segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Ana Luísa Amaral

ADAMASTOR
Havia nesse tempo uma espécie de sol,
E era ao cimo da água,
e eu no fundo do mar

E eu via aquele brilho sem saber que era sol,
só uma linha difusa a clarear
lugares do nunca

Eu habitava a mais funda fundura,
nela resplandecia
a minha escuridão

Feito entre limos, pedra e pesadelo,
eu era o pesadelo,
e não sabia ainda poder ser

o sustento de versos e de sonhos,
de línguas novas
a falar abismos

Inventaram-me ali,
naquele tempo,
nessa espécie de sol

Não chega o toque para dizer corpo,
e o meu era de pedra
a transformar-se

E disseram-me carne,
e eu fiz-me carne,
e disseram-me lama,

e a pedra no meu corpo fez-se lama,
e deram-me cabelos,
boca, olhar

E eu olhei lá do fundo,
da fundura mais funda onde vivia,
e gritei, descoberto,

e nu, e forte,
e ouviu-me
o mar

Mas o que dele rebentou, profundo,
foi a parte de mim
que nada era

A outra, que eu não sei,
por não ter voz,
ficou na escuridão

por inventar —

[In ESCURO, Lisboa: Assírio & Alvim, 2014, pp. 55-56]

DESENHO DO Mestre H. Mourato

domingo, 23 de novembro de 2014

Mar Becker

O LIVRO ESCURO (I)

isadora duncan aparece em meu espelho
no lugar de mim
então me olha
e mostra
a língua. demoro a perceber que é uma língua em forma de ponteiro de relógio
(o que falta em meu próprio relógio, na parede da cama)
*
vai até a cozinha
eu sigo
o gás atravessa a mangueira discreta e pacientemente, como um segredo entre gerações. lembro que esse é o gás com que sylvia plath se suicidou
e que sylvia plath é a poeta que cita a echarpe
de isadora duncan
num poema que se chama
"40 graus de febre"
*
o silvo: a válvula-vulva da panela de pressão
girando
*
o ponteiro nenhum do relógio, girando
o corpo e o sangue
a roda do conversível

By Tayete Garcia








sábado, 22 de novembro de 2014

Heitor Ferraz

ENTRE A DELEGACIA E O CONVENTO
Entre a delegacia e o convento de freiras
a intermitência de sirenes e rostos
(o que se banha na torneira de uma casa vazia
e o que não se banha na torneira de uma casa vazia
e esfrega o nariz na manga da camisa)
Esta rua tem olhos espessos
sob o arco complexo da sobrancelha
Talvez seja melhor não persistir
A duração de cada ato
de cada movimento de rosto é curta
A respiração é curta
A distância até a morte é curta
Todas essas horas são curtas e aguardam a invariável
[sirene
que estoura vermelha e azul no muro das casas

[In Hoje como ontem ao meio dia, Rio de Janeiro, 7Letras, 2002, p. 19]



sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Andréia Carvalho

QUARENTENA PARA MURILO MENDES
minha cura é tua intoxicação
as convulsões do fogo
teu florilégio

superelâmpago âmago

artífice da bomba anticorpo
desbravador do covil
coagulado

antena entre anteras
teu verbo
transistor
instaura a
vanguarda do espírito
sobre a carne flácida
dos temporais

militante poliformo é
meu mestre na arte de
gerar
eletricidade sob
a massa atmosférica
do papel
leopardo

quarenta dias de reclusão em ti
e me renasço de cinzas
xantófilas
magnéticas

ama-de-tua-láctea
etérea
estática

AFORISMOS DE PAPÉIS PARDOS
para cruzar em um microssegundo
a idade média até a do ouro
é preciso a marcha
ondulada, o couro transparente,
os olhos de todos os bichos
no ventre felígneo

o fósforo branco dos ossos
em avalanche
somática

a ira de uma pena supersônica
no alfabeto do radar

fulgurito de boitatá
no invólucro do papel leopardo:
virá, virá

ps: decorar todas as cartografias,
antes de deitar, para se perder nos sonhos

Fonte: Revista Cult

Lesser Ury

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Silvina Ocampo

Envelhecer
Envelhecer é singrar um mar de humilhações diariamente;
É olhar para a vítima à distância, por uma perspectiva
que não diminui os detalhes,  mas os aumenta.
Envelhecer é não poder esquecer o que se esquece.
Envelhecer transforma uma vítima em culpado.

Sempre achei que todas as idades são  cruéis,
e que se compensam ou teriam que compensar-se
umas às outras. O que ganhei pensando assim?
Espero  uma revelação. Por que uma árvore
embeleza-se ao envelhecer? E um homem espera se redimir
Só com os despojos da juventude.

Nunca pensei que envelhecer fosse o mais árduo dos exercícios,
um tipo de acrobacia que é um perigo para o coração.
Todo disfarce repugna a quem o porta. A velhice
É um disfarce com anexos inúteis.
Se os velhos parecem  disfarçados, as crianças também.
Essas idades carecem de naturalidade. Ninguém aceita
ser velho, porque ninguém sabe sê-lo,
como uma árvore ou uma pedra preciosa.

