NÃO SE FAZEM MAIS POETAS COMO ANTIGAMENTE
não se fazem mais poetas como antigamente
antes um poeta se alistava na guerra da Grécia,
traficava armas na Abissínia
ou era fuzilado numa vala comum em Granada
antes um poeta era sequestrado por corsários
ou tinha a mão esquerda inutilizada
numa batalha pela Itália
hoje poetas participam de mesas literárias
ou da mais nova antologia,
seus feitos heroicos são seus blogs
e os concursos de poesia
antes um poeta ficava cego
servindo ao exército em África
ou era preso por causa de uma briga
e depois exilado na Índia
antes um poeta quando finalmente
voltava para sua terra
perdia seu amor e riquezas,
tudo que ele tinha num naufrágio
hoje entre um e outro plágio
poetas levam uma vida frágil
onde dar uma palestra na universidade
ou ministrar oficinas de poesia
para a fundação cultural de sua cidade
são suas maiores ousadias
não se fazem mais poetas como antigamente
antes a poesia que vazava das veias
era a mesma que se escrevia,
o mesmo azul incendiado num só grito
antes para um poeta
a pele era o melhor papiro,
sua vida mal cabia num manuscrito
hoje um poeta é apenas isso:
uma música medíocre,
um silêncio pálido e aflito,
um ou outro ruído
e tenho dito
[In Jornal Relevo, Curitiba]
CASA, COMIDA E ROUPA ENCARDIDA
a poesia não me deu casa,
comida, nem roupa encardida
poesia, eu vesti tua camisa
arregacei as mangas dos versos
fiz coisas que de tanto duvidar
até deus acredita
escrevi com sangue, coração
e o que mais estivesse à mão
até com o que meu ódio ojeriza
poesia, eu vesti tua camisa
mas você não me deu casa,
comida, uma passagem pra Ibiza
te dei meu corpo, alma e musa
mas você ainda abusa
e pede mais do que precisa
até hoje não me deu
nem um pastel de vento
mas quer que eu viva de brisa
[In Retrato do artista quando primavera, 7letras, 2014]
By Arash Ashkar
segunda-feira, 8 de dezembro de 2014
domingo, 7 de dezembro de 2014
Leonard Cohen
SUZANNE
Suzanne te conduz
ao seu lugar perto do rio,
você pode ouvir os barcos passarem
pode passar a noite ao seu lado.
E você sabe que ela é meio louca
mas é por isso que você quer estar ali
e ela te oferece chá e laranjas
que vêm lá da China.
Bem quando você iria dizer
que não possui presentes para lhe dar,
ela te capta em seus movimentos de onda
e permite que o rio responda
que você sempre foi o seu amor.
E você deseja viajar ao seu lado,
você deseja viajar cegamente
e sabe que ela pode confiar em você
pois você tocou seu corpo perfeito
com a sua mente.
Jesus era um marinheiro
quando andou sobre as águas daquela maneira
e passou muito tempo vigiando
de uma distante torre de madeira
e quando ele teve a certeza
de que só os afogados podiam vê-lo
ele disse Que todos os homens sejam marinheiros
até que o mar os liberte,
mas ele mesmo se deixou arruinado
muito tempo antes que o céu se abrisse,
e quase humano, desconsolado,
afundou em sua sabedoria como uma rocha.
E você deseja viajar com ele,
você deseja viajar cegamente
e você pensa que talvez possa confiar nele
pois ele tocou o teu corpo perfeito
com a sua mente.
Suzanne toma a sua mão
e te conduz ao rio,
ela veste farrapos e plumas
das bancadas do Exército da Salvação.
O sol se lança como mel
em nossa senhora da enseada
enquanto ela te mostra para onde olhar
entre o lixo e as floradas,
há heróis nas algas marinhas
há crianças no amanhecer,
eles caminham para o amor
irão caminhar assim para sempre
enquanto Suzanne segura o espelho.
E você deseja viajar ao seu lado
você deseja viajar cegamente
e você está certo de que ela pode te encontrar
pois ela tocou seu corpo perfeito
com a sua mente.
[In ATRÁS DAS LINHAS INIMIGAS DE MEU AMOR, tradução de Fernando Koproski, 7Letras].
Sobre LEONARDO COHEN
Suzanne te conduz
ao seu lugar perto do rio,
você pode ouvir os barcos passarem
pode passar a noite ao seu lado.
E você sabe que ela é meio louca
mas é por isso que você quer estar ali
e ela te oferece chá e laranjas
que vêm lá da China.
Bem quando você iria dizer
que não possui presentes para lhe dar,
ela te capta em seus movimentos de onda
e permite que o rio responda
que você sempre foi o seu amor.
