segunda-feira, 17 de novembro de 2014

José De Arimatéia Silva

LÁZARO RESSUSCITADO

Não é a mente o continente do mundo.
Que hora tão triste e que tarde sem aragem.
Os olhos redivivos miraram mais uma vez
A luz do mundo;
(Quatro dias como quatro estações)
Por trás do sudário que lhe cobria o rosto
Lázaro, sequer, chorou
Como quando, saído do ventre de sua mãe,
foi apartado daquela umbilical atadura.
Apartadas essas, agora, que lhe prendiam os pés
Caminhou insepulto
E, talvez, procurou pela voz que lhe ordenara
gravemente
Sair da gruta escura onde apodrecera
e desligar-se da morte.
Ou, então (nós não compreendemos o mundo)
Lázaro chorou copiosamente.
O cheiro das oliveiras e o deserto ao longe,
os gritos de suas irmãs.
Retornado do ventre da terra,
sob a luz indecifrável de um sol jamais visto,
Os olhos voltados para Jerusalém,
Lázaro chorou,
Porque a vida é um caminho sem volta.

Fonte: Blog Iluminuras

By Jose Casado del Alisal




domingo, 16 de novembro de 2014

Charles Simic

O INICIADO
São João da Cruz usava óculos escuros
quando passou por mim na rua.
Santa Teresa de Ávila, bela e circunspecta,
me apareceu abrindo as asas como uma gaivota.

“Ó alma perdida”, os dois gritaram,
“onde é teu lar?”

Eu era uma das bolas malabares da morte
e a cidade um circo místico
com todas as luzes embaçadas.
O espetáculo daquela noite já começara.

Numa avenida larga e pouco iluminada,
as vitrines esperavam por mim,
assistiam à minha passagem,
sabiam os pensamentos em minha cabeça.

Na igreja onde, segundo os jornais,
o infanticida
abrigou-se numa noite de frio,
sentei-me num banco soprando as mãos.

Como um pensamento esquecido e reevocado,
a neve recente na calçada
trazia pegadas frescas — algum mestre desconhecido
oferecendo-se para guiar meus passos.

Eu não fazia ideia do que estava acontecendo.
Quatro jovens agressivos barravam meu caminho,
três muito sérios e um
sorrindo como louco enquanto punha as mãos sobre mim.

Deixei que levassem minha capa de chuva
e saí dizendo a mim mesmo
que era importante manter a calma
e continuar a observar a si mesmo
como se fosse alguém completamente estranho.

Num endereço que me deram,
havia letras X brancas pintadas nas janelas.
Bati, mas ninguém veio abrir.
Depois, uma moça juntou-se a mim nos degraus.
Seu nome era Alma, um sinal auspicioso.

Ela conhecia uma dona de casa
que resolvia os enigmas da vida
e tinha voz de rainha suméria.
Conversamos longamente sobre isso
tremendo e batendo os pés.

No século XVI, ela me disse,
praticantes das ciências ocultas
eram queimados em gaiolas de ferro,
ou então eram vestidos de trapos
e pendurados em forcas douradas.

Uma vez, confessei, num quarto de hotel em Chicago
avistei no espelho alguém
que tinha meu rosto,
mas não lhe reconheci os olhos —
dois olhos duros e oniscientes.

A fome, o frio e a falta de sono
me trouxeram uma espécie de êxtase.
Andei pelas ruas como se perseguido por demônios,
tentando aquecer-me.

Havia o rio East,
havia o Hudson.
Suas águas brilhavam à meia-noite
como óleo nas lamparinas do santuário.

Algo estava para acontecer comigo.
Sobre isso não haveria mais nenhuma palavra depois.
Fiquei de pé, como se paralisado,
observando o céu limpo.

Estava tudo tão quieto
que se ouviria cair um alfinete.

Pensei ter escutado um alfinete caire comecei a procurá-lo
na cidade escura e deserta.

