Acendo o significado
E chego à escotilha nítida da treva fotográfica
Para ignorar-te como pássaro desmemoriado
Que viesse debicar nos versos a noite em elipse
E beber na varanda efervescente a moratória acrobática
Volteio na poalha inebriada do álbum insone
Do quarto inóspito
Que balança
No dorso das dedadas
De um barco matinal
Apago o sentido
E seguro o rumor dos teus ombros
Que obliquam nas vértebras do poema
Se afastam até às ossadas
De uma página ilesa.
*****
São fragílimas as aves do estio,
São puro segredo em suspensão no pericarpo do ar,
Duração de uma força tão leve
Que é fonte levitando
Nos triângulos cálidos dos telhados.
Asas dispostas sobre as asas
Quais sombras desarrumadas sob as sombras
Ou vogais que deflagram
Se visitam umas às outras
Numa imóvel profusão
De vozes polínicas
Pernoitando no silêncio fendido
Noutras bocas.
*****
Quando líamos na prosa dos nossos corpos
Volumes de melancolia do Bósforo nunca navegado
A minha atenção voltava-se,
Ígnea e azul,
Para as linhas da tua boca
Em dias de Outubro concentradas
Na ténue, fugidia,
Fosca carne do silêncio
Da tarde, dos remos da claridade,
Do amor.
Líamos como se durasse a exaltação das páginas lidas
Entre mastros e poros,
Pontes e salivas,
Como se durasse o desejo
Além do fim.
Quando líamos no presente dos corpos
O futuro incaducável
Procurávamos
A Istambul visitada
Em livros de Orhan Pamuk,
Um tempo emboscado,
Um sinal temido de viagem,
A fluvial essência do mistério
Ou uma desolação.
quinta-feira, 22 de janeiro de 2015
quarta-feira, 21 de janeiro de 2015
Nikos Kazantzákis
EXCERTO DE "RELATÓRIO AO GRECO"
No Monte Athos, um monge pegou minha mão para, disse ele, ler a minha sorte; realmente, seu rosto era de um cigano, preto, redondo, grossos lábios de bode e olhos que lançavam chamas.
— Não acredito em magia - disse-lhe rindo.
— Não faz mal, eu acredito e isso chega.
Olhou as linhas de minha mão, suas estrelas, suas cruzes, suas linhas.
— Não se meta, - disse depois de estudá-la bem - não se meta onde não é chamado; você não foi feito para a ação, fique longe; você não pode lutar com os homens; enquanto luta, vai sempre pensar que seu inimigo pode ter razão e, mesmo que não goste dele, vai sempre perdoá-lo. Entendeu?
— Continue! - disse-lhe porque estava meio perturbado, pois, vi que esse monge, que me via pela primeira vez, tinha razão.
Observou atentamente a palma da minha mão;
— Muitas preocupações o torturam, você pede muito, pergunta muito, consome o seu coração; pelo bem que te quero, não se apresse a encontrar a resposta; não é você que tem que ir buscá-la, é ela que deve vir a você; ouça o que estou dizendo, está vindo alguma coisa muito tranquila. Ouve mais uma palavra que, um dia, o abade me disse: um monge, durante toda a sua vida, ansiava por Deus e, apenas quando estava lutando com a morte, percebeu que era Deus que ansiava por ele.
Inclinou-se de novo, sobre a minha mão, arregalou os olhos e olhou para mim:
— Você - disse - vai ser monge na velhice. Não ria, você vai ser monge.
Uma profecia mentirosa pode, num momento qualquer, se tornar verdadeira,
é só você acreditar nela. Lembrei-me da profecia da parteira no meu nascimento, olhou-me na luz e disse; “Essa criança, um dia, será bispo”. Assustei-me.
— Eu não quero - gritei, e arranquei minha mão como se sentisse cheiro do perigo.
Com a passagem do tempo, esqueci-me disso, o mesmo aconteceu com as palavras do monge que, esta noite, de repente, vieram à minha mente, quis rir, mas, não consegui; ao que parece, elas trabalhavam em silêncio durante todo esse tempo e me empurravam para onde eu não queria ir; não podia mais rir.
Fechei os olhos para que o sono viesse e me salvasse.