E você deseja viajar ao seu lado,
você deseja viajar cegamente
e sabe que ela pode confiar em você
pois você tocou seu corpo perfeito
com a sua mente.
Jesus era um marinheiro
quando andou sobre as águas daquela maneira
e passou muito tempo vigiando
de uma distante torre de madeira
e quando ele teve a certeza
de que só os afogados podiam vê-lo
ele disse Que todos os homens sejam marinheiros
até que o mar os liberte,
mas ele mesmo se deixou arruinado
muito tempo antes que o céu se abrisse,
e quase humano, desconsolado,
afundou em sua sabedoria como uma rocha.
E você deseja viajar com ele,
você deseja viajar cegamente
e você pensa que talvez possa confiar nele
pois ele tocou o teu corpo perfeito
com a sua mente.
Suzanne toma a sua mão
e te conduz ao rio,
ela veste farrapos e plumas
das bancadas do Exército da Salvação.
O sol se lança como mel
em nossa senhora da enseada
enquanto ela te mostra para onde olhar
entre o lixo e as floradas,
há heróis nas algas marinhas
há crianças no amanhecer,
eles caminham para o amor
irão caminhar assim para sempre
enquanto Suzanne segura o espelho.
E você deseja viajar ao seu lado
você deseja viajar cegamente
e você está certo de que ela pode te encontrar
pois ela tocou seu corpo perfeito
com a sua mente.
[In ATRÁS DAS LINHAS INIMIGAS DE MEU AMOR, tradução de Fernando Koproski, 7Letras].
Sobre LEONARDO COHEN
sábado, 6 de dezembro de 2014
Marianne Moore
NEM MELHOR QUE UM “NARCISO SEM VIÇO”
Ben Jonson disse que era? ‘ ‘Ah! eu cairia inda,
como neve a derreter numa alta colina,
gota a gota.”
Também eu até ver luzir verde brocado
francês, como se um lagarto no sombreado
fosse exato —
com adornos de réplicas de violeta —
feito Sidney, junto à limeira com a jaqueta
listrada — uma
obra de arte. E a impressão que eu também dava era a de
quem descansa, tranquilo, debaixo de uma árvore —
sem narciso.
[In Poemas, seleção João Moura Jr.; tradução e posfácio José Antonio Arantes. São Paulo, Companhia das Letras, 1991, p. 145].
Ben Jonson disse que era? ‘ ‘Ah! eu cairia inda,
como neve a derreter numa alta colina,
gota a gota.”
Também eu até ver luzir verde brocado
francês, como se um lagarto no sombreado
fosse exato —
com adornos de réplicas de violeta —
feito Sidney, junto à limeira com a jaqueta
listrada — uma
obra de arte. E a impressão que eu também dava era a de
quem descansa, tranquilo, debaixo de uma árvore —
sem narciso.
[In Poemas, seleção João Moura Jr.; tradução e posfácio José Antonio Arantes. São Paulo, Companhia das Letras, 1991, p. 145].
sexta-feira, 5 de dezembro de 2014
Sândrio Cândido
meu amor, tu permaneces, na memória do meu coração
feito fiapos de manga
entre os dentes cansados de mastigar
também o coração se cansa
fica balouçando entre as lembranças
o teu riso por vezes eleva os meus olhos
a um lugar inacessível
o esquecimento devorou o teu perfume
que ficou grudado em minha pele
em forma de piano
ferida partitura tem a saudade!
coloco a nossa música
pensando assim inalar a tua presença
foste tão cedo
e nada consegue responder o porque.
o teu riso por vezes me salva da noite
quebra por dentro
os vitrais embaçados pela saudade
então te ouço
distantes os teus passos
convidam os meus para a outra dança
foste tão cedo
deixaste em mim uma estrada
feita de rastros
sem nenhum viajante
estou a evocar o teu nome -
foi nos teus olhos que aprendi o meu nome.
O poeta Sândrio Cândido nasceu em Minas Gerais, em 1991, e desde 2011 reside em Curitiba, onde é seminarista do Instituto Missões Consolata e realiza os estudos de graduação em filosofia.

feito fiapos de manga
entre os dentes cansados de mastigar
também o coração se cansa
fica balouçando entre as lembranças
o teu riso por vezes eleva os meus olhos
a um lugar inacessível
o esquecimento devorou o teu perfume
que ficou grudado em minha pele
em forma de piano
ferida partitura tem a saudade!
coloco a nossa música
pensando assim inalar a tua presença
foste tão cedo
e nada consegue responder o porque.
o teu riso por vezes me salva da noite
quebra por dentro
os vitrais embaçados pela saudade
então te ouço
distantes os teus passos
convidam os meus para a outra dança
foste tão cedo
deixaste em mim uma estrada
feita de rastros
sem nenhum viajante
estou a evocar o teu nome -
foi nos teus olhos que aprendi o meu nome.