Trad. Carlos Machado


AS VIDAS DOS ALQUIMISTAS
O maior trabalho sempre foi o de apagar-se,
Ressurgir como algo inteiramente distinto;
O travesseiro de uma jovem apaixonada,
Uma bola de sujeira fingindo ser uma aranha.

Pretos tédios de noites chuvosas do campo
A folhear os escritos de adeptos ilustres
Oferecendo conselhos sobre como continuar a transmutação
De um pigmento do tempo na eternidade.
O verdadeiro mestre, um  do conselho,
Requer cem anos para aperfeiçoar sua arte.

Nesse ínterim, o segredinhos arcanos da frigideira,
O cheiro de azeite de oliva e alho soprando
De cômodo a cômodo vazio, a gata preta
Se esfregando na sua perna descoberta
Enquanto você hesita em ir até a luz distante
E o tilintar de copos na cozinha.

Trad. Adriano Scandolara

sábado, 15 de novembro de 2014

Maria João Cantinho

O cão de Dürer
     O homem caminhou firme contra a ventania e as grossas bátegas de chuva, que o atingiam em pleno no rosto. O sobretudo negro enrolava-se-lhe nas pernas, enquanto o céu escurecia cada vez mais e prenunciava a trovoada. Do outro lado da avenida, nas esplanadas, os empregados perfilavam-se à porta, olhando o vazio cinzento do céu. Nas ruas não havia transeuntes, que já tinham fugido à inesperada trovoada.
     Num violento rodopio, as folhas elevavam-se no ar. Ao longe, o casarão permanecia imutável e a sua silhueta dominava toda a cidade, bem à vista, no alto da colina. O homem do sobretudo sabia que devia se apressar, para evitar a tempestade. A nortada provocava-lhe arrepios de frio. Era um daqueles dias nada desejáveis, em que se trazem as sensações à flor da pele e a intensidade das emoções atravessa o corpo como uma corrente eléctrica.
     Quando chegou, abriu o enorme portão, que rangeu como se tivesse uma voz antiga e melancólica. Ele abria-se directamente para um jardim e o seu olhar deteve-se imediatamente nesse lugar, onde o tempo parecia ter-se suspendido. O perfume das flores chegava até ele, no incêndio da tarde. Tudo permanecia tão quieto naquele sítio que se apercebeu imediatamente da estranheza do facto.
     Uma mulher estava sentada na borda do lago. Olhou-o e essas duas safiras luminosas e tranquilas, num semblante quase infantil, perturbaram-no. Teve a intuição de que a conhecia, talvez de um quadro antigo, já tinha visto aquele rosto não sabia bem onde. Um recanto obscuro da sua memória, certamente. Ela persistiu no silêncio, demorando o olhar no seu rosto, como se tentasse perscrutar os seus pensamentos. Era, no entanto, a beleza dos seus olhos e o seu mutismo que se tornavam inquietantes. Enquanto isso, ele avançava em direcção à entrada mais próxima, a porta que havia ao fundo da galeria. Por momentos, teve a intuição de que já havia visto aquela porta algures, mas não conseguiu identificar. Parecia haver uma passagem comunicante entre as imagens que lhe chegavam agora e as memórias que se despoletavam, à medida que identificava certos sinais.
     Ela perdeu o interesse nele e mergulhou novamente no seu sonho, escrevendo traços invisíveis na água. Ele continuou o seu caminho, sem conseguir tirar os olhos da rapariga, profundamente tocado pela sua beleza delicada e etérea.