Eu era, dizem, um rebelde, me perseguiam pelas ruas de uma grande cidade, pegaram-me, julgaram-me, condenaram-me à morte. O carcereiro me pegou, colocou-me à sua frente, ele vinha atrás com o chicote no ombro; eu corri. “Por que você está correndo?” perguntou o carcereiro, que já estava ficando ofegante. “Estou com pressa” respondi, “estou com pressa”. E, antes que eu tivesse terminado a frase, um ventinho fresco soprou e o carcereiro desapareceu. Não era um carcereiro, era uma nuvem negra que se espalhou. Eu queria prosseguir, mas não podia; uma montanha toda de pedras agudas apareceu na minha frente e fechou o meu caminho. No cimo da montanha, tinha uma bandeira vermelha. Eu disse: “Tenho que subir para poder prosseguir em nome de Deus!”. Fiz o sinal da cruz e comecei a subir; mas, os pregos dos meus coturnos batiam nas pedras e levantava faísca. Eu subia, subia, escorregava, caía, tornava a subir. E, quando cheguei perto do pico, vi, não era uma bandeira, era um chama. Subia e tinha meus olhos fixos no pico; não, não era chama, via-o claramente agora, era Deus, mas não o Pai, o outro, o terrível Jeová, que me esperava.
O sangue me gelou nas veias; por um momento, pensei em voltar; fiquei com vergonha. “Agora,” murmurei, “já era... Continue em frente!” “Você não está com medo?” ouvi uma voz feminina dentro de mim. “Sim, tenho medo!” gritei tão alto e com tanta angústia que acordei.
[In RELATÓRIO AO GRECO, tradução direta do grego por Lucilia Soares Brandão, introdução de Carolina Dônega Bernardes, Rio de Janeiro: Cassará, 2014, p. 244].
terça-feira, 20 de janeiro de 2015
Helder Magalhães
pouco sabemos
guarnecemos o poema em papel
vegetal
na esperança que
as palavras amoleçam
ou o bolor
cresça entre as fendas
se o poema estiver quente
o tempo encarregar-se-á
de guardar as lágrimas
as nuvens carregam canções
ânsia de donzelas
ao parapeito da janela
como se antecipassem a chuva
pelos mancebos
que cavam na terra o destino
dos pés a caminho da guerra
pouco sabemos
embrutecidos pela ferrugem
e osso do silêncio
que sepultámos na tracção
da saliva
garganta abaixo
*****
na certeza das manhãs, alui-se-me
o sonho. os olhos
debruçados da janela para a rua
alcançam os pingos
de chuva a sumirem nas cabeças
sem chapéu. inunda-se-me
a alma entre a espessura baça
do vidro da janela e
o caleiro.
num instante do vazio, rio,
porque isso do choro é um soro,
que anestesia candida
-mente.
cérebros há que estão enxutos e
desertos, outros pântanos
de areias movediças. eu
comovo-me.
*****
que a voz da palavra te seja mosto
a fermentar na garganta
o vinho encarregar-se-á de ser corpo à boca
não receies a espera
o tempo que demora a ser
só os elefantes sabem o percurso da morte
faz o caminho
ainda que as faces ásperas
as mãos hão-de burilar a pedra
e o rosto luz.
noticiam a probabilidade de cair
neve
espero que não seja mais uma
precipitação
o devir da respiração
no vale entre os teus seios
um rio
pele a luzir todas as estrelas
dormes
na cama a que nus nos entregámos
e te velava o sono
da aurora da noite
ao sol do amanhecer
e eu resistia a dormir
para me cobrir no lençol
que da tua boca
se tecia
dormes
sou um coração ao relento
apenas com o tecto dos teus olhos
e o choro do orvalho na madrugada.
guarnecemos o poema em papel
vegetal
na esperança que
as palavras amoleçam
ou o bolor
cresça entre as fendas
se o poema estiver quente
o tempo encarregar-se-á
de guardar as lágrimas
as nuvens carregam canções
ânsia de donzelas
ao parapeito da janela
como se antecipassem a chuva
pelos mancebos
que cavam na terra o destino
dos pés a caminho da guerra
pouco sabemos
embrutecidos pela ferrugem
e osso do silêncio
que sepultámos na tracção
da saliva
garganta abaixo
*****
na certeza das manhãs, alui-se-me
o sonho. os olhos
debruçados da janela para a rua
alcançam os pingos
de chuva a sumirem nas cabeças
sem chapéu. inunda-se-me
a alma entre a espessura baça
do vidro da janela e
o caleiro.
num instante do vazio, rio,
porque isso do choro é um soro,
que anestesia candida
-mente.
cérebros há que estão enxutos e
desertos, outros pântanos
de areias movediças. eu
comovo-me.