O poeta Sândrio Cândido nasceu em Minas Gerais, em 1991, e desde 2011 reside em Curitiba, onde é seminarista do Instituto Missões Consolata e realiza os estudos de graduação em filosofia.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014
Irit Amiel
NÃO CHEGUEI A TEMPO
Não cheguei a tempo em Treblinka
atrasei-me uns cinquenta anos
as árvores nuas pois era outono
e eu queria fugir de uma vez
pois lá estava, como uma réplica, o trem enferrujado
e os murmúrios quietos da floresta.
Era o vazio: belo, cinzento e plácido
só o vento tocava a terra e as árvores
as pedras e nós
apagando as velas
uma a uma.
E Dita disse – veja só, que coisa boa que você se atrasou
e agora é a minha velha mãezinha e me abraçou com força
e sorriu com tristeza.
VELHICE
Com interesse e medo
como numa mata virgem
entro na velhice.
Um caminho íngreme
que inevitavelmente leva
para baixo.
Não tem volta.
Nada pode ser corrigido.
Em cada esquina espreita uma emboscada
Na sombra de cada samambaia – um abismo.
Já é o juízo final?
Eu desapareço e tudo continua
como se nada acontecesse
sem mim
Irit Amiel, nasceu em 05 de maio de 1931 em Czestochowa, Polônia. Poeta, escritora e tradutora judia, duas vezes indicada para o Prêmio Literário Nike.
[Fonte: Blog Escamandro
tradução de Luciano R. Mendes]
Não cheguei a tempo em Treblinka
atrasei-me uns cinquenta anos
as árvores nuas pois era outono
e eu queria fugir de uma vez
pois lá estava, como uma réplica, o trem enferrujado
e os murmúrios quietos da floresta.
Era o vazio: belo, cinzento e plácido
só o vento tocava a terra e as árvores
as pedras e nós
apagando as velas
uma a uma.
E Dita disse – veja só, que coisa boa que você se atrasou
e agora é a minha velha mãezinha e me abraçou com força
e sorriu com tristeza.
VELHICE
Com interesse e medo
como numa mata virgem
entro na velhice.
Um caminho íngreme
que inevitavelmente leva
para baixo.
Não tem volta.
Nada pode ser corrigido.
Em cada esquina espreita uma emboscada
Na sombra de cada samambaia – um abismo.
Já é o juízo final?
Eu desapareço e tudo continua
como se nada acontecesse
sem mim
Irit Amiel, nasceu em 05 de maio de 1931 em Czestochowa, Polônia. Poeta, escritora e tradutora judia, duas vezes indicada para o Prêmio Literário Nike.
[Fonte: Blog Escamandro
tradução de Luciano R. Mendes]
quarta-feira, 3 de dezembro de 2014
Mariana Ianelli
NÓS, OS MELANCÓLICOS
Porque são melancólicos todos os bichos atrás das grades, melancólicos, melancólicos os macacos mendicantes da Indonésia, e ainda os que sobraram no zoológico bombardeado em Al-Bisan, como também é melancólico um poliedro de vidro sobre a asa de um Messerschmidt feito de chumbo, e melancólico o Lúcifer de Franz von Stuck, com os mesmos olhos leitosos de um androide de Blade Runner, como também melancólicas, melancólicas, as garotinhas de Lewis Carroll, as crianças armadas nos campos do norte do Iraque, a menina Rosalia nas catacumbas de Palermo, e ainda as cento e oitenta e seis velas pelo aniversário de dez anos dos cento e oitenta e seis anjos da cidade de Beslan, além do mais, ainda porque são igualmente melancólicas as santas nas caves iluminadas dos sobrados, e as cruzes de beira de estrada, e as polaroides de Tarkovski, aquela obsessão de Tarkovski pela Rússia, aquela obsessão pela névoa que uns chamam de estilo, e no fundo, no fundo, é uma bruta saudade de casa, e porque mais, porque também são melancólicas, melancólicas, as bonecas nas redomas de Farnese, e todas as mulheres do Dr. Charcot, e todas as mulheres de Hopper, e ainda porque, entre outras coisas, também é melancólico o pequeno príncipe no deserto, lá onde uma vez Santo Antão enfrentou e venceu seus demônios, como, além disso, é melancólico, entre outras coisas, o velho piano polido, com um candelabro de cada lado, na casa de campo do poeta assassinado, hoje museu em Valderrubio.