     Como tinha começado tudo? Algumas semanas antes, tinha recebido um telegrama a chamá-lo. Nada sabia dos seus habitantes, pois havia pouco tempo que se mudara para a cidade, onde fora contratado para dar aulas de música num colégio. Como o horário era completo e lhe pagavam bem, tinha resolvido aceitar e mudara-se pouco tempo depois, no princípio de Setembro.
     Embora a curiosidade fosse desperta sobre o omnipresente casarão, jamais quisera visitá-lo, pois a sua imponência desagradava-lhe. Demasiado grande, talvez, não compreendia exactamente porque o acometia aquela sensação incómoda. Sabia que era habitado por uma família antiga, mas não se mostrara nada interessado em conhecer aquelas pessoas envolvidas pelo mistério.
      - E o que fazem? - Lembra-se de ter perguntado a alguém, talvez o empregado do café, aonde costumava ir pelo final da tarde, sentando-se junto à janela.
- Nada, que eu saiba. Estão sempre enfiados no casarão como se tivessem medo de serem vistos. Parecem-se com fantasmas, sem presença física.
     - Gente velha ou nova? - Insistiu o homem, agora dominado pela curiosidade. Achava que a descrição do empregado era exagerada.
     A ser sincero, não sei, nunca os vi. Mas creio que há uma menina, havia uma menina... Mas há muito que ninguém a vê. Hoje deve ser uma mulher adulta. - Disse o empregado com um ar misterioso.