*****
que a voz da palavra te seja mosto
a fermentar na garganta
o vinho encarregar-se-á de ser corpo à boca
não receies a espera
o tempo que demora a ser
só os elefantes sabem o percurso da morte
faz o caminho
ainda que as faces ásperas
as mãos hão-de burilar a pedra
e o rosto luz.
noticiam a probabilidade de cair
neve
espero que não seja mais uma
precipitação
que ainda não me recompus
da última queda
e à poesia supus todos
os precipícios.
*****
dormesda última queda
e à poesia supus todos
os precipícios.
*****
o devir da respiração
no vale entre os teus seios
um rio
pele a luzir todas as estrelas
dormes
na cama a que nus nos entregámos
e te velava o sono
da aurora da noite
ao sol do amanhecer
e eu resistia a dormir
para me cobrir no lençol
que da tua boca
se tecia
dormes
sou um coração ao relento
apenas com o tecto dos teus olhos
e o choro do orvalho na madrugada.
![]() |
Lilian Westcott Hale. Pinterest |
segunda-feira, 19 de janeiro de 2015
Marize Castro
AO CAIR DA NOITE
INTEIRA
Iluminada por oráculos
alimento anjos com asas quebradas.
Não é de vendaval que eu preciso
mas da língua do amor guardada à beira-mar.
Não entendo de círios
mas de verões e sargaços bailarinos.
Acolhida pela província,
arrisco-me a enlaçar orquídeas em árvores.
Sempre sofri.
Sempre tive febre.
Sempre estive inteira em todos os infernos
Nunca quis ser abandonada.
Mas aprendi a perder.
O naufrágio me ensinou a ternura dos afogados.
[In Esperado Ouro, Natal, RN: UNA, 2005, p. 99]
Hiram Pascal - Pinterest
Se amo muito é porque tudo me falta. Transporto ouro, ostras, seixos, salivas, ânforas. O gozo dos leopardos leva-me para arriscados córregos. Lá, moças uivam, rapazes flamejam; cavalos voam; hóstias e granizos soltam-se de rochas perdidas. Ouço uma canção de ninar; sou eu quando criança, brincando com a grande baleia que me visitava quando o oceano enfurecia-se e os homens extraviam-se. Minhas guelras, ainda secretas, foram retiradas ao cair da noite. Tornei-me senhora de penhascos. De onde estou, ouço o choro do sol: neblinas exultam; amantes despedem se; crisálidas desnudam-se; pétalas caem — lentamente — sobre frágil mármore.
[In Esperado Ouro, Natal, RN: UNA, 2005, p. 111]INTEIRA
Iluminada por oráculos
alimento anjos com asas quebradas.
Não é de vendaval que eu preciso
mas da língua do amor guardada à beira-mar.
Não entendo de círios
mas de verões e sargaços bailarinos.
Acolhida pela província,
arrisco-me a enlaçar orquídeas em árvores.
Sempre sofri.
Sempre tive febre.
Sempre estive inteira em todos os infernos
Nunca quis ser abandonada.
Mas aprendi a perder.
O naufrágio me ensinou a ternura dos afogados.
[In Esperado Ouro, Natal, RN: UNA, 2005, p. 99]
Hiram Pascal - Pinterest
domingo, 18 de janeiro de 2015
Leandro Rodrigues
POEMAS DE LEANDRO RODRIGUES
A LENDA DA VITÓRIA-RÉGIA
A lua refletida no lago
Uma índia vem e com um dedo
[a conquista
Muito antes dos americanos.
HAICAI A VIOLETA PARRA
Estranho o teu canto
Tua voz dissonante
Teu falsete em pranto
ORBITAL
O menino abriu
o livro
Lá estavam as palavras
Os olhos do menino
se abriram
incandescentes - Sol
E tantos outros planetas
já gravitavam
em torno dele.
