorrariam.

Bastava fazer a travessia.

Em alguma parte passei por algum oásis
mas era para este destino de pedra
silêncio e pasmo
que me dirigia.

Os beduínos há muito compreenderam
o que eu não compreendia:
apenas nos movemos entre pedras, cabras e camelos
olhando ternamente o fim do dia.

A tenda é provisória.

Eterno
         só o áspero horizonte de pedra
e a poesia.
[In Sísifo desce a montanha, Rio de Janeiro: Rocco, 2011, p. 52]

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Luís Miguel Nava

RECÔNDITAS PALAVRAS
Inquietam-me as dedadas
de deus rente à raiz da carne, ao indeciso
equilíbrio da alma
na balança, à cicatriz
azul do céu sobre o destino.

O mar pneumático, ao sabor
do qual contra os sentidos se nos fazem
e desfazem as ávidas lembranças,
assalta-me os sentidos, tenebrosas

crateras escavadas
no espírito e através
das quais, incandescentes, as imagens
do mundo sobre ele próprio se derramam

como uma lava espessa, esses sentidos
que, como aéreos
estigmas, nos imprimem
na carne a cicatriz do céu, a indecisa
maneira de as imagens

do mundo se guindarem
mais alto do que a alma ou o alento
de quem dentro de nós
aviva a sua chama. O que nos sai
do coração vem a ferver.

A carne, ao rés
da qual o céu se encurva, báscula
que deus deixou nos arredores
dum qualquer lugarejo

a encher-se de ferrugem, cicatriz
pesada, combustível, com raiz
nas mais profundas trevas, a carne âncora
submersa no destino, ergue-se a pique

de novo onde as lembranças
se fazem e desfazem
com todo o azul do céu
lá dentro a procurar rompê-Ia.

Sentados no convés, como se fosse
já noite e nos soubesse
o pão ao ranço da memória, contemplamos
os rudes marinheiros.

Depois que pela encosta procurámos
em vão uma escada de que o último
degrau fosse já dentro da memória,
suspenso na memória,

desfaz-se-nos dos ossos
a carne, com o seu quê de lírico e festivo,
em áreas portuárias onde o mar
nos sai do coração para galgar o molhe,

e, agora que começam
os anos a pesar
mais para trás que para a frente, acodem-nos
recônditas palavras aos ouvidos:

«Fecharam-se-te os olhos e eu fiquei de fora»,

«Nas tuas mãos começa o precipício».

By David Uzochukwu

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Bella Akhmadúlina

NOITE

Agora os três lados da escuridão se adensam 
     com a chegada da aurora
e a mão ainda não tem coragem de atravessar o sólido 
     ar rumo à folha branca na mesa.

Pois a razão não consegue honestamente resistir a meu 
     senso de limites! Hoje não posso 
mais deixar que a mão escreva aquelas frases descuidadas 
     que antes me alegravam tanto.

São muitas as idéias que te assaltam no escuro.
     E fácil confundir a euforia 
da meia-noite, e a cabeça febril criada pelo excesso 
     de cansaço e café, com agudeza mental.

Mas é claro que ainda não estraguei de todo o meu 
     cérebro com essas loucas vigílias.
Sei que não há mérito na excitação, por mais intensa 
     que seja; não acho que seja talento.

Seria uma vergonha ignorar essa pobreza! No entanto, 
     é grande a tentação. Como são inocentes 
os gestos: destruir a noite anônima dando a cada coisa 
     o seu verdadeiro nome.

Tento manter imóvel a minha mão, mas cada objeto 
     me namora, mostra-me o quanto 
é belo, me convida, a cada movimento que eu faço, 
     a render homenagem a cada uma

dessas coisas que me cercam, convencidas de que as amo, 
     e suas vozinhas me imploram
que em minha canção celebre a sua alma - é para isso 
     que elas precisam de mim.

Eu gostaria de agradecer à vela e, para que todos 
     conhecessem sua luz,
à minha volta lançaria adjetivos como incontáveis 
     carícias. Mas me calo.

Na tortura do silêncio, ah!, que dor eu sinto: 
      a de não dizer, ainda que
comum só palavra, o esplendor de tudo o que meu amor olha, 
na escuridão, com olhos atentos.

De que me envergonho? Não estou livre, afinal, 
      numa casa vazia, em meio à neve,
para escrever, ainda que mal? Para dizer, pelo menos, 
      o nome da casa, da neve, da janela?

A folha de papel é indefesa: peço a Deus que me dê 
      humildade. E aqui fico,
diante da luz clara e engenhosa da vela que ilumina 
      o meu rosto já mergulhando no sono.