     Agora, que ele se estava ali, o mistério clarificara-se. Aquela devia ser a menina de que ele falara. Uma menina que se havia transformado em mulher, com um belo olhar safira, escrevendo na água. Todavia, o olhar dela, o modo como agia e o olhar não pareciam ser deste mundo, alheios a tudo, presos num encanto qualquer que ele não saberia identificar.
     Ao entrar, percebeu que não estava só, mas não viu nada, enquanto a porta se fechava lentamente, por trás de si. Olhou a toda a volta, para a sala com reposteiros forrados a púrpura e uma semi-obscuridade inquietante. Ao longo das paredes havia estantes repletas. Ele entrou e aproximou-se dos livros. Havia ali tudo quanto um bibliófilo apaixonado poderia encontrar. Como se a pessoa que ali vivia não precisasse de mais nada a não ser dos seus livros. Seria escritor, bibliotecário?
     Diante dele havia um piano de cauda, encostado à janela. A pergunta ocorreu-lhe, então: "Seria músico, compositor?" O silêncio da casa indicava o ambiente refinado de alguém que, além dos livros, amava a música.
     - Toque, por favor! - Disse uma voz com firmeza, sem ter sequer a delicadeza de lhe dar os bons-dias ou cumprimentá-lo. A sua voz, embora firme, não continha qualquer nota de arrogância. Era um pedido feito como se fosse uma criança.
    Foi quando viu um homem grisalho atrás de si. Tinha os traços finos e regulares, os olhos cinzentos. Uma cor semelhante à dos seus próprios olhos. Reconheceu-o como alguém muito próximo de si. Um irmão ou um primo mais velho? Não tinha conhecimento de parentes naquela zona. Estava tão espantado e aparvalhado que não lhe ocorria dizer nada. Ficou parado e hesitante até que, por fim, tartamudeou:
     - Ah, sim... o quê? Não vim preparado. Não estava à espera, não preparei nenhum tema. - não lhe apetecia tocar assim, sem mais nem menos, não se sentia à vontade, mas também não queria ser mal-educado e que aquilo parecesse uma recusa.
     - Ali à direita - apontou com a mão - há tudo o que é preciso. Pode escolher qualquer coisa. Mas, por favor, nada de alegre, não suporto a alegria, não me convém. Tenho uma saúde frágil, que não suporta qualquer espécie de euforia.
     - Bem, posso escolher? - O homem obedeceu, então. Não lhe era possível recusar o pedido.
     - O rosto permanecia na obscuridade. Fez-lhe um sinal de assentimento, reforçando o seu desejo.
      Desembaraçou-se do sobretudo e pôs-se a escolher a peça, optando por um concerto de Schummann. Sentou-se à janela, que dava para o jardim. Lá fora, o rosto da rapariga permanecia fechado no seu enigma do tempo. Ele sabia que a conhecia. Teve, de repente, a sensação de que tudo era tão artificial que lhe parecia um filme, onde ele era o protagonista. O centro de uma charada, O homem espiava-o e ele quase podia sentir-lhe o hálito por detrás. Dava tudo para observar os seus gestos, mas era-lhe impossível.
     Começou e avançou lentamente, dedilhando as teclas, concentrando-se no poder magnético do olhar de safira. Chamava-a pelo som e desse modo talvez pudesse despertá-la do encantamento da água, onde se debruçava e fechava os seus gestos. Um corpo mudo, ao qual faltava a vibração da vida. Ela levantou o rosto, onde parecia assomar uma leve aragem de lembrança, pondo a cabeça de lado como uma criança que se tivesse esquecido de crescer. Pouco a pouco, voltou à sua indiferença inicial e ele sentiu que não encontrara ainda a nota ou o tom que haveria de libertá-la.
     - Pare. Não vê a inutilidade? - Cortou rispidamente o homem, como se tivesse compreendido o seu intento.
     Ele obedeceu-lhe e poisou as mãos como panos abertos, sobre o piano. A impotência da música, pela primeira vez, tocava-o de perto. Manteve-se de costas para o homem, enquanto ele continuou, num tom de voz em que parecia pensar alto:
     - Como se pode caminhar para o rosto de alguém? Julguei que seria ainda a música, apesar de não saber tocar...
     - Se o rosto se quer manter fechado - respondeu o homem, ainda de costas, sentado ao piano - parece não haver nenhum caminho, na verdade.
     - Olhe mais uma vez... O que vê? Descreva o que vê. - pediu o homem, curioso, como se precisasse de saber em que plano de visão poderia haver des- coincidência.
     - Que pergunta tão estranha! Um jardim maravilhoso, uma bela rapariga a escrever na água, a janela a dar para o infinito, paredes cobertas de estantes cheias de livros, um cão...
     - Um cão?
     - Sim, ao centro do jardim, debaixo da fonte, há um cão, um animal negro e paciente, que parece ter o olhar perdido no infinito. Não o vê? Que passagem é esta? - perguntou, assustado pela descoberta.
     - O que significa a existência de dois planos de realidade. Na verdade, não vejo qualquer cão. E a rapariga é jovem?
     - Há entre nós um sonho, uma imagem, uma fractura no tempo. Um de nós se encontra num campo, o outro num outro campo do real. No entanto, podemos dizer que nos encontramos nessa intersecção, onde dois homens não são senão o mesmo e a mulher, ela própria, uma imagem de desejo que nos é comum. Poderíamos classificar este lugar? É uma utopia?
     O homem do sobretudo voltar-se-ia, desejava ver o outro. Simultaneamente, temia-o, da mesma forma que se teme o nosso reflexo no espelho, na escuridão densa da noite. E se os dois se olhassem como dois espelhos, repetindo-se vertiginosamente?
     - Não te voltes. Deixemo-nos estar assim, para que o tempo se ofereça diante de nós e possa haver ainda esta passagem. Se te voltares, certamente encontrarás um reflexo baço. Permanece diante de ambos a imagem de um jardim, no fim do mundo, um lugar improvável de encontro, onde a sombra nos uniu.
     - Se não somos senão o mesmo, porque não sabes tocar?
- Devo ter sabido um dia e renunciei-lhe.
- Uma suposição?
- É mais uma certeza. De tanto desejar a música, acabei por sucumbir à sua maldição, ao rosto desmedido da sua beleza. Fui vítima da medusa.
- E ela? A rapariga...
- Ela? Oh, um ideal puro, intocável. Ela manteve-se jovem, como os ideais permanecem, intocáveis, no tempo, eternos. Não a reconheces?
- Algures no tempo, sim, lembro-me dela como de uma ferida, um rasto. Persegui-a como se existisse, olhei-a, durante todo este tempo, esperando que pudesse despertá-la. Por momentos, olhou-me.
- Tál como a mim, olhou-nos. O lado infecto da beleza, o golpe fatal.
- Mas aqui tudo é silêncio e beleza, quietude.
- Todas as miragens se apresentam assim: belas, sublimes, derradeiras.
- E o que fazer delas? - Perguntou o outro.
- Depende do que elas nos fazem, em que nos transformam. Não podemos descobri-las sem cair no abismo que elas abrem, diante de nós.
- As imagens não podem nos tornar mais fortes? Como viver sem elas? Sem acreditar no que nos prometem?
- Todas as imagens nos destroem. Por isso há que destruí-las, quanto antes - dizia um de nós. - Sou demasiado velho e consigo perceber isso sem esforço.
     A rapariga continuava a sua escrita na água, imperturbável. O homem do sobretudo levantou-se e caminhou, sem que o outro fizesse qualquer movimento para o impedir, até ao lugar onde ela se encontrava. Manteve-se de pé, a observá-la. Quis compreender o que ela escrevia e debruçou-se sobre a fonte, enquanto ela ia desenhando esse destino de que era portadora. Ao tocar na água, o seu dedo longo fazia traços ininteligíveis, sulcos, arrepios que poderiam se confundir com a presença do vento.