Fonte: Site Vida breve, 09/11/2014
Porque são melancólicos todos os bichos atrás das grades, melancólicos, melancólicos os macacos mendicantes da Indonésia, e ainda os que sobraram no zoológico bombardeado em Al-Bisan, como também é melancólico um poliedro de vidro sobre a asa de um Messerschmidt feito de chumbo, e melancólico o Lúcifer de Franz von Stuck, com os mesmos olhos leitosos de um androide de Blade Runner, como também melancólicas, melancólicas, as garotinhas de Lewis Carroll, as crianças armadas nos campos do norte do Iraque, a menina Rosalia nas catacumbas de Palermo, e ainda as cento e oitenta e seis velas pelo aniversário de dez anos dos cento e oitenta e seis anjos da cidade de Beslan, além do mais, ainda porque são igualmente melancólicas as santas nas caves iluminadas dos sobrados, e as cruzes de beira de estrada, e as polaroides de Tarkovski, aquela obsessão de Tarkovski pela Rússia, aquela obsessão pela névoa que uns chamam de estilo, e no fundo, no fundo, é uma bruta saudade de casa, e porque mais, porque também são melancólicas, melancólicas, as bonecas nas redomas de Farnese, e todas as mulheres do Dr. Charcot, e todas as mulheres de Hopper, e ainda porque, entre outras coisas, também é melancólico o pequeno príncipe no deserto, lá onde uma vez Santo Antão enfrentou e venceu seus demônios, como, além disso, é melancólico, entre outras coisas, o velho piano polido, com um candelabro de cada lado, na casa de campo do poeta assassinado, hoje museu em Valderrubio.
![]() |
| ALFREDO AQUINO |
segunda-feira, 1 de dezembro de 2014
Daniel Faria
Quando a embarcação lançava o seu lugar
Quando baixava a sua âncora, a raiz
Da rosa nos ventos que a desfolham - corola marítima
Pétala a pétala ela perdia o movimento
As velas
Desciam - de noite o sopro
Deve ser dado aos astros
Acendia-se a escura ondulação dos que regressam
Ao sono. Mergulhavam -
Ao tocarem a noite é que se levantam
As estrelas
[Daniel Faria, "Dos Líquidos"]
Dai-me da água ou da resina de um ramo
Ou o baloiço apenas
Da sombra, a verdura que o move
O aroma que sobe o equilíbrio das folhas
Dai-me o oxigénio para aves que passam
O chão de combustíveis adubado pelas águas
Um pássaro de líquido, de vento, de coisas viajadas
O movimento do mundo
O mundo desloca-me em segredo sem que os homem mudem
[Daniel Faria, "Dos Líquidos"]
Este é o dia novo. Sei-o pelo desejo
De o transformar. Este é o dia transformado
Pelo modo como apoio este dia no chão.
Coloco-o na posição humilde dos meus joelhos na terra
Abro-o com os olhos que retiro de todas as coisas quando os fixo
Na atenção.
E fico atento, fico deitado porque não sei crescer
Num terreno que se levante.
Cresço na clareira de um homem que é uma palavra
Na sua túnica inteira
Porque este é o sítio do dia sem horário
Sem divisões
E ponho-me de frente no seu lado,
Nos seus braços abertos para me unir
E entro pelo lado aberto e ardo - como Elias
Em chamas subindo para o céu.
[Daniel Faria, "Homens que São Como Lugares Mal Situados"].
Por Martin Stranka
Quando baixava a sua âncora, a raiz
Da rosa nos ventos que a desfolham - corola marítima
Pétala a pétala ela perdia o movimento
As velas
Desciam - de noite o sopro
Deve ser dado aos astros
Acendia-se a escura ondulação dos que regressam
Ao sono. Mergulhavam -
Ao tocarem a noite é que se levantam
As estrelas
[Daniel Faria, "Dos Líquidos"]
Dai-me da água ou da resina de um ramo
Ou o baloiço apenas
Da sombra, a verdura que o move
O aroma que sobe o equilíbrio das folhas
Dai-me o oxigénio para aves que passam
O chão de combustíveis adubado pelas águas
Um pássaro de líquido, de vento, de coisas viajadas
O movimento do mundo
O mundo desloca-me em segredo sem que os homem mudem
[Daniel Faria, "Dos Líquidos"]
Este é o dia novo. Sei-o pelo desejo
De o transformar. Este é o dia transformado
Pelo modo como apoio este dia no chão.
Coloco-o na posição humilde dos meus joelhos na terra
Abro-o com os olhos que retiro de todas as coisas quando os fixo
Na atenção.
E fico atento, fico deitado porque não sei crescer
Num terreno que se levante.
Cresço na clareira de um homem que é uma palavra
Na sua túnica inteira
Porque este é o sítio do dia sem horário
Sem divisões
E ponho-me de frente no seu lado,
Nos seus braços abertos para me unir
E entro pelo lado aberto e ardo - como Elias
Em chamas subindo para o céu.
[Daniel Faria, "Homens que São Como Lugares Mal Situados"].
Por Martin Stranka
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