Sonhei em ser velha para ter tempo para muitas coisas.
Não queria ser jovem, porque perdia tempo somente em amar.
Agora eu perco mais tempo  com o amor,
Porque tudo que  faço,  faço-o em dobro.
O tempo transcorrido nos encurva; parece-nos
que o que foi deixado para trás tem mais realidade
para reduzir o presente a um interessante precipício.


quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Wallace Stevens

TATUAGEM
A luz lembra uma aranha.
Caminha sobre a água.
Caminha pelas margens da neve.
Penetra sob as tuas pálpebras
E espalha ali suas teias –
Duas teias.

As teias de teus olhos
Estão atadas
À carne e aos ossos teus
Como a um caibro ou capim.

Há filamentos de teus olhos
Na superfície da água
E nas margens da neve.

O CÉU CONCEBIDO COMO UM TÚMULO
Que me dizeis, intérpretes, dos que
No túmulo do céu andam à noite,
Fantasmas negros da comédia finda?
Creem, talvez, que vagarão pra sempre
No frio, no escuro, com lanternas altas,
Libertos da morte, a buscar sem trégua
O que quer que busquem? Ou a lembrança
Do enterro, portão da espiritual
Chegada ao nada, é antevisão diária
Daquela noite única e abissal
Em que as hostes não mais caminharão,
Nem mais lanternas riscarão a treva?
Gritai essa pergunta aos céus, que a ouçam
Os sombrios comediantes, e a respondam
Do seu longínquo e gélido Élysée

CANÇÃO
Há coisas esplêndidas acontecendo
No mundo,
Coelhinho.
Há uma donzela,
Mais doce que o som do salgueiro,
Mais suave que água rasa
Correndo sobre seixos.
No domingo,
Ela veste um casaco longo,
Com doze botões.
Conta isso à tua mãe. 

PARVOÁLIA
Essa flor estranha, o sol,
É o que você diz que é.
Se é assim que você quer.

O mundo é feio,
E ninguém é feliz.

Esse tufo de plumas de bugre,
Esse olho animal,
É o que você diz que é.

Esse selvagem de fogo,
Essa semente,
Se é assim que você quer.

O mundo é feio,
E ninguém é feliz.

DEPRESSÃO ANTES DA PRIMAVERA
O galo canta,
Mas rainha alguma se levanta.

Minha loura tem cabelos
Deslumbrantes,
Como o cuspo das vacas
Costurando o vento.

Uô! Uô!

Mas cocoricó
Não traz curru nenhum,
Nenhum curru-curru.

Mas rainha alguma vem
Com verde chinelinha.

OS VERMES AOS PORTÕES DO PARAÍSO
Da tumba, trazemos Badrulbadur,
Em nossos ventres, sua carruagem.
Eis um olho. E eis aqui, um por um,
Os cílios desse olho e a alva pálpebra.
Eis a face em que a pálpebra descia,
E aqui, dedo após dedo, eis a mão,
O gênio dessa face. Eis os lábios,
Eis o fardo do corpo, mais os pés.
. . . . . . . . . . .
Da tumba trazemos Badrulbadur.

Tradução de  Paulo Henriques Britto

Fonte: Revista Piaui


terça-feira, 18 de novembro de 2014

Fany Aktinol

FELICIDADE
Do cume desce o poente / Púrpura
Tocado por sua própria substância diáfana
A tingi-lo de vermelho sangue.
As árvores
tornam-se levemente avermelhadas
A grama
Perfuma o ar com seu verdor úmido
Penetrante.
O lugar é familiar
Mas o crepúsculo tem a capacidade de extasiar,
Tornar um instante em algo monumental.
O dia se prolonga para além de si mesmo,
Para o mais alto e insondável -
O tempo está impregnado de eternidade.
Deixo que o crepúsculo me envolva.
Nesse instante sou feliz
Como uma criatura recriada ao acaso,
Ao largo de Deus.

******
O MOMENTO SUBLIME
Descíamos pela trilha
Após longa caminhada,
Exaustos e sedentos.
Eu trazia lírios na mão abrasada...
Descíamos como Absalão desceu a Jericó
Ao longo do vale do Jordão.
Caía a tarde de um dia de verão.
O vasto céu estava tão próximo
Que eu me entristecia
Diante do adiantado da hora.
As flores exalavam um perfume
Que embriagava.
Sentamos num banco de pedra
Para que o momento sublime
Não nos escapasse.
Ali assistimos imóveis
Ao morrer de mais um dia e
À chegada da noite prateada
Num encadeamento impreterível.
Eu me pus confiante
Depois que vi a lua
A iluminar o caminho
Que restava percorrer. 

******
DESCANSO
Nas claras tardes
De fim de outono
Em Har Haguilboa
O ar puro magnifica
Os sons transparentes
Que sobem do vale.
Os cantos dos pássaros
E o uivo do vento
Soam como a manifestação idílica
Da natureza que repousa.
Vês a relva, Ben,
Coberta de folhas secas,
E um tapete colorido
Com seu desenho único
Que terá vida curta.
Ao fim da estação que se aproxima
Não haverá mais tapete algum.
As folhas terão morrido para dentro da terra
Uma morte silenciosa e oculta
Cujo segredo jamais vivenciaremos.



Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...