     Na verdade, nada existia, a não ser a imagem que ele criara dentro de si, numa espécie de enamoramento que se alimentava a si próprio. Levantou os olhos e olhou à sua volta. O jardim era vasto e ele não se apercebera como o espaço à sua volta se alargara consideravelmente. Já não avistava qualquer casa, mas apenas um jardim infinito e, ao longe, uma floresta cerradíssima, para onde desejava caminhar. O cão olhava-o, mergulhado na sua placidez. O mudo cão de Dürer observava-o, como se tivesse a eternidade pela frente. Ele avançou e caminhou, sem saber o que o esperava do outro lado. Pensou que era preciso acreditar nas imagens e avançou, de olhos fechados, como se quisesse entrar na eternidade.

(In Caligrafia da Solidão, São Paulo: Escrituras, 2006, pp. 79-83)





sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Wally Salomão

SIC TRANSIT GLORIA MUNDI
para José Thomás Brum

Mundos que giram nem no sentido horário
Nem no sentido anti-horário.
Ó placas tectônicas do assoalho oceânico.

Cerca de dois mil, cento e quarenta e sete anos atrás
O capitão romano
Marcus Sestius
Pouco antes do naufrágio
Flagrou o mar em seu diário de bordo:
Liso como um espelho fenício.

Encapelado como na gravura de Hokusai.

Ó velho oceano cheio de tretas, velho oceano,
Quem com olhos de seca-pimenteira
Queimará toda tua água, a lisa e a encapelada?

O fogo, o fogo, o fogo.

“O relâmpago é o senhor dono de tudo”
(Assim Heráclito, o Obscuro, secretava e esparzia
                                                     o pó elemental das coisas.)

Quem queimará a tua água lisa e a tua água encapelada?

A chama — sereia desmiolada — de que se recordará?
Nem das cinzas, nem de si mesma, nem de nada.

Itacaré Eco Resort, janeiro 2002


[In Poesia Total, Rio de Janeiro: Companhia das Letras, 2014, p. 428]

HOSUKAI

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Affonso Romano de Sant´Anna

NA BOCA DO DESERTO
Estava indo, há muito, para o deserto
e não sabia.

Antes, ao revés, julgava caminhar
das pedras para o bosque
lugar de onde o mel e o vinho jorrariam.

Bastava fazer a travessia.

Em alguma parte passei por algum oásis
mas era para este destino de pedra
silêncio e pasmo
que me dirigia.

Os beduínos há muito compreenderam
o que eu não compreendia:
apenas nos movemos entre pedras, cabras e camelos
olhando ternamente o fim do dia.

A tenda é provisória.

Eterno
         só o áspero horizonte de pedra
e a poesia.
[In Sísifo desce a montanha, Rio de Janeiro: Rocco, 2011, p. 52]

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Luís Miguel Nava

RECÔNDITAS PALAVRAS
Inquietam-me as dedadas
de deus rente à raiz da carne, ao indeciso
equilíbrio da alma
na balança, à cicatriz
azul do céu sobre o destino.