[In Poesia Soviética, seleção, tradução e notas de Lauro Machado Coelho, São Paulo, Algol, 2007, pp.533-534]


segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Fany Aktinol

FERTILIDADE
A mim,
A me acompanhar
Desde o céu profundo,
A poeira do sol, das estrelas e
O vento a instilar o espírito do tempo
Pela vida inteira.

A ti,
A semente
Passada de geração em geração,
O vale fértil e irrigado.

No umbral do portão da casa,
Com os pés nus,
Piso o caminho de pedra sobre a grama
Banhado em suave claridade.

Toda a escuridão desapareceu.
As plantas e as flores se multiplicaram
E há quem as guarde.

Tudo frutificou
No jardim guarnecido por pequenos seixos.

               ******

AS CHAVES DA CASA
A quem poderei entregar
As chaves de casa,
Revestidas por ternas palavras
Que inundam o coração?

Na passagem deste símbolo precioso
Os cantos serão de imenso júbilo
E algum tormento,
As récitas abarcarão a vida completa.
Quem me dará a Palavra
Antes que se apague a memória?

Meu quintal foi sempre
Frondoso em árvores frutíferas.
Nunca precisei cuidá-lo.

A quem entregarei
As chaves da casa
Tão cálida e arejada
Com pomares ao sul
E majestosas montanhas à frente?

Quem virá até mim
Receber uma chave
Respingada de lágrimas e saudades?

              ******

Tão ensolarados estavam os dias,
e o meu peito explodia em tantos espasmos
de dor e saudade,
que estava certa de haver morrido.
Mas, sabes bem
que aqui ainda estou
em estado de absoluta confusão:
estamos no inverno ou no verão?
vivemos o presente ou apenas planejamos o futuro?
Pode-se dizer que, na verdade,
nunca me ausentei nem por um instante
porque uma densa cortina de lágrimas
inunda constantemente a passagem
e eu tenho medo de me afogar na travessia.
E também,
por vocação,
a esperança foi sempre essa coisa imensa
dentro de mim.
EMIL NODE

Fany Aktinol, poeta e bibliotecária, nasceu no Rio de Janeiro. Publicou, em prosa poética, "Um atalho entre o sol e a solidão"  e os livros de poesias "O sol se põe em meu corpo", "Sob o esplendor de milhares de sóis" e "Para onde vou (vou sozinha). 

domingo, 9 de novembro de 2014

Paulo José Miranda

Ó hora de patas longas
E olhos grandes sem pálpebras onde descansar
Corpo coberto de escamas prateadas
Que fazem brilhar os mortos recentes no meio do mar
Ó hora guerreira e bárbara
Que deixas escorrer fogo pelos cantos da boca
Lembrando os corações jovens quando se encontram
Nas ruínas dos casebres mais distantes
Ó hora peçonhenta e vil e traiçoeira
Que arrastas com as vidas para o fundo
Dos rios mais rápidos e profundos
Onde a morte adormece devagar a um canto qualquer
Ó hora que levas e trazes os carros
Cheios de pessoas e mercadorias e suas expectativas
E pulsas no interior do sangue de todos nós
Como uma bomba humana
Ó hora que cais do céu sobre vida de alguém
Agarras numas pernas e vais a algum lugar
Como és parecida comigo aqui e agora
Lembrando o tudo que fui, o nada que sou, o tudo por ser
Ó hora que tudo fazes e tudo deixas por fazer
Porque aterrorizas tanto aquele que por enquanto é
Se assim como Deus tu não existes e a tudo dás existência
Porque mostras os dentes sem dizer porque és e ao que vieste
Ó hora que passas e não passas
Enquanto eu espero

(Inédito)

By  Linda Vachon




sábado, 8 de novembro de 2014

Eloy Sánchez Rosillo

PRELÚDIO

Já nem sei quando, mas uma vez disseste
algo sobre a noite, algo acerca
dos poderes da escuridão.
e tuas palavras, tão estranhas a ti,
tão diferentes de tua essencial e conhecida luz,
fizeram-me recordar os longos anos
que o presente demorou para amadurecer.

Houve um tempo anterior. Houve uma ausência
de sol acariciando os sítios
que me ofereceram depois sua verdade mais profunda.
E foi lento o acaso. E foram lentos
os toscos argumentos da dor,
os olhares oblíquos da sombra.

Agora escuto o som claro que na manhã
ergue-se sobre os corpos, as paisagens
que antes foram escuras.
Diante de meus olhos brilham
realidades distintas, que hoje compreendo.
Mas quando a tarde se aproximar das confusas
e trágicas cores de seu fim,
talvez ouça de novo a voz que havia esquecido
e tenha de encontrar outras razões
para pensar que tampouco isso é verdade.

Aos 16 de dezembro de 1976

[Tradução de Adriano Winter]


Douglas Kriezel



Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...