POEMA PARA A MINHA MORTE
Senhora, abreviarás a madrugada
e em meu corpo o nada:
Uma tristeza que se esqueceu
Virás assim, nua, numa nudez pálida
Nenhuma carta, nenhuma explicação
Apenas o nada.
Senhora, me procurarás, sei
Quando eu menos esperar, estarás
Em frente ao espelho, sem retoques, nem maquiagem
Nenhum não, nenhuma rusga, nenhuma elegia
Apenas tu, Senhora, sem aparência,
nem nostalgia.
A VALSA DOS MORTOS
As nuvens cinzas passam
a tarde é comovida
- consumida.
São Paulo - Mário de Andrade
e suas avenidas.
a morte é um anúncio na tv
dois homens de bigode e paletós
conversam na tarde
Chove!
São Paulo: comoções, aparentes.
O Vazio. Do Trianon à Praça Clóvis
Vazio absoluto.
Nem todos os subúrbios,
todas as misérias pedintes
preencherão tal vazio.
(absoluto!)
Do projeto interminável,
os escombros de uma noite,
de um dia que não se fez
(esquecido na memória
ou na ladeira da saudade)
PSICOGRAMA
O poeta finge.
A mulher finge.
Fingem as palavras.
Fingimos-nos todos.
Todos fingidos anônimos marchamos:
para o cadafalso do fingimento
onde a corda balança
ao gosto do vento
- fingido.
RELÓGIOS ANTIGOS
Dizem que antigamente
quando morria alguém na casa,
paravam os ponteiros do relógio
naquela hora,
Naquele minuto-instante.
E assim permaneciam
dias, semanas...
Como guardando intactos
o momento crucial.
Então, uma boa mão mais velha
acertava os ponteiros.
E o tempo voltava a correr
irrestrito-incondicional.
Belos relógios antigos,
não apenas contavam as horas, mas
demarcavam o tempo e as existências.
SOBRE O AUTOR:
Leandro Rodrigues, nasceu em 06/01/1976 em Osasco-SP, onde ainda hoje reside. Formado em Letras - Pós-Graduado em Literatura Contemporânea. Professor de Literatura Brasileira. Leciona Língua Portuguesa e Literatura em Osasco – SP.
Poemas publicados em sites e Revistas:
http://revistacult.uol.com.br/home/2013/09/a-golpes-de-martelo/
http://www.vidraguas.com.br/leandro-rodrigues-soneto-ao-cavaleiro-da-triste-figura/
entre outros;
É colaborador do site Zona Da Palavra:
http://zonadapalavra.wordpress.com/2014/02/09/poemas-de-leandro-rodrigues/
Páginas do autor:
http://www.recantodasletras.com.br/autores/leandrorodrigues
http://www.nauseaconcreta.blogspot.com.br/
Autor do livro Digital: A T O N A L OU DAS DISTÂNCIAS DA APRENDIZAGEM CINZA, em:
http://www.nauseaconcreta.blogspot.com.br
A LENDA DA VITÓRIA-RÉGIA
A lua refletida no lago
Uma índia vem e com um dedo
[a conquista
Muito antes dos americanos.
HAICAI A VIOLETA PARRA
Estranho o teu canto
Tua voz dissonante
Teu falsete em pranto
ORBITAL
O menino abriu
o livro
Lá estavam as palavras
Os olhos do menino
se abriram
incandescentes - Sol
E tantos outros planetas
já gravitavam
em torno dele.
POEMA PARA A MINHA MORTE
Senhora, abreviarás a madrugada
e em meu corpo o nada:
Uma tristeza que se esqueceu
Virás assim, nua, numa nudez pálida
Nenhuma carta, nenhuma explicação
Apenas o nada.
Senhora, me procurarás, sei
Quando eu menos esperar, estarás
Em frente ao espelho, sem retoques, nem maquiagem
Nenhum não, nenhuma rusga, nenhuma elegia
Apenas tu, Senhora, sem aparência,
nem nostalgia.
A VALSA DOS MORTOS
As nuvens cinzas passam
a tarde é comovida
- consumida.
São Paulo - Mário de Andrade
e suas avenidas.
a morte é um anúncio na tv
dois homens de bigode e paletós
conversam na tarde
Chove!
São Paulo: comoções, aparentes.
O Vazio. Do Trianon à Praça Clóvis
Vazio absoluto.
Nem todos os subúrbios,
todas as misérias pedintes
preencherão tal vazio.
(absoluto!)
Do projeto interminável,
os escombros de uma noite,
de um dia que não se fez
(esquecido na memória
ou na ladeira da saudade)
PSICOGRAMA
O poeta finge.
A mulher finge.
Fingem as palavras.
Fingimos-nos todos.
Todos fingidos anônimos marchamos:
para o cadafalso do fingimento
onde a corda balança
ao gosto do vento
- fingido.
RELÓGIOS ANTIGOS
Dizem que antigamente
quando morria alguém na casa,
paravam os ponteiros do relógio
naquela hora,
Naquele minuto-instante.
E assim permaneciam
dias, semanas...
Como guardando intactos
o momento crucial.
Então, uma boa mão mais velha
acertava os ponteiros.
E o tempo voltava a correr
irrestrito-incondicional.
Belos relógios antigos,
não apenas contavam as horas, mas
demarcavam o tempo e as existências.
SOBRE O AUTOR:
Leandro Rodrigues, nasceu em 06/01/1976 em Osasco-SP, onde ainda hoje reside. Formado em Letras - Pós-Graduado em Literatura Contemporânea. Professor de Literatura Brasileira. Leciona Língua Portuguesa e Literatura em Osasco – SP.
Poemas publicados em sites e Revistas:
http://revistacult.uol.com.br/home/2013/09/a-golpes-de-martelo/
http://www.vidraguas.com.br/leandro-rodrigues-soneto-ao-cavaleiro-da-triste-figura/
entre outros;
É colaborador do site Zona Da Palavra:
http://zonadapalavra.wordpress.com/2014/02/09/poemas-de-leandro-rodrigues/
Páginas do autor:
http://www.recantodasletras.com.br/autores/leandrorodrigues
http://www.nauseaconcreta.blogspot.com.br/
Autor do livro Digital: A T O N A L OU DAS DISTÂNCIAS DA APRENDIZAGEM CINZA, em:
http://www.nauseaconcreta.blogspot.com.br
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sábado, 17 de janeiro de 2015
Fernando Sernadas
POEMA EM VÃO
Foi tudo em vão incluído o sono
Todas as guerras todas as mortes
Homens sorridentes jogam a bola
Com a cabeça irreconhecível do inimigo
E o inimigo não existe
Nunca é nada exterior que nos invade a vida
O inimigo somos nós do lado da paz
Da paz que nos ilude
Da metafísica estúpida que nos ilusiona
Tudo em vão tudo tudo
Os tratados, os raciocínios de dor de cabeça
As noites intermináveis no café da esquina
O chão sujo de papéis e lama hoje mais ainda de sangue e vísceras
Precisamos de mais estórias para andarmos bem informados
Da insignificância de nossas vidas modernas e cosmopolitas
Que assim seja o excesso de papel escrito e desenhado
Sempre dá para limpar o cu numa hora de aperto
Tudo em vão tudo tudo tudo
A começar por este poema
E não há como recomeçar
Fernando Sernadas, 16/1/2015
Foi tudo em vão incluído o sono
Todas as guerras todas as mortes
Homens sorridentes jogam a bola
Com a cabeça irreconhecível do inimigo
E o inimigo não existe
Nunca é nada exterior que nos invade a vida
O inimigo somos nós do lado da paz
Da paz que nos ilude
Da metafísica estúpida que nos ilusiona
Tudo em vão tudo tudo
Os tratados, os raciocínios de dor de cabeça
As noites intermináveis no café da esquina
O chão sujo de papéis e lama hoje mais ainda de sangue e vísceras
Precisamos de mais estórias para andarmos bem informados
Da insignificância de nossas vidas modernas e cosmopolitas
Que assim seja o excesso de papel escrito e desenhado
Sempre dá para limpar o cu numa hora de aperto
Tudo em vão tudo tudo tudo
A começar por este poema
E não há como recomeçar
Fernando Sernadas, 16/1/2015
terça-feira, 13 de janeiro de 2015
Karl Ove Knausgård
Quando escrevo isso, já se passaram mais de trinta anos. Na janela diante de mim, mal posso divisar o reflexo do meu rosto. Exceto por um dos olhos, que brilha, e pela região imediatamente abaixo dele, que reflete um pouco da luz, toda a minha face esquerda está na penumbra. Dois vincos profundos dividem minha testa, há um vinco profundo em cada bochecha, todos preenchidos de escuridão, e com o olhar sério e perdido, e os cantos da boca pendendo para baixo, é impossível não considerar triste esse rosto.
O que ficou gravado nele?
***
A única coisa que não envelhece no rosto são os olhos. Têm o mesmo brilho no dia em que nascemos e no dia em que morremos. Seus vasos sanguíneos podem se romper, é verdade, e as córneas podem se tornar baças, mas sua luz jamais se modifica, Há um pintura em Londres que, toda vez que vejo, mexe comigo. É um autorretrato de Rembrandt velho. As pinturas tardias de Rembrandt em geral se caracterizam por uma crueza sem precedentes, e nelas tudo se subordina à expressão do momento, a um só tempo reluzente e sagrado, e continuam sem paralelo nas artes, com a possível exceção do patamar que Hölderlin atingiu nos seus poemas tardios, não importa quão diferentes e incomparáveis sejam, pois naquilo que a luz de Hölderlin, expressa através da linguagem, é etérea e celestial, a luz de Rembrandt, expressa através da cor, é terrena, metálica e material, mas precisamente esse quadro, exposto na National Gallery, foi pintado com um certo realismo clássico, mais próximo da realidade, semelhante ao estilo do jovem Rembrandt. Porém, o que o quadro retrata é o Rembrandt velho. É a senectude. Todos os detalhes da face, todos os traços nela impressos pela vida, são mostrados. O rosto é enrugado, cheio de vincos, sem viço, maltratado pelo tempo. Mas os olhos brilham e, embora não sejam jovens, parecem imunes ao tempo que imprimiu sua marca no rosto. É como se outra pessoa olhasse para nós de algum lugar dentro do rosto, onde tudo é diferente. Aproximar-se mais que isso de outra alma humana é difícil. Pois tudo que concerne à pessoa de Rembrandt, seus bons hábitos e vícios, os odores e sons de seu corpo, sua voz e expressão, seus pensamentos e opiniões, sua conduta, suas características físicas e defeitos, tudo que distingue um ser humano de outros, já não está ali, o quadro tem mais de quatrocentos anos, e Rembrandt morreu no mesmo ano em que ele foi pintado, então o que o quadro retrata, o que Rembrandt pintou, é a essência desse ser, aquilo para o qual ele despertava a cada manhã, que logo ocupava seus pensamentos mas não era propriamente um pensamento, que ele sentia primeiro mas que não era exatamente um sentimento, e aquilo que a cada noite o fazia adormecer, até que certo dia para sempre. Aquilo que num ser humano o tempo não atinge e de onde provém o brilho dos olhos. A diferença entre esse quadro e os outros que o Rembrandt velho pintou é a diferença entre ver e ser visto. Isto é, nessa pintura ele se vê ao mesmo tempo que é visto, e sem dúvida só no Barroco, com seu jogo de espelhos, play within the play, a vida no palco e a crença na inter-relação de todas as coisas, quando o engenho humano atingiu um nível jamais visto, nem antes nem depois, é que tal pintura foi possível. No entanto, ela existe na nossa época, e é através de nós que ela vê.
(Excertos de A morte do pai: minha luta 1, tradução do norueguês de Leonardo Pinto Silva, 1a. ed. - São Paulo: Companhia das Letras, 2013)
SOBRE Karl Ove Knausgård
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Fernando Paixão
Os berros das ovelhas de tão articulados quebram os motivos. Um lençol de silêncio cobre a tudo e todos. Passam os homens velho...
-
Os berros das ovelhas de tão articulados quebram os motivos. Um lençol de silêncio cobre a tudo e todos. Passam os homens velho...
-
Callas na escala ascendente A Ziriguimel Inteira, tua voz é um cone, torre de catedral, coisa tátil, que se avista, mutáv...
-
Não conheço nenhum romancista que não tenha o vício desaforado da leitura. Somos, por definição, bichos leitores. Roemos as palavras dos l...