O mar pneumático, ao sabor
do qual contra os sentidos se nos fazem
e desfazem as ávidas lembranças,
assalta-me os sentidos, tenebrosas

crateras escavadas
no espírito e através
das quais, incandescentes, as imagens
do mundo sobre ele próprio se derramam

como uma lava espessa, esses sentidos
que, como aéreos
estigmas, nos imprimem
na carne a cicatriz do céu, a indecisa
maneira de as imagens

do mundo se guindarem
mais alto do que a alma ou o alento
de quem dentro de nós
aviva a sua chama. O que nos sai
do coração vem a ferver.

A carne, ao rés
da qual o céu se encurva, báscula
que deus deixou nos arredores
dum qualquer lugarejo

a encher-se de ferrugem, cicatriz
pesada, combustível, com raiz
nas mais profundas trevas, a carne âncora
submersa no destino, ergue-se a pique

de novo onde as lembranças
se fazem e desfazem
com todo o azul do céu
lá dentro a procurar rompê-Ia.

Sentados no convés, como se fosse
já noite e nos soubesse
o pão ao ranço da memória, contemplamos
os rudes marinheiros.

Depois que pela encosta procurámos
em vão uma escada de que o último
degrau fosse já dentro da memória,
suspenso na memória,

desfaz-se-nos dos ossos
a carne, com o seu quê de lírico e festivo,
em áreas portuárias onde o mar
nos sai do coração para galgar o molhe,

e, agora que começam
os anos a pesar
mais para trás que para a frente, acodem-nos
recônditas palavras aos ouvidos:

«Fecharam-se-te os olhos e eu fiquei de fora»,

«Nas tuas mãos começa o precipício».

By David Uzochukwu

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Bella Akhmadúlina

NOITE

Agora os três lados da escuridão se adensam 
     com a chegada da aurora
e a mão ainda não tem coragem de atravessar o sólido 
     ar rumo à folha branca na mesa.

Pois a razão não consegue honestamente resistir a meu 
     senso de limites! Hoje não posso 
mais deixar que a mão escreva aquelas frases descuidadas 
     que antes me alegravam tanto.

São muitas as idéias que te assaltam no escuro.
     E fácil confundir a euforia 
da meia-noite, e a cabeça febril criada pelo excesso 
     de cansaço e café, com agudeza mental.

Mas é claro que ainda não estraguei de todo o meu 
     cérebro com essas loucas vigílias.
Sei que não há mérito na excitação, por mais intensa 
     que seja; não acho que seja talento.

Seria uma vergonha ignorar essa pobreza! No entanto, 
     é grande a tentação. Como são inocentes 
os gestos: destruir a noite anônima dando a cada coisa 
     o seu verdadeiro nome.

Tento manter imóvel a minha mão, mas cada objeto 
     me namora, mostra-me o quanto 
é belo, me convida, a cada movimento que eu faço, 
     a render homenagem a cada uma

dessas coisas que me cercam, convencidas de que as amo, 
     e suas vozinhas me imploram
que em minha canção celebre a sua alma - é para isso 
     que elas precisam de mim.

Eu gostaria de agradecer à vela e, para que todos 
     conhecessem sua luz,
à minha volta lançaria adjetivos como incontáveis 
     carícias. Mas me calo.

Na tortura do silêncio, ah!, que dor eu sinto: 
      a de não dizer, ainda que
comum só palavra, o esplendor de tudo o que meu amor olha, 
na escuridão, com olhos atentos.

De que me envergonho? Não estou livre, afinal, 
      numa casa vazia, em meio à neve,
para escrever, ainda que mal? Para dizer, pelo menos, 
      o nome da casa, da neve, da janela?

A folha de papel é indefesa: peço a Deus que me dê 
      humildade. E aqui fico,
diante da luz clara e engenhosa da vela que ilumina 
      o meu rosto já mergulhando no sono.


[In Poesia Soviética, seleção, tradução e notas de Lauro Machado Coelho, São Paulo, Algol, 2007, pp.533-534]


